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2.4 Sobre o empreendimento genealógico

2.4.3 O poder sobre o corpo

É como força de produção que o corpo é investido por relações de poder e de dominação, e ele só se torna útil se é ao mesmo tempo dócil e submisso. Todavia, não se trata aqui de cuidar do corpo como se fosse uma unidade indissociável, mas de trabalhá-lo detalhadamente, de exercer sobre ele uma pressão sem folga. Esse método capaz de permitir o controle minucioso das operações do corpo e de realizar a sujeição constante de suas forças e lhe impor essa noção de docilidade-utilidade, são o que Foucault (2013 [1975]) chama de disciplinas.

Essas disciplinas, permeadas por técnicas “minuciosas, muitas vezes íntimas” (FOUCAULT, 2013, p. 134 [1975]), têm a importância de definir certo modo de investimento político e detalhado do corpo, uma microfísica do poder. A disciplina é a “anatomia política do detalhe”. Ao cuidar dos detalhes, organiza também um espaço analítico, como os colégios, os quartéis e os hospitais.

Esse novo saber sobre o homem legitima-se através de técnicas, para sujeitá-lo e processos, para utilizá-lo, dentre os quais se destaca o dispositivo hospitalar. Nesse, a técnica disciplinar funciona sob mecanismos de sanções normalizadoras, e através dessa homogeneidade que é a regra, identificam-se as diferenças individuais. Essa visibilidade das diferenças individuais é garantida através do exame, onde a superposição das relações de poder e de saber alcança sua forma máxima, pois o exame liga certo tipo de formação de saber a certa forma de exercício de poder. O exame assume o que Foucault (2013 [1975]) denomina de “campo de documentário”.

O resultado disso é um arquivo inteiro com detalhes e minúcias que se constitui no nível dos corpos e dos dias. O exame que coloca os indivíduos num campo de vigilância e os situa igualmente numa rede de anotações escritas; compromete-os em toda uma quantidade de documentos que os captam e os fixam. [...] Um “poder de escrita” é constituído como uma peça essencial nas engrenagens da disciplina. (FOUCAULT, 2013, p. 181 [1975])

Em função de todo esse aparato de escrita, o exame abre algumas possibilidades que se alinham: a constituição do sujeito como objeto descritível e passível de análise (através do reconhecimento de seus traços singulares, sua evolução particular, suas aptidões e capacidades) sob o controle de um saber permanente e também sob a constituição de um sistema comparativo que permite a medida de fenômenos globais. Conforme Foucault (2013 [1975]) a importância decisiva dessas pequenas técnicas de anotações, de registros, de constituição de processos são o que permitiu a liberação epistemológica das ciências do homem.

É necessário observar esses processos de escrita e de registro, é preciso atenção aos mecanismos de exame, da formação dos dispositivos de disciplina e da formação desse novo tipo de poder sobre os corpos, pois são aí que se encontram os jogos das coerções sobre os corpos, os gestos e os comportamentos. É o exame cercado de todas as suas técnicas documentárias que faz de cada indivíduo um caso. O caso não permanece na lógica da casuística, mas “[...] é o indivíduo tal como pode ser descrito, mensurado, medido, comparado a outros e isso em sua própria individualidade; e é também o indivíduo que tem que ser treinado ou re-treinado, tem que ser classificado, normalizado, excluído, etc.” (FOUCAULT, 2013, p. 183 [1975]).

Os procedimentos disciplinares reviram as relações de escrita e de historiografia, uma vez que fazem dessa descrição um meio de controle e um método de dominação. Essa transcrição por escrito das vidas reais funciona como processo de objetivação e sujeição. O exame está, portanto, no centro dos processos que constituem o indivíduo como efeito e objeto de poder, como efeito e objeto de saber: “[...] o registro do patológico deve ser constante e centralizado. A relação de cada um com sua doença e sua morte passam pelas instâncias do poder, pelo registro que delas é feito, pelas decisões que elas tomam.” (FOUCAULT, 2013, p. 187 [1975]). Percebe-se, facilmente, como é possível fabricar indivíduos submissos e através dele constituir um conhecimento no qual se pode confiar. Encontra-se aqui o duplo efeito da técnica disciplinar que é exercida sobre os corpos: uma alma a conhecer e uma sujeição a manter.

Tomo, novamente, o objeto deste trabalho de mestrado: a produção do sujeito alcoolista será investigada através dos laudos dos profissionais-peritos. São os laudos desses profissionais, os relatos sobre as condutas e os comportamentos que justificam a internação compulsória autorizada pela Justiça. Ali, fica evidenciado como a disciplina implica, solicita, demanda um registro contínuo do conhecimento, através da produção de laudos e exames: “Ao mesmo tempo que se exerce um poder, produz um saber. O olhar que observa para controlar não é o mesmo que extrai, anota e transfere as informações para os pontos mais altos da hierarquia de poder?” (MACHADO apud FOUCAULT, 2015, p. 23 [1979]).

Foucault dedica-se com afinco à análise desse poder disciplinar. A disciplina não é uma instituição, nem um aparelho de Estado. É uma técnica de poder que funciona como uma rede que vai atravessar todas as instituições e aparelhos de Estado. Este poder que atua no corpo dos sujeitos usará a punição e a vigilância como principais mecanismos de adestramento e docilidade. A ideia de um sujeito útil e dócil é uma concepção positiva utilizada por Foucault para dissociar os termos repressão e dominação que definiam a intervenção violenta do Estado sobre os cidadãos. Essa disciplina é um mecanismo que propiciará uma transformação do sujeito, tirando da força do corpo sua força política e tornando máxima sua força útil. Todavia, apesar de se falar muito em força, o poder disciplinar não será imposto com uma forma de violência explícita, ele é discreto e sutil, para que não seja percebido, sobretudo pelo fato de já ter existido métodos violentos que não alcançaram resultados tão eficazes como a disciplina, conforme afirma Foucault:

[...] Muitos processos disciplinares existem há muito tempo: nos conventos, nos exércitos, nas oficinas também. Mas as disciplinas se tornaram no decorrer dos séculos XVII e XVIII fórmulas gerais de dominação. Diferentes da escravidão, pois não fundamentam numa relação de apropriação dos corpos; é até a elegância da

disciplina dispensar essa relação custosa e violenta obtendo efeitos de utilidade pelo menos igualmente grandes. (FOUCAULT, 2013, p. 133 [1975])