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Perseverança A experiência, a observação, a história bíblica e certas passa­

gens da Escritura, à primeira vista, parecem provar que existem argumentos fortes contra a doutrina que tem sido denominada: A

Perseverança dos Santos. Não é o registro bíblico, bem como a

história da Igreja saturados com exemplos daqueles que naufraga­ ram na fé? E não lemos também que: “É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados e provaram o dom celestial e se tomaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento”? (Hb 6.4-6). E o Senhor mesmo não disse: “Eu sou a videira verdadeira, e o meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta... Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora à semelhança do ramo, e secará”? (Jo 15.1,2,6). Sim, à luz dos fatos da história e de passagens bíblicas como aquelas citadas, devemos afirmar que a interpretação da Escritura acerca de questões como estas não é uma tarefa para indolentes. O que significa apostasia? O que a Escritura quer significar pela expres­ são: caíram?

A fim de expor a doutrina da perseverança à clara luz, precisamos saber o que ela não é. Não significa que todos aqueles que professam fé em Cristo e que são aceitos como crentes na

comunhão dos santos estão seguros para a eternidade e podem nutrir a certeza da salvação eterna. Nos dias de sua carne, nosso Senhor mesmo advertiu os seus seguidores quando disse aos judeus que creram nele: “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente os meus discípulos; e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8.31,32). Ele estabeleceu um critério pelo qual os verdadeiros discípulos poderiam ser identificados, e este critério é permanente na palavra de Jesus. E é justamente o que descobrimos noutra parte quando Jesus disse: “Aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo” (Mt 10.22). Este é o critério aplicado também na epístola aos Hebreus quando o escritor disse: “Porque nos temos tomado participantes de Cristo, se de fato guardarmos firmes até ao fim a confiança que desde o princípio tivemos” (Hb 3.14). Esta mesma lição é a enfatizada no ensino de Jesus em João 15 em conexão com a parábola da videira e seus ramos. “Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora à semelhança do ramo, e secará” (Jo 15.6). A prova crucial de fé verdadeira é perseverar até ao fim, permanecendo em Cristo e se conservando em sua palavra.

Esta ênfase da Escritura deve ensinar-nos duas verdades. (1) Ela nos fornece a interpretação da palavra “caíram”, da apostasia. E possível oferecer todos os sinais exteriores de fé em Cristo e obediência a ele, testemunhar por algum tempo a boa confissão e mostrar grande zelo por Cristo e seu reino e, depois, perder todo o interesse e tomar-se indiferente, se não hostil, às reivindicações de Cristo e seu reino. E a lição da semente que caiu em solo rochoso — a semente nasceu e cresceu, porém, em saindo o sol, ela ficou queimada e não produziu nenhum fruto para a perfeição (cf. Mc 4.5,6,16,17). Há, naturalmente, uma grande porção de variação dentro desta classe de pessoas. Alguns aparentam convertidos, por pouco tempo se agitam com entusiasmo, e, de repente, se esfriam. Desaparecem da comunhão dos santos. Outros não revelam o mesmo entusiasmo, a sua identificação com a fé de Cristo nunca teve um caráter acentuado. Porém, no decorrer do tempo, a sua fé

