3. O CORPO COMO OBJETO DE COERÇÃO: O PROCESSO DE
3.3. As regras no contexto profissional
Neste bloco de informações a questão da coerção pelo corpo, das regras sendo incorporadas teve menos destaque do que nos blocos anteriores. Ganhou relevo, aqui, a insatisfação de Violeta com a profissão, sua frustração por não ter sido veterinária e a oposição que fez entre o passado da profissão e o presente, sempre classificando o passado como bom e eficaz e o presente como péssimo e com uma perspectiva muito desanimadora.
Algo interessante ganhou relevo quando a professora manifestou-se mais a respeito da sua atuação: apesar de ressaltar a importância das regras em sua vida, de expressar o desejo de receber alunos educados e obedientes, que seguissem as regras, ela tentou passar uma imagem de rebeldia, uma imagem de alguém que está acima das regras, de alguém que tem autonomia para não obedecer às regras quando essas não lhe convêm. Esse jogo é bastante interessante, porque em resumo a professora atribuiu à falta de regras o atual fracasso da educação e ao mesmo tempo revoltou-se contra esse sistema e manifestou uma pseudo-reação com a desobediência às regras sempre como discurso verbal, pois não foi possível averiguar se tal desobediência ocorria por meio de atitudes.
“E ainda quando... casos assim, eu assisto um Datena6 por acaso e o Datena meteu o
pau [sic] no ensino, tá certo tem que meter o pau [sic] no ensino sim, mas não meter o pau [sic] no professor, o professor não tem nada com isso. O professor tem que seguir ordem.Eu saio das ordem [sic] da escola, eu saio das ordem [sic] do governo, eu saio mesmo porque eu
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José Luiz Datena, apresentador de programas de televisão, reconhecido por seu caráter dramático de narrar os acontecimentos.
não quero formar burro nem assassino...” (VIOLETA, 2013)
Havia a necessidade expressa de estar além do papel do professor; era dessa forma que Violeta se enxergava e atribuía a si mesma um status de alguém que superou as limitações da profissão. Essa auto avaliação da professora foi de grande valia para se entender sua posição no contexto escolar. Violeta era alguém que possuía legitimidade no grupo em que atuava, já ocupou por 15 anos cargos de coordenação e agora estava novamente em sala de aula, isso a tornou diferenciada no grupo. Quem a escolheu para ser sujeito da pesquisa foi a coordenadora da escola, à pesquisadora não foi permitido escolher. Conforme já relatado anteriormente, no primeiro dia de observação, a professora estava organizando os alunos para entrarem em sala de aula após o recreio. Todos estavam em fila e entraram um a um na classe, passando de cabeça baixa pelo olhar superior da professora, um olhar intimidador, inclusive dispensado à pesquisadora. Ao mesmo tempo, no fluir da aula, percebeu-se que os alunos movimentavam-se livremente, mas as carteiras estavam sempre organizadas em fileiras e as atividades se restringiam à cópia de lição da lousa, resolução de exercícios no caderno e correção de cadernos na mesa da professora. Por vezes a professora chamava à atenção dos que estavam conversando, brigava com os que não queriam fazer as atividades, mas na hora da saída, por exemplo, não havia necessidade da professora dizer que a aula havia acabado, bastava a responsável pelo transporte escolar chegar na porta da classe os alunos organizavam suas coisas e iam embora. Muitas vezes a professora nem se dava conta de que isso havia acontecido porque estava distraída em sua mesa corrigindo algum caderno de aluno. Essa forma de se mostrar superior pode ser compreendida com as considerações de Sommer quando nos diz que:
O status se exprime fisicamente sob formas de comportamento, bem como por símbolos de status que são usados a) para indicar status, b) para reforçar o status e c) como exigências para a perpetuação do sistema já existente de status, os símbolos de status permitem que um recém chegado perceba, à primeira vista, quem é o mais importante do grupo. (SOMMER, 1973, p. 22).
