• Nenhum resultado encontrado

Ser, ter e fazer

No documento Os Mitos Do Dinheiro - Gabriel Torres (páginas 77-80)

É muito importante que você aprenda diferenciar “ser”, “ter” e “fazer”. Muita gente por aí mistura as bolas.

“Ser” é tudo aquilo que você é, do ponto de vista genético apenas. Por exemplo, eu sou alto, branco, tenho olhos pretos, sou calvo, etc.

“Ter” é tudo aquilo que, como o nome diz, eu tenho. Eu tenho um carro, eu tenho uma casa, eu tenho um computador, etc.

“Fazer” é tudo aquilo que eu faço e também tudo aquilo que não cai nas outras duas opções. Por exemplo, todo o lado profissional entra aqui. A frase “eu sou um escritor” na realidade entra aqui, pois “ser escritor” é o que eu faço, mas não é o que eu sou.

Quando confundimos essas classificações, encontramos problemas em nossa vida, especialmente quando somos acometidos de algum tipo de adversidade. Você possivelmente conhece alguém que tem um carro e vive preocupado com ele. Não estaciona na rua com medo de ter o carro arranhado, evita ir a

determinados lugars com medo de ter o carro roubado, e/ou deixa o carro na garagem coberto com uma capa e quase não usa o mesmo. Eu conheço um camarada assim. Ele comprou um carro zero mas ficava com tanto medo de estragar o carro que ele acabou comprando um segundo carro, um Escort 1989 caindo aos pedaços, para rodar por aí. O carro zero vive trancado na garagem.

Além da pessoa não usufruir o que tem, vive em função daquele objeto. No caso do meu camarada, ele não é o dono do carro: o carro que é dono dele!

Portanto, há uma clara confusão aí no “ter”. Ter algo só se for para usufrui-lo. Se um carro zero vai te trazer tanta preocupação, é melhor ajustar suas expectativas e simplesmente não comprar um carro, ou então comprar um carro mais simples (só não compre um Escort caindo aos pedaços!) que faça você se sentir seguro em usá-lo. No caso do meu conhecido, ele não pediu a minha opinião e o dinheiro é dele (uma coisa que você aprenderá rapidinho após ler este livro é que, é perda de tempo tentar explicar esse tipo de coisa para quem não quer ouvir; voltaremos a este assunto no próximo capítulo).

Outra confusão comum é entre “ser” e “fazer”, especialmente no lado profissional. Nós todos falamos “eu sou isso”, “eu sou aquilo”, mas que na realidade estamos falando do que fazemos, não do que realmente somos. Por exemplo, quando alguém diz “eu sou engenheiro da Petrobras”, ele está falando sobre o que ele faz, e não o que ele é (ele não nasceu engenheiro da Petrobras e, portanto, “engenheiro da Petrobras” não é o que ele é de verdade, mas sim uma função que ele exerce). Desde que você entenda a diferença, não há problema algum.

Problemas começam quando você realmente acha que é aquilo que você faz. Se esta pessoa, por outro lado, realmente achar que ele é engenheiro da Petrobras, ele estará em maus lençóis se ele for demitido por algum motivo (até porque possivelmente a maioria dos funcionários da Petrobras pensa que não há como ser demitido). Você já deve ter ouvido casos de pessoas que continuam “indo ao trabalho” mesmo depois de demitidas ou de pessoas que se suicidam após uma demissão. Pois é, elas eram o trabalho, e sem o trabalho as coisas passam a não fazer mais sentido.

Portanto, é importante que você entenda que aquilo que você faz não é aquilo que você é. Se você conseguir entender e mudar a sua forma de pensar a este respeito, não ficará “engessado” e passará a sentir uma maior liberdade e facilidade caso precise trocar de emprego, de profissão, de país, de

relacionamento etc. E também poderá fazer e experimentar, sem medo de ser criticado (principalmente por você mesmo), tudo aquilo que você gosta e que tem vontade de fazer.