se toma precariamente enfraquecida e, finalmente, é completa­ mente extinta — eles não mais andam no caminho dos justos. (2) Devemos apreciar a altitude e a longitude a que uma fé temporária pode levar aqueles que a têm. Este fato desperta a nossa atenção, em certa medida, para a parábola do semeador. Aqueles que são comparados à semente que caiu no solo rochoso receberam a palavra com alegria e prosseguiram nessa experiência alegre por algum tempo. Nos termos da similitude, existiu a erva e às vezes a espiga. Não há somente germinação; há também crescimento. O único defeito é que não existe o grão cheio na espiga. Para maiores detalhes, este fato é destacado na linguagem da epístola aos Hebreus onde fala daqueles “que uma vez foram iluminados e provaram o dom celestial e se tomaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro” (Hb 6.4,5). Sentimo-nos pasmos ante a vista dos termos desta descrição aplicável àqueles que podem cair. Todavia, tal descrição nos adverte quanto às forças que são operantes no reino de Deus e à influência que essas forças podem exercer sobre aqueles que finalmente demonstram que nunca foram radical e salvificamente tocados por elas. É acerca desse mesmo fato de apostasia da fé que Pedro trata em II Pe 2.20-22. Não pode haver dúvida de que Pedro tinha em vista as pessoas que adquiriram conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, que tinham conhecimento do caminho da justiça e que por meio dele escapa­ ram das contaminações do mundo, porém voltaram a enredar-se novamente nessas contaminações e apartaram-se do santo manda­ mento que lhes fora dado. “Com eles aconteceu o que diz certo adágio verdadeiro: O cão voltou ao seu próprio vômito; e: a porca lavada voltou a revolver-se no lamaçal.” Portanto, a Escritura mesma nos conduz à conclusão de que é possível ter-se a experiên­ cia sublime, enobrecedora, reformadora e exultante do poder e da verdade do evangelho, entrar em estreito contato com as forças supernaturais que operam no reino da graça de Deus, essas forças produzem tal efeito em nós que, aos olhos humanos, são dificil­ mente distinguidas daquelas produzidas pela graça regeneradora e

santificadora de Deus, e ainda não ser participante de Cristo e herdeiro da vida eterna. Uma doutrina da perseverança que deixe de reconhecer tal possibilidade e a realidade em certos casos é distorcida e promove uma indolência que fere os interesses da perseverança. Na verdade, isto não é nenhuma doutrina da perse­ verança.

Isto nos conduz a uma melhor compreensão da adequação e expressividade da designação: A Perseverança dos Santos. Não é melhor para os interesses da doutrina envolvida substituir a desig­ nação por: A Segurança do Crente, não porque este último seja errôneo em si mesmo, mas porque a primeira fórmula é muito mais cuidadosa e inclusivamente estruturada. A própria expressão: A

Perseverança dos Santos se protege contra toda e qualquer noção

ou sugestão no sentido de que o crente está seguro, quer dizer, seguro quanto à sua salvação eterna, independentemente da exten­ são em que possa cair em pecado e apostatar da fé e santidade. Ela impede qualquer artimanha que possa descrever o status do crente, pois essa maneira de expressar a doutrina pode ser perniciosa e perversa. Não é verdade que o crente está seguro, por mais insig­ nificante que venha a ser sua queda em pecado e infidelidade. Por que isto não é verdade? Não é verdade porque ela estabelece uma combinação impossível. É verdade que o crente peca; ele pode cair em pecado grave e afastar-se por longo tempo. Contudo, é também verdade que o crente não pode entregar-se ao pecado; ele não pode permanecer sob o domínio do pecado; ele não pode ser culpado de certos tipos de infidelidade. Portanto, é completamente errôneo afirmar que um crente está seguro, independentemente de sua vida subseqüente de pecado e infidelidade. A verdade é que a fé em Jesus Cristo é sempre respectiva à vida de santidade e fidelidade. Por isso, não é apropriado imaginar um crente sem levar em conta o contexto dos frutos de fé e santidade. Afirmar que o crente está seguro, qualquer que seja a extensão de sua entrega ao domínio do

pecado em sua vida subseqüente, é abstrair a fé em Cristo da sua própria definição e introduzir aquele abuso que transforma a graça de Deus em libertinagem. A doutrina da perseverança é a doutrina de que os crentes perseveram; deve-se enfatizar insistentemente que ela é a perseverança dos santos. E isto significa que os santos, aqueles que são unidos a Cristo por meio do chamamento eficaz do Pai e que são habitados pelo Espírito Santo, hão de perseverar até ao fim. Se eles perseveram, eles sofrem com paciência, eles prosseguem. Ela não ensina que serão salvos independentemente de sua perseverança ou de seu prosseguimento, mas que eles seguramente hão de perseverar. Conseqüentemente, a segurança que é sua é inseparável da sua perseverança. Não foi isso o que Jesus disse? “Aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo” (Mt 24.13).

