CAPÍTULO 2 A INSTITUCIONALIDADE DO PROGRAMA NACIONAL DE
2.2 RECURSO FEDERAL DO PNAE
O recurso repassado do FNDE aos estados e municípios tem caráter complementar, ou seja, o governo local tem a obrigação primeira de arcar com os custos da AE. O recurso federal visa auxiliar na gestão da AE contribuindo para os objetivos do PNAE, sendo repassadas 10 parcelas anuais às Entidades Executoras (EExs). O repasse financeiro às EExs. se dá de modo automático, sem necessidade de convênio ou outra forma de contrato. Além das creches, pré-escolas e escolas do ensino fundamental e médio públicas, as filantrópicas, comunitárias ou confessionais também podem participar do PNAE, desde que conveniadas. Ainda, o recurso pode ser repassado dos estados e municípios às escolas pertencentes às suas redes de ensino (Unidades Executoras – UEx.), no caso de gestão descentralizada, assim, as próprias escolas seriam responsáveis pela gestão do recurso e da AE, sendo as próprias EEx (BRASIL, 2013).
O cálculo do recurso a ser repassado do nível federal para estados e municípios se dá com base no valor per capita estabelecido, no número de alunos por escola segundo o censo escolar do ano anterior e de acordo com o total de dias letivos anuais, independentemente do quantitativo real de comensais no ano em questão. O valor per capita anteriormente utilizado, estabelecido em 2013 pela Resolução 26, foi alterado em 2017 pela Resolução 01, conforme pode ser observado no Quadro 3 a seguir (BRASIL, 2017c).
Quadro 3 - Valor em real do repasse per capita do FNDE às EEx. conforme a
Resolução 26/2013 e a Resolução FNDE 01/2017.
Valor per capita em Real pela Resolução 26/2013
Valor per capita em Real pela Resolução 01/2017
Educação de Jovens e Adultos (EJA) R$ 0,30 R$ 0,32 Ensino fundamental e ensino médio R$ 0,30 R$ 0,36 Pré-escola (exceto aqueles localizadas em
áreas indígenas e remanescentes de quilombos)
R$ 0,50 R$ 0,53
Educação básica localizadas em áreas indígenas e remanescentes de quilombos
R$ 0,60 R$ 0,64
Tempo integral com permanência mínima de 7h (sete horas)
R$ 1,00 R$ 1,07
Creches, inclusive as localizadas em áreas indígenas e remanescentes de quilombos
R$ 1,00 R$ 1,07
Programa Mais Educação Complementação financeira de forma a totalizar R$ 0,90 per capita
Complementação financeira de forma a totalizar R$ 1,07 per capita Fonte: BRASIL, 2017c
Assim sendo o cálculo para obtenção do valor a ser transferido é realizado da seguinte forma:
VT = A x D x C
Legenda: VT = Valor a ser transferido; A = Número de alunos conforme censo escolar do ano anterior; D = Número de dias de atendimento (200 dias letivos); C = Valor per capita para a aquisição de gêneros para o alunado.
O valor recebido por cada escola para fornecer a AE deve contemplar a oferta de refeições ao longo do ano letivo. Creches e escolas em tempo integral devem fornecer 3 refeições (café da manhã, almoço e lanche), as demais duas refeições (almoço e lanche). Segundo a Resolução 26/2013, a possibilidade de suspensão do repasse deve ocorrer nos casos de estado ou município não constituir CAE ou irregularidades em seu funcionamento, a não prestação de contas ou a não aprovação da mesma e a não correta execução do PNAE. E, uma vez sanadas as possíveis irregularidades o repasse poderá ser restabelecido. É possível observar assim o papel do CAE enquanto controle social do PNAE e a responsabilidade dos conselheiros perante o programa.
