4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.2 Conhecendo as mulheres entrevistadas e suas famílias
4.2.1 Perfil sociocultural das mulheres entrevistadas
As mulheres entrevistadas se declararam como brancas em sua maioria (60%), havendo também pardas (32,7%) e negras (7,3%), sendo que 81,8%
apresentam ascendência italiana. Todas elas se declararam cristãs, de maioria católica (92,7%). A maioria das mulheres nasceu no meio rural (92,7%). Aquelas que nasceram na cidade, passaram a ter contato com o meio rural ainda na infância. No caso de Vitória Régia, que nasceu e foi criada na cidade, o contato com a agricultura ocorreu após o casamento.
De forma geral, as mulheres compõem unidades familiares tradicionais, do tipo nuclear, ou seja, composta por pai, mãe e filhos. Conforme explicitado no Quadro 3 e nas Figuras 9 e 10, a maior parte das mulheres que compuseram as unidades de análise da amostra possui companheiro, sendo casada ou em união estável, correspondendo a 65,5% dos casos. Dentre as mulheres sem companheiro, em relação ao total, 18,2% são solteiras, 9,1% são viúvas e 7,3% são divorciadas.
Das mulheres entrevistadas, 78,2% possuem filhos, mas apenas 52,7% vivem com eles na mesma unidade familiar. Em 9% dos casos, os filhos residem na mesma propriedade, mas em casas separadas, constituindo outros núcleos familiares, mas com convivência diária. 21,8% das mulheres vivem somente com seu companheiro na residência rural, sendo que uma delas convive também com a mãe. Oito (14,5%
do total) das dez mulheres solteiras vivem com os pais na propriedade rural. Duas vivem na cidade durante a semana, retornando ao campo nos finais de semana e períodos de férias, quando participam, eventualmente, da rotina agropecuária. Sete mulheres (12,7%) vivem sozinhas, sendo que, destas, seis são viúvas ou se divorciaram e uma é solteira (esta última se refere a uma daquelas que vive na cidade).
Quadro 3 – Perfil das mulheres pronafistas entrevistadas, quanto à idade, estado civil, escolaridade, ocupação e número de filhos, nos municípios de Nova Venécia e de Rio Bananal, ES, em 2017
Entrevistada
(Código) Idade Estado Civil Escolaridade* Ocupação Número de
filhos
Acácia 63 União Estável FI Agricultora 2
Açucena 24 Solteira SC Agricultora, comerciária e faxineira 0
Alamanda 34 Casada MC Agricultora 1
Albízia 42 Casada EC Agricultora 2
Alpínia 21 Solteira SI Estudante e secretária 0
Amamélis 25 Casada MC Agricultora e diarista 1
Amarilis 24 Solteira MC Agricultora e cabeleireira 1
Anêmona 43 Casada EC Dona de casa 2
Angélica 45 Divorciada FC Agricultora e diarista 4
Anis 34 Casada SC Bancária 1
Antúrio 75 Viúva FI Dona de casa 6
Azaleia 38 Casada EC Agricultora e manicure 3
Begônia 53 Casada FI Agricultora, faxineira, artesã 3
Bromélia 25 Casada MC Agricultora 1
Calêndula 21 Solteira MC Agricultora e diarista 0
Caliandra 50 Casada EC Agricultora 1
Camélia 27 Casada MC Comerciária e artesã 0
Camomila 43 União Estável MC Agricultora e professora 2
Catleia 26 Solteira MC Agricultora e revendedora de utensílios
domésticos 0
Clívia 60 União Estável EI Agricultora 3
Cravina 62 Casada MC Dona de casa 4
Crisântemo 56 Casada MC Agricultora, revendedora de cosméticos e de
utensílios domésticos 4
Dália 30 Solteira MC Agricultora 0
Estrelícia 44 Viúva MC Agricultora 2
Flor-de-Lis 29 Solteira SI Secretária 1
Flor-de-maio 61 Viúva EC Agricultora 2
Gardênia 42 Casada FI Agricultora 3
Gérbera 46 Casada FI Agricultora 2
Girassol 52 Divorciada MC Agricultora 2
Glicínia 35 Casada MC Comerciante 2
Grevílea 37 Casada FC Empresária 2
Hibisco 31 Casada MC Agricultora 2
Hortência 53 Casada EC Agricultora, faxineira e biscoiteira 3
Ipomeia 29 Casada SC Funcionária Pública 1
Jaborandi 68 Viúva EC Dona de casa 7
