O Escritor Desconhecido UR-042 Detroit, EUA, 1997.
1.1 Cat´ alise enzim´ atica
1.2.1 Rea¸ c˜ oes em solu¸ c˜ ao
O fator que determina o mecanismo observado ´e o estado de alquila¸c˜ao do ´ester de fosfato [37–39, 45]. Dados experimentais para rea¸c˜oes em solu¸c˜ao s˜ao normalmente interpretados[37–39, 45] como evidˆencias de que mono´esteres de fosfato reagem segundo um
mecanismo Dn+Anou sob um mecanismo AnDncujo TS apresenta significativa quebra da
liga¸c˜ao P−O entre o fosfato e o grupo de sa´ıda. Os dados experimentais tamb´em sugerem que di´esteres e tri´esteres reagem segundo mecanismo AnDnse o grupo de sa´ıda for ativado
(como, por exemplo, p-nitrofenol), mas com maior participa¸c˜ao do nucle´ofilo no TS do que as rea¸c˜oes de mono´esteres; ou formam intermedi´arios est´aveis, reagindo segundo um mecanismo An+Dn.
Condi¸c˜oes do meio, natureza do nucle´ofilo e do grupo de sa´ıda, e o estado de pro- tona¸c˜ao para os di e mono´esteres tamb´em influenciam qual mecanismo ´e observado.
O ataque nucleof´ılico sobre tri´esteres de fosfato apresenta uma cin´etica de segunda ordem[38]e pode ocorrer sobre o f´osforo ou sobre um dos ´atomos de carbono. A natureza e basicidade do nucle´ofilo afetam tanto a regiosseletividade como a velocidade das rea¸c˜oes. Em solu¸c˜ao aquosa, nucle´ofilos duros (segundo a classifica¸c˜ao de Parr e Pearson[46, §5.3]), como OH−, atacam preferencialmente o f´osforo. J´a nucle´ofilos moles, como H
2O, Br− e
I−, atacam preferencialmente um ´atomo de carbono do tri´ester[38]. Considerando o ata-
que sobre o f´osforo, nucle´ofilos de pequena basicidade reagem mais lentamente[37] do que nucle´ofilos mais b´asicos ou aqueles com “efeito α”[8, §2.D.9][47, 48]. Por exemplo, a constante de velocidade de segunda ordem de ataque de OH− ´e 104 vezes maior do que a constante
de ataque de H2O sobre o f´osforo de um triaril fosfato[38]. A hidr´olise de tri´esteres n˜ao ´e
catalisada por H+, ao contr´ario da hidr´olise de mono´esteres (vide infra).
A varia¸c˜ao da constante de velocidade de rea¸c˜ao com o pKa do nucle´ofilo ou do grupo
de sa´ıda pode ser representada por uma rela¸c˜ao linear de energia livre (LFER)[49, cap. 6]. Nas rea¸c˜oes de tri´esteres de fosfato, o βnuc (inclina¸c˜ao da LFER usando o pKa do nu-
cle´ofilo) varia de 0.30 a 0.48[50]. O βnuc significativamente diferente de zero indica efetiva
participa¸c˜ao do nucle´ofilo na etapa determinante da velocidade de rea¸c˜ao e, portanto, ´e considerado uma evidˆencia de mecanismo associativo (AnDn ou An+Dn)[37, 39, 50].
A entropia de ativa¸c˜ao (∆S‡) medida para rea¸c˜oes de tri´esteres em solu¸c˜ao, cerca de
−35 cal mol−1 K−1, ´e interpretada como perda de entropia translacional dos reagentes,
geralmente associada a rea¸c˜oes bimoleculares[49, §5.4.4] e, portanto, tamb´em ´e considerada como evidˆencia de um mecanismo AnDnou An+Dn[51]. A distin¸c˜ao entre mecanismos uni-
moleculares e bimoleculares em fun¸c˜ao do ∆S‡´e poss´ıvel, caso a contribui¸c˜ao dominante
para ∆S‡ seja a entropia translacional. Esta condi¸c˜ao deve ser verdadeira nos experimen-
tos com tri´esteres[51], cujos valores de ∆S‡ s˜ao bastante negativos, mas deve ser vista com
ressalvas no caso dos experimentos com mono´esteres (vide infra)[52]. ´
✝ ✝ ✞ ✞ ✟ ✟ ✟ ✟✠ ✠ ✡ ✡ ☛ ☛
Figura 4: Exemplo de uma bipirˆamide trigonal. O plano equatorial est´a indicado por um triˆangulo pontilhado. Legenda: ´atomo central em preto, ´atomos equatoriais em linhas diagonais e ´atomos axiais em linhas cruzadas.
