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3.1 Geografia Econômica Evolutiva

3.1.1 Path Dependence – Dependência da Trajetória

Nas pesquisas de ciências sociais, está havendo um interesse crescente na

análise de processos históricos e temporais (AMOORE et al., 2000). Há uma

tendência de empregar conceitos e terminologias que se concentram no desenvolvimento evolutivo ao longo do tempo, como nos conceitos de "gestão

adaptativa" e "organizações de aprendizagem” (BRAMWELL; COX, 2009).

O conceito de path dependence tem origem na economia da tecnologia e

desenvolve-se no campo da ciência política, dentro da corrente institucionalista histórica. Entretanto, sua base teórico-metodológica vincula-se aos estudos históricos de sociologia comparada (FERNANDES, 2007) e também está sendo utilizado na Geografia Econômica (SANZ-IBÁÑEZ; ANTON CLAVÉ, 2014;

BROUDER;ERIKSSON,2013).

A path dependence, se refere a “processos dinâmicos envolvendo feedback

positivo natural15, que geram múltiplos resultados possíveis dependendo da

sequência particular em que os eventos se desenrolam”, ou seja, é marcada pela

interferência do passado nas escolhas futuras, onde o conhecimento se acumula durante a trajetória da organização, de maneira que as atividades acabam sendo influenciadas lenta e rotineiramente. Nesse olhar sobre a história, são destacados os eventos críticos, que configuram os momentos significativos para a organização na consolidação de suas escolhas estratégicas (passadas) e que influenciam o

presente e as escolhas futuras (ARTHUR, 1994; PIERSON, 2000; HODGSON,

1996). É definida como fatores em questão, em um momento histórico particular, que determinam variações nas sequências sócio-políticas, ou nos resultados dos países, sociedades e sistemas (KATO, 1996).

Pode-se afirmar que o conceito de path dependence fornece e amplia a

perspectiva que destaca a importância do contexto, da contingência e da história no decorrer do processo econômico, considerando-a como um processo onde o sistema de instituições, empresas e atores mantêm a direção em relação ao contexto e a história (MARTIN; SUNLEY, 2006; MARTIN, 2010). Assim sendo, o

15 Consequência ou impacto positivo, de uma ação anterior, sem interferências externas, apenas

conceito ou sistema de path dependence é aquele onde o resultado evolui como uma consequência do processo histórico como um todo (MARTIN; SUNLEY, 2006),

onde conceituar a natureza e o papel da path dependence no cenário econômico é o

componente central da agenda de pesquisa em Geografia Econômica Evolutiva (MARTIN; SUNLEY, 2006; BOSCHMA; MARTIN, 2007).

A path dependence em estudos históricos comparados é um referencial teórico metodológico bastante útil para se compreender a institucionalização de processos decisórios de governo ou o estabelecimento de trajetórias de política econômica em países, regiões ou outras unidades de análise (FERNANDES, 2007). O crescimento do interesse em continuidades e mudanças ao longo do tempo também se reflete em estudos recentes sobre o desenvolvimento e atividades de

organizações de turismo (SCHIANETZ; KAVANAGH; LOCKINGTON, 2007),

(BRAMWELL; COX, 2009). A path dependence desafia a noção de otimização em

relação às sociedades, enfatizando que os eventos ou investimentos anteriores podem levar a uma disposição para seguir uma trajetória ideal (HOGSON, 1996; WILLIAMS, 2013).

É um conceito central em muitas abordagens evolutivas que ajuda a explicar como o conjunto de tomada de decisões, em qualquer circunstância, é limitado por decisões tomadas no passado, embora as circunstâncias do passado possam não ser mais relevantes. Os modelos originais de dependência de trajetória (DAVID, 1985, 1993) enfatizam a continuidade através do conceito de núcleo de "lock-in". O lock-in ocorre se quando uma certa estrutura é alcançada, onde o processo não pode sair dela de forma endógena (sem intervenção externa) então, existe uma certa rigidez estrutural e o processo está bloqueado (lock-in), ou seja, significa irreversibilidade.