Esse status de superioridade era demarcado entre Violeta e os seus alunos por meio do olhar intimidador da professora, acompanhado de uma postura corporal que reunia os braços cruzados na altura do peito, queixo levantado, pescoço e coluna muito rígidos, cabeça tensionada para trás, lábios comprimidos e traçando um fina linha arqueada para baixo. E novamente se identificou tal superioridade da professora ao ser questionada sobre gostar ou não da escola em que trabalha, Violeta afirmou já ter gostado mais e que agora a escola está deixando muito a desejar porque os alunos não respeitam mais as inspetoras, justamente pela
falta de um controle superior, porque não presenciam a figura da diretora na escola. Essa foi a avaliação feita por Violeta; disse que a escola virou uma “baderna”. Percebe-se que a valoração da professora sobre a sua escola passa pela questão da presença e do controle do corpo e da incorporação de regras. É interessante notar essa questão do gostar ou não gostar da escola passando pela questão do corpo, mesmo que Violeta desloque a questão para o corpo do aluno. É o corpo de Violeta que sente falta do espaço e do tempo em que foi educado. O mal estar pode ser atribuído a esse deslocamento. São corpos que não se encaixam nas regras, disposições que entram em embate de certa forma com um contexto no qual já não são tão eficientes.
Na escola municipal Alfa, parece que o corpo que não se adaptava às regras gerais era excluído, colocado de lado. O relato de Violeta sobre um aluno “de inclusão”, como ela generaliza um leque diversificado de alunos como as crianças com síndrome de down, cadeirantes, autistas, surdas, entre outras são todas chamadas por Violeta como “aluno de inclusão”, – mesmo com relação a um primo Violeta se refere como “minha tia que tem um filho de inclusão” – causa espanto e indignação. Um aluno de quinto ano, ao qual Violeta se referiu como “de inclusão” era colocado para fora da sala de aula todos os dias pela sua professora. Ficava transitando pela escola com a mochila nas costas durante todo o período das aulas. Violeta alegou ter tomado conhecimento do fato somente no final do período letivo, e que procurou orientadora e coordenadora da escola e ninguém quis se responsabilizar pelo fato. Esse é um exemplo marcante de como um corpo que não pode seguir as mesmas regras que os outros é deixado de lado, afastado do convívio social. É Sommer que novamente ajuda a entender tais situações:
Um aluno aprende seu lugar na sociedade e o que os outros esperam dele a partir da maneira de os professores e administradores dirigirem o sistema social da escola. Adquire atitudes que depreciam seu auto-respeito e criam a auto-imagem de uma figura lamentável, colocada numa carteira padronizada, cuja presença física é exigida pelo regulamento. (SOMMER, 1973, p. 123)
Cabe questionar como essa autoimagem dos alunos vai sendo formada em casos como o do exemplo anteriormente citado. E mesmo os alunos de Violeta, o tempo todo estavam sendo formados não apenas pelas palavras ou pelos conteúdos didáticos trabalhados nas aulas, mas também por todo o conjunto de linguagem corporal dispensado pela professora a eles. A questão da aproximação e do distanciamento dos corpos apareceu muito relacionada à incorporação de regras na escola. Apesar de, no discurso, Violeta afirmar o desejo de que os alunos se aproximem dela sem medo, sua prática não confirmou esse desejo. Em vários momentos ela disse que não gostava que a tocassem, que não gostava do contato físico e, sobretudo, que seria muito rígida e seguisse talvez um “regime militar” na aula. Essas afirmações foram feitas com
orgulho e satisfação.
“Porque eu sou rígida, eu gosto sim, é regime militar, eu não sei se é militar, eu gosto de ser respeitada e respeito todo mundo, entendeu?” (Violeta, 2013).
Mesmo no dia da festa de final de ano das crianças, a professora preocupou-se sobretudo com o comportamento dos alunos diante da mesa de comidas. Violeta disse ter ficado surpresa porque nenhum aluno se levantou da cadeira para “avançar” na mesa. O comportamento considerado adequado pela professora foi o de ficar sentado na cadeira esperando alguém servir os petiscos. Isso porque era um dia de festa!
A questão da regra é tão forte em Violeta ao ponto de deixá-la sem saber definir quais outras características seriam fundamentais para o seu trabalho em sala de aula. O tempo em silêncio que a professora permaneceu antes de responder a questão e a dificuldade que a pesquisadora encontrou em provocar sua resposta falam mais do que sua própria resposta verbal.
Pesquisadora: “Quando você entra em sala de aula, o que não pode ficar de fora, ou seja,
quais características suas você considera fundamentais para o desenvolvimento do trabalho com os alunos?”
