2. DEMOCRACIA REPRESENTATIVA, LIBERALISMO E
2.2. Pressupostos para a democracia representativa
Visto sob esse enfoque, o Estado liberal nasce e deve ser compreendido como uma contínua e progressiva erosão do poder do rei, de uma mitigação do poder absoluto. Enquanto racionalmente é justificado no contratualismo como resultado de um acordo entre indivíduos para a convivência pacífica e duradoura, sob o prisma econômico, pode ser entendido como o alargamento da esfera da liberdade do indivíduo diante dos poderes públicos. As duas principais esferas nas quais isso ocorre são a religiosa e a econômica.
No campo político, o representante (cavaleiros e burgueses) que originalmente assumia uma representação em nome de uma certa comunidade para apresentar queixas e temas litigiosos ao Rei, foi elevado a corpo representativo consolidado que, em lugar de seus representados, governava a sociedade mediante critério de decisão majoritária.
Não apenas o advento da doutrina da soberania popular que sobreveio à autorização divina, o poder econômico transferido às mãos dos comerciantes conduziu à “desfeudalização”, cujo avanço beneficiou a burguesia. Este Estado era como uma “coexistência de liberdade, fundada sob contrato social e tutelada pelo direito” e preconizava a limitação dos poderes para aquele novo equilíbrio de forças (PAUPÉRIO, 1997:68).
Conjugando o contexto social com a pregação de uma teoria que compreendia a soberania como qualidade do poder – e não essência – do Estado, a limitação do poder mostrava-se necessária ao avanço do capitalismo. No princípio da separação funcional do poder, o poder legislativo pertencia à vontade coletiva do povo, expressa no sufrágio. Se de um lado afirmava a soberania do povo, de outro, a delegava a representantes.
A estruturação do Estado, a detenção do poder e a limitação de direitos, portanto, são os pontos centrais das teorias que, conforme suas variações, reconhecerão aos cidadãos maiores, menores ou nenhum direito à determinação das regras que vão da propriedade à liberdade. Para parte dos povos, “construir” a Nação foi o meio de se alcançar a democracia burguesa. A proclamação do poder estatal ante qualquer ameaça externa tornou-se uma característica essencial do Estado moderno. Através da soberania do povo consolidou-se o princípio democrático.
Em termos históricos o surgimento do Estado liberal coincide com o fim dos Estados confessionais e a formação de um Estado neutro.
Tanto em Kant quanto em Smith a doutrina dos limites do Estado funda-se sobre o primado da liberdade do indivíduo com respeito ao poder soberano e, com consequência, sobre a subordinação dos deveres do soberano aos direitos ou interesses do indivíduo (BOBBIO, 2013:23).
O pressuposto filosófico do Estado liberal é a doutrina dos direitos do homem elaborada pelo jusnaturalismo: todos os homens têm por natureza certos direitos fundamentais (direito à vida, à liberdade, à segurança) que o Estado deve respeitar e proteger contra toda possível invasão por parte de outros.
Para o jusnaturalismo, como já exposto, existem leis não postas pela vontade humana das quais derivam toda e qualquer lei moral ou jurídica. O jusnaturalismo é o pressuposto filosófico do liberalismo porque ele serve para fundar os limites do poder à base de uma concepção da natureza do homem. Locke, como um dos fundadores do liberalismo, sustentou o primado da igualdade e perfeito estado de liberdade existente num Estado governado por uma lei da natureza que
ensina a todos os homens, desde que desejem consulta-la, que, sendo todos iguais e independentes, ninguém deve provocar danos aos demais no que se refere à vida, à saúde, à liberdade ou às posses (LOCKE, 2011:16).
Esse pressuposto doutrinário que reside no estado inicial de liberdade do homem, a usa para construir uma sociedade com soberania limitada. Rousseau, do mesmo modo, afirmou que o homem é livre por natureza. Não haveria, então, qualquer condição natural que fizesse a uns comandantes e a outros comandados.
Se me limitasse a considerar a força e o efeito que dela deriva, eu diria: se um povo é constrangido a obedecer e obedece, faz bem; mas, se é capaz de abalar o jugo e o abala, faz ainda melhor, pois recuperando sua liberdade mediante o mesmo direito pelo qual ela lhe foi arrebatada, ou vê nele base para retomá-la ou não havia, de modo algum, direito para que dele a subtraíssem (ROUSSEAU, 2015:11).
O contrato imaginado por Rousseau explicava a reunião de indivíduos em torno da garantia da liberdade individual. Contando com a igualdade individual, Rousseau concluiu que o poder soberano na república, uma vez
instituído pela concordada vontade de todos, tornava-se infalível e “não precisa dar garantias aos súditos, pois é impossível que o corpo queira ofender a todos os seus membros” (BOBBIO, 2013:9). É o que também consta no artigo 2º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789: “o objetivo de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e não prescritíveis do homem.”
Com a doutrina do direito natural e com o contratualismo, o Estado passou a ser visto sobretudo em seu aspecto de associação voluntária para a defesa da vida, da propriedade e da liberdade. A afirmação dos direitos naturais e a teoria do contrato social estão estreitamente ligados. A ideia de que o exercício do poder político apenas é legítimo se fundado sobre o consenso daqueles sobre os quais deve ser exercido, é uma ideia que deriva da pressuposição de que os indivíduos têm direitos que não dependem da instituição do governante e que sua instituição tem como principal função permitir a máxima explicitação desses direitos em termos compatíveis com a segurança social.
Apesar de tanto a democracia direta quanto a indireta descenderem do mesmo princípio da soberania popular, a democracia representativa nasceu da convicção de que os representantes eleitos pelos cidadãos estariam em condições de avaliar quais seriam os interesses gerais melhor do que os próprios cidadãos.
A delegação do governo a um pequeno número de cidadãos de provada sabedoria tornaria menos provável o sacrifício do bem do país a considerações particularistas e transitórias. Um Estado liberal, contudo, não é necessariamente democrático: ao contrário, realizou-se historicamente em sociedades nas quais a participação no governo era restrita, limitada às classes possuidoras.
2.3. Democracia burguesa: o sistema representativo segundo John Stuart