Capítulo 1 O preconceito na vida cotidiana, a partir da alteridade
1.8 Personalidade autoritária, conhecimento do “outro” e preconceito
Adorno et al (1950), após o regime nazista, estudaram os traços da personalidade dos indivíduos que poderiam levá-los a um pensamento e atitude autorirátias que externassem seus preconceitos. A hipótese que norteava sua pesquisa era a de que as convicções econômicas, políticas e sociais de um indivíduo frequentemente formavam um padrão, como que ligadas por uma mentalidade ou espírito, e que esse padrão era uma expressão de tendências profundas de sua personalidade.
De fato, se descobriu que os indivíduos que tinham maior suscetibilidade à propaganda fascista tinham muito em comum. Por outro lado, os indivíduos opositores ao fascismo eram muito mais diversificados entre si. Porém, as mesmas tendências podem ter diferentes fontes em cada indivíduo e, ao mesmo tempo, as mesmas necessidades pessoais podem se expressar em diferentes tendências ideológicas. Assim, a relação de ideologia com preconceito em Adorno et al se assemelha à concepção helleriana, quando considera tanto a universalidade quanto a individualidade em sua formação.
O termo ideologia é usado neste livro do modo que é comum na literatura atual, significando uma organização de opiniões, atitudes e valores – um modo de pensamento sobre o homem e a sociedade. Podemos falar de uma total ideologia do indivíduo ou sua ideologia com respeito a diferentes áreas da vida social: política, economia, religião, minorias e assim por diante. Ideologias têm uma existência independente de qualquer indivíduo; e aqueles que existem em uma época em especial são resultado tanto de processos históricos quanto de eventos sociais contemporâneos. Essas ideologias têm diferentes graus de apelo para diferentes indivíduos, uma questão que depende das necessidades individuais e do grau em que estas
necessidades vão sendo satisfeitas ou frustradas. (ADORNO et al., 1950, p. 2) [Tradução Livre]44
Logo, os indivíduos podem aderir a ideias de diferentes ideologias, mas mantendo certos padrões em comum dentro de um determinado grupo. Porém cabia a Adorno et al compreenderem porque se aceitava certas ideias e outras não. Para obter as respostas necessárias, foram distribuídos questionários entre homens e mulheres de diferentes classes sociais e em ambientes de convívio social, como universidades e igrejas. Nesse sentido, é importante ressaltar que nota-se no estudo que não necessariamente pessoas de mesma condição socioeconômica terão pensamento similar sobre o outro, bem como pessoas de grupos sociais distintos poderão pensar de modo equivalente. Um dos fatores para tal variação estaria na (ausência de) racionalidade.
Os pensadores citam como exemplo, um profissional que seja contra a imigração de um refugiado judeu porque este pode ser um concorrente e assim diminuir suas possibilidades de ganho com o trabalho. Isso, afinal, seria racional, embora não seja democrático. Porém, ao atribuir características e males do mundo aos judeus, é necessário ser ilógico, assim como também ao apenas elogiar os judeus. Logo, embora haja uma relação com eventuais frustrações e experiências, uma pessoa que é preconceituosa com uma determinada minoria, assim também tende a ser com as demais minorias, sem que haja base lógica para tal. Há uma generalização com relação ao outro.
De certa forma, essa concepção de Adorno et al se aproxima da ideia de Heller (2000), quando esta atribui a generalização a um juízo que não é verificado na prática. Ora, se baseado em alguma racionalidade, haveria comprovação prática e, assim, explicação lógica para a generalização que fundamenta, portanto, o preconceito.
Por outro lado, Adorno et al (1950) dizem que tanto quando há atitudes de preconceito, quanto quando há uma aceitação de um determinado grupo em sua condição de diferença, quando ambos são acríticos, muitas vezes tal percepção sobre o outro se baseia na ausência de experiência com este grupo ao qual se é comparado. O que se contrapõe à formação de preconceitos conforme Arendt (2008), quando esta os relaciona à experiência
44 The term ideology is used in this book, in the way that is common in current literature, to stand for an organization of opinions, attitudes, and values – a way of thinking about man and society. We may speak of an individual’s total ideology or of his ideology with respect to different areas of social life: politics, economics, religion, minority groups, and so forth. Ideologies have an existence independent of any single individual; and those which exist at a particular time are results both of historical processes and of a contemporary social events. These ideologies have for different individuals, different degrees of appeal, a matter that depends upon the individual’s needs and the degree to which these needs are being satisfied or frustrated.
que leva a um juízo que não é revisto. Portanto, há fatores subjetivos, mas também objetivos que estabelecem uma personalidade autoritária e uma postura de preconceito.
De um modo geral, a pesquisa de Adorno et al. (1950) estabelece traços de uma personalidade autoritária, a saber, conforme resumido por Teixeira e Polo (1975): convencionalismo, submissão acrítica, agressividade autoritária, destruição e cinismo, poder e rudeza, superstição e estereotipia, exteriorização, projeção, sexo.
Algumas características merecem especial atenção no contexto aqui analisado: poder e rudeza. Dentro do proposto na pesquisa de Adorno et al. (1950), tal característica tem relação com a identificação com figuras de poder, o que seria reflexo da ausência de força interior, a qual seria suprida pelo apoio em estruturas poderosas. Teixeira e Polo (1975) citam como exemplo as SS alemães em sua “obediência cega ao ‘superior’ e na tirania desapiedada ‘para com o inferior’” (Ibid., p. 52). A identificação que faria o fraco se sentir mais forte sob a justificativa de uma “raça superior” ou “mais pura”, é a base da hostilização ao outro que permeia toda a narrativa da trama de Harry Potter, bem como a justificativa para a postura apresentada por personagens, como o já citado Lord Voldemort.