Violeta: [7 segundos de silêncio]
Pesquisadora: “eu sei que são muitas coisas, mas...” Violeta: [professora fica assobiando]
Pesquisadora: [risos]
Violeta: [5 segundos de silêncio]
Pesquisadora: “por exemplo, vou tentar exemplificar: tem dias em que, claro isso
acontece com todo mundo, eu como professora já vivi isso, que a gente não tá bem, né, que nem tudo correu bem, que, enfim, mas a gente tem que cumprir o nosso trabalho. Mas mesmo nesses dias têm coisas que não dá pra gente não ter em sala de aula. O que que você considera que é, independentemente de qualquer coisa, que é fundamental seu, da professora Violeta? Que não pode faltar?”
Violeta: [5 segundos de silêncio] “aiiii. Dependendo de tudo, tudo que aconteça, eu, em
primeiro lugar se chama respeito, depois do respeito, concentração na aula, e o resto deixa rolar.”
Violeta: “entendeu? Isso que eu penso.” Pesquisadora: “hum, hum...”
Violeta: “mais nada!” Pesquisadora: “tá certo.”
A isso a professora acrescentou o fato dos alunos a enxergarem como bruxa. Esse foi o termo que Violeta utilizou para expressar a visão que os alunos tinham da professora. Ela pareceu se identificar com alegria à essa imagem. Foi possível perceber pelo seu tom de voz, pelo sorriso na hora de falar e pela quantidade de vezes que repetiu esse apelido, que havia satisfação em ser considerada uma bruxa. Ela mesma afirmou, sorridente, que para ser de fato
uma bruxa, “só falta o chapéu”.
Em suas ações a professora expressou essa imagem de “bruxa”, se for feito um paralelo
com as bruxas dos contos de fadas, são elas que castigam e por meio das ameaças de maldade que trazem consigo passam a mensagem de necessidade de controlar os desejos, as pulsões, de controlar o corpo e incutir nesses corpos dóceis e frágeis das crianças a necessidade de se defender da maldade do mundo. É com esse papel que a professora Violeta se identificava. Em sala de aula, permitia a aproximação física dos alunos, mas havia alguma tensão no controle do seu espaço pessoal. Os alunos não a tocavam, pareciam já ter incorporado quais são as regras de convívio ditadas pela professora. Quando se aproximavam da sua mesa de trabalho era para levarem seus cadernos e serem avaliados. O toque físico somente ocorria entre professora e alunos quando o objetivo era a coerção, como no caso em que a professora mandou uma aluna sentar-se no fundo da sala, isolada dos outros alunos porque estava conversando enquanto a professora corrigia atividades feitas pelos alunos na lousa. Como a aluna não obedeceu à ordem, depois de um tempo a professora a segurou bruscamente pelo braço e a conduziu para o fundo da classe. A menina chorou e ganhou mais uma admoestação por estar chorando. Como se quisesse justificar sua ação, Violeta afirmou que a avó dessa aluna todos os dias perguntava como estava o desempenho da neta nas aulas e a professora mentia dizendo que ela tinha bom desempenho quando na verdade só queria saber de brincar. Violeta alegou que a aluna tinha falta de interesse e que sabia fazer as lições.
Nesse momento, a professora agia como a sua própria avó, que já andava com uma ripinha de madeira na mão para castigar os netos que a desobedecessem. A força desse aprendizado corporal internalizado pela professora se manifestava mesmo em circunstâncias pouco prováveis como foi esta da pesquisadora estar em sua sala de aula. É uma disposição
para a ação muito forte, que antecede qualquer processo reflexivo, e ao encontrar uma situação semelhante à situação na qual foi incorporada vem à tona com toda a sua força.
Nesse contexto profissional, a interação da professora com os alunos ainda passa por situações envolvendo os corpos pelas expressões faciais ou manifestações verbais de adultos aos seus comportamentos, ações. Bourdieu se refere a essas questões de socialização:
O trabalho de socialização das pulsões apoia-se numa transação permanente na qual a criança admite renúncias e sacrifícios em troca de provas de reconhecimento, de consideração ou de admiração (“como é ajuizado!”), por vezes explicitamente solicitados (“Papai, olha pra mim!”). Essa troca é altamente carregada de afetividade, na medida em que mobiliza por inteiro a pessoa de ambos os parceiros, sobretudo a criança, é claro, mas também os pais. (BOURDIEU, 2001, p. 202)
O processo de correção dos cadernos expressa um pouco dessa necessidade de provas de reconhecimento que as crianças possuem diante dos adultos. Suas fisionomias expressam a ansiedade por um elogio, mas o que recebem da professora Violeta é, na quase totalidade das vezes, uma reprimenda, um olhar de desdém, uma palavra mais áspera.
