CAPÍTULO 3 CAMINHOS POR ONDE ANDAMOS: NOSSA TRAJETÓRIA DE
3.1 A Relação Macro/Micro: algumas reflexões
As pesquisas, desde os anos trinta do século XX, vêm demonstrando a impossibilidade de se estudar a prática docente e a prática pedagógica isoladas do contexto social, econômico, político e cultural em que as mesmas acontecem, ou seja, do contexto em que a sociedade está imersa. Nessa perspectiva é que se rejeita um modo de fazer pesquisa que ora estuda, a partir do nível macro, a política educacional, ora analisa, no nível micro, a escola, sem fazer articulações com as questões políticas nas quais as secretarias de educação estão envolvidas e a próprias instâncias de atuação do Ministério da Educação (MEC).
Partindo desse pressuposto, salientamos que as escolas são lócus de produção de saberes e não apenas reproduzem o que está posto, mas recriam novos conhecimentos e realidades a partir dos significados atribuídos pelos sujeitos às ações e aos projetos estabelecidos como prioridades. Por outro lado, as escolas recontextualizam os discursos, uma vez que não estão alheias às determinações políticas estabelecidas pelos órgãos gestores, mas também não as acatam integralmente e de forma passiva.
Nessa linha de reflexão, nossa pesquisa tenta recuperar o fazer das práticas curriculares cotidianas sem deixar de compreender o movimento complexo das
políticas que, de uma forma ou de outra, influencia as práticas. É importante dizer que este tipo de pesquisa pelo seu enfoque teórico-metodológico apresenta muitas possibilidades; por outro lado, há limites no entendimento de algumas questões além de ser uma pesquisa arriscada, inclusive para pesquisadores com grande experiência.
Muitas vezes, esse tipo de pesquisa é pensado numa perspectiva dual. Em outras palavras, a investigação sobre as macroestruturas é vista como espaços apenas de determinação, lugares de elaboração de leis, normas, currículos oficiais. Em contraposição, os espaços de micro contingências, que envolvem sujeitos, ações e instituições, voltados para a aplicação do que foi produzido no cotidiano, são vistos como lugares apenas de materialização das determinações gerais.
Esses discursos dualistas estão alicerçados nos princípios da modernidade que, revelando seus limites para compreender as “relações entre estrutura e ação, totalidade e fragmento, transcendência e contingência”, busca de diferentes formas a constituição de totalidades orgânicas e unificadas (LOPES, 2006, p. 621). Em contraposição a esses discursos, a autora entende ser possível “construir um debate que favoreça a superação da dicotomia ainda presente na forma de algumas pesquisas entenderem a relação macro/micro”. Assim sendo, entendemos que as instâncias macro e micro na pesquisa não devem ser interpretadas de forma dicotômica, pensando a autonomia de uma em relação à outra, ou ainda, numa relação de causa e efeito. Tal complexidade afasta muitos/as pesquisadores/as dessa perspectiva. No dizer ainda de Lopes (2006, p. 626), “é significativa, contudo, a existência de tão poucos estudos que enfrentam as dificuldades de articular, em uma mesma pesquisa, as duas dimensões”.
Entendemos ser significativo também compreender não apenas se as propostas oficiais (federais, estaduais, municipais) são implementadas na prática, ou ainda, apontar os limites e possibilidades para implementação das propostas curriculares na escola, mas entender como as redes do cotidiano são construídas, que saberes práticos e teóricos são ressignificados, como e por que são recontextualizados. É notável compreender os momentos de participação dos professores nas propostas, como também a participação de membros dos movimentos sociais, se estes se fizeram ou estão presentes na constituição dos processos de mudança em curso.
Há notoriamente dificuldades de compreender as dinâmicas produtivas do cotidiano, quando apenas se tenta dizer como a escola deve ser, como os comportamentos precisam ser regulados, sem que se entenda porque são do jeito que são e como se constituem no cotidiano das relações sociais concret as, quais as direções políticas, culturais e econômicas (LOPES, 2006).
As novas perspectivas sugerem que o nível micro tem intensa relação com o nível macro. Contudo, o nível micro por envolver normalmente pequeno número de pessoas no mesmo espaço concede às mesmas a possibilidade de se observarem mutuamente. A interação face a face caracteriza-se por envolver pessoas, ações, padrões de comportamentos que mesmo representando situações específicas não estão desvinculadas da totalidade. Por isso, é mister dizer que convém ao pesquisador(a) não reduzir sua atenção a determinados aspectos da cena social.
Dentro desse cenário, faz-se necessário ficarmos atentos às ações das pessoas. Às vezes, em determinada ocasião, elas podem não se apresentarem como a melhor referência para a leitura e a interpretação da realidade, mas é preciso ficarmos atentos às experiências anteriores, aos diferentes contextos institucionais que foram esquecidos ou perdidos no vai e vem do cotidiano confuso, complexo, cheio de acertos e de erros também. Recuperar outros contextos vividos também é muito importante para entender a dinâmica do momento presente.
O macro e o micro, numa perspectiva de interação, seriam sempre considerados hipotéticos e incompletos, devido à complexidade das relações. É preciso entender que o mundo das experiências tem uma capacidade enorme de recriação e de construção de novas formas de interações que desembocam em ações e intercâmbios diversos. As práticas têm suas próprias lógicas e saberes sem deixarem, contudo, de