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O contexto político pós-golpe militar em 1964 apresentou um conjunto de alianças entre setores exportadores e sistema militar que atuou firmemente pela atrofia dos direitos civis e políticos. A tortura e o abuso de poder por parte das autoridades com representação política formaram uma estrutura de repressão aos opositores do regime. Para manter esta estrutura, o sistema de justiça brasileiro foi alterado através dos Atos Institucionais e Completares do Governo Militar.

O Poder Judiciário passa a agir com um papel mais restrito em relação à judicialização com maior empoderamento da Justiça Militar. Foram movimentadas diversas decisões contra os ideais democráticos e de direito de defesa, evidenciando a parcialidade com que ocorriam as violências contra as manifestações pelos direitos da população (TORRES, 2015).

Ações coercitivas passam a ser mais comuns após a Constituição de 1967, onde houve uma abertura ao diálogo com opositores considerados legais para o regime (TORRES, 2015), a fim de demonstrar um princípio de organização política mais ampla. Observando que a pauta defendida pelos movimentos sociais não foi ouvida, passam a eclodir manifestações

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que culminaram na outorga do Ato Institucional 5 (AI-5).

No período de vigência do AI-5, crimes contra a “segurança nacional” apresentaram aumento significativo pós 68 (TORRES, 2015). Os direitos políticos retrocederam à medida que a liberdade de expressão contra o regime se tornou crime. A expressão popular se torna pauta de risco para a nação sob a forma de desordem ou subversão comunista27. Neste contexto, as penas aplicadas pelos tribunais da Justiça Militar se referiam a

“[...] incitar ou fazer propaganda subversiva, ou seja, crimes que somente poderiam ser praticados através da expressão pública de um pensamento” (TORRES, 2015, p. 6).

Novamente, os direitos sociais, em especial os previdenciários, foram utilizados como forma de controlar a massa insatisfeita, tanto empresariado quanto trabalhadores, forjando uma fidelização aos ideais do regime. Houve o que Carvalho (2002) chama de primeira universalização das políticas sociais no Brasil. Categorias como trabalhadores rurais, empregados domésticos e autônomos foram incorporados à previdência social.

Entre outros avanços “celetistas”, destacam-se a fundação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (1966), o Programa de Integração Social (PIS) e o Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PASEP) (1971), o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS) (1974).

A assistência social passa a atuar no período em uma série de generalidades, tendo suas ações ligadas a iniciativas da área da saúde e de educação. Nestas políticas, o que se viu foi uma atuação precarizada e com diversas falhas conceituais.

Na área da saúde, a LBA passa a agir junto ao sistema de oferecimento de órteses e próteses, cabendo uma atuação restrita na distribuição destas enquanto benefícios. A partir de um sistema de voluntariado de dentistas, ações pontuais de fornecimento de dentaduras passaram a integrar a LBA (SPOSATI & FALCÃO, 1989), dentre outros benefícios eventuais como muletas, cadeiras de rodas e até óculos.

No campo da educação28, a LBA passou a organizar as primeiras creches do Brasil, como modelo de educação não-formal também via voluntariado. Com influência de agências multilaterais UNESCO e UNICEF29, houve no período uma expansão destas

27 Dentre as medidas mais significativas do AI-5 estavam a atuação independente do Ministério da Justiça em relação a qualquer medida anterior do Poder Judiciário, além de ações irrestritas da Presidência da República. Outras medidas e sobre a suspensão dos direitos políticos do período podem ser conferidas em Torres (2015). 28 Outra ação de significância do período, mas sem iniciativa vinculada á LBA, foi o Movimento Brasileiro de Alfabetização, que atuou por uma educação funcional com orientação para o mercado de trabalho restrito da época e inclusão em práticas comunitárias (ROSEMBERG, 2002).

29 De forma geral, o documento gerado pela Conferência de Santiago do Chile realizada em 1965, referenciou também outras políticas públicas educacionais em países periféricos, principalmente no tratamento da pobreza com orçamentos restritos e atenção à primeira infância.

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iniciativas com a finalidade de cuidar de crianças no período em que os país estivessem sob regime de trabalho. Não havia qualquer perspectiva pedagógica ou de acompanhamento de aprendizagem das crianças no período marcado pela precariedade quanto à estrutura física das unidades, recursos educacionais e organização de demanda (ROSEMBERG, 2002).

Pelo princípio tecnocrata vigente no período militar, a assistência social ganha uma “roupagem” sanitarista-educacional. Sua atuação passa ter relativa importância no sentido de oferecer, ainda que de forma mínima, subsídios àqueles que até então não estavam sendo cobertos pelo sistema de proteção contributivo da previdência. As ações da LBA se mantinham próximas as propagandas positivas do regime, enquanto perspectiva de um país emergente rumo a um futuro promissor.