Todo o corpo da professora Violeta colabora para a coerção dos corpos dos alunos. Suas expressões faciais foram sempre intensas e repressivas. Seus lábios estavam sempre muito contraídos, muitas vezes se transformando numa fina linha demarcando a boca. No primeiro dia de observação do seu trabalho, a sua postura corporal e suas expressões faciais já demarcaram bem, para quem estava chegando (no caso, a pesquisadora), quem era a professora Violeta, quem mandava naquele espaço, quais eram as regras do bom convívio social naqueles limites de sua sala de aula. Ao ser apresentada à pesquisadora, houve um breve cumprimento e logo em seguida a professora posicionou-se para a entrada dos alunos em classe após o recreio. Seus braços estavam cruzados à altura do peito, seus ombros e pescoço estavam bastante rígidos, sua mandíbula estava travada, e, com o cenho sempre franzido, olhava os alunos de cima para baixo, um a um ao entrarem de cabeça baixa em sala de aula. Apenas um aluno ousou enfrentá-la e olhou em seus olhos com um sorriso debochado, mais do que isso ainda estufou o peito para a frente e se aproximou bastante da professora, ultrapassando sem dúvida a zona de conforto do seu espaço pessoal. Esse ganhou, em troca, um olhar mais severo ainda e muitas admoestações em sala de aula na frente da pesquisadora, inclusive com a professora dando detalhes da vida pessoal dele para a pesquisadora em voz alta na frente de todos os outros alunos.
Procurou-se representar por meio do desenho estilizado – para preservar a identidade da
professora – a postura corporal de Violeta nesse primeiro dia de observação das aulas, ao
organizar os alunos para a entrada em sala de aula. Mesmo sem definir seu rosto com traços precisos, é possível observar seu descontentamento e imposição:
Figura 1: Postura corporal da professora Violeta.
Fonte: desenho elaborado pela autora.
A análise da imagem da professora representada acima deve ser feita tendo em mente que
A expressão corporal é socialmente modulável, mesmo sendo vivida de acordo com o estilo particular do indivíduo. Os outros contribuem para modular os contornos de seu universo e a dar ao corpo o relevo social que necessita, oferecem a possibilidade de construir-se inteiramente como ator do grupo de pertencimento. No interior de uma mesma comunidade social, todas as manifestações corporais do ator são virtualmente significantes aos olhos dos parceiros. Elas só têm sentido quando relacionadas ao conjunto de dados da simbologia própria do grupo social. Não há nada de natural no gesto ou na sensação. (LE BRETON, 2012, p. 9)
E foi por entender tão bem o que significava todo o conjunto corporal da professora Violeta nesse dia, que o aluno a enfrentou assumindo uma postura corporal semelhante. Presenciar essa cena foi como presenciar uma disputa por território, cada qual dos agentes querendo mostrar para quem estava chegando (a pesquisadora) quem mandava no espaço, quem ditava as regras daquele grupo.
Essas ações contendoras dos corpos dos alunos parecem ser algo mais comum do que apenas no caso de Violeta. A pesquisa de Fabrin (2006) relatou diversas atitudes nessa direção sobre o trabalho de diferentes professores com alunos de ensino fundamental I, o mesmo período desta investigação. Eram correções quanto à necessidade de silêncio diante de visitas; ausência de permissão para manifestar dúvidas; absoluto silêncio entre tarefas.
Igualmente, o estudo de Rosa (2009) trouxe dados interessantes sobre essas situações de interação por meio dos olhares. A autora destacou que, dentre todas as formas de expressão
não verbal, o olhar era o mais importante “por revelar emoções com alto indicador de
autenticidade” (ROSA, 2009, p. 101). A autora apontou em seu estudo os resultados da investigação feita com alunos de 5ª série identificando dois grupos de respostas: as interferências não verbais facilitadoras e inibidoras na interação dos professores com os alunos. Tais relatos e os dados obtidos levam a pensar que esses recursos são mais constantes no trabalho docente do que se imagina.
4. O CORPO NEGADO/APRISIONADO: O “ESQUECIMENTO” DO CORPO E O