Porém, uma vez que todos os seres têm defeitos, o que ocorre é um maior ou menor conhecimento dos próprios defeitos, o que levaria a uma conclusão de que há deficiências cognitivas naquele que apresenta comportamento autoritário.
O obstáculo é individualizado na intolerância da ambiguidade. Enquanto o igualitário tende a resolver o problema com uma complicação (realística) que lhe permite distinguir, na mesma pessoa e mesmo nós próprios sentimentos, aspectos diversos e até contrastantes, o autoritário resolve o conflito simplesmente negando ou reprimindo o que não lhe agrada. Como consequência direta dessa repressão, aparece a projeção de defeitos e faltazinhas nos grupos exteriores, facilmente vulneráveis por causa de seu status não-privilegiado e minoritário. (Ibid., p. 54) [grifos do autor]
Segundo os autores, essa negação do que não agrada, própria de um comportamento autoritário, assim se manifesta porque a personalidade valoriza um determinado status que lhe atribua segurança e poder. Logo, se utilizaria da intransigência para se defender de toda e qualquer ambivalência.
Assim sendo, nota-se que as relações de alteridade permeiam as relações humanas e, por consequência, devem ser consideradas para que se compreenda o preconceito. Nesta perspectiva está apenas uma das possibilidades para se lidar com o outro e seus atos, bem como conhecê-lo. No caso da presente pesquisa busca-se compreender a perspectiva educativa que se desdobra em possibilidades de abertura às questões de alteridade aqui propostas, o que parte do pressuposto de que, no caso em que se apresenta através de uma
obra de ficção, permite discutir e refletir sobre o preconceito, agindo, assim, de modo que o evite.
No entanto, um problema maior se apresenta na questão da educação, especificamente no caso do racismo. Segundo Munanga (2015), o racismo se mantém porque as vítimas o aceitam por meio da educação e “[...] em todas as sociedades humanas a educação é monopólio do estado” (Ibid., n. p.). No entanto, o antropólogo frisa que deve ser considerada a educação no sentido amplo, que começa na educação que se tem no próprio lar e é aí que a socialização deve começar.
Logo, a questão da alteridade e seus desdobramentos na questão do preconceito é uma discussão que deve começar na própria educação da família daqueles que podem vir a sofrer ou realizar o preconceito. Deve se dar conhecimento a quem sofre discriminação sobre quem esta pessoa é, de modo a confrontar o não conhecimento que leva ao preconceito alheio, seja por meio do perdão ou da tomada de consciência quanto a quem é o outro. Essa importância das origens para o indivíduo é percebida na fala de Baldwin (1962, p. 112, 116-7) apud Rossi (2010, p. 25) quando afirma: “Tenha consciência de suas origens: se conhecer suas origens, aí não haverá limites que você não possa superar”.
Nesse sentido, ressalta-se a necessidade de conhecimento das origens como projeto pedagógico da própria educação na sociedade brasileira, de modo a combater o preconceito. Este conhecimento produz um pensamento que permite um modelo educativo que se aproprie de grandes produtos da mídia, como é o caso de Harry Potter, mas que evite um modelo europeu de educação que se pauta em preconceitos próprios daquela cultura. Isto é importante, inclusive, para que se possa apresentar uma perspectiva educativa quando ao preconceito que evite que este se realize no ato ou discurso de alguém.
[...] se queremos saber quem somos, devemos conhecer todas as nossas raízes, aqueles povos que formaram o Brasil, alguns dizem que somos um país mestiço, mas essa mestiçagem não caiu do céu. Já que não queremos reconhecer a diversidade das coisas, suponhamos que sejamos todos mestiços, vamos pelo menos estudar as raízes da nossa mestiçagem, isso faz parte da nossa cultura. Mas o brasileiro não se incomoda, o brasileiro quer se ver como europeu ocidental, parece que o brasileiro não se enxerga. (MUNANGA, 2016, n. p.)
Nota-se que Munanga vê o reconhecimento da diversidade como chave para uma educação que evite que o preconceito se concretize. Logo, a base para uma proposta educativa que permita refletir sobre o preconceito e agir de forma que este não se realize é o reconhecimento do outro em sua diferença, bem como o reconhecimento, pelo indivíduo, de sua própria singularidade.
Sodré (2012) propõe uma nova educação a partir da diversidade. O autor acredita que educar é socializar e vê na tecnologia uma forma educativa que deve ser considerada. Porém, não se fala, no caso, de tecnologia no sentido meramente técnico, mas sim, dos conteúdos que esta propicia através da mídia. Para Sodré, deve ser levado em conta, nos conteúdos apresentados pela mídia, o que há da ordem do sensível que tenha efeito sobre a formação do indivíduo. Assim, considerando a ideia exposta pelo autor baiano, a mídia, e no caso, a obra Harry Potter enquanto produto midiático, pode apresentar conteúdos que levem a sentimentos, emoções e pensamentos que façam refletir sobre um determinado assunto. Estaria aí, portanto, o potencial educativo da mídia em evitar que se realizem discursos e atos preconceituosos, propiciando a reflexão que os evitem, através elementos da natureza do sensível.
É sobre essa perspectiva educativa, portanto, que se dará a discussão no próximo capítulo, considerando, além disso, a construção de comportamentos como fator de importância na assimilação de uma hexis educativa acerca do preconceito, a partir do contato com obras de ficção para crianças e jovens.