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PLEBISCITO NO URUGUA

No documento Plebiscito (páginas 186-190)

O Uruguai é um dos países que tem uma forte tradição na aplicação dos mecanismos de democracia direta. Desde a primeira metade do século XX, o Uruguai tem se utilizado desses mecanismos, combinando adequadamente participação e representação. O primeiro plebiscito uruguaio data de 1917, por meio do qual se deu a separação entre a Igreja e o Estado. 507 Contudo, apenas em 1934

503 De acordo com Pilar Mellado Prado (Plebiscito en Chile y elecciones en Estados Unidos. In:

Revista de derecho político, Nº 29, 1989, págs. 215-228. Disponível em:

http://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=57006. Acesso em 17.03.2012).

504 Muitos sugerem que a conquista de 15 minutos diários de emissão televisiva gratuita pela

“campanha do ‘não’” – a chamada Franja Electoral – nos últimos dias antecedentes ao plebiscito, foi um fator decisivo para a derrota de Augusto Pinochet nas urnas. Partilham desse entendimento Pilar Mellado Prado (Plebiscito en Chile y elecciones en Estados Unidos. In: Revista de derecho político,

Nº 29, 1989, págs. 215-228. Disponível em: http://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=57006. Acesso em 17.03.2012) e Jose Luis Piñuel Raigada (La Cultura Politica del Ciudadano y la Comunicación Politica en TV, en la Transición Politica del Plebiscito Chileno - Octobre 1988. In: Reis: Revista española de investigaciones sociológicas, Nº 50, 1990, págs. 125-240. Disponível em: <http://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=248966>. Acesso em 17.03.2012).

505 De acordo com J. Samuel Valenzuela (La Constitución de 1980 y el Inicio - de la

Redemocratización en Chile. Working Paper #242 – September 1997. Disponível em: <http://kellogg.nd.edu/publications/workingpapers/WP_1997.shtml>. Acesso em 17.03.2012).

506 Conforme expõe Francisco Rojas Aravena (Chile: mudança política e inserção internacional,

1964-1997. In: Rev. bras. polít. int., Brasília, v. 40, n. 2, Dec. 1997. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-

73291997000200003&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 17.03.2012).

507 Segundo Constanza Moreira (Resistencia Política y Ciudadanía: Plebiscitos y Referéndums em el

Uruguay de los ’90. América Latina Hoy, nº 36, pp. 17-45, 2004 (abril). Disponível em: <redalyc.uaemex.mx/pdf/308/30803602.pdf>. Acesso em 21.03.2012).

os mecanismos de participação popular508 passam a fazer parte da Lei Maior do Uruguai, a qual sustentava que a soberania nacional seria exercida diretamente pelo corpo eleitoral nos casos de eleição, iniciativa e referendum, e indiretamente pelos poderes representativos (artigo 72).

A Constituição de 1967 introduziu o referendo nacional abrogativo e, atualmente, fazem parte do texto constitucional uruguaio o plebiscito, o referendo para leis de reforma da Constituição (nesse caso obrigatório) e para as demais leis, assim como a iniciativa popular para casos de reforma constitucional e para as demais leis509.

No Uruguai, plebiscito e referendum são conceitos distintos510. O referendum é o instituto pelo qual os cidadãos confirmam ou rejeitam uma lei que tenha sido aprovada, no prazo de um ano de sua promulgação. O plebiscito511 é o ato por meio

do qual o povo aprova ou recusa um regime constitucional, proposto e formulado de acordo com quaisquer dos procedimentos dispostos no artigo 331512. Esse dispositivo prevê que a Constituição Uruguaia poderá ser reformada, total ou parcialmente: a) por iniciativa de dez por cento dos cidadãos inscritos no Registro Cívico Nacional, os quais apresentarão um projeto articulado que posteriormente, será submetido a plebiscito; b) por dois quintos do total de membros da Assembléia Geral, que apresentarão projetos de reforma; c) por senadores, representantes e

508 No entanto, Daniel Zovatto adverte que desde a Constituição de 1919 já havia a aplicação de

alguns institutos de democracia direta a nível local. (Las instituciones de la democracia directa a nivel nacional en América Latina. Balance comparado: 1978-2010. Revista de Sociología, Norteamérica,

011 07 2011. Disponível em:

<http://www.revistas.uchile.cl/index.php/RDS/article/viewArticle/14408/14718>. Acesso em 20.03.2012)

509 Mônica de Melo, Plebiscito, Referendo e Iniciativa Popular: mecanismos constitucionais de

participação popular, Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 2001, pp. 117-118.

510Sobre a distinção entre plebiscito e referendo, assinala Constanza Moreira: “En Uruguay hay dos

tipos básicos de mecanismos de democracia directa: el plebiscito y el referéndum. El plebiscito es de carácter constitucional y aprobatorio: sirve para aprobar textos constitucionales. El referéndum por el contrario se refiere a las leyes, no a la Constitución, y se usa para derogar leyes ya votadas. Plebiscitos y referéndums pueden, además, estar o no vinculados al proceso electoral nacional (se votan junto con las elecciones nacionales) o constituir una instancia única y separada [...].”.(Resistencia Política y Ciudadanía: Plebiscitos y Referéndums em el Uruguay de los ’90. América Latina Hoy, nº 36, pp. 17-45, 2004 (abril). Disponível em: <redalyc.uaemex.mx/pdf/308/30803602.pdf>. Acesso em 21.03.2012)

511 O plebiscito uruguaio assemelha-se muito à figura do referendo constitucional, tratado no direito

estrangeiro.

512 Constitución de la República de Uruguay. Disponível em:

pelo Executivo, que apresentarão projetos de reforma, os quais deverão ser aprovados por maioria absoluta dos membros da Assembléia Geral; d) por leis constitucionais cuja sanção dependerá de dois terços do total de membros de cada uma das Câmaras dentro de uma mesma Legislatura. Nos casos das letras “a” e “b”, para que o plebiscito seja afirmativo, se exigirá o “SIM” da maioria absoluta dos cidadãos, que represente, ao menos, trinta e cinco por cento do total de inscritos no Registro Cívico Nacional. Na hipótese da letra “c”, aprovada a iniciativa, o Executivo convocará uma Convenção Nacional Constituinte, que deliberará sobre as iniciativas aprovadas para reforma. Os projetos elaborados pela Convenção serão submetidos ao Corpo Eleitoral, que votará por “SIM” ou “NÃO”, considerando-se aprovada a reforma pela maioria de votos, que não poderá ser inferior a trinta e cinco por cento dos cidadãos. As leis mencionadas na letra “d” entrarão em vigor, logo que o eleitorado as ratifique por maioria de votos.

Dessa forma, o plebiscito não figura como instituto de democracia direta, mas sim, como uma última etapa de um processo de reforma constitucional, que, para ser considerado válido e legítimo, deve culminar na consulta ao povo para aprovação ou rejeição da reforma constitucional projetada. 513 Para dar-se início a um plebiscito, é necessário que dez por cento514 dos cidadãos inscritos no Registro Civil Nacional apresentem um projeto articulado de reforma, total ou parcial, da Constituição, que será levado ao Presidente da Assembléia Geral (artigo 331, “A”).

Segundo a pesquisa de Daniel Zovatto 515, podem-se destacar os plebiscitos realizados entre 1980 e 2010 no Uruguai: plebiscito de novembro de 1980 (nova

513 Conforme ensina Rodolfo González Rissotto (La Democracia Directa en Uruguay. In: Revista de

Derecho Electoral – Tribunal Supremo de Elecciones, n. º 6, segundo Semestre 2008. Disponível em:

<http://www.tse.go.cr/revista/catalogo_autor.htm?zoom_highlight=rodolfo+gonz%E1lez+rissotto >. Acesso em: 24.03.2012).

514 Diferentemente do referendo, cuja iniciativa clama pela adesão de vinte e cinco por cento do

eleitorado nacional, o que, comparativamente à exigência de iniciativa plebiscitária, resulta numa diferença entre 240.000 a 600.000 cidadãos, de acordo com informações de Constanza Moreira, em obra desenvolvida no ano de 2004 (Resistencia Política y Ciudadanía: Plebiscitos y Referéndums em el Uruguay de los ’90. América Latina Hoy, nº 36, pp. 17-45, 2004 (abril). Disponível em: <redalyc.uaemex.mx/pdf/308/30803602.pdf>. Acesso em 21.03.2012).

515 De acordo com informações de Daniel Zovatto (Las instituciones de la democracia directa a nivel

nacional en América Latina. Balance comparado: 1978-2010. Revista de Sociología, Norteamérica,

011 07 2011. Disponível em:

<http://www.revistas.uchile.cl/index.php/RDS/article/viewArticle/14408/14718>. Acesso em 20.03.2012).

Constituição proposta pelo regime militar – rejeitado); plebiscito de novembro de 1989 (reforma constitucional para fixar procedimentos e critérios para fins de aumentar periodicamente as aposentadorias e pensões – aprovado); plebiscito de agosto de 1994 (reforma constitucional para separar na cédula as eleições nacionais e municipais – rejeitado); plebiscitos de novembro de 1994 (reforma constitucional para estabelecer regras de proteção aos aposentados e pensionistas – aprovado; reforma constitucional para estabelecer regras de proteção aos aposentados e pensionistas – rejeitado); plebiscito de dezembro de 1996 (reforma constitucional para modificação dos sistema eleitoral – aprovado); plebiscitos de outubro de 1999 (reforma constitucional para proibir a candidatura de funcionários de empresas estatais – rejeitado; reforma constitucional para estabelecer uma porcentagem fixa do orçamento para o Poder Judiciário – rejeitado); plebiscito de outubro de 2004 (reforma constitucional para incluir normas sobre direito e utilização dos recursos hídricos 516 - aprovado); plebiscito de outubro de 2009 (anular a “Ley

de Caducidad” 517 - rejeitado).

Importante ressaltar que, no Uruguai, o financiamento dos mecanismos de democracia direta fica por conta daqueles que lhes dão causa, ou seja, não há participação direta nem indireta do Estado no financiamento desses institutos, a não ser nos gastos que surjam à Corte Eleitoral, advindos da organização dos atos e procedimentos necessários para realizar a chamada às eleições. Os titulares dos projetos de iniciativa popular, de reforma constitucional, ou de referendo contra leis nacionais ou decretos das Juntas Departamentais, terão o encargo de cobrir os gastos originados da colheita de assinaturas dos cidadãos, bem como das propagandas destinadas a difundir seus programas de ação. Por não haver

516 A aprovação do plebiscito resultou na proibição da permanência dos recursos hídricos em mãos

de particulares e de empresas privadas; todos os serviços de fornecimento de água potável deveriam permanecer em mãos de empresas estatais. (Daniel Zovatto, Las instituciones de la democracia directa a nivel nacional en América Latina. Balance comparado: 1978-2010. Revista de Sociología, Norteamérica, 011 07 2011. Disponível em:

<http://www.revistas.uchile.cl/index.php/RDS/article/viewArticle/14408/14718>. Acesso em 20.03.2012).

517 Trata-se da lei que estabeleceu a caducidade do exercício da pretensão punitiva do Estado

financiamento público, não há normas que estabeleçam a prestação de contas relativas às campanhas de adoção dos institutos de democracia direta. 518

Da mesma forma, não há normas que regulem a realização de publicidade e propaganda dos atos de referendo (atos de adesão), de iniciativa popular e dos atos de plebiscito de ratificação de reforma constitucional. Todo e qualquer tipo de propaganda e publicidade pode ser realizado e em qualquer meio de comunicação, seja a imprensa escrita, falada ou televisiva, na modalidade “aberta” ou para assinantes. A propaganda é formulada pelos interessados, partidários e opositores ao referendo ou ao plebiscito e pode referir-se a tudo que se entenda relacionado ao mecanismo de democracia direta que se esteja promovendo. A única restrição imposta é a denominada “veda de propaganda política” que, de acordo com a Lei nº 16.019 de 11 de abril de 1989, dispõe que a propaganda, favorável ou contrária, direta ou indireta, deve cessar quarenta e oito horas antes do dia em que se realizará o referendo ou o plebiscito. Nas campanhas relativas a referendo, plebiscito ou à iniciativa popular, o acesso à informação acerca das propostas de votação é totalmente livre e amplo, justamente para que os cidadãos possam obter o conhecimento necessário para aderirem ou não à idéia veiculada.519

No documento Plebiscito (páginas 186-190)