1.2. Analisando a democracia
1.2.4. Qualidade da democracia
Como último foco das análises aqui realizadas sobre os modelos de análise sobre a democracia no contexto geral da ciência política, resta mencionar os principais trabalhos que têm sido desenvolvidos nos últimos anos e os quais têm adotado o tema da qualidade da democracia como foco central de suas considerações.
Tal movimento teria se dado em função do fato de que, uma vez que tem se observado certa estabilidade com relação à manutenção e durabilidade dos
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regimes democráticos, seria preciso a partir de então, voltar o foco para os aspectos que geram melhores resultados em termos do desempenho da democracia. De acordo com Altman e Pérez-Liñán (1993: 83):
Durante los últimos años, la mayor parte de los regimes político han preservado la estabilidade democrática, lo que significa que la variable dependiente no muestra ninguna variación signigicativa. Esta situación há conducido a los especialistas a nuevas y más sutiles preguntas sobre las precondicionaes para la consolidación democrática, así como a um análisis más detallado de las características institucionalies de las nuevas democracias. Más aun, se está despertando um creciente interés, por la calidad de la experiencia democrática, un factor que varía claramente de país en país.
Daí porque, discutir democracia a partir de um novo princípio como o da qualidade da democracia. Obviamente que, o problema de adotar tal princípio gera uma preocupação central, relativa à dificuldade de conceituar ou definir o que representa qualidade da democracia. Bem como o fato de que, grande parte dos autores que são analisados como representantes dessa perspectiva, sobre certos aspectos podem ser muito bem identificados com alguns dos modelos analíticos anteriores.
Mas, em relação ao problema da conceituação em relação à qualidade da democracia, Diamond e Morlino (2005), por exemplo, a partir da utilização que normalmente é feita do termo “qualidade”, nas esferas próprias do contexto industrial e comercial, sugerem três maneiras diferentes de se pensar o problema da qualidade. O primeiro quanto ao processo, o segundo quanto ao conteúdo e o terceiro quanto aos resultados.
Quanto ao processo ou ao procedimento, os autores afirmam que a qualidade de um dado produto é definida pela exatidão e eficiência em relação ao controle exercido sobre os métodos e tempo empregados na sua produção. Já com relação ao conteúdo, a qualidade é identificada como algo inerente as características estruturais do produto, tais como design, material utilizado em sua confecção e funcionamento. Por fim, em se tratando dos resultados, a ideia principal é que a qualidade de um produto ou mesmo de um serviço, se deve ao grau de satisfação do cliente em relação ao mesmo, inclusive muitas vezes, desconsiderando-se a forma ou a maneira como o produto é produzido, ou mesmo aspectos relativos ao seu conteúdo.
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A partir dessas definições, especificamente em sua relação com os elementos normalmente aceitos como representativos de um contexto democrático, é que, de algum modo, pode-se falar em qualidade da democracia. Desse modo, e inicialmente, uma democracia de qualidade, segundo o ponto de vista dos autores, deve ser aquela que proporciona aos seus cidadãos um elevado grau de liberdade, igualdade política e a possibilidade de exercer controle sobre as decisões políticas, através da existência de instituições estáveis e eficientes. Grosso modo, a democracia é de qualidade quando conta com a legitimidade e satisfação dos cidadãos quanto a suas expectativas em relação ao desempenho dos governos (qualidade em termos de resultados). Quando os seus cidadãos, associações, partidos políticos e outras formas de organização social, gozam de liberdade e igualdade políticas amplas (qualidade em termos de conteúdo). E principalmente, quando os próprios cidadãos são possuídores de um poder soberano que os torna capazes de avaliar a atuação dos governos, a partir do monitoramento da eficiência e equidade das respostas políticas apresentadas as suas demandas (qualidade em termos de procedimento) (DIAMOND & MORLINO, 2005).