É neste mesmo sentido que Pedro escreve sobre aqueles que têm uma viva esperança “para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus”. São aqueles que são “guardados pelo poder de Deus, mediante a fé para a salvação preparada para revelar-se no último tempo” (I Pe 1.4,5). Há três verdades que merecem destaque especial: (1) eles são guardados; (2) eles são guardados mediante, a fc; (3) eles são .guardados até à consumação final, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo. Eles não são guardados por pouco tempo, e, sim, até ao fim; e não são guardados independentemente de sua fé, e, sim, mediante a fé. Portanto, não nos refugiemos na indolência nem nos encorajemos à permissividade da arbitrária doutrina da segurança do crente. Antes, apreciemos a doutrina da perseverança dos santos e reconheçamos que podemos nutrir a fé de nossa segurança em Cristo somente na medida em que perseveramos na fé e santidade até ao fim. Outra coisa Paulo não tinha em mente senão o alvada ressurreição para a vida e glória, quando escreveu: “Irmãos, quantCLa mim^JLão julgo havê-lo alcançado; mas, uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avan-

çando para as que diante de mim estão, prgssigo„para o alvo, para. o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp

3.13,14). ...

A. perseverança dos santos nos lembra mui forçosamente de que somente aqueles que perseveram até .ao fim é que são os verdadeiros santos. Não alcançamos o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus automaticamente. A perseverança signi­ fica o empenho de nossa pessoa na mais intensa e concentrada devoção aos meios que Deus ordenou para a realização de seu propósito salvífico. A doutrina bíblica da perseverança não tem nenhuma afinidade com o quietismo e antinomianismo que são tão prevalecentes nos círculos evangélicos.

Porém, embora seja verdade que somente aqueles que perse­ veram são santos, uma interrogação permanece: os santos hão de perseverar mesmo? É ordenado e providenciado por Deus que aqueles que verdadeiramente crêem em Cristo hão de perseverar até ao fim? A resposta a estas perguntas é um sim enfático. Neste ponto, éâgualmente importante que neguemos o conceito arminia­ no de_quejQS santos podem “cair da graça”, e que reajamos contra a pretensão e libertinagem do antinomianismo.

É certamente verdade que a expressão “da graça decaístes” encontra-se na Escritura (G1 5.4). Porém, Paulo, aqui, não está lidando com a questão se o crente pode ou não cair do favor da graça de Deus e por fim perecer; antes, ele trata da apostasia da pura doutrina da justificação pela graça em oposição à justificação pelas obras da lei. O que Paulo, na realidade, está falando, é que se buscarmos a justificação pelas obras da lei, seja qual for o grau ou forma, então teremos abandonado ou caído completamente da justificação pela graça. Não podemos admitir uma mistura de graça e obra na justificação; é uma ou outra. Se injetarmos obra em qualquer grau, então teremos abandonado a graça e somos obriga­ dos a praticar toda a lei (cf. G1 5.3). Este ensino de Paulo é pertinente à questão da perseverança como um todo. Pois, não há

nenhum outro artigo de nossa fé mais importante na promoção da perseverança do que a doutrina da justificação somente pela graça através da fé somente. Porém, Paulo não está lidando aqui coin os crentes que caem da graça de Deus. Isto seria inconsistente com os claros ensinos do próprio Paulo nas demais epístolas. Deveras, é nos próprios ensinos do apóstolo onde procuramos antes de tudo estabelecer a posição de que os santos hão de perseverar.