Grabher (1993) identifica ainda três componentes do lock-in: estrutural,

cognitivos e políticos. Um aspecto importante do lock-in estrutural é a dependência

de retornos crescentes sobre os investimentos. Já o lock-in cognitivo refere-se a inserção institucional e a estrutura de sociais relações que ligam as pessoas a ambientes institucionais, enquanto lock-in político se refere às relações de poder (GIL; WILLIAMS, 2011).

Neste sentido, a path dependence é o destaque das interações entre os processos e o ambiente externo. Podem ser identificados: o contexto do governo e

também as diferenças entre os stakeholders que apresentam impactos significativos no processo (BRAMWELL; COX, 2009), onde um dos conceitos fundamentais da

path dependence– o processo de longo prazo pelo qual os mecanismos de reforço da economia regional ajudam certas estruturas econômicas a prosperarem, por exemplo, de economias de escala, ao passo que estes mesmos mecanismos podem causar problemas a longo prazo de bloqueio regional, em particular, para uma caminho dominante (MARTIN, 2010; BROUDER; FURLLETON, 2015).

Dentro da corrente institucionalista histórica, o comportamento racional dos indivíduos é considerado importante para a compreensão do processo político, porém, procura-se entender como a escolha de ação depende da interpretação de uma situação, mais do que um cálculo instrumental. Assim, institucionalistas históricos utilizam a ideia de estratégia de decisão, ao lado da interpretação de natureza histórico-estrutural, como variáveis que influenciam o processo decisório

(HALL;TAYLOR, 1996; FERNANDES, 2007).

Os institucionalistas históricos estão associados com uma perspectiva particular de desenvolvimento histórico, defendendo um modelo de causalidade

social que é dependente da trajetória (path dependent), (HALL; TAYLOR, 1996),

onde o legado do passado condiciona o futuro. O institucionalismo histórico defende a ideia de que os indivíduos agem dentro de arranjos institucionais cuja estrutura atual e funcionamento só podem ser entendidos parcialmente se a análise não estiver integrada a uma perspectiva histórica. Por outro lado, o conceito de path dependence é oferecido justamente como a ferramenta analítica para entender a importância de sequências temporais e do desenvolvimento, no tempo, de eventos e

processos sociais (HALL;TAYLOR, 1996, p. 941).

O institucionalismo histórico defende a ideia de que os indivíduos agem dentro de arranjos institucionais, e sua análise deve estar integrada a uma perspectiva histórica, caso contrário, a estrutura atual só poderá ser entendida

parcialmente. O conceito de path dependence é oferecido justamente como a

ferramenta analítica para entender a importância de sequências temporais e do desenvolvimento, no tempo, de eventos e processos sociais (KAY, 2005; BERNARDI, 2012), ou seja, para entender o processo por completo é necessário

uma análise evolutiva através da path dependence, que considera todos os fatores

Indiscutivelmente, o futuro das gerações é afetado pela tomada de decisões passadas e presentes, onde o planejamento de longo prazo precisa ser adotado

para a definição de políticas que instigam a mudança (ALEXANDRA;RIDDINGTON,

2007).

Um ponto importante para o conceito de path dependence é a noção do

conceito de momento crítico (critical juncture) - são períodos em que uma

determinada opção é selecionada a partir de uma gama de alternativas, canalizando assim, o movimento futuro em uma direção específica (COLLIER; COLLIER, 1991;

MAHONEY; SCHENSUL, 2006). O momento crítico é definido como: “um período de

significativa mudança, que ocorre de modo diferente entre países (ou outras unidades de análise) a partir das rotas estabelecidas inicialmente que demarcam a

produção de legados distintos” (COLLIER; COLLIER, 1991). É considerado o

momento decisivo que faz a organização verificar se continua no caminho já trilhado ou se interrompe a trajetória, avaliando outras escolhas possíveis (MAHONEY, 2000). Neste sentido, é preciso identificar os eventos passados, assim como o período em que ocorreram, pois, a análise dos momentos críticos deve ser a mais completa possível, contemplando a comparação entre cursos de diferentes eventos

(PIERSON,2004).

A análise considera os processos nos quais, depois de momentos formativos

iniciais, uma opção é escolhida (critical juncture). Cada passo nessa mesma

trajetória produz consequências que aumentam a atratividade relativa desse “path”

na próxima etapa, gerando um ciclo de auto reforço em que os custos de transição para as alternativas aumentam consideravelmente com o tempo, tornando menos provável uma mudança radical ou reversão de curso (BERNARDI, 2012).

