3 ATIVISMO EM REDE E MOVIMENTOS SOCIAIS
3.1 A metáfora da rede
3.1.2 Perspectiva reticular
Di Felice (2012) afirma que o advento das redes sociais digitais e as suas implicações para as transformações das nossas sociedades nos desafiam a buscar novas teorias interpretativas capazes de narrar o dinamismo contemporâneo e que para entender a profundidade das transformações decorrentes da difusão das redes digitais é necessário interpretar a lógica reticular a partir não somente de uma perspectiva comunicativa, mas no interior de uma mudança maior que torna possível a compreensão das arquiteturas reticulares como uma ruptura epistêmica que acontece em diversos campos do conhecimento.
A origem da perspectiva reticular está associada a um conjunto de transformações conceituais e experimentos realizados entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX, como os da geometria elíptica de B. Riemann (1826-66) e a perspectiva da relatividade de Einstein que começaram a questionar a representação espacial, sistêmica e linear das coisas. Além da física e da matemática, advém da lógica biológica, que passou a
considerar a interdependência entre os elementos vivos (as espécies animais e vegetais), o meio ambiente e os demais elementos naturais dois conceitos importantes para a concepção reticular: a) o de ecologia (do grego oikos - casa, hábitat - e logos -discurso), criado pelo biólogo darwinista E. Haeckel, em 1866, e que está relacionado ao estudo das relações dos diversos organismos com o mundo exterior (ambiente orgânico e inorgânico); e b) o conceito de ecossistema, formulado pelo botânico inglês A. Tansley, em 1935, e que trata da uma relação constante entre os diversos membros (animais, vegetais e inorgânicos) e determinada comunidade geográfica. Assim, a concepção reticular pode ser entendida, segundo Di Felice (2012, p.10-11), pelo “conjunto de relações e de fluxos não apenas entre organismos vivos, mas entre um conjunto de elementos e de realidades em contínua comunicação”. No âmbito do campo da comunicação, a perspectiva reticular e interativa tem sua origem na cibernética e nos estudos que determinaram o questionamento da representação linear dos fluxos informativos. Posteriormente, tal perspectiva se desenvolve com a já citada criação das redes como a Arpanet, precursora da internet.
Uma nova cultura tecnológica e comunicativa marca o cotidiano e a existência das novas gerações que vivem em contextos sociais e midiáticos digitais, e que produzem alterações qualitativas na política, na democracia e na forma de pensar a sociedade. A passagem de um modelo comunicativo baseado na separação identitária entre emissor e receptor e num fluxo comunicativo bidirecional para um modelo de circulação das informações em rede, no qual todos os atores desenvolvem simultaneamente a atividade midiática de emissão e de recepção, altera a prática e o significado do ato de comunicar. (DI FELICE, 2012, p. 13)
Assim, a arquitetura reticular, como defende Di Felice, desenha-se como uma nova forma da explicação da complexidade que possui a sua especificidade nas suas qualidades conectivas. Tal perspectiva reticular, como adianta o autor será responsável por rupturas como a que obriga a repensar o conceito, o papel e a função social da mídia e o significado das relações comunicativas com as inteligências conetivas (D. de Kerckhove) e planetárias (Lévy) e em virtude de transformações como as geradas pela “situação social tecnologia” com a transformação da localidade e a transferência do sentido de lugar e das interações para a relação simbiótica com a mídia muito mais do que a questão espacial ou geográfica. Há o deslocamento da atuação dos atores sociais (indivíduos, grupos, classes, instituições ou empresas) para as redes informativas: “o social deixa de ser somente algo que está na nossa frente, observável e reconhecível, para (...) se tornar um conjunto infinito de informações a ser reconstituído e reinterpretado por nós” (DI FELICE, 2012, p, 17).
As redes digitais, portanto, uma vez que possuem em si a complexidade de um ecossistema social atópico18 e interativo, consequentemente, não poderão mais ser descritas apenas como uma estrutura midiática, nem pensadas apenas como um sistema de repasse das informações (mídia), mas como uma nova “arquitetura da inteligência” (DE KERCKHOVE, 2009) ou como “uma inteligência coletiva expandida em toda parte” (LÉVY, 2000). (DI FELICE, 2012, p, 17)
De outra forma, segundo Di Felice, Torese e Yanazi (2010, p. 91) enquanto a modernidade com o advento dos meios de comunicação eletrônicos (fotografia, cinema e, depois, a televisão) multiplicou as imagens da natureza colocando-as em circulação (tecnologização da paisagem, segundo Walter Benjamin), a contemporaneidade e os fluxos informativos em rede reacendem o debate em torno da concepção de natureza e das formas de “ecologização” do mundo, tornando impossível a compreensão da vivência do espaço social sem a consideração da sua dimensão natural (conforme defende Maffesoli19).
Assim, para os autores,
além de um nível filosófico (Lyotard, Vattimo, Derrida); um nível sociológico (Maffesoli, Harvey, M. Featherstone) e um nível antropológico (C. Geertz, J. Clifford e A. Appadurai), existe a possibilidade de pensar a crise do moderno a partir de uma ruptura do significado tradicional do ambiente tomando como ponto de partida o significado atribuído a este pela intervenção da mídia e pelo impacto das transformações que a mídia aporta no pensamento, no cotidiano, na situação social, na formação do mundo imaginal e no processo de significação de mundo. (DI FELICE, TORRES, YANAZI, 2010, p. 88)
Do ponto de vista da condição tecno-social da sociedade contemporânea pode-se relacionar ainda com a questão em discussão outro fundamento que caracteriza a cibercultura e, consequentemente, a sociedade contemporânea visto que, os movimentos sociais
18 Do grego ατοπος, lugar atípico, estranho, paradoxal, fora do lugar. Esse ecossistema refere-se ao conceito de
habitar atópico defendido por Di Felice conforme mencionado em DI FELICE, Massimo; TORRES, Julliana Cutolo; YANAZE, Leandro Key Higuchi. Ecologia, mídia e pós-modernidade. Comunicação e Sociedade, v. 18, p. 85, 2012. Ou ainda o termo grego expressa a junção do prefixo alfa “privativo” com a palavra topos (lugar) que a uma tradução atenta não remete à ausência de lugar, mas a uma localidade estranha, uma localidade fora do local, uma localidade indizível (in DI FELICI, 2013).
19 In Maffesoli, M. No Fundo das Aparências, Petrópolis: Editora Vozes, 1999. Segundo os autores, para
Maffesoli, nesse ideal de “ecologização do mundo social”, “a natureza não se apresenta mais como objeto a explorar e ‘a comunhão/vivência com a natureza tende a fortalecer a ligação/vivência social de forma não mais ‘contratual’, mas estética, entendida como aesthesis, como um ‘sentir-comum’, uma partilha de sensações e emoções que, de um lado, colocam em interação, em sinergia, o tribalismo, a preocupação com o território, a atenção à natureza, a religiosidade e o prazer dos sentidos, e, do outro, o desenvolvimento tecnológico, o multiculturalismo metropolitano, a comunicação – sem criar uma síntese, mas mantendo as contradições entre esses elementos”(DI FELICE, YANAZE, TORRES, 2010, p.90).
contemporâneos utilizam-se do ativismo em rede, ciberativismo ou net-ativismo como forma de articulação.