com trˆes grupos na posi¸c˜ao equatorial e dois grupos na posi¸c˜ao axial (figura 4). Estas esp´ecies podem sofrer pseudorrota¸c˜oes[53], ou seja, mudan¸cas dos ˆangulos de liga¸c˜ao que resultam em troca de posi¸c˜ao entre um grupo equatorial e outro axial na TBP. Uma esp´ecie pentacoordenada que forma um intermedi´ario est´avel de rea¸c˜ao de ´ester de fosfato ´e denominada fosforana. A forma¸c˜ao de fosforanas foi proposta para rea¸c˜oes de di e tri´esteres nos casos em que uma pseudorrota¸c˜ao seja necess´aria para posicionar axialmente o grupo de sa´ıda[40, 45, 53, 54]. Fosforanas foram observadas experimentalmente para alguns sistemas especiais[55, 56], mas evidˆencias computacionais[57, 58] sugerem que fosforanas n˜ao s˜ao necessariamente formadas em todas as rea¸c˜oes de tri´esteres de fosfato.
As seguintes regras emp´ıricas foram propostas para o arranjo dos grupos ligantes numa fosforana[39]:
1. Nucle´ofilos e nucle´ofugos entram e saem da TBP por uma posi¸c˜ao axial;
2. Ligantes mais eletronegativos preferem posi¸c˜oes axiais;
3. Ligantes doadores de el´etrons π preferem posi¸c˜oes equatoriais;
4. Efeitos est´ericos s˜ao minimizados, posicionando-se os ligantes impedidos equatori- almente;
5. Caso o f´osforo e dois de seus ´atomos ligantes sejam membros de um anel de 4 ou 5 membros, estes dois ´atomos estar˜ao posicionados axial e equatorialmente.
Estas regras, em grande parte baseadas na reatividade de fosfatos c´ıclicos, tˆem sido cri- ticadas, principalmente em rela¸c˜ao `a necessidade de entrada e sa´ıda dos ligantes pela posi¸c˜ao axial[39].
Efeito isot´opico cin´etico (KIE) foi medido para rea¸c˜oes de ´esteres de fosfato em di- ferentes condi¸c˜oes[20]. O KIE ´e a rela¸c˜ao entre a constante de velocidade de rea¸c˜ao ob- tida com o reagente marcado com um is´otopo leve sobre aquela obtida com um is´otopo pesado[59, cap. 7]e pode ser usado para investigar a estrutura do TS da etapa determinante da velocidade de rea¸c˜ao[60, cap. 12, 13 e 14]. Um KIE ´e chamado de prim´ario se a liga¸c˜ao que se quebra ou se forma durante a rea¸c˜ao envolve o ´atomo marcado e de secund´ario se o is´otopo se encontra em outras posi¸c˜oes. O KIE ´e conseq¨uˆencia das diferen¸cas nos modos vibracionais dos quais o ´atomo marcado participa, entre os reagentes e o TS do passo li- mitante da rea¸c˜ao[59, cap. 7]. O KIE tamb´em pode ser interpretado em termos de mudan¸cas da ordem de liga¸c˜ao observada no TS limitante[20]. O grupo de sa´ıda p-nitrofenol ´e usado em medidas de KIE em rea¸c˜oes de ´esteres de fosfato. Assim, o KIE prim´ario, 18k
bridge,
refere-se `a liga¸c˜ao P−O entre o fosfato e o grupo de sa´ıda, e mede o grau de dissocia¸c˜ao desta liga¸c˜ao no TS. Um18k
bridge > 1 indica que a quebra da liga¸c˜ao P−O ´e substancial
no TS da etapa determinante da velocidade de rea¸c˜ao. Os KIE secund´arios medidos s˜ao aqueles do nitrogˆenio do grupo de sa´ıda, 15k, e dos oxigˆenios n˜ao esterificados do grupo
fosfato, 18k
nonbridge. O 15k indica a densidade de carga negativa deslocalizada no grupo
nitro[20]. Caso o grupo de sa´ıda se dissocie como um ˆanion, o 15k ser´a maior que 1. Se
alguma protona¸c˜ao neutraliza parte da densidade de carga formada da quebra da liga¸c˜ao P−O, 15k ≈ 1. A diminui¸c˜ao ou anula¸c˜ao do KIE em raz˜ao da protona¸c˜ao tamb´em ´e
observada no 18k
bridge. O 18knonbridge indica se o grupo fosfato no TS tem caracter´ıstica
de um metafosfato dissociado, em que 18k
nonbridge < 1, ou se o grupo fosfato tem carac-
ter´ısticas mais associativas, como uma fosforana, em que 18k
nonbridge > 1. O 18knonbridge
tamb´em sofre influˆencia da protona¸c˜ao dos oxigˆenios n˜ao esterificados do grupo fosfato.