O momento crítico é uma situação de transição política e/ou econômica vivida por um ou vários países, estados, regiões, distritos ou cidades, caracterizado por um contexto de profunda mudança, seja ela revolucionária ou realizada por meio de reforma institucional. O tempo de duração desse momento crítico pode ser de anos ou até de décadas. Em um momento crítico, o processo de mudança que se inicia deixa um legado que conduz os políticos a fazerem escolhas e tomarem decisões sucessivas ao longo do tempo, visando a reprodução desse legado (FERNANDES, 2007).

Ainda referente ao conceito de path dependence, cabe destacar que existem outros dois conceitos, o de path creation e o de path plasticity.

O conceito de path creation é considerado mais radical, relacionado à alguma alteração repentina ao processo, ou alguma mudança externa ao sistema considerada como a ordem tradicional dos acontecimentos, ou seja, representa uma alternativa ao se pensar em novos caminhos sem determinismos ou repetições de padrões do passado, uma vez que não se restringe às escolhas já realizadas que podem engessar o pensamento de se buscar alternativas criativas para o futuro, indo de encontro ao empreendedorismo e à inovação (NIELSEN; JESSOP;

HAUSNER, 1995; GARUD; KARNOE, 2001; GIL; WILLIAMS, 2014). A path creation

destaca a importância do passado, na quebra da estabilidade institucional e na criação de novas instituições para uma maior inovação (STRAMBACH, 2008; GARUD et al., 2010), onde considera a aprendizagem importante, entretanto, não para aceitar os resultados fatidicamente, como se não houvesse outras escolhas possíveis.

A path creation enfatiza a importância de mudanças descontínuas em trajetórias e significa que dentro de limites específicos, as forças sociais podem redesenhar o processo, em que eles estão se movendo e reformular a trajetória

(NIELSEN;JESSOP;HAUSNER, 1995) de forma a substituir algum processo.

Já o conceito de path plasticity (STRAMBACH; HALKIER, 2013) - mais

incremental, relacionado a mudanças nas instituições ou ao sistema é considerado o caminho alternativo ao processo. É um conceito mais novo que significa que as forças sociais (recursos humanos) podem redesenhar as regras do processo, causando alterações, através de tecnologia e/ou inovação, baseadas em eventos

aleatórios (BOSCHMA, 2004; MARTIN; SUNLEY, 2006). A noção de path plasticity

não questiona ou contradiz a path dependence ou a opção de path creation. A path

plasticity é caracterizada pela continuidade da mudança dinâmica, são alterações que contribuem para o processo, não o alterando totalmente e garantindo o sucesso no processo. Descreve uma ampla gama de possibilidades para a criação de inovação dentro de um caminho dominante da inovação de sistemas (STRAMBACH;

STORZ, 2008). Enquanto a path creation apresenta um modo de mudança

institucional, que interrompe o seguimento normal de um processo e inserindo uma nova estratégia ao processo (STRAMBACH, 2008).

A Geografia Econômica Evolutiva desempenha um papel importante nos

processos de exploração e aproveitamento da path plasticity dentro de um ambiente

institucional estabelecida através de características específicas do lugar, processos de aprendizagem localizada, e através de mecanismos de desenvolvimento de conhecimento (STRAMBACH, 2008).

Evidencia-se em ambos, o papel dos stakeholders (“human agency”) em

adaptar recursos para o bem da economia. E ainda, o “place dependent” que faz referência à dependência em âmbito geográfico, onde se pode afirmar que todos

estes conceitos estão embasados e vinculados à path dependence (BOSCHMA,

2004; MARTIN; SUNLEY, 2006). Há condições, no entanto, onde a path

dependence pode ser interrompida por uma nova contingência, ou seja, por uma

mudança de path creation (PARK;LEE, 2005).

Na agenda de pesquisa da Geografia Econômica Evolutiva, a path

dependence aparece como um dos principais pilares. E é o pilar com mais estudado e aplicado nos artigos já publicados, embora hajam problemas teóricos não

resolvidos pela sua aplicação na Geografia Econômica (MARTIN; SUNLEY, 2006;

BOSCHMA;MARTIN,2007; STRAMBACH, 2008).