A mucosa do lábio é coberta por um epitélio constituído por células com uma relação núcleo-citoplasma maior do que a encontrada na zona de transição anteriormente descrita. As células mantêm as mesmas dimensões mas os seus núcleos são maiores. Assim a relação núcleo/citoplasma aumenta, mas é homogénea e sem grandes variações (Fig. 4). O nucléolo é frequentemente visível. Os limites citoplasmáticos são relativamente bem definidos mas muitas vezes são imperceptiveis. Nestes casos, tal como nas preparações de microscopia óptica, inferimos o número de células e a sua forma pelo número e forma dos núcleos.
Fig. 4 - Endoscopia contacto 60X. Região mucosa do lábio, vasos focados no plano sub-epitelial desfocando ligeiramente as células sobrejacentes, mantendo possível a observação e descrição da morfologia celular. As ansas são normalmente mais longas e de menor diâmetro que na região de transição mas com uma densidade semelhante.
A microvascularização é, tal como descrito para a área de transição, constituída por vasos em ansa com forma semelhante mas normalmente mais longas. A sua distribuição apresenta uma densidade relativamente elevada, indistinta da área de transição (Fig. 3, 4).
Os vasos mais próximos do sulco queilite gengival são, por vezes, de disposição longitudinal paralela ao sulco ou com disposição em “ramo de árvore”. Só raramente se observam os orifícios excretores das glândulas. A auto limpeza do corante é lenta mas muito mais rápida do que a da registada na pele, começando após um a três minutos.
Observam-se algumas micro-pregas epiteliais com orientação predominante paralela ao eixo maior do lábio, que desaparecem quando a mucosa é distendida. Estas estruturas funcionam como uma reserva de superfície da mucosa que permite o seu movimento e distensão sem que se originem roturas (Fig. 5).
Fig. 5 - Endoscopia contacto 60X. Região mucosa do lábio, observam-se micropregas abundantes paralelas ao sulco queilite-gengival.
PALATO
O palato subdivide-se em duas regiões, o palato duro e o palato mole. A porção mais anterior denomina-se palato duro, devido ao facto da mucosa estar apoiada numa placa óssea formada pelos processos palatinos do maxilar. O palato mole corresponde à porção posterior e adquire esta denominação devido a tratar-se de uma estrutura móvel fibromuscular sem suporte ósseo.
PALATO DURO
O palato duro é um território sujeito a grande stress mecânico. Esta região funciona como apoio para o dorso da língua, ajudando na mistura da saliva e suas enzimas com o bolo alimentar e na própria mastigação e deglutição. Assim sendo, é importante a existência de uma grande espessura epitelial com uma queratinização superficial muito regular (ortoqueratinização). O epitélio do palato duro possui uma microvascularização constituída por vasos associados às papilas conjuntivas.
O terço posterior do palato duro, ao contrário da porção mais anterior, possui uma grande quantidade de glândulas salivar minor.
A mucosa desta área cobre uma base óssea muitas vezes não plana. Algumas áreas necessitam de uma orientação especial da ponta do endoscópio para garantir que a sua superfície encosta em toda a extensão da lente. A mucosa do palato duro observada por endoscopia de contacto revela um padrão de pavimento constituído por células poliédricas sem núcleo visível. Com a ampliação menor de 60 aumentos podemos observar um padrão homogéneo que demonstra uma grande regularidade na disposição destas células. Esta disposição é pontualmente interrompida pelo aparecimento de
ostia glândulares (Fig. 6, 7, 8).
Fig. 6 - Endoscopia de contacto 60X, azul de metileno. Palato duro – ostium de glândula (seta). Observam-se células poliédricas sem núcleo tipo escama com forma e dimensões semelhantes, formando um padrão tipo mosaico regular de aspecto homogéneo.
Observámos os ostia e a porção mais externa do canal excretor, onde se identificam as células não queratinizadas dos canais excretores dispostas em espiral, e que nos dão a noção tridimensional de profundidade do referido canal (Fig. 7, 8a, 8b). Realizámos preparações histológicas com cortes paralelos à superfície para melhor entender as imagens das observações por endoscopia de contacto (Fig. 9). Estas glândulas são relativamente fáceis de detectar, o que demonstra uma densidade significativa, que vai aumentando da frente para trás na direcção do palato mole.