Para as rea¸c˜oes de di´esteres e, principalmente, tri´esteres, o18k
nonbridge´e bem maior que
1, indicando um TS na etapa determinante com significativo car´ater associativo (tabela 1). A reduzida magnitude de15k e18k
bridgepara as rea¸c˜oes de tri´esteres e di´esteres indica
que, no TS determinante da velocidade de rea¸c˜ao, a densidade de carga negativa no grupo de sa´ıda e a quebra da liga¸c˜ao P−O s˜ao reduzidas e sugere que a etapa determinante da velocidade ´e o ataque nucleof´ılico.
Para di e tri´esteres com um grupo de sa´ıda ativado, como o p-nitrofenol, o TS tem car´ater associativo, mas n˜ao h´a evidˆencias que comprovem a existˆencia de uma fosforana e, assim, o mecanismo proposto ´e AnDn[39, 45]. Para grupos de sa´ıda mais b´asicos como
fen´oxido e met´oxido, o18k
nonbridge´e mais elevado e, portanto, a forma¸c˜ao de uma fosforana
Tabela 1: Efeito isot´opico cin´etico em rea¸c˜oes de hidr´olise de ´esteres de fosfato em solu¸c˜aoa
reagente 15k 18k
bridge 18knonbridge
mono´ester diˆanion em H2O 1.0028 1.0189 0.9994
mono´ester diˆanion em t-butanol 1.0039 1.0202 0.9997
mono´ester monoˆanion 1.0005 1.0094 1.0199
di´esterb 1.0007(16) 1.0042(63) 1.0028(56)
tri´esterb 1.0007 1.0063 1.0063(250)
a o erro associado `as medidas[20]´e na ´ultima casa decimal. b KIEs para di´esteres e tri´esteres correspondem `a hidr´olise alcalina. Os n´umeros em parˆenteses mostram os valores m´aximos nas ´
ultimas casas decimais indicadas obtidos para diferentes reagentes.
A reatividade de mono´esteres de fosfato ´e mais complexa, porque diferentes estados de protona¸c˜ao s˜ao acess´ıveis a estes compostos. O primeiro e o segundo pKados oxigˆenios
n˜ao esterificados em mono´esteres de fosfato s˜ao 1.5 e 6.5, respectivamente[61]. Os pKas
podem variar em torno destes valores, dependendo do grupo ligado ao fosfato[61]. O perfil de varia¸c˜ao da constante de velocidade de hidr´olise de mono´esteres versus o pH do meio tem forma de um sino, com m´aximo em torno de pH = 4, e torna-se independente do pH para valores abaixo de 1 e acima de 9 unidades[62, 63]. A cin´etica de hidr´olise ´e de primeira ordem e nenhuma troca de 18O entre H18
2 O e CH3OH ´e observada na hidr´olise
de metilfosfato, indicando que o ataque nucleof´ılico ocorre sobre o f´osforo[63].
Mono´esteres neutros (duplamente protonados) est˜ao presentes em baix´ıssimas con- centra¸c˜oes em solu¸c˜ao neutra in vitro ou in vivo e, portanto, n˜ao s˜ao importantes meca- nisticamente.
O mecanismo proposto para rea¸c˜oes de mono´esteres dianiˆonicos (n˜ao protonados) em solu¸c˜ao aquosa ´e AnDn, cujo TS apresenta significativa quebra da liga¸c˜ao P−O com o
grupo de sa´ıda e m´ınima forma¸c˜ao de liga¸c˜ao com o nucle´ofilo. Esta interpreta¸c˜ao ´e baseada nas seguintes observa¸c˜oes experimentais:
• Alta dependˆencia da velocidade de rea¸c˜ao com o pKa do grupo de sa´ıda (lg) (βlg =
−1.2)[62];
• Baixa dependˆencia da velocidade de rea¸c˜ao com o pKado nucle´ofilo (βnuc = 0.1)[64, 65];
• ∆S‡positiva e pequena, cerca de 3 cal mol−1K−1para p-nitrofenil fosfato (pNPP)[51];
• Invers˜ao de configura¸c˜ao quando o grupo fosfato ´e quiral[66]; • Medidas de KIE prim´ario e secund´ario (tabela 1)[20];
• Intermedi´ario metafosfato n˜ao foi isolado e sua existˆencia n˜ao foi diretamente com- provada[39].