Ainda assim, o que se observa com relação à utilização da noção de qualidade da democracia é que, há certo grau de divergência com relação ao que de fato representa essa qualidade. Sobre isso, Altman e Pérez-Liñás (1999) sugerem que existiriam pelo menos dois pontos de vista a partir dos quais a reflexão sobre a qualidade da democracia se desenvolve. O que consequentemente acaba definindo a existência de pelo menos dois grupos distintos de pesquisadores, ao se considerar o foco que tais abordagens priorizam quando o assunto é a qualidade democrática. Assim os autores afirmam que:
Las democracias pueden “mejorar” em función de múltiples aspectos, y resulta discutibles que cada uno de estos constituya uma dimensión válida del conecpto. Los comparativistas han confrontado este problema de dos maneras. Mientras que algunos han considerado la idéia de CD (cualidad democrática) como la mera extensión de la idea de democracia, otros han acentuado aspectos particulares que se ralacionan com la política democrática, pero no necesariamente son parte de concepto-matriz de poliarquía.
Los comparativistas em el primer grupo se han perguntado “¿qué países son más democrático?”, mientras que los comparativistas del segundo
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grupo se cuestionan “¿qué democracias son mejores democracias?”. Apesar de sus evidentes semejanzas, ambas preguntas han abierto diferentes sendas de investigación. (ALTMAN e PÉREZ-LIÑÁS, 1999: 84).
Desse modo, segundo Altman e Pérez-Liñás, o primeiro grupo de autores comparativistas estariam preocupados em tratar a qualidade da democracia como o resultado de um contínuum que se estende desde os regimes totalitários até as democracias perfeitas. O que assemelha este tipo de abordagens aos estudos mais tradicionais sobre a democracia, os quais estariam apenas preocupados em medir, através de um índice, o grau de evolução dos países em direção a democracia. Inclusive, esse tipo de abordagem os autores denominam de perspectiva unidimensional, já que a qualidade da democracia seria pensada apenas em sua articulação direta com a democracia, e desse modo, como um mero prolongamento do próprio conceito de democracia. O que resultaria, segundo os autores, em alguns problemas quanto à avaliação correta em relação ao desempenho dos regimes políticos.
Tais problemas resultaríam do fato de que, os indicadores utilizados para avaliar o grau de qualidade das democracias, por autores como Cutright (1963), Bollen (1980), Gastil (1991) e Diamond (1996), dentre outros, seriam pouco sensíveis as variações existentes entre o grau de qualidade da democracia em diferentes poliarquias, pois, os índices teriam sido pensados de modo a que fossem sensíveis apenas a variações mais bruscas entre regimes, sendo assim mais eficientes quando da análise de mudanças de regime, não conseguindo identificar as diferenças existentes entre países democráticos. Sem falar na crítica que Altman e Pérez-Liñán acabam fazendo ao uso de variáveis como, melhoria no acesso a direitos e a liberdade política enquanto elementos chaves para avaliar a qualidade da democracia.
Já o segundo grupo de autores considerados por Altma e Pérez-Liñán consideram que a qualidade da democracia dependeria de um conjunto de condições sociais e políticas, as quais podem fortalecer ainda mais as poliarquias, sem que os primeiros sejam necessariamente dependentes das condições básicas para institucionalização de uma poliarquia. Logo, seria possível a existência de uma poliarquia sem que, necessariamente, a mesma conte com os atributos que a tornam uma boa poliarquia. Por essa razão, é
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possível afirmar que diferentemente do primeiro enfoque, este último apresenta uma perpectiva multidimensional ao problema da qualidade das democracias. Mesmo porque, se considera que certos regimes podem ter, quanto a sua dimensão institucional, um alto nível de democracia e mesmo assim, essa democracia pode ser deficitária quanto a outras dimensões. Como por exemplo, em relação ao exercício de uma participação cidadã, ou mesmo em relação ao respeito à lei. O que permitiria, desse modo, distinguir níveis diferenciados de qualidade das democracias. Entre os representantes dessa perspectiva estariam autores como Mainwaring, Brinks e Pérez-Liñán (2001), Diamond e Morlino (2005), O‟Donnell, Cullell e Iazzetta (2004), ou mesmo Putnam (2006).
O que importa de fato para esses autores é tentar discutir o problema do aprimoramento da democracia em termos de outras variáveis que não aquelas já tão largamente trabalhadas e as quais reduzem a democracia a termos estritamente institucionais e formais.