Eu sou um defensor fervoroso da ideia que todos devem fazer tudo aquilo que gostam e têm vontade de fazer. O cara “é” general do Exército, mas gosta de orquídeas e quer fazer um curso sobre o tema? Qual é o problema?

No meu caso pessoal tem muita gente que não entende como eu consigo ser tão multifacetado e ter tantos interesses: escrever livros e artigos sobre informática, ser mestre 4º dan em Taekwondo, ser D.J., ter formação em medicina oriental (e já ter trabalhado com isso por um breve período), ter formação em Análise

Transacional (uma das escolas de psicologia), gostar de ler livros sobre finanças, já ter vivido de consertar computadores, já ter sido professor, já ter tido como

hobby aquário de água salgada, ter iniciado um mestrado em economia, já ter experimentado vários esportes radicais (e ter vomitado em absolutamente todos eles), etc., etc., etc. Inclusive aposto que se você for meu amigo e me conhecer pessoalmente terá um ou dois itens dessa lista que você nem sabia! A questão toda é que eu sei que tudo isso é o que eu faço e não o que eu sou e, por isso, sei que não preciso de qualquer tipo de rótulo; eu vivo sob uma filosofia de fazer tudo o que eu gosto e que dá vontade de fazer.

Me lembro de uma reuniãozinha onde estavam os colegas de escola, quando disse que estava estudando acupuntura, e um colega disse “ué, mas para que você está estudando isso? Não tem nada a ver com informática!” Deu vontade de responder, “para não ficar uma pessoa limitada como você!” Mas fui político e disse que era porque eu gostava. O colega não entendeu, achou estranho. Curiosamente nunca mais o vi depois desse dia. Não sei se é só coincidência. Não ter a necessidade de viver sob um rótulo... Veja se você não está precisando de um pouco disso na sua vida...

Isso vale também para comportamento. Por exemplo, pessoas normalmente falam “eu sou tímido”, “eu sou extrovertido”, “eu sou burro”, “eu sou

inteligente”, etc. Na realidade isso tudo não é o que você é, mas sim o seu comportamento, isto é, aquilo que você faz – rótulos que criamos para nós mesmos e para outras pessoas nos identificar com mais facilidade. E se você realmente quiser, você pode mudar. Até mesmo se você acha que “é burro” e “não leva jeito para essas coisas de finanças”, acredite, você não é isso, você está

apenas desempenhando um papel, tal qual um ator em um filme ou peça de teatro interpreta um personagem. Ninguém nasce sabendo sobre finanças; certamente este assunto pode ser aprendido com relativa facilidade. Basta querer. Idem para qualquer outra área do conhecimento existente.

A grande pergunta então: você gosta do personagem que você está interpretando? Será que não é hora de mudar de personagem?3

Em relação a dinheiro, que é o tema central do livro, é importante entendermos que tudo aquilo que temos pode ser temporário e não permanente. Com isso em mente, se a vida nos passar uma rasteira, conseguimos nos levantar, nos ajustar à nova realidade e caminhar novamente em pouco tempo. Aqueles que ficam “engessados”, presos no passado e a rótulos, não conseguem se levantar. E todos nós tomamos pelo menos uma grande rasteira na vida. Basta lembrar que uma pessoa bem sucedida terá vários fracassos em seu currículo, enquanto que uma pessoa fracassada normalmente terá apenas um único fracasso, pois ela se paralisa4.

Qual dos três é mais importante? Ser, ter ou fazer?

Sem sombra de dúvidas, o importante é ser. Existir. Viver. Mas a nossa sociedade, turbinada pelas campanhas publicitárias, faz todos nós acreditarmos que o mais importante é ter. A maioria cai nessa armadilha. “Tenho que ter um carro”, “tenho que ter uma casa própria”, “tenho que ter o smartphone de última geração”, “tenho que ter ________”, tenho que ter, ter, ter.

No documento Os Mitos Do Dinheiro - Gabriel Torres (páginas 77-80)