Ao contr´ario de tri´esteres, o βnuc´e quase nulo na rea¸c˜ao de mono´esteres, o que indica
pouca ou nenhuma participa¸c˜ao do nucle´ofilo no TS determinante da velocidade de rea¸c˜ao. O alto βlgindica que a etapa determinante ´e efetivamente composta pela quebra da liga¸c˜ao
P−O.
A pequena entropia de ativa¸c˜ao, sugerida como indica¸c˜ao do mecanismo AnDn, deve
ser vista com ressalvas, porque outros fatores al´em da entropia translacional, como, por exemplo, efeitos de solvata¸c˜ao causados pela redistribui¸c˜ao e deslocaliza¸c˜ao de carga no TS, podem contribuir significativamente para ∆S‡.
A invers˜ao de configura¸c˜ao na rea¸c˜ao de um fosfato quiral (contendo [16O,17O,18O]-
fosfato) pode ser vista tanto como evidˆencia de um mecanismo com car´ater associativo ou como um mecanismo dissociativo em que o metafosfato n˜ao ´e uma esp´ecie difusionalmente equilibrada. Neste caso, o intermedi´ario reativo metafosfato n˜ao tem tempo de vida suficiente para difundir na solu¸c˜ao e ´e capturado por uma mol´ecula de ´agua antes de escapar da esfera de solvata¸c˜ao onde a rea¸c˜ao ocorre.
Observando os KIEs do mono´ester dianiˆonico em H2O (tabela 1), temos que os valores
de15k e 18kbridge s˜ao 4 vezes superiores `aqueles observados para rea¸c˜oes de di e tri´esteres,
indicando significativa quebra da liga¸c˜ao P−O e forma¸c˜ao de carga negativa no grupo de sa´ıda na etapa determinante da velocidade de rea¸c˜ao. O valor de 18k
nonbridge < 1 indica
que o TS ´e dissociativo, com caracter´ıstica de metafosfato.
Em solu¸c˜ao aquosa, o metafosfato nunca foi diretamente observado[39]. Por´em a rea¸c˜ao do mono´ester dianiˆonico em t-butanol tem os valores de15k e18k
bridge maiores do que em
H2O (tabela 1), indicando que a quebra da liga¸c˜ao P−O neste solvente ´e mais avan¸cada e
o TS ´e mais dissociativo do que em ´agua. Neste solvente alco´olico, a rea¸c˜ao de um fosfato quiral produz uma mistura racˆemica dos produtos[66]. Estas duas observa¸c˜oes sugerem que em t-butanol, um composto pouco nucleof´ılico e impedido estericamente, o grupo metafosfato ´e formado e tem tempo de vida suficientemente grande para difundir pelo solvente e, portanto, permitir que o ataque nucleof´ılico ocorra com a mesma chance pelas duas faces do PO−
3 planar.
Grande parte dos resultados experimentais comentados acima foram obtidos com p- nitrofenil fosfato. Parte das conclus˜oes discutidas acima n˜ao deve ser v´alida para rea¸c˜oes com grupos de sa´ıda pouco ou desativados, pois as rea¸c˜oes de mono´esteres de fosfato
R P O O H O H O O H _
Figura 5: Estrutura do poss´ıvel TS para dissocia¸c˜ao assistida por ´agua de mono´ester de fosfato monoprotonado[68].
dependem significativamente da basicidade do grupo de sa´ıda (vide supra)[62]. Em solu¸c˜ao aquosa, a hidr´olise de metilfosfato e fenilfosfato dianiˆonicos s˜ao retardadas com a adi¸c˜ao de DMSO `a solu¸c˜ao, mas a rea¸c˜ao de pNPP ´e acelerada cerca de 104 vezes[67]
. Estes resultados foram interpretados como evidˆencia de que a rea¸c˜ao de hidr´olise de mono´esteres dianiˆonicos com grupos de sa´ıda de basicidade igual ou superior a de fenol ocorre segundo um mecanismo diferente da rea¸c˜ao de pNPP[67].
