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Querer ter um mentor

No documento Os Mitos Do Dinheiro - Gabriel Torres (páginas 100-105)

É natural querermos ter ídolos para nos espelharmos. No caso da educação financeira, acho que todos nós queremos um mentor que nos ajude a atingir a nossa independência financeira.

Só que achar um mentor “de verdade”, um emprendedor milionário que queira colocar você debaixo da asa dele e te ensinar tudo o que ele sabe é quase impossível.

E dessa necessidade de “tenho que ter um mentor” você pode entrar em maus lençóis.

Em minha vida, até o momento, existiram duas pessoas que eu via como meus mentores, mas depois eu descobri que eram verdadeiros picaretas.

A primeira pessoa foi o meu primeiro editor. Eu publiquei o meu primeiro livro em 1996, aos 22 anos de idade, e o camarada passava uma imagem de um

empreendedor rico e bem-sucedido. Mas, assim que comecei a ler livros de educação financeira (o que ocorreu a partir de 2001, para que você consiga colocar a história em contexto), aprendi que ele era na verdade o maior

“falastrão”: gastava todo o dinheiro da editora – incluindo o que me era devido – para sustentar o seu estilo de vida de luxo e aparências, e comprava tudo

financiado.

A segunda pessoa foi um sócio americano que eu tive. Ele contava a história que ele tinha ficado milionário na época da bolha das empresas ponto com, e que era um mega empreendedor que investia em sites, e me convidou para ir morar nos EUA para a gente tocar um site de tecnologia similar ao que eu tenho no Brasil, só que em inglês. O combinado foi que a empresa seria 50%-50%. Ao chegar lá, a ideia de 50%-50% dele era bem diferente da minha. Funcionava da seguinte

eu pagava todas as despesas da empresa. Reclamei, e a resposta dele foi “é assim que eu faço negócios, não gostou, volta para o Brasil”.

Ao poucos, na medida em que fui ganhando mais confiança e intimidade com outras pessoas que também estavam envolvidas com ele, fui vendo que ninguém que trabalhava com ele, à exceção da filha dele, gostava dele, porque achava ele um arrogante babaca que só pensava em dinheiro e que não tratava as pessoas bem.

Além disso, fui vendo que ele mentia, exagerava ou falava de uma forma que ficava parecendo que ele era o responsável exclusivo pelo sucesso de outros negócios que ele tinha e de outras pessoas envolvidas com ele.

Aqui vale também uma discussão interessante. Como eu tenho um espírito

agregador, onde gosto de colocar pessoas que tenham afinidade em contato para que elas sejam amigas, eu esperava o mesmo dele. E este foi um motivo

secundário pelo o qual eu me associei a ele: achei que aprenderia os segredos de grandes negócios e me envolveria com empreendedores de sucesso.

Depois fui descobrir, de outras pessoas que trabalhavam com ele, que a ordem era explícita: ninguém poderia deixar que eu conversasse com os sócios dele em outros negócios. O motivo que ele dava é que éramos “concorrentes” e não gostávamos uns dos outros. Na realidade, a teoria que eu tenho é que ele não queria que nos juntássemos e nos revoltássemos contra ele, pois todos

estávamos no mesmo barco, amarrados a ele com algum tipo de parceria “caracu”1.

Ele é um excelente exemplo de pessoa que estava no lugar certo no momento certo e ficou rica, e que pensa que é mais inteligente do que as demais pessoas só porque tem muito dinheiro. Se ele tinha uma ideia, por pior que fosse, era

impossível fazê-lo mudar de opinião. A ideia dele de sentar à mesa para discutir um assunto era as demais pessoas aceitarem a opinião dele e fazerem o que ele estava mandando, sem qualquer discussão. Quem o contrariasse estava na rua.

Mesmo esta história de ele ter ficado multimilionário na época da bolha da Internet eu já cheguei à conclusão de que é exagero dele. Ele sempre se gaba, mas diz não poder falar o valor por causa da cláusula de confidencialidade. Mas depois que eu peguei mais intimidade com uma pessoa que trabalhava com ele, ela me disse que ele recebeu US$ 1 milhão pela venda do site. Não que isso seja pouco dinheiro, mas ele sempre dizia “milhões”.

O problema para mim é que o meu visto de trabalho nos EUA estava vinculado à empresa dele, e para continuar no país eu teria de continuar aturando essa figura. E chegou um ponto, junto com outras questões pessoais, que eu decidi sair dos EUA.

Menos de um mês depois que eu saí dos EUA (2013), a filha dele, que tinha a mesma idade que eu e que tocava o dia a dia dos negócios dele, faleceu (a família nunca divulgou a causa), e um ano depois, o marido dela (portanto, genro dele) também faleceu (igualmente jovem). Nesse meio tempo, todas as demais pessoas que tinham negócios com ele foram uma a uma saindo fora. Até hoje eu fico impressionado com essa história, que só reforça algo que eu acredito: não adianta nada você ter dinheiro, ser um babaca e ninguém gostar de você.

Mas sou grato a ele, pois se não fosse por ele, eu não teria morado nos EUA, que era um desejo muito forte dada a minha história familiar (minha mãe foi criada nos EUA). Além disso, mesmo não sendo da maneira esperada, eu aprendi muito com ele – em particular como não tratar as pessoas e maneiras de como não tocar negócios.

