2 COMUNIDADES LEITORAS NA UNIVERSIDADE:
2.4 Protocolos de leitura
Saber ler é outra coisa, que não é apenas poder decifrar um único livro, mas mobilizar, com utilidade ou por prazer, as múltiplas riquezas das culturas.
Roger Chartier
À ideia de uma leitura entendida como um trabalho intelectual sobreleva-se ao conhecimento sobre as várias formas de socialização dos gêneros literários e dos comandos paratextuais que compõem as obras. Os protocolos de leitura são dispositivos
textuais que podem estar marcados nos textos por comandos linguísticos ou extralinguísticos. São sinais de identificação que funcionam como parâmetros de orientação de leitura e têm por finalidade fornecer marcações prescritivas para o entendimento de um texto ou discurso.
Nas comunidades de leitura científicas, esses protocolos se configuram como indicações de nomes dos teóricos que integram uma determinada linha de pesquisa, por exemplo. São uma espécie de “caderno de lugares comuns, que reúne, em suas rubricas, citações, exemplo, sentenças e experiências” (CHARTIER, 2003, p. 163), relacionadas aos compartilhamentos de pontos de vista alinhados para um determinado objeto. Assim como no mercado editorial, os protocolos de leitura acadêmica representam marcações, pistas, índices que conduzem os leitores para a escolha de determinados textos, a partir desses critérios.
Regidos pelas valorações que perpassam o funcionamento do mundo cultural, social e, no caso da escrita acadêmica, os critérios científicos, os protocolos de leitura, no contexto de uma comunidade leitora científica, servem para direcionar as escolhas de quais teorias devem ser lidas. Direcionam, principalmente, “as formas de ler”. São intervenções que antecipam as expectativas partilhadas por um público para com esses textos e que, portanto, influenciam na interpretação e na compreensão desses objetos. Nesse processo, convém considerar “que a leitura é sempre uma prática encarnada de gestos, espaços, hábitos” (CHARTIER, 1991, p.4) que dão sentido ao mundo de cada comunidade de forma diferente.
De acordo com Chartier (1988), as maneiras de realização de leitura, em conformidade com os parâmetros protocolares que regem suas escolhas, podem assumir posicionamentos que apontam para dois tipos de prática de leitura: a) leitura realizada de maneira fragmentada; e b) leitura realizada de maneira plural.
A prática de leitura realizada de maneira fragmentada consiste em uma forma de ler, em que o sujeito não demostra formas de apreensão do conteúdo das palavras do outro, não estabelece uma relação entre as partes narrativas que compõe o todo do texto e/ou em relação aos outros textos que o antecedem ou sucedem. Constitui-se em uma maneira de ler que não estabelece uma linearidade de forma a relacionar os contextos históricos ou interdiscursivos discutido no texto. É uma leitura que se compõe de fragmentos e, por isso, quando esse discurso é convocado para dá sustentação a um escrito, pode-se verificar, várias vezes, o emprego dos mesmos conceitos (fala sempre da mesma temática) ou usa somente algumas partes do texto, de modo a “não
estabelecer qualquer relação íntima, qualquer relação individualizada entre o leitor e aquilo que ele lê” (CHARTIER, 1988, p. 122).
Essa maneira de realização intelectual de leitura condiciona os sujeitos a manter contato com partes aleatórias das obras e, desse modo, tomarem conhecimento, apenas, de partículas dos textos. As obras adquirem, assim, um sentido de estatuto vazio, pois, o leitor não estabelece uma associação entre os acontecimentos da vida dos discursos, ou não se posiciona frente as temáticas discutidas. Por isso, quando usada em forma de citação, o sujeito enunciador mantem-se parcial frente à temática discutida na obra, citando, muitas vezes, apenas os conceitos-chave, os lugares comuns e ou as expressões feitas retiradas de diversos lugares do texto.
Essa modalidade de leitura induz o leitor a realizar uma escrita transmissiva do dizer do outro. Consiste, na verdade, em uma maneira de que torna o sujeito capaz de “só decifrar facilmente sequências breves e independentes que exige identificações explícitas” (CHARTIER, 1988, p. 175). Representa, portanto, a ótica delineada pelas narrativas orais memorizadas, onde o leitor toma conhecimento do enredo das histórias por meio de contadores, e, sob essa ótica, não realizam a leitura dessas narrativas. Forma que permite a construção de uma significação discursiva inacabada, no sentido de não compreensão das mensagens transmitida por esse discurso.
A prática de leitura realizada de maneira plural configura-se em uma maneira de ler resultante de um posicionamento ativo do sujeito leitor frente às obras lidas. Compreendida como sendo um trabalho intelectual, realizado, seja individual ou coletivamente, guiado pela curiosidade daquele que lê, em saber qual é o significado que o autor do texto, quis passar com as mensagens enunciadas. É um modo de realização de leitura que, em razão do comportamento adotado pelo leitor, estabelece uma relação íntima entre aquele que lê e a obra lida. Essa relação dota o leitor de uma competência leitora capaz de situar as temáticas discutidas nas obras, no tempo e no espaço em que os assuntos foram abordados.
Trata-se de uma leitura que corrobora para que o leitor torne-se um sujeito capaz de distinguir os embates ideológicos e as visões de mundo que marcam e dão sentido aos textos. Realizada de maneira intensiva, a leitura plural direciona o leitor a produzir uma escrita que obedece, sim, às regras morfossintáticas próprias da atividade escrita sem, no entanto, desconhecer as variações presentes nos atos enunciativos realizados na oralidade, sendo, portanto, “capaz de orientar a existência individual, que sabe entender na primeira pessoa aquilo que é proposto a todos” (CHARTIER, 1988, p. 123). A maneira pluralizada e exploratória das obras lidas permite, desse modo, ao leitor,
fundamentar seus escritos, utilizando-se de um repertório conceitual e mobilizando de forma transparente o dizer do outro, de modo a se orientar por esse discurso, sem contudo, deixar de construir a sua interpretação.
Como podemos observar, pelas considerações sobre o mundo ou campo em que se organizam as atividades de leitura e de escrita, é um espaço perpassado por estratégias que direcionam comportamentos leitores que, pela multiplicidade de formas de apropriação dos escritos, gera pluralidades de expectativas e condicionamentos que contribui para os mais adversos sentidos aos textos/discursos produzidos social ou cientificamente.
Nesse sentido, ressaltamos a pertinência das reflexões apresentadas em relação à leitura e à apropriação de conhecimentos por trata-se de conceituações que nos ajudam a compreender as estratégias intelectuais e os modos de apropriação de discursos teóricos, na produção de pesquisas científicas, na universidade.
No próximo capítulo, explicitamos o enfoque teórico que dá embasamento aos fatos linguísticos e enunciativos, relacionados às formas de representação do discurso outro, inseridas no fio das mensagens enunciadas em referência ao dizer da teoria. Apresentamos, assim, os modos utilizados para a análise linguística dos trechos selecionados das dissertações que compõem o nosso corpus de pesquisa.