Em geral, a hidr´olise de mono´esteres de fosfato monoaniˆonicos (monoprotonados) se processa mais rapidamente do que a rea¸c˜ao do diˆanion e a rea¸c˜ao de di´esteres no mesmo pH[62]. Esta observa¸c˜ao foi atribu´ıda `a protona¸c˜ao, via uma transferˆencia intramolecular, do oxigˆenio do grupo de sa´ıda. A transferˆencia de H+ pode ocorrer num passo r´apido de
pr´e-equil´ıbrio, formando um zwitter´ıon, RO+(H)PO2−
3 , ou simultaneamente `a dissocia¸c˜ao
do grupo de sa´ıda. Kirby et al. propuseram que, para grupos de sa´ıda com basicidade menor do que fen´oxido, a transferˆencia de H+ ocorre conjuntamente `a quebra da liga¸c˜ao
P−O e para grupos de sa´ıda mais b´asicos (como alquilfosfatos), a transferˆencia ´e r´apida e anterior `a dissocia¸c˜ao[62]. Tamb´em foi proposto[62] o envolvimento de uma mol´ecula de ´agua na transferˆencia protˆonica. O anel de seis membros formado na rea¸c˜ao de trans- ferˆencia com participa¸c˜ao da ´agua (figura 5) ´e menos tencionado do que o anel de quatro membros formado na ausˆencia da mol´ecula de ´agua.
Na hidr´olise do mono´ester monoaniˆonico, a entropia de ativa¸c˜ao ´e pequena, ocorre invers˜ao de configura¸c˜ao de um fosfato quiral e o βlg = −0.27[39, 62]. Estes dados s˜ao
consistentes com um mecanismo dissociativo alternativo, com forma¸c˜ao de um zwitter´ıon. O KIE para hidr´olise de pNPP monoˆanion (tabela 1) tamb´em difere significativamente do diˆanion, pois os baixos valores de15k e18k
bridgeindicam que a densidade de carga formada
pela dissocia¸c˜ao do grupo de sa´ıda foi neutralizada e o valor de 18k
nonbridge significativa-
A hip´otese da influˆencia da basicidade do grupo de sa´ıda na ordem de transferˆencia de H+ ´e suportada pela diferen¸ca no efeito isot´opico do solvente, k
H2O/kD2O, que passa
de 0.87 na hidr´olise de metilfosfato para 1.45 na hidr´olise de 2,4-dinitrofenil fosfato[62]. Espera-se um efeito significativo caso a transferˆencia de H+ participe da coordenada de
rea¸c˜ao da etapa limitante, e um efeito pequeno (pr´oximo de 1) caso a transferˆencia seja anterior a etapa limitante da rea¸c˜ao[59, cap. 7].
Um interessante estudo computacional de estrutura eletrˆonica molecular acoplada a uma representa¸c˜ao do solvente aquoso estabeleceu recentemente a existˆencia de um zwitter´ıon aniˆonico, RO+(H)PO2−
3 , como um intermedi´ario de rea¸c˜ao est´avel[68]. O in-
termedi´ario zwitteriˆonico foi encontrado quando R = H, metil e fenil, mas n˜ao foi en- contrado quando R = 2,4-dinitrofenil[69]. Estes c´alculos concordam com a proposta de Kirby et al. para a rea¸c˜ao de hidr´olise. A barreira de ativa¸c˜ao calculada (∆G‡calc) para rea¸c˜ao de hidr´olise de metilfosfato corresponde `a experimental (∆G‡calc = 30.3 e ∆G‡
exp=
30.7 kcal/mol a 100◦C[38]
) e o efeito isot´opico do solvente calculado ´e idˆentico ao experi- mental (vide supra). Os mecanismos Dn+An e AnDn com TS dissociativo, calculados[68]
para rea¸c˜ao de hidr´olise de CH3OPO−3·H2O, ou seja, metilfosfato coordenado com uma
mol´ecula de ´agua (que forma o anel de 6 membros na transferˆencia de H+, figura 5),
apresentam barreiras de ativa¸c˜ao de 30 kcal/mol e, portanto, n˜ao podem ser distinguidos com base apenas nos valores computados para altura de barreira.