Conforme Sposati & Falcão (1989), o tratamento da “questão social” nesta modalidade de atendimento misto com outras políticas – apresentando pouca integração e precarização das condições de trabalho (não-instituído) - serve a moral privada e não passa por um processo ético social público. A moral privada se manifesta pelo “primeiro-damismo” e iniciativas beneméritas que reiteram a subalternidade ao valorizar o trabalho individual e a poupança enquanto agentes de moralização num modelo de Estado patrimonialista. A pobreza passa a ser criminalizada e a assistência atuaria no sentido de prevenir o aumento de pessoas ociosas. Não se atende às necessidades sociais, mas cria-se assim uma marca de necessitados pelo princípio da exclusão de oportunidades a ser sanado por uma educação compensatória (ROSEMBERG, 2002).

O foco em benefícios eventuais de ação pontual e a forma desarticulada com outros setores - que marcaram até aqui a trajetória da assistência social no Brasil - retardaram sua emancipação como política pública consolidada (SPOSATI, 2009). A primeira vez em que a assistência social ganha status de política ministerial foi com a criação do Ministério de Previdência e Assistência Social (MPAS), para abarcar a previdência social que ganhava espaço na época.

O MPAS apresentava as mesmas características dos direitos sociais do período: gastos robustos para a previdência social e pouco para a assistência, cabendo a esta última parcerias e doações para sua execução. Tal formação indica a prevalência da previdência diante dos outros direitos sociais no período, conforme sua relevância tributária para a manutenção do regime.

No plano econômico, o modelo de estado pós-golpe de 64, segundo Medeiros (2001, p.14), buscava o crescimento e desenvolvimento nacional através da “concentração de renda e poder no núcleo capitalista da economia”. O progresso social, na visão tecnocrata,

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viria com o avanço econômico. Após acumular finanças associando concentração de renda em atividades capitalistas industriais e operações protecionistas de fortalecimento da economia, cabia ao Estado a redistribuição do acumulado através de políticas sociais, como forma de “[...] dinamizar a própria capacidade ociosa do capital” (FALEIROS, 2000, p.75).

Tal forma de realizar a gestão econômica nacional gerou resultados. Segundo Rocha (2013), durante o milagre brasileiro, entre os anos de 1968 a 1974, a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) chegou à média de 10,7% ao ano, com elevação recorde em 1974 quando foi atingida a taxa de 13,9%. A taxa de desigualdade social, por sua vez também, apresentou crescimento entre a década de 60 e 70, sendo que o Índice de Gini saltou de 0,504 para 0,561(ROCHA, 2013).

Neste bojo, as políticas sociais de transferência de renda iniciam no cenário nacional atuando de forma ainda diminuta na perspectiva de superação das desigualdades sociais advindas da ausência de recursos materiais, através da provisão de recursos redistribuídos a indivíduos, famílias ou grupos sociais. O Programa Renda Mínima Vitalícia (RMV), de 1974, surge como a primeira iniciativa de transferência de renda brasileira (SILVA, 1997, ROCHA, 2008, 2013). Como eixo principal, o RMV deveria proteger “os maiores de setenta anos e os inválidos que [...] não fossem mantidos por pessoa de quem dependiam obrigatoriamente e não tivessem outro meio de prover ao próprio sustento” (BRASIL, 1974). No programa, o período mínimo de contribuição é de 12 anos à previdência social, o trabalho remunerado por no mínimo 5 anos não consecutivos ou a inclusão na previdência social com idade superior a 60 anos como critérios de elegibilidade.

Apesar de não constar no aparato legal descrito acima, Rocha (2013) sinaliza que havia mais um critério para acentuar a necessidade real para o recebimento do benefício. Para configurar que o idoso ou inválido necessitaria do benefício para seu sustento, a renda familiar não deveria ser superior ¼ de salário mínimo.

Quanto à natureza do benefício, o idoso ou inválido teria direito à meio salário mínimo de renda por mês, além da inclusão no sistema de saúde dos trabalhadores brasileiros (BRASIL, 1974). Ressalta-se que o ganho da inclusão no sistema de saúde público era necessário, sendo que seu acesso universal se torna real apenas após promulgação da Constituição Federal de 1988.

Observa-se pelo percurso histórico decorrido até aqui, que as realizações e efetivações das políticas sociais brasileiras de base redistributiva da época protegiam apenas a classe trabalhadora do país. O desempregado representava aquilo que de mais abjeto e perverso existe na tradição meritocrata quando associada à seguridade social. O sujeito que

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mais precisa de assistência, não a tem pelo mesmo motivo de que a precisa: a ausência de emprego formal e seguro.

O RMV segue esta tendência de proteção em uma modalidade de “assistência ocupacional”, pois ainda demandava um tempo de contribuição em regime trabalhista para que o cidadão pudesse ter esse direito.

Ser cidadão significava ter carteira assinada e pertencer a um sindicato, ou seja, forjou-se uma cidadania regulada, restrita ao meio urbano, numa sociedade marcada pela fragilidade de disputa entre interesses competitivos. (SILVA, 1997, p.106).

Tal regulação acaba por gerar fortes déficits previdenciários30 no modelo welfarista já declinado, haja visto que não se constitui no país uma sociedade salarial como em países desenvolvidos para manutenção do sistema pela via contributiva (SILVA; YAZBEK; GIOVANNI, 2004).