Esquizofrenia e Qualidade de Vida
3.2. Qualidade de Vida
3.2.3. Qualidade de vida e saúde
Estado de saúde e Qualidade de Vida são conceitos utilizados muitas vezes de forma interdependente. O conceito de saúde, também ele multidimensional e de natureza biopsicossocial apresenta relações directas com o que hoje entendemos como Qualidade de Vida. Por um lado, os níveis de saúde de uma determinada população afectam directamente os níveis de Qualidade de Vida, como por exemplo a variação do desempenho das actividades diárias são condicionados pelo nível de saúde. Por outro lado pode reflectir-se indirectamente, na medida em que exerce influência sobre os restantes elementos ou indicadores que estão presentes na avaliação da QDV - por exemplo no trabalho, ócio, autonomia, relações sociais, entre outros.
Esta interdependência não pode significar indistinção conceptual, pelo que não podemos problematizar a Qualidade de Vida exclusivamente do ponto de vista da saúde. Se o fizéssemos estaríamos a perder todos os outros factores acima identificados e que contribuem também para a Qualidade de Vida dos indivíduos.
Muitas críticas têm proliferado no campo da saúde sobre o conceito de Qualidade de Vida, chamando à atenção essencialmente para o seu caracter generalista e para a pouca utilidade que assim apresenta a nível dos cuidados de saúde. Vários autores têm proposto que se proceda à distinção conceptual entre Qualidade de Vida global e Qualidade de Vida relacionada com a saúde (Aaronson, 1990; Guyatt et ai., 1993; Schipper et ai., 1990). Neste contexto e com este objectivo, em 1982, Kaplan e Bush (in Aaronson, 1990) propuseram o termo de Qualidade de Vida relacionado com a Saúde. Em 1995 surge a primeira definição por Shumaker & Naughton (1995 in Brown et al., 1996) que definem Qualidade de Vida relacionada com a Saúde como as avaliações subjectivas das pessoas que decorrem dos seus estados de saúde corrente, dos cuidados de saúde recebidos e actividades promotoras da saúde, da capacidade de conseguir um nível de funcionamento geral que lhes permita perseguir objectivos e expectativas de vida que se reflectem no seu bem-estar geral. Os domínios ou dimensões consideradas incluem o funcionamento social, físico e cognitivo; morbilidade; auto-cuidado e bem-estar emocional. Outras pesquisas desenvolvidas (Berzon et ai., 1993) acentuam domínios como: dor ou ausência de dor; energia e vitalidade; sono; apetite; e outros que se considerem relevantes para a história da doença. Wilson e Cleary (1995) propuseram um modelo conceptual onde descreveram as dimensões que a maioria das conseptualizações sobre Qualidade de Vida relacionada com a Saúde incluem: funcionamento físico, social, papel social, saúde mental e percepções gerais de saúde como vitalidade, dor e funcionamento cognitivo.
Brown et ai. (1996) dizem que o termo Qualidade de Vida relacionada com a Saúde é sobretudo utilizado no campo da Medicina onde a saúde é frequentemente vista em dicotomia com a doença. Esta perspectiva é incongruente com a da maioria dos pacientes com doenças avançadas que definem a saúde como uma sensação de um todo e reconhecem o potencial da saúde dentro da doença (Fryback, 1993; KagawaSinger, 1993; Moch, 1989, 1990). Outros autores (Guyatt, et ai., 1996), pelo contrário, enaltecem o facto
de perante o surgimento da doença num determinado doente, quase todos os aspectos da vida desse doente se poderem tornar relacionados com a saúde.
Podemos encontrar também trabalhos que acentuam, no campo da medicina, a qualidade da mudança que ocorre como resultado de intervenções médicas (Nagler,1996).
O conceito de Qualidade de Vida relacionada com a Saúde tornou-se um foco de interesse nos países desenvolvidos onde as doenças infecciosas deram lugar aos processos crónicos (cancro, doenças cardio-vasculares, doenças reumáticas, etc.) como causa mais frequente de incapacidade ou morte. Praticamente todas as áreas da medicina abordaram este tema, especialmente as orientadas para a avaliação terapêutica de diferentes intervenções sanitárias e para a melhoria da QDV dos indivíduos sujeitos aos tratamentos.
É o caso da área da psiquiatria e saúde mental, onde pesquisas acerca desta temática assumem uma capital importância. A necessidade de melhor se compreender as doenças mentais, quer em relação à etiologia, quer em relação às diversas formas de intervenção terapêutica desenvolvidas e aplicadas nos últimos anos que têm alterado os padrões de leitura deste fenómeno bio-psico-social têm precipitado a necessidade de estudos sobre qualidade de vida das doenças mentais, colocando-os no primeiro plano das linhas de investigação internacional. Por outro lado o facto de este tipo de doenças ficarem extremamente dispendiosas para a sociedade e por outro lado, pelo facto do número de doentes psiquiátricos ter vindo a aumentar nos últimos anos "Estudos recentes indicam que entre 15 e 20 por cento da população adulta dos países desenvolvidos tem problemas de saúde mental, que vão desde formas leves de depressão até doenças psiquiátricas graves"(Ibidem, pág.324), leva a que os responsáveis pelas políticas de saúde nos diversos países, bem como os diversos intervenientes desta área especifica procurem através de estudos sobre qualidade de vida das pessoas com problemas de saúde mental, analisar a eficiência das medidas de saúde adoptadas.
É nesta perspectiva que Marcolin (1988 e 1991) desenvolveu no Brasil e nos E.U.A., estudos para analisar o impacto de determinados antipsicóticos na melhoria da qualidade de vida de pessoas com esquizofrenia. Também Cohi (1990) efectuou um estudo comparativo da qualidade de vida de pessoas com esquizofrenia segundo o tipo de tratamento que lhes era aplicado, que Bigelow et ai (1991) têm investigado o impacto de
tratamentos comunitários intensivos no aumento da qualidade de vida de pessoas com doenças mentais. Mercier et ai (1992) têm procurado estudar o impacto das estruturas comunitárias na melhoria da qualidade de vida de doentes psiquiátricos crónicos no Quebec, Canada e Baker et ai (1992) têm pesquisado em Inglaterra a relação entre o suporte social e a qualidade de vida em doentes psiquiátricos, entre outros.
Vejamos no ponto seguinte, que tipo de estratégias terapêuticas têm sido utilizadas para procurar melhorar a qualidade de vida e inserção social de pessoas com psicose esquizofrénica.