Jasmim 40 Divorciada MC Agente de saúde 1
Lavanda 52 Casada EI Agricultora 2
Lírio 60 Casada EC Agricultora e diarista 5
Lobélia 46 Casada MC Agricultora 1
Madressilva 58 Casada EC Agricultora 2
Magnólia 46 Casada MC Agricultora 0
Malva 34 Casada MC Agricultora, faxineira e revendedora de
cosméticos 2
Margarida 51 Casada EC Dona de casa 1
Miosótis 61 Viúva SI Empresária 3
Orquídea 49 Solteira EC Agricultora 0
Palma 33 Casada MC Agricultora 2
Papoula 55 Casada FI Dona de casa 4
Petúnia 34 Casada FC Agricultora 0
Primavera 23 Casada SC Agricultora 0
Salvia 28 Solteira SC Agricultora e secretária 0
Tulipa 28 Casada MC Agricultora e esteticista 1
Vedélia 23 Solteira SC Bancária 0
Violeta 35 Casada MC Agente de saúde 2
Vitória Régia 37 Casada MI Agricultora 3
Zínia 55 Divorciada SI Agricultora 1
Fonte: dados da pesquisa.
*EI: Elementar Incompleto; EC: Elementar Completo (antiga 4ª série); FI: Fundamental Incompleto; FC:
Fundamental Completo (antiga 8ª série); MI: Médio Incompleto; MC: Médio Completo; SI: Superior Incompleto; SC: Superior Completo.
Fonte: dados da pesquisa.
Figura 9– Distribuição das mulheres pronafistas de Nova Venécia e de Rio Bananal, ES, de acordo com o estado civil, em 2017.
Como a proposta de análise desta tese é desenvolvê-la com base em uma abordagem relacional, considerou-se importante a classificação das mulheres a partir da composição familiar, analisando a presença masculina nas relações intrafamiliares.
Assim, a partir dos dados familiares levantados, as mulheres foram classificadas em três grupos, conforme a Figura 10.
O Grupo 1 é composto por mulheres com cônjuge (MCC), ou seja, as casadas e aquelas em união estável. Essas mulheres convivem cotidianamente com seus companheiros, sendo as relações familiares influenciadas pelas questões de gênero.
O Grupo 2 é composto por mulheres sem cônjuge (MSC), sendo as solteiras, viúvas e divorciadas, mas que se relacionam diretamente com uma figura masculina, seja ela o pai, os filhos ou os irmãos. Todas as mulheres solteiras da pesquisa se enquadram neste grupo, pois mantêm relacionamento com os pais, seja por residirem com eles ou por depender financeiramente deles. Especialmente, cita-se o caso de Alpínia, que vive na cidade com o irmão e, apesar de ter emprego, ainda é sustentada pelos pais. Assim como o caso de Vedélia que vive sozinha na cidade, mas que ainda
depende dos pais, produtores rurais. Ambas retornam à propriedade dos pais nos fins de semana e no período de férias, onde participam da rotina rural.
Figura 10 – Representação esquemática da divisão em grupos das mulheres entrevistadas, conforme a presença masculina nas relações intrafamiliares, em 2017.
Mulheres Sem Cônjuge (MSC) Mulheres Com Cônjuge (MCC)
Com Presença Masculina Sem Presença Masculina
Acácia Alamanda
Albízia Amamélis Anêmona
Anis Azaleia Begônia Bromélia Caliandra Camélia Camomila
Clívia Cravina Crisântemo
Gardênia Gérbera
Glicínia Grevílea
Hibisco Hortência
Ipomeia Lavanda
Lírio Lobélia Madressilva
Magnólia Malva Margarida
Palma Papoula
Petúnia Primavera
Tulipa Violeta Vitória Régia
Açucena Alpínia Amarilis Angélica Calêndula
Catleia Dália Flor-de-lis Flor-de-maio
Jaborandi Miosótis Orquídea
Sálvia Vedélia
Antúrio Estrelícia
Girassol Jasmim Zínia
GRUPO 1 GRUPO 2 GRUPO 3
O Grupo 3 é composto por MSC que não convivem com homens em idade adulta, ou seja, não sofrem influência direta da figura masculina. É o caso de Antúrio, Estrelícia e Zínia que possuem somente filhas; e Girassol que não convive com os filhos, residindo sozinha na propriedade. Jasmim convive apenas com o filho de 11 anos. No entanto, na ocasião de acesso ao Pronaf, Jasmim ainda era casada. O caso dela é discutido separadamente nas análises.
