CAPÍTULO V CARACTERIZAÇÃO DE RISCO
V.3. Procedimentos Para Caracterizar os Riscos
Os procedimentos básicos para caracterizar os riscos são (OPS/EPA, 1996):
• apresentar os procedimentos para estimar o risco mediante a combinação do cálculo da dose com os dados sobre dose-resposta;
• analisar a somatória de riscos;
• apresentar os descritores de risco;
• assinalar as incertezas.
Para as substâncias não carcinogênicas os procedimentos são (Quadro V.3) (OPS/EPA, 1996):
1. Comparar a exposição atual com a DRf ou IDA (índice de perigo - IP): Exposição Medida (mg/kg-peso/dia)
IP =
DRf ou IDA (mg/kg-peso/dia)
2. Estimar a margem de exposição (ME): NOAEL (estudo crítico) ME =
Exposição Medida
Para substâncias carcinogênicas os procedimentos são (Quadro V.3) (OPS/EPA, 1996):
1. conhecer a “unidade de risco” e a “unidade de dose” para a substância; 2. estimar o excesso de risco individual para toda a vida:
unidade de risco x concentração atual da substância no ambiente 3. Estimar o risco de cancêr na população:
risco individual x população exposta
Estes procedimentos são também acompanhados de uma descrição qualitativa do risco.
O estimado para a “unidade de risco” para uma substância carcinogênica presente no ar se define como o risco de contrair cancêr durante todo o período de vida que se apresenta em uma população na qual todos os indivíduos estão continuamente expostos, desde o nascimento até o final de sua vida, à uma concentração da substância de 1 µg/m3 no ar que respiram (OPS/EPA, 1996).
O estimado para a “unidade de risco” para uma substância carcinogênica presente na água se define como o risco de contrair cancêr durante todo o período de vida que se apresenta em uma população na qual todos os indivíduos estão continuamente expostos, desde o nascimento até o final de sua vida, à uma concentração da substância de 1 µg/m3 na água que bebem (OPS/EPA, 1996).
Os estimados nas unidades de riscos se utilizam com dois objetivos:
• comparar várias substâncias entre si, em termos de potência carcinogênica;
• dar uma indicação geral dos riscos para a saúde humana que poderiam estar associados com a exposição à estas substâncias, caso se conheçam as exposições reais.
O cálculo do risco individual de cancêr é realizado do seguinte modo (Quadro V.4) (OPS/EPA, 1996):
• potência da substância segundo “unidade de dose”(FPC) x dose medida;
• potência da substância segundo “unidade de risco (UR) x concentração da substância em um meio específico.
O cálculo do risco populacional de cancêr é realizado do seguinte modo(Quadro V.4) (OPS/EPA, 1996):
• incidência de cancêr = risco individual x população exposta.
Para melhor explicitar estes cálculos será utilizado o exemplo hipotético do berílio, um carcinogênico pulmonar. Seus dados são os seguintes (OPA/EPA, 1996):
• FPC = 8,4 por mg/kg/dia;
• UR = 2,4 x 10-3 por µg/m3
•exposição por via respiratória
•taxa média de ventilação pulmonar de um adulto = 20m3/dia
• peso médio de um adulto = 70 kg
• população total = 1 milhão de pessoas
De acordo com estes dados, o cálculo do risco individual ficaria do seguinte modo: 0,0004 mg/m3 x 20 m3 • segundo o FPC = 8,4 x 70 kg = 8,4 x 0,000114 = 0,00096 ou 9,6 x 10-4 • segundo a UR = 2,4 x 10-3 x 0,4 = 9,6 x 10-4
Para o risco populacional o cálculo da incidência de casos de cancêr pulmonar seria: incidência de casos de câncer pulmonar = 9,6 x 10-4 x 1.000.000 = 960 casos
A partir destes cálculos é realizado o somatório de riscos das diferentes substâncias, sendo que (Quadro V.5) (OPA/EPA, 1996):
• para substâncias carcinogênicas, supõe-se que os riscos são aditivos no mesmo órgão;
• para substâncias não carcinogênicas, somam-se os índices de perigo (IP) para cada tipo de manifestação toxicológica, como por exemplo:
IP = Dose A + Dose B = ... DRfa DRfb
É também realizado o somatório das diferentes rotas e vias de exposições devendo-se (Quadro V.6) (OPA/EPA, 1996):
• verificar a suposição de que o indivíduo está exposto através de múltiplas rotas;
• corrigir de acordo as diferentes taxas de absorção quando as rotas que levam a ingestão compreendem vários transmissores;
• somar somente as rotas que afetam o mesmo órgão para os riscos não carcinogênicos;
• utilizar, de modo ideal, modelos farmacocinéticos.
Toda esta série de procedimentos permitem, por exemplo, caracterizar os riscos nos seguintes modos extremos (Quadro V.7) (OPA/EPA, 1996):
• A substância A é provavelmente carcinogênica para seres humanos, possuindo um risco unitário de câncer de 5 x 10-3. Os seres humanos expostos à esta substância apresentam um excesso de risco de cancêr de 1 x 10-5 ou de 1 em 100.000.
• A substância A foi identificada como causando cancêr em animais de laboratório, de modo que é prudente limitar a exposição de seres humanos, ainda que não tenhamos provas de carcinogenicidade em seres humanos.
Os descritores de risco individual baseiam-se nos cálculos de tendência central de média, mediana e/ou ambos (Quadro V.8). Os cálculos de extremo superior devem (Quadro V.9) (OPA/EPA, 1996):
• descrever a exposição, a dose e o risco para os indivíduos a nível de ou acima do percentual de 90% na distribuição populacional;
• não serem maiores que o indivíduo com a exposição, dose ou risco mais alto.
Já o risco populacional é uma projeção probabilística da incidência do efeito em uma população exposta por toda a vida (70 anos), a qual divide-se por 70 para obter-se o risco anual, sendo (Quadro V.10) (OPA/EPA, 1996):
• risco populacional = Σ de riscos individuais = tamanho da população x média do risco individual.
Os descritores de riscos populacionais tem por objetivo (Quadro V.11) (OPA/EPA, 1996):
• estimar o número de indivíduos afetados em uma população em um dado período de tempo específico;
• estimar o percentual da população ou o número de pessoas que estejam acima de um nível específico de risco, de DRf, de CRf ou de um nível de interesse especial. É extremamente importante observar que todo o processo de avaliação de riscos, da identificação do perigo à avaliação da exposição é marcado por diversas incertezas que surgem. Estas incertezas também devem ser avaliadas e apresentadas na caracterização do risco, tendo por objetivo (QuadroV.12) (OPA/EPA, 1996):
• localizar os resultados em um contexto;
• agregar integridade à análise;
• orientar novas coletas futuras de dados.
As incertezas, que representam a falta de conhecimento acerca de o quanto corretas são as medições ou os cálculos, diferem da variabilidade, que consiste na diferença nos níveis de exposição entre os indivíduos (Quadro V.13) (OPA/EPA, 1996). Os modos de expressar a variabilidade são (Quadro V.14) (OPA/EPA, 1996):
• calcular as medidas de tendência central e de dispersão da exposição;
• calcular a exposição no extremo superior;