A abertura e o encerramento destas glândulas faz-se por um sistema tipo diafragma de câmara fotográfica. Ocasionalmente, é possível observar a secreção em período de expulsão. Nem todos os ostia das glândulas da mucosa aerodigestiva funcionam desta
forma; por exemplo as glândulas da rinofaringe e algumas das fossas nasais apresentam uma configuração em fenda com aparente abertura permanente.
Com a ampliação de 150 aumentos observa-se, com mais detalhe, a área envolvente dos
ostia, destacando-se os queratinócitos sem núcleo visível por o citoplasma se apresentar
totalmente preenchido por queratina (fig. 8, 9).
Fig. 7 - Endoscopia de contacto 150X. Palato duro – ostium de glândula.
Observação detalhada do canal excretor com células nucleadas. O ostium encontra-se
semi-aberto (seta). Este ostium abre e fecha como o diafragma de câmara fotográfica.
Fig. 8 - Endoscopia de contacto 60X. Palato duro – ostium de glândula.
Fig. 8b - Endoscopia de contacto 150X. Palato duro – ostium de glândula.
Observação detalhada do canal excretor com células nucleadas. Observa-se no centro o ostium da glândula (seta) com as células do canal excretor com núcleos visíveis conferindo em aspecto em espiral. Esta área está sujeita a menor stress mecânico por estar num plano mais profundo do que a superfície. Corresponde à transição epitélio glandular-epitélio de revestimento. O ostium encontra-se encerrado (seta).
Fig. 9 - Hematoxilina – eosina 400X. Microscopia óptica, corte da mucosa do palato duro paralelo à superfície, com o objectivo de estabelecer uma comparação com a imagem de endoscopia de contacto. Observa-se o lúmen do ostium (L).
A densidade de glândulas no terço posterior do palato duro aumenta muito, sendo semelhante à observada no palato mole. Frequentemente é possível observar mais do que um ostium por campo de observação (5,5 mm) (Fig. 10).
Fig. 10 - Endoscopia de contacto 60X. Mucosa do palato duro; transição para palato mole. Observam-se dois ostia glandulares (seta) no mesmo campo de visão do endoscópio, o que demonstra a alta densidade destas estruturas nesta localização.
Apesar da queratinização, é possível esporadicamente observar a microvascularização, constituída por ansas de pequenas dimensões sugerindo a existência de papilas epiteliais/ conjuntivas e dos respectivos vasos de nutrição. Estes vasos são difíceis de focar e a circulação sanguínea difícil de descrever e caracterizar (Fig. 11).São vasos resistentes ao trauma, com dimensões muito regulares, paredes lisas e sem ramificações ou ectasias. Nalgumas áreas, provavelmente por uma maior acumulação de queratina, é difícil definir o limite das células, sendo apenas observada uma camada amorfa que fixa o corante com dificuldade.
Fig. 11 - Endoscopia de contacto 60X. Células do palato duro de forma poliédrica sem núcleo visível. Adivinham-se ansas vasculares sub-epiteliais mais difíceis de observar devido à menor transparência celular por queratinização. Embora sem boa definição observam-se vasos em ansa (seta).
A maior ampliação (150X) permite observar com maior detalhe os queratinocitos e confirmar a ausência de núcleo visível, sendo observável o preenchimento do seu citoplasma por queratina. No terço posterior do palato duro, principalmente na transição para o palato mole, observam-se esporadicamente, células isoladas ou em pequenos grupos de dois ou três elementos celulares com núcleo. (Fig 12).
Fig. 12 - Endoscopia de contacto 150X. Palato duro no início da transição para o palato mole.
Células de forma poliédrica sem núcleo visível. Em grande ampliação é possível definir melhor a forma das células. Esporadicamente observam-se células com núcleos picnóticos (seta).
O tempo de auto limpeza do corante é lento, embora seja mais rápido no terço posterior do palato duro, área que contém mais glândulas. Nos dois terços anteriores é superior a 5 minutos, no terço posterior é superior a 2 minutos.