O SIGPC é o Sistema de Prestação de Contas online, implantado em 2012, como ferramenta obrigatória a ser utilizada pelos gestores com as informações para a prestação de contas mensal. A partir de 2015 o FNDE passou a disponibilizar uma versão pública do sistema com vistas a dar transparência da prestação de contas à sociedade civil, gestores, órgãos de controle, dentre outros. Destaca-se que havia relatos de dificuldades por parte de conselheiros do CAE em acessar as informações da
prestação de contas apresentadas pelos gestores, uma vez que até então somente tinham acesso ao Sistema de Gestão de Conselhos (SIGECON) que era o sistema destinado a emissão do parecer da prestação de contas, com disponibilidade de informações limitada.
Destaca-se que em relação ao valor repassado às EEx. (secretarias estaduais e municipais), enquanto em conta deveriam ser aplicados em poupança (quando a previsão de uso for superior a um mês) ou em fundo de aplicação (quando a previsão de uso for inferior a um mês). E, do mesmo modo, o rendimento proveniente deveria ser destinado também exclusivamente à compra de gêneros alimentícios para o PNAE. Em caso de valor em conta no final do ano, o FNDE reprograma o montante para o ano seguinte. Mas, no caso de os recursos remanescentes serem superiores a 30% do valor do repasse do ano seguinte esse excedente deveria ser deduzido do valor a ser transferido.
Cabe destacar que os recursos financeiros do PNAE são de uso exclusivo para compra de gêneros alimentícios. Assim, qualquer serviço, contratação de pessoal ou compra, como de equipamentos e utensílios é de responsabilidade do estado ou município e deve ser desvinculado do PNAE. Ainda, a compra de gêneros alimentícios está subordinada ao estabelecido no cardápio, elaborado por nutricionista e em conformidade com os parâmetros estabelecidos nas diretrizes do PNAE.
O Quadro 4 abaixo apresenta os valores repassados pelo FNDE e o total de alunos atendidos no PNAE ao longo da década de 90 e início dos anos 2000.
Quadro 4 - Dados Físicos e Financeiros do PNAE
Ano Recursos financeiros Alunos atendidos Ano Recursos financeiros Alunos atendidos
(em bilhões de R$) (em milhões) (em bilhões de R$) (em milhões)
2015 3.759 41.5 2004 1.025 37.8 2014 3.693 42.2 2003 0.954 37.3 2013 3.542 43.3 2002 0.848 36.9 2012 3.306 43.1 2001 0.920 37.1 2011 3.051 44.4 2000 0.901 37.1 2010 3.034 45.6 1999 0.871 36.9 2009 2.013 47.0* 1998 0.785 35.3 2008 1.490 34.6 1977 0.673 35.1 2007 1.520 35.7 1996 0.454 30.5 2006 1.500 36.3 1995 0.590 33.2 2005 1.266 36.4
Fonte: BRASIl, 2017d. * Neste ano foi iniciado o atendimento aos alunos participantes do Programa Mais Educação, que foram incorporados ao quantitativo de matrículas, fato que não ocorreu nos anos subsequentes.
2.3 QUALIDADE E DIRETRIZES NUTRICIONAIS DA ALIMENTAÇÃO ESCOLAR
Como dito anteriormente, para execução do PNAE, estados e municípios devem contar com nutricionistas habilitados e registrados no programa que assumam a responsabilidade técnica, conforme estabelecido pela Resolução 32/2006. A inclusão desse profissional, assim como a definição de suas atividades, foi uma conquista de organizações profissionais que demandaram por essa inclusão visando qualificar a AE com base na SAN, incluindo a PAAS no ambiente escolar em consonância com a Portaria Interministerial 1010/2006 formulada pelo MS, no âmbito da Política Nacional de Nutrição (PNAN), e pelo MEC. Tal demanda foi vocalizada tanto na segunda quanto na terceira Conferências de SAN, em 2004 e 2007, respectivamente (CONSEA, 2004; CONSEA, 2007). Cabe aqui destacar como a institucionalidade que vai sendo construída (no caso aqui a Portaria 1010/2006) caminha em uma via de mão dupla com a ação política de segmentos da sociedade civil. Tal institucionalidade é simultaneamente fruto da ação política e condiciona essa ação, pois, ao ser instituída, passa também a ser apropriada no curso da ação política e possibilita que novas conquistas sejam alcançadas.