Essa classificação foi utilizada nas análises que exigiram um enfoque relacional, a partir do item 4.2.2.
Com relação à idade, mais da metade (50,1%) das mulheres entrevistadas possui idade superior a 40 anos. No entanto, 27,3% das entrevistadas são jovens, com idade entre 21 e 30 anos, cuja faixa etária é representada por 60% de mulheres solteiras (Quadro 3, Figura 11).
Fonte: dados da pesquisa.
Figura 11 – Distribuição das mulheres pronafistas de Nova Venécia e de Rio Bananal, ES, de acordo com a faixa etária, em 2017.
O grau de escolaridade entre as mulheres entrevistadas variou da alfabetização ao ensino superior completo (Quadro 3). 60% das mulheres entrevistadas cursaram pelo menos uma série do ensino médio. As demais, não
ultrapassaram o ensino fundamental. Mas, há de se observar que os casos de menor grau de escolaridade se concentraram nas faixas etárias superiores (Figura 12). Os resultados mostram que 32,7% das mulheres entrevistadas são casadas e com baixo grau de instrução (não completaram o ensino médio).
Fonte: dados da pesquisa.
Figura 12 – Distribuição do grau de escolaridade por faixa etária das mulheres entrevistadas em Nova Venécia e Rio Bananal, ES, 2017.
As mulheres com idade superior a 40 anos relataram a dificuldade de acesso à escola durante a infância. No passado dessas mulheres, o campo oferecia apenas o ensino elementar, até a “quarta série primária”. Geralmente, a escola era distante do local em que residiam, exigindo grande esforço para estudar. A falta de incentivo e de recursos dos pais também foi um fator que impediu a continuação dos estudos para a maioria das mulheres com essa faixa etária. Outro motivo importante, observado na fala das mulheres, é que os pais as impediam de estudar para aproveitar sua mão de obra na lavoura desde a infância: “nem pude estudar por causa que tinha que trabalhar, trabalhar...” (Caliandra, 50 anos).
0 2 4 6 8 10 12 14 16
21-30 31-40 41-50 51-60 >60
Proporção em relação ao total (%)
Distribuição por faixa etária
Ensino Fundamental Ensino Médio Ensino Superior
Naquela época, não tinha ônibus escolar igual tem hoje, né? Se você fosse estudar, você tinha que ficar em Linhares, né? Em Bananal não tinha quase muito estudo, né? Você tinha que sair pra fora. E naquela época era tudo difícil, né? Hoje, não. Hoje, por exemplo, o ônibus escolar vem aqui em cima onde você desceu o morro. Vem ali pegar as crianças, vem aí duas vezes por dia. E naquela época não tinha (Orquídea, 49 anos).
Aí eu fiquei, né, naquela rotina de escola: uma vez estudava, outra vez não estudava. Porque minha mãe mais meu pai também não tinha recurso, né?
Quando tinha material pra vim pra escola a gente vinha, quando não tinha a gente ficava (Flor-de-maio, 61 anos).
Antigamente, a gente estudava a quarta série e repetia de novo a quarta série.
Porque o pai da gente não deixava a gente estudar, meu pai não deixou eu estudar. [...] Mas, quando nós começamos a trabalhar – que com sete anos a gente já puxava uma enxadinha – aí, quando a gente começou a trabalhar mesmo, a pegar um saco inteiro de café na cacunda, ia um dia eu e outro dia ela (a irmã), na escola. Uma copiava o dever da outra. Só ia na escola as duas juntas quando tinha prova ou quando não tinha nada pra fazer na roça, o que era muito difícil não ter nada pra fazer. Tanto é que papai fazia peneira, fazia um monte de coisa, além de ter muito café e outras coisas mais (Papoula, 55 anos).