Obviamente há muito mais detalhes e exemplos de comportamento deste meu “mentor” e da minha história de vida nos EUA (afinal, foram seis anos)2, mas já dá

para ter um bom panorama dessa minha experiência para a discussão do tópico “mentores”.

2 Se tiver interesse, eu gravei um podcast onde conto um pouco mais:

A propósito: você pode pensar que ter me mudado para os EUA me ajudou a acumular dinheiro, porém não foi o caso. Pelo contrário, teria mais dinheiro hoje se tivesse ficado no Brasil, porém o que ganhei em experiência compensou. Minha opinião hoje é que, se você estudar o tema com afinco, você não precisa de um mentor. O seu maior mentor tem de ser você mesmo. Se você realmente precisar de suporte, monte ou participe de um grupo, mesmo que seja virtual. O Robert Kiyosaki escreveu várias vezes que ele recomenda que você encontre um mentor e, portanto, muitos leitores ficaram com isso na cabeça. Mas você tem que colocar em perspectiva que o Kiyosaki tem uma empresa que licencia o nome dele para uso de empresas que oferecem serviço de coaching3. Sejamos francos: ele está recomendando algo para tentar ganhar dinheiro em cima! Só que essas empresas de coaching são uma piada. Além de não terem qualquer vínculo com o Kiyosaki (licenciam apenas o nome), o serviço que elas prestam é completamente irrelevante. Se você ler livros e estudar por conta própria, você saberá mais que os tais “mentores” que eles oferecem. Sem contar que os tais mentores não atingiram a independência financeira deles; eles estão ali apenas para repetir o que já foi falado nos livros.

Eu tenho uma amiga que comprou o pacote de coaching de uma dessas empresas. A grande recomendação deles foi que ela tinha de ter um mentor. Pensei que ela tinha pago justamente para eles serem os mentores dela...

Portanto, a não ser que aconteça naturalmente de você conhecer um empresário que espontaneamente te ofereça para você ser “o aprendiz”, pare de perder tempo procurando um mentor. Você vai acabar ou nas mãos de um picareta ou gastando dinheiro com serviços inúteis.

Preciso esclarecer que não acho coaching irrelevante. Se você está tendo dificuldades após ler os livros e está precisando de alguém para analisar a sua situação e te ajudar de forma personalizada, pode ser o caminho. Apenas procure um profissional competente, com referências no mercado.

O problema é que na Internet está cheio de pessoas que leram dois livros do Kiyosaki e acham que já sabem tudo e saem criando sites de coaching e consultoria na Internet como se fossem “os” experts. A maioria dos

“especialistas” sequer atingiu a independência financeira. Você teria aulas de natação com um professor que nunca nadou até o outro lado da piscina?

Enquanto escrevia este capítulo, coincidentemente recebi um email de um amigo virtual dizendo o seguinte: “impressionante como esse negócio de coaching tá ‘modinha’... A gente tem visto umas coisas absurdas. Teve um cara que a gente entrou em contato querendo trocar figurinhas, o cara era super gente boa e tudo mais... A gente foi ver o site do cara e ele vende um curso de como ser

empreendedor digital (detalhe, ele mora com os pais). Quer dizer, o cara não consegue nem se manter com as próprias pernas, mora na casa dos pais, tem um site, comentou que não está conseguindo nada como freelancer e pediu dicas, e quer vender um curso de como se tornar um empreendedor. A banana tá

comendo o macaco mesmo...”.

Só mais uma história recente que aconteceu comigo para ilustrar ainda mais o problema. Eu estava pesquisando sobre os estilos de vida “nômade digital” e “viajante perpétuo”4 aqui na Austrália e caí em um vídeo bacana de um cara

daqui de Sydney falando sobre o assunto. Pesquisei pelo nome dele, encontrei o blog dele e então entrei em contato, pensando “cara maneiro, quero ser amigo dele”. Só que o camarada era o maior trambiqueiro! Eu falei para ele que já tinha alcançado a minha independência financeira e que queria trocar algumas

experiências com ele, só que, além do malandro não viver aquele estilo de vida, tentou me vender o serviço de coaching dele. Eu fiquei muito “p” e mandei ele para aquele lugar. Eu vivo esse estilo de vida, tenho muito mais dinheiro do que ele, entro em contato para trocar figurinhas, e aí vem o cara tentando me vender como eu poderia atingir a minha independência financeira e viver o estilo de

4 Estilo de vida que pretendo viver pelo menos por um tempo; consiste em viver viajando, não se fixando de

maneira permanente em um local e trabalhando via Internet. Eu vou postar mais sobre esse assunto em

vida... que eu já vivo!? Enfim, só para vocês entenderem que há picaretas em todos os lugares do mundo.

Aliás, há muita gente que acha que vai fazer algo “meia boca” na Internet ou comprar um kit milagroso “durma pobre e acorde rico” e vai ficar rica do dia para a noite...

Há, no entanto, um curso que eu recomendo que pode te ajudar se você estiver tendo a necessidade de ter um mentor. Chama-se Empretec e é ministrado pelo SEBRAE.

No documento Os Mitos Do Dinheiro - Gabriel Torres (páginas 100-105)