Ao analisar as constantes de velocidade de hidr´olise de ´esteres de fosfato, ˚Aqvist, Warshel e colaboradores propuseram um mecanismo alternativo para rea¸c˜ao de mono´es- teres, que inclui uma etapa de pr´e-equil´ıbrio, com a transferˆencia de H+do nucle´ofilo para
o substrato[52, 70]:
H2O + ROPO2−3 ⇀↽ OH−+ ROPO3H− k
′
→ HOPO2−
3 + ROH (1.8)
O ataque de OH− ocorreria segundo um mecanismo associativo, em que a dissocia¸c˜ao
do grupo de sa´ıda seria limitante da velocidade de rea¸c˜ao. Observa¸c˜oes cin´eticas s˜ao consistentes com esta proposta, baseada na equa¸c˜ao 1.8, ou com um mecanismo Dn+An
ou AnDn, como tradicionalmente aceito (figura 3, vide supra).
˚
Aqvist, Warshel e colaboradores tamb´em analisaram as LFER experimentais[39] em termos de par´abolas de Marcus[19], em que as energias dos TSs est˜ao correlacionadas com o cruzamento de par´abolas que representam a superf´ıcie de energia diab´atica dos reagentes e produtos. Este tipo de representa¸c˜ao ´e v´alida para sistemas desacoplados em que a coordenada de rea¸c˜ao na regi˜ao do TS n˜ao inclui as distor¸c˜oes nucleares dos reagentes,
como, por exemplo, transferˆencias de el´etrons[71]. As rea¸c˜oes de fosfatos n˜ao representam sistemas desacoplados e, portanto, a an´alise das LFER por par´abolas de Marcus deve ser feita cautelosamente. A conclus˜ao de ˚Aqvist, Warshel e colaboradores referente `a an´alise das LFER ´e que estes dados s˜ao consistentes com as propostas tradicionais[37, 39, 45] mas tamb´em com um mecanismo An+Dn cuja a segunda etapa, dissociativa (Dn), ´e
determinante da velocidade de rea¸c˜ao. Os KIE medidos para hidr´olise de mono´esteres (tabela 1) tamb´em podem ser interpretados de acordo com um mecanismo An+Dn com
a segunda etapa determinante.
A an´alise de ˚Aqvist, Warshel e colaboradores ´e sustentada por computa¸c˜oes de uma LFER por c´alculos de estrutura eletrˆonica molecular acoplados a uma representa¸c˜ao da solu¸c˜ao aquosa para a rea¸c˜ao CH3O−+ ROPO−3, onde RO s˜ao derivados de fenol com
pKa entre 5 e 10[72]. Estes resultados mostram que um mecanismo An+Dncom a segunda
etapa determinante reproduz o βlg experimental para rea¸c˜oes de mono´esteres dianiˆonicos
(vide supra)[72]. Por´em, limita¸c˜oes (otimiza¸c˜oes parciais de geometria e um conjunto base atˆomico reduzido utilizado para expans˜ao da fun¸c˜ao de onda de um diˆanion na fase gasosa, §1.4) da metodologia usada neste estudo computacional sugerem que os resultados devem ser vistos cautelosamente.
˚
Aqvist, Warshel e colaboradores tamb´em apontaram que os TSs importantes para um mecanismo An+Dn tradicional (sem pr´e-transferˆencia de H+, figura 3) devem ser
bastante similares aos TSs de um mecanismo associativo baseado na equa¸c˜ao 1.8. Estes autores comparam os mecanismos associativos e dissociativos para hidr´olise de metilfos- fato neutro, mono e dianiˆonico, utilizando c´alculos de estrutura eletrˆonica acoplados a uma representa¸c˜ao de solvente aquoso simplificada (que n˜ao cont´em mol´eculas de ´agua expl´ıcitas, ou seja, que possam catalisar ou participar da rea¸c˜ao)[73]. As barreiras de ativa¸c˜ao computadas, cerca de 40 kcal/mol, s˜ao semelhantes para ambos mecanismos, por´em 10 kcal/mol maiores do que as energias de ativa¸c˜ao medidas.
Outro recente estudo computacional da hidr´olise de metilfosfato[74] empregou uma metodologia mais rigorosa, incluindo explicitamente mol´eculas de ´agua al´em da repre- senta¸c˜ao do solvente aquoso. A barreira de ativa¸c˜ao calculada para o mecanismo Dn+An
´e de 29 kcal/mol, um valor bastante pr´oximo ao experimental (vide supra). Contudo, o efeito isot´opico cin´etico do solvente calculado neste mecanismo n˜ao corresponde ao efeito medido, ao contr´ario dos resultados de Bianciotto, Barthelat e Vigroux[68], em que um intermedi´ario zwitteriˆonico ´e obtido (vide supra). A barreira calculada para o mecanismo