A rotina de trabalho das mulheres começou cedo na roça. A tarefa de ir acompanhando os pais na lavoura e iniciar os trabalhos de colheita, capina, cuidar dos animais começou na faixa de cinco a sete anos de idade para 40% das mulheres entrevistadas. A média de idade apresentada para iniciar os trabalhos no roçado foi de nove anos.
Conforme o relato das mulheres, os trabalhos considerados “mais leves” eram executados na faixa etária de cinco a dez anos de idade, intensificando a partir dos 11 anos. Desde os 14 anos de idade, as mulheres iniciaram os trabalhos que elas consideraram “mais pesados”, equiparando-se aos trabalhos executados pelos adultos.
Parte dessas mulheres (16,4%) não trabalhou nas lavouras durante a infância, mas iniciou, desde cedo, os trabalhos domésticos e do entorno. Realizavam todas as tarefas que os adultos realizavam, a partir dos sete anos de idade. Elas relataram que as filhas caçulas eram “poupadas” do trabalho na lavoura, por existirem os irmãos e irmãs mais velhos que assumiam o roçado. No entanto, aquelas que trabalharam nas lavouras não se desvinculavam do trabalho doméstico, como se iniciassem a dupla jornada de trabalho ainda na adolescência, especialmente as filhas mais velhas:
Minha mãe levantava todo dia cinco e meia, seis horas, coava o café e pegava os trem dela e ia pra roça. E os nenenzinho tudo nas minhas costas. Os pequenos tudo nas minhas costas. Tudo pequeninho, que minha mãe tinha filho assim. [...] Com sete anos de idade, minha mãe botava um banquinho e ia pra roça e deixava lá pra mim subir no banquinho pra fazer uma comidinha quando ela chegasse, que minha mãe trabalhava direto na roça. [...] Não estudei, porque meu pai não deixou eu estudar, pra trabalhar na roça. [...]
Teve uma (irmã) até que largou a casa e foi pra Vitória, porque não aguentou mais trabalhar. Botou a mochila nas costas e falou: ‘meu pai, tô te largando e vou embora, não aguento mais trabalhar na roça’. Aí, foi. (Lavanda, 52 anos)
A partir dos relatos apresentados e traçando um paralelo entre a rotina de trabalho e de estudos dessas mulheres durante a infância e adolescência, nota-se que a maior parte das mulheres teve que assumir responsabilidades e executar trabalhos nas lavouras, acumuladamente com os trabalhos domésticos, por vezes comprometendo o acesso à educação.
Para a maior parte dessas mulheres, o trabalho executado por elas nas lavouras durante a adolescência em nada diferia dos trabalhos executados pelos irmãos da mesma faixa etária. Enquanto que, os trabalhos domésticos executados pelas meninas raramente eram divididos com os irmãos. Assim, a ideia de “trabalho leve”, encontrada nas falas das mulheres, está relacionada às condições geracionais, sendo o trabalho das crianças comparativamente menos “pesados” que o trabalho dos adultos.
Conforme apresentado por Paulilo (2016), não houve, de fato, um “trabalho leve” que poupou as mulheres de maiores esforços quando comparado ao trabalho dos homens na mesma faixa etária, especialmente quando se analisa a questão da continuidade da jornada de trabalho doméstico. No entanto, o trabalho desempenhado por elas ainda é considerado “leve” ou, muitas vezes, desconsiderado como trabalho, e, sim, como mera ajuda (Pacheco, 2009; Siliprandi, 2015), como pode ser observado na fala dos mediadores, no item 4.4.4.
E o fato de a maior parte das mulheres com idade superior a 40 anos ter deixado de estudar para trabalhar, cuidar dos irmãos mais novos, da casa e do entorno, trouxe consequências indesejáveis para 35,7% das mulheres dessa faixa etária, como baixa autoestima e dificuldades de estabelecer relacionamentos em ambientes políticos e econômicos.
Anêmona, de 43 anos, teve medo de conceder a entrevista para esta pesquisa. Sentiu-se tão envergonhada da sua situação de escolaridade que chorou ao responder que estudou somente até a quarta série. De forma semelhante, Gérbera,
de 46 anos, se sente excluída da sociedade por não ter estudado, por não se sentir capaz de manter o diálogo com outras mulheres. Gérbera também deixa o processo de negociação por conta do marido, alegando que ele tem maior grau de instrução e sentindo-se menos preparada do que ele.
