2.2 A base principiológica do Direito do Trabalho
2.2.2 Os princípios do Direito do Trabalho
2.2.2.4 Princípio da continuidade da relação de emprego
No Direito do Trabalho, a regra é contratar o empregado por prazo indeterminado, tanto que as exceções (contratos por prazo determinado) são poucas e sempre expressas na legislação.231 Ademais, havendo dúvida se o empregado foi contratado por prazo determinado ou não, por força do princípio em tela, adota-se sempre o entendimento de que o contrato firmado foi por prazo indeterminado.
Segundo Rodriguez, “Para compreender este princípio devemos partir da base que o contrato de trabalho é um contrato de trato sucessivo, ou seja, que a relação de emprego não se esgota mediante a realização instantânea de certo ato, mas perdura no tempo. A relação empregatícia não é efêmera, mas pressupõe uma vinculação que se prolonga”.232
Tal ocorre porque parte-se do pressuposto de que o empregado necessita do emprego
230 “Súmula n. 12. Anotações em carteira de trabalho. As anotações apostas pelo empregador na carteira
profissional do empregado não geram presunção juris et de jure, mas apenas juris tantum”.
231 A respeito, vide o artigo 443 da CLT, cujo teor é o seguinte: “O contrato individual de trabalho poderá ser
acordado tácita ou expressamente, verbalmente ou por escrito e por prazo determinado ou indeterminado. § 1º - considerar-se-á como de prazo determinado o contrato de trabalho cuja vigência dependa de termo prefixado ou da execução de serviços especificados ou ainda da relação de certo acontecimento suscetível de previsão aproximada. § 2º - O contrato por prazo determinado só será válido em se tratando: a)de serviço cuja natureza ou transitoriedade justifique a predeterminação do prazo; b) de atividades empresariais de caráter transitório; c) de contrato de experiência”. (grifou-se).
para sobreviver, sendo em razão dele que recebe o salário, parcela de natureza alimentar, vital para o trabalhador e para a sua família.
Nessa esteira, e nada obstante, cumpre-se realçar que tal princípio opera-se tão-só em favor do trabalhador, nunca do empregador. Assim, por exemplo, não poderá este último invocá-lo para justapor-se ao livre desligamento do emprego, pelo empregado.
Nesse sentido, registra-se a crítica formulada por Delgado:
O princípio examinado perdeu parte significativa de sua força com a introdução do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço no Brasil, em 1967 (Lei n. 5.107/66), desprestigiando o sistema estabilitário e indenizatório então vigorante na CLT (a nova lei passou a permitir, no momento da admissão, uma opção pelo sistema do Fundo – a qual se tornou tendência dominante, na prática). O sistema do FGTS transformou a dispensa sem justa causa em verdadeiro ato potestativo do empregador, frustrando o incentivo à permanência do pacto. Tempos depois, a Carta de 1988 generalizaria o sistema do Fundo de Garantia ao conjunto do mercado de trabalho, eliminando a antiga opção.233
Exemplo desse princípio na legislação pode ser encontrado no instituto do aviso prévio. Aqui, consoante o artigo 489, parágrafo único, da CLT234, a renúncia tácita do aviso prévio é admitida. Assim, se o trabalhador continuou a trabalhar após a expiração do prazo do aviso prévio, presume-se que o empregador desistiu de despedir o empregado, de modo que, se quiser promover a despedida novamente, deverá conceder novo pré-aviso.
Também, se houver dúvida quanto à causa do término do contrato de trabalho, se por iniciativa do empregador ou do empregado, resolve-se pela presunção de que este foi despedido, pois, em face do princípio em tela, presume-se que o empregado não desejou desligar-se do emprego, por precisar do salário para sobreviver.235
Já no plano jurisprudencial, pode-se ilustrar o assunto com o julgamento do recurso de embargos em sede de decisão de recurso de revista n. 628545,236 pela Subseção I
233 DELGADO, op. cit., 2004, p. 210, grifo do autor.
234 Cuja redação segue: “Art. 489. Dado o aviso prévio, a rescisão torna-se efetiva depois de expirado o respec-
tivo prazo, mas, se a parte notificante reconsiderar o ato, antes de seu termo, à outra parte é facultado aceitar ou não a reconsideração. Parágrafo único. Caso seja aceita a reconsideração ou continuando a prestação depois de expirado o prazo, o contrato continuará a vigorar, como se o aviso não tivesse sido dado”.
235 A respeito, cita-se a súmula 212 do TST: “O ônus de provar o término do contrato de trabalho, quando
negados a prestação de serviço e o despedimento, é do empregador, pois o princípio da continuidade da relação de emprego constitui presunção favorável ao empregado”.
236 “Justa Causa. Desídia. Necessidade de Aplicação de Prévias Medidas Disciplinares. As reiteradas ausências
do empregado ao serviço sem justificativa exigem uma adequada reação do empregador, mediante a aplicação de sanções disciplinares de cunho pedagógico, considerando a natureza da falta e a gradação das penalidades aplicadas, a fim de buscar a correção do comportamento desidioso do empregado. Somente após tais procedimentos é que o empregador poderia aplicar a pena máxima, qual seja, a demissão com justa causa. Embargos conhecidos por divergência e desprovidos. Rel.: Min. Aloysio Corrêa Veiga. DJ: 5.08. 05”.
Especializada em Dissídios Individuais do Tribunal Superior do Trabalho, no qual restou pontuado que, à exegese do princípio da continuidade da relação de emprego, a despedida com justa causa baseada em reiteradas ausências do empregado deveria ser precedida de sanções disciplinares de cunho pedagógico. Constou no voto do relator:
Entretanto, em face da gravidade que o término do ajuste laboral decorrente desse dispositivo consolidado implica na vida funcional de uma pessoa, além de a nossa legislação ter como princípio da continuidade da relação de emprego, necessário se faz que, antes, o empregador, no uso de seu poder disciplinar aplique ao empregado medidas educacionais a fim de alterar o comportamento inadequado. (grifou-se)
Em síntese, o princípio da continuidade da relação de emprego, como o próprio nome aponta, visa a preservar o desenvolvimento da relação contratual entre empregado e empregador, já que o primeiro precisa da remuneração para manter a si e à sua família, presumindo-se, por tal razão, que não deseja desligar-se do emprego e, conseqüentemente, da fonte de renda alimentar.