Assim, estabeleceu-se que o nutricionista responsável técnico (RT) pelo programa a nível local iria coordenar as ações do PNAE e deveria, além de elaborar o cardápio em consonância com as diretrizes do programa, realizar atividades de EAN em conjunto com a direção e a coordenação pedagógica das escolas, diagnosticar e fazer o acompanhamento nutricional dos estudantes. Desse modo, o cardápio elaborado pelo nutricionista RT deve considerar o perfil epidemiológico da população atendida e, também a cultura alimentar e a vocação agrícola da região. Cabe ao RT acompanhar todo processo de produção das refeições, desde a aquisição dos gêneros alimentícios até a distribuição e realizar teste de aceitabilidade a cada introdução de novo item ou mudança no preparo. Considerando então a gama de ações sob responsabilidade da nutricionista RT e da equipe de nutricionistas de quadro técnico (QT) foi estipulado pela Resolução 465/2010 do Conselho Federal de Nutricionistas (CFN) o cálculo para determinação do quantitativo de profissionais RT e QT necessários por secretaria de educação, de acordo com o número de alunos, para o desempenho das atividades (Quadro 5). Destaca-se que no cenário nacional existem 27 nutricionistas registrados no PNAE como RT do PNAE nos estados e 467 nos municípios (CECANE, 2014).
Quadro 5 - Quantitativo de profissionais nutricionistas RT e QT para atuação no PNAE
de acordo com o número de alunos e a carga horária semanal recomendada
Fonte: CFN, 2010
A Resolução 38 foi sancionada ainda em 2009, logo após a publicação da Lei 11.947 e foi responsável por normatizar o atendimento da AE na educação básica. Após quatro após, a Resolução 26/2013 revogou a Resolução 38 e, considerando as diretrizes do PNAE, em seu Capítulo I atualizou as diretrizes e objetivos do PNAE. Apesar de o Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado em 2014 no âmbito da PNAN do MS, ter sido inovador na orientação do consumo de alimentos com base no grau de processamento, as orientações do PNAE, que são ainda anteriores a publicação do Guia, ainda não seguem essas diretrizes. Assim, as diretrizes da AE estabelecidas pela Resolução 26 e pautadas na perspectiva da SAN, visam:
I - o emprego da alimentação saudável e adequada, compreendendo o uso de alimentos variados, seguros, que respeitem a cultura, as tradições e os
hábitos alimentares saudáveis, contribuindo para o crescimento e o
desenvolvimento dos alunos e para a melhoria do rendimento escolar, em conformidade com a sua faixa etária e seu estado de saúde, inclusive dos que necessitam de atenção específica;
II - a inclusão da educação alimentar e nutricional no processo de ensino e aprendizagem, que perpassa pelo currículo escolar, abordando o tema alimentação e nutrição e o desenvolvimento de práticas saudáveis de vida na perspectiva da segurança alimentar e nutricional;
III - a universalidade do atendimento aos alunos matriculados na rede pública de educação básica;
IV - a participação da comunidade no controle social, no acompanhamento das ações realizadas pelos Estados, pelo Distrito Federal e pelos Municípios para garantir a oferta da alimentação escolar saudável e
adequada;
V - o apoio ao desenvolvimento sustentável, com incentivos para a
aquisição de gêneros alimentícios diversificados, produzidos em âmbito local e preferencialmente pela agricultura familiar e pelos empreendedores familiares rurais, priorizando as comunidades tradicionais indígenas e de remanescentes de quilombos; e
VI - o direito à alimentação escolar, visando garantir a segurança
alimentar e nutricional dos alunos, com acesso de forma igualitária,
alunos que necessitem de atenção específica e aqueles que se encontrem em vulnerabilidade social.