Tinha medo de você fazer alguma pergunta, talvez uma pergunta simples e eu não saber responder por falta de conhecimento. [...] Eu fico com vergonha.
Que as vezes a gente tá conversando no meio de pessoas que por ter... essas pessoas ter estudo, elas tem mais desenvolvimento, de falar, sabe pronunciar as palavras direita e a gente fica assim meia até... não gosto nem de tirar uma foto, porque parece que as pessoas ficam comentando: ‘oh, aquela pessoa assim’. Então, a gente fica mais afastada. Eu tenho vergonha, igual eu falei.
Eu tenho vergonha de não saber as vezes de responder (Anêmona).
Ele (o marido) estudou mais, né? Ele tem o segundo grau completo. E eu tenho menos estudo. Ele sabe conversar melhor do que eu, entendeu? Então ele é mais aberto, tem mais facilidade de falar as coisas. [...] Muitas vezes, vamos supor, você tá num lugar ali com um... você tá numa mesa e aparece mais pessoas. Aí, tem aquelas mulheres, né, que tem estudo alto, né?
Professora, médica, você não consegue conversar de igual pra igual. Você vai falar de roça com uma mulher dessa? O que uma mulher dessa vai entender? Entendeu? Vou falar: eu capino, eu panho café, eu desbroto. A mulher vai falar de aluno, vai falar de outras coisas, né? [...] Meu maior sonho, ter capacidade, ter estudado muito. Mas, na época eu não pude estudar. [...]
Hoje eu sinto não ter mais aquela... chego tão cansada do serviço... O ônibus passa aqui, ó, na porta ali, ó. Mas, você olha assim... Ah, meu Deus! Tenho vontade? Tenho, de ir pra escola, mas o cansaço é demais, entendeu? Você pensar assim que tem que ficar lá, à noite, estudando lá, só que de manhã, você tem que sair 6 horas da manhã pro serviço de novo. Então é muito cansativo. (Gérbera)
Com a expansão da educação no campo, a oferta de transporte escolar e a criação das EFAs (com pedagogia da alternância), as mulheres mais jovens puderam acessar o ensino médio, técnico (duas possuem o curso de técnico agrícola e uma possui o curso técnico em administração) e, até mesmo, o ensino superior. Mas, não somente as mulheres mais jovens.
Crisântemo, aos 56 anos de idade, aposentada, com os filhos já crescidos e independentes, resolveu voltar aos estudos. Terminou em 2017 o ensino médio pelo projeto de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e planeja ingressar no curso técnico em enfermagem. Os fatores que a motivaram foi o fato de se permitir reduzir o trabalho agrícola por poder contar com a renda da aposentadoria, não precisar mais se dedicar ao cuidado dos filhos e ter se separado do primeiro marido, opressor. “Meu sonho,
hoje, é me formar, dia 09 de julho, no terceiro ano e fazer o técnico em enfermagem.
Esse é meu sonho, meu Deus! E vou realizar!” (Crisântemo).
Eu acho que isso (o acesso à educação superior) me ajudou assim, no sentido a me completar como cidadã, no sentido de vida social, de saber onde você busca as coisas, de aprender a questionar, de buscar, perguntar o porquê e... Assim, até me instruir melhor sobre as coisas (Ipomeia, 29 anos).
Observa-se, portanto, que a privação da liberdade substantiva de ter acesso à educação básica pode comprometer a capacidade de participação na vida política, econômica e social das mulheres (Sen, 2000). O acesso à educação resulta na aquisição de novos valores e no desenvolvimento de relações com outros indivíduos.
Pensando-se em nível relacional, o acesso à educação e ao conhecimento é essencial para o empoderamento das mulheres na sociedade, contribuindo para a sua emancipação cultural e para o desenvolvimento das capacidades, gerando autoconfiança e autoestima (Deere e León, 2002; Sen, 2000).
Bourdieu (2002) considera o acesso à educação como um fator de mudança, que contribui para o desenvolvimento da independência financeira e transformação das estruturas familiares. Entretanto, o autor admite que, mesmo que as mudanças sejam visíveis, são ocultadas as permanências das posições relativas, prevalecendo a hegemonia masculina nas relações sociais e de trabalho, como pode ser observado no item 4.2.2.
4.2.2 Perfil socioeconômico: propriedade, renda e atividades desenvolvidas pelas