Quem são os “santos” segundo os termos do Novo Testamen­ to? São aqueles que são chamados para serem santos, para serem de Jesus Cristo (Rm 1.6,7). É absolutamente impossível separar o que no Novo Testamento significa santidade da vocação eficaz, por meio da qual os pecadores são introduzidos na comunhão de Jesus Cristo (I Co 1.9). Perguntemos agora: No ensino de Paulo, quais são as relações deste chamamento que constituem um peca­ dor em santo? Ele nos dá a resposta em Rm 8.28-30. Temos aqui uma corrente inquebrável de eventos procedentes do propósito eterno de Deus na presciência e presdestinação para a glorificação do povo de Deus. É impossível remover a vocação deste contexto. Os chamados o são segundo o propósito (v.28); o propósito antecede a vocação. E isso é o que Paulo repete nos vv. 29 e 30, onde ele expõe o propósito de Deus em termos de presciência e predestinação — “Aos que de antemão conheceu, também os predestinou... e aos que predestinou, a esses também chamou”. Ainda mais, assim como a vocação tem os seus antecedentes na presciência e predestinação, também tem os seus conseqüentes na justificação e glorificação — “E aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (v.30). Em conexão com o assunto em pauta, não podemos esquivar-nos da importância deste texto. Aqueles que agora ocupam a nossa atenção são os santos, os chamados para serem de Jesus Cristo; aqueles que são justificados pela fé em Jesus Cristo. O verdadeiro cristão não pode ser definido em termos inferiores aos daqueles que foram chamados e justificados. E, portanto, a pergunta é esta: pode alguém que foi chamado e justificado cair e não alcançar a

salvação eterna? A resposta de Paulo é inevitável — os chamados e justificados hão de ser glorificados. Semelhantemente, se pros­ seguirmos noutra direção, obteremos o mesmo resultado. Os cha­ mados são aqueles que foram predestinados para serem conformados à imagem do Filho de Deus (v.29). É possível conceber que os propósitos da predestinação de Deus sejam frus­ trados? Nem mesmo um arminiano ousaria tanto. Pois ele crê que Deus predestina para a salvação eterna àquele a quem ele prevê que perseverará e finalmente será salvo.

Precisamos apreciar o que está em jogo nesta controvérsia. Se os santos podem cair e ser finalmente perdidos, então os chamados e justificados podem cair e ser perdidos. Porém, isto é o que o apóstolo inspirado diz que não acontecerá e nem pode acontecer — aos que Deus chama e justifica, a esses também glorifica. E esta glorificação nada menos é do que a conformidade com a imagem do próprio Filho de Deus. Isto é aquilo de que Paulo fala quando afirma que Deus “transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória [=de Cristo]” (Fp 3.21), e o que ele chama em Rm 8.23 “a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo”. A negação da perseverança dos santos destrói a importância implícita do ensino do apóstolo.

O argumento em favor da perseverança dos santos poderia ter por base este único texto. Porém, a Escritura nos fornece confir­ mação adicional. Convém lembrar as palavras daquele que falou como nenhum outro homem; que desceu do céu a fim de fazer a vontade daquele que o enviou, e que nenhum daqueles que o Pai lhe deu se perderá, senão que todos serão ressuscitados no último dia (Jo 6.39). Certamente que não haverá ninguém que negue que o santo, segundo os termos do Novo Testamento, é aquele que crê em Cristo. Um santo é um crente. E o que é que Jesus diz a respeito de um crente? “De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.40). Podemos nutrir ainda que a mais remota

suspeita de que a vontade do Pai pode ser frustrada? Jesus aqui nos assegura que não haverá nenhuma possibilidade. Ele mesmo nos define a conseqüência. Ele não diz apenas que é da vontade do Pai que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna, mas também que ele o ressuscitará no último dia. E para que não haja dúvida quanto ao caráter desta ressurreição no último dia, ele nos informa no versículo anterior que a ressurreição no último dia é contrastada com a perda de tudo o que o Pai lhe deu. Em outras palavras, a ressurreição no último dia, da qual Jesus está aqui falando, é a ressurreição que é associada à garantia de que ele não perderá nenhum dos que o Pai lhe deu — “E a vontade de quem me enviou é esta: Que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia” (v.39). E Jesus não nos dá uma garantia muito direta, no sentido de que o crente não pode perecer, quando disse: “E o que vem a miin, de modo nenhum o lançarei fora”? (v.37). Vir a Jesus é simplesmente crer nele. E a segurança que Jesus prevê e garante continua até à ressurreição para a vida no último dia.

Porém, isto não é tudo. É necessário que examinemos mais de perto estes discursos de Jesus que se encontram no Evangelho segundo João. Jesus também disse: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim” (Jo 6.37). Sempre que há uma doação da parte do Pai, há uma conseqüência ou concomitância inevitável do vir a Cristo, isto é, de crer nele. Porém, é igualmente verdadeiro que sempre que há o vir a Cristo, há também a doação da parte do Pai, pois Jesus também diz que ninguém pode vir a ele, se o Pai não o trouxer (6.44) e se não for dado pelo Pai (Jo 6.65). Neste discurso temos de considerar a doação de homens a Cristo e o ato de trazer homens a Cristo por parte do Pai como dois aspectos do mesmo evento, duas maneiras em que o mesmo evento pode ser conside­ rado. Este ato de o Pai trazer mostra o evento como uma ação exercida sobre os homens, o ato de dar a Cristo como doação do Pai ao Filho. É impossível pensar nelas separadamente. Em resu­ mo, ninguém pode vir a Cristo senão pela doação do Pai ao Filho.

Já descobrimos nas palavras expressas por Jesus que cada um dos doados vem a Cristo e crê nele. Por conseguinte, dar pelo Pai e vir a Cristo por parte dos homens são inseparáveis — um não pode existir sem o outro, e onde quer que um esteja o outro também está.

Ora, se examinarmos Jo 10, descobriremos, neste contexto, a confirmação conclusiva da verdade de que os crentes não podem perecer. Jesus outra vez está falando daqueles que lhe foram dados pelo Pai. Não podemos dissociar a doação mencionada aqui da­ quela mencionada em Jo 6, ainda que Jesus introduz uma nova designação para caracterizar as pessoas em questão, ou seja, que elas são as suas ovelhas. O que é que Jesus diz? “Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar. Eu e o Pai somos um” (Jo 10.29-30). Quando indagamos a respeito da força desta afirmação de que ninguém pode arrebatar da mão do Pai, descobrimos nas palavras precedentes de Jesus: “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, eternamente, e ninguém as arrebatará da minha mão” (10.28). Obviamente, o que Jesus está ensinando é a segurança infalível daqueles que lhe foram dados pelo Pai — “jamais perecerão”. E a mesma segurança é garantida pelo fato de que ninguém as arrebatará da sua mão. É para confirmar esta verdade que ele acrescenta: “Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar.” A garantia da preservação infalível é que as pessoas dadas ao Filho estão na mão do Filho, e ainda que dadas ao Filho, continuam misteriosamente na mão do Pai. Da mão de ambos ninguém pode arrebatá-las. Esta é a herança daqueles que foram dados pelo Pai.

Mas devemos ainda lembrar de que todos aqueles que foram dados a Cristo pelo Pai vêm a Cristo, isto é, crêem nele, e todos os que crêem nele são aqueles que lhe foram dados. Portanto, não é simplesmente aqueles que foram dados a Cristo pelo Pai que são mencionados em Jo 10.28,29; ele está também falando dos crentes. Descobrimos pelas passagens de Jo 6 que aqueles que foram dados

são crentes, e os crentes são aqueles que foram dados. Por conse­ guinte, de todos os crentes, isto é, de todos os que vêm a Cristo nos termos de Jo 6.37,44,45,65, pode-se dizer com toda a autori­ dade daquele que é a verdade, o verdadeiro Deus e a vida eterna, que os crentes no nome de Jesus jamais perecerão — eles ressus­ citarão no último dia para a vida de bem-aventurança. Na lingua­ gem de Paulo, hão de “alcançar a ressurreição dentre os mortos” (Fp 3.11).

Não encontramos nesta verdade uma razão nova para mara­ vilhar-nos da graça de Deus e da imutabilidade de seu amor? Ela é a indissolubilidade do elo da aliança oa graça de Deus que