Art. 3º O PNAE tem por objetivo contribuir para o crescimento e o
desenvolvimento biopsicossocial, a aprendizagem, o rendimento escolar e a formação de práticas alimentares saudáveis dos alunos, por meio de
ações de educação alimentar e nutricional e da oferta de refeições que cubram as suas necessidades nutricionais durante o período letivo.
Parágrafo único. As ações de educação alimentar e nutricional serão de responsabilidade do ente público educacional (BRASIL, 2013. Grifo da autora).
As normativas para a oferta de alimentação nas escolas também foram estabelecidas pela Resolução 26/2013 e, assim, a AE deve suprir:
I - no mínimo 30% (trinta por cento) das necessidades nutricionais, distribuídas em, no mínimo, duas refeições, para as creches em período parcial;
II - no mínimo 70% (setenta por cento) das necessidades nutricionais, distribuídas em, no mínimo, três refeições, para as creches em período integral, inclusive as localizadas em comunidades indígenas ou áreas remanescentes de quilombos;
III - no mínimo 30% (trinta por cento) das necessidades nutricionais diárias, por refeição ofertada, para os alunos matriculados nas escolas localizadas em comunidades indígenas ou em áreas remanescentes de quilombos, exceto creches;
IV - no mínimo 20% (vinte por cento) das necessidades nutricionais diárias quando ofertada uma refeição, para os demais alunos matriculados na educação básica, em período parcial;
V - no mínimo 30% (trinta por cento) das necessidades nutricionais diárias, quando ofertadas duas ou mais refeições, para os alunos matriculados na educação básica, exceto creches em período parcial; e
VI - no mínimo 70% (setenta por cento) das necessidades nutricionais, distribuídas em, no mínimo, três refeições, para os alunos participantes do Programa Mais Educação e para os matriculados em escolas de tempo integral (BRASIL, 2013).
As necessidades nutricionais preconizadas no PNAE foram estabelecidas também pela Resolução 26/2013 e são demonstradas no Quadro 6.
Quadro 6 – Valores de referência de energia, macro e micronutrientes
* Fonte: BRASIL, 2013. Adaptada pela Resolução 26/2013.
Ainda, considerando as diretrizes do PNAE, estipulou-se limite máximo de determinados nutrientes a serem ofertados por dia na AE:
I - 10% (dez por cento) da energia total proveniente de açúcar simples adicionado;
II - 15 a 30% (quinze a trinta por cento) da energia total proveniente de gorduras totais;
III - 10% (dez por cento) da energia total proveniente de gordura saturada; IV - 1% (um por cento) da energia total proveniente de gordura trans; V - 400 mg (quatrocentos miligramas) de sódio per capita, em período parcial, quando ofertada uma refeição;
VI - 600 mg (seiscentos miligramas) de sódio per capita, em período parcial, quando ofertadas duas refeições; e
VII - 1.400 mg (mil e quatrocentos miligramas) de sódio per capita, em período integral, quando ofertadas três ou mais refeições (BRASIL, 2013).
Além disso, também foram estipuladas algumas restrições, principalmente a oferta de doces, como também preparações doces no geral, que são limitadas a duas porções por semana (110 kcal/porção). E também se preconizou a oferta de, no mínimo, três porções de frutas e hortaliças por semana (200g/aluno/semana) não podendo serem substituídas por bebidas à base de frutas e, essas, quando presentes devem seguir as normativas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).
Assim, conforme as normativas definidas pela Resolução 26/2013 para a AE, os cardápios são então elaborados para café da manhã, lanche e almoço. Os cardápios são mensais contendo uma opção por dia da semana, devendo ser repetido por duas semanas intercaladas a cada mês (1ª e 3ª semanas e 2ª e 4ª semanas). Tendo um cardápio específico para escolas de ensino de jovens e adultos e outro adaptado para escolas indígenas. Modelos de cardápio da SEEDUC encontram-se no Anexo 1.