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3. O POSITIVISMO JURÍDICO

3.3. Positivismo jurídico e positivismo lógico

O positivismo jurídico, em especial da maneira como foi desenvolvido no século XX, notadamente no pensamento de Hans KELSEN, seu principal nome, guarda, a meu ver, mais semelhanças com o positivismo lógico do que com o positivismo

filosófico ou comteano.

O positivismo lógico, também denominado neo-positivismo ou empirismo

lógico, é uma corrente filosófica surgida no início do século XX, cujos maiores

expoentes formaram um grupo que se tornou conhecido como Círculo de Viena, e do qual, como já anotado, KELSEN fez parte.

O tema principal do positivismo lógico é a Filosofia da Ciência, e nesta o conhecimento científico é distinguido como sendo o único conhecimento possível. Afirmações – ou proposições – científicas são proposições passíveis de serem consideradas verdadeiras ou falsas, mediante verificação empírica. Em outras palavras, somente existe significado em proposições que possam ser reduzidas a dados da experiência imediata, a enunciados protocolares:

Pode-se talvez formular uma das teses fundamentais do positivismo desta maneira: todo termo da linguagem total L da ciência é redutível ao que podemos chamar de termos dos dados dos sentidos ou termos de percepções. Por termo de percepção entendemos um predicado “P” tal que “P(b)” significa: “a pessoa no lugar espaço-temporal b tem uma percepção do tipo P”. (CARNAP, 1975b, p. 197)

A esse critério - que permite distinguir o conhecimento científico do conhecimento não-científico, mediante a comparação com dados da experiência - denominou-se princípio da verificabilidade:

Parece-me ser um núcleo justo e incontestável das correntes “positivistas” o princípio de que o sentido de qualquer proposição se encerra absolutamente no fato da sua verificação no “dado”. (SCHLICK, 1975a, p .68/69)

Posteriormente, o princípio é reformulado em termos de confirmabilidade:

Todas as ciências empíricas (as ciências naturais, a psicologia, as ciências culturais) reconhecem e exercem na prática o requisito de que todo enunciado deve ter conteúdo fatual. Não faz diferença alguma que estejamos preocupados com a mineralogia, a biologia ou a ciência da religião: todo enunciado que se tenha de considerar significativo em qualquer um desses campos, isto é, que se considera verdadeiro ou

falso ou que se coloca em questão, ou retrocede diretamente até a experiência, isto é, até o conteúdo das experiências, ou liga-se pelo menos indiretamente com a experiência, de tal maneira que se pode indicar qual é a experiência possível que o confirmaria ou refutaria; em outras palavras, as experiências fundamentá-lo-iam, ou ele é testável ou ainda tem pelo menos conteúdo fatual. (CARNAP, 1975a, p.165)

Ainda posteriormente, os princípios da verificabilidade e da confirmabilidade são reformulados, por POPPER, em termos de falseabilidade ou refutabilidade, ou seja, pela idéia de que “deve ser possível refutar pela experiência um

sistema científico empírico” (POPPER, 1975, p. 274).

Para o positivismo lógico, proposições que não sejam científicas são consideradas como destituídas de qualquer significado ou sentido, ou seja, proposições com relação às quais o problema da veracidade e da falsidade não se coloca.17

No positivismo jurídico de KELSEN, as conclusões do positivismo lógico são, de certa forma, adaptados ao Direito. A doutrina do positivismo jurídico também adota a idéia de que o conhecimento científico do Direito somente pode se dar por meio da formulação de enunciados verificáveis pela experiência, fazendo uma clara distinção entre os juízos de fato e os juízos de valor, como se detalhará a seguir. Não obstante, a doutrina kelseniana do positivismo jurídico faz, neste ponto, uma distinção: a questão veracidade – falsidade subjacente ao princípio da verificabilidade (ou confirmabilidade, ou refutabilidade) é reformulada, no âmbito do positivismo jurídico, em termos de validade – invalidade da norma jurídica.

Por outro lado, o positivismo jurídico acentua a relatividade do conceito de justiça, colocando o problema da justiça como sendo de índole subjetiva, para o qual não é possível resposta científica, ou seja, uma questão para a qual a questão da verdade não se coloca.

17

A negação da existência de um mundo externo transcendente seria uma proposição tão metafísica quanto a sua afirmação. Por conseguinte, o Empirismo conseqüente não nega o transcendente, senão que afirma destituídas de sentido, na mesma medida, tanto a negação quanto a afirmação do transcendente. Esta última distinção é de máxima importância. Estou convencido de que a oposição principal à nossa concepção procede do fato de não se atender à diferença existente entre a falsidade de uma proposição e a ausência de sentido desta proposição. O enunciado “Carece de sentido falar de um mundo externo metafísico” não quer dizer o mesmo que “Não existe um mundo externo metafísico”, mas significa uma coisa inteiramente distinta. O que o empirista diz ao metafísico não é: “As tuas palavras afirmam uma coisa falsa”, mas “As tuas palavras não afirmam nada”. Não o contradiz, mas afirma: “Não compreendo o que queres dizer”. (SCHLICK, 1975a, p. 69/70).

É também de grande importância, no positivismo lógico, a discussão do princípio da causalidade, base da formulação das leis das ciências naturais. No positivismo jurídico, entretanto, o princípio da causalidade é reformulado em termos de princípio da imputação, dando forma à cientificidade própria do Direito.

Não desconheço que o positivismo jurídico kelseniano é tido, no âmbito da filosofia do Direito, como inspirado no pensamento de Kant, e por isso mesmo ligado às correntes denominadas de neo-kantianas, por conta, especialmente, da distinção entre ser e dever-ser, que é, segundo o próprio Kelsen (1999, p.06), “um dado

imediato da nossa consciência”. Não considero que essa vinculação da doutrina Kelsen

ao pensamento de Kant seja incompatível com a idéia aqui apresentada, até porque ela decorrre, a meu ver, da crítica do primeiro ao jusnaturalismo racionalista do segundo.

Assim, o positivismo jurídico – ao menos em sua expressão mais moderna e teoricamente sofisticada, a doutrina do positivismo jurídico de KELSEN – é inspirado, a meu ver, no positivismo lógico. A impropriedade de tal tentativa de conciliação e suas implicações são retomadas no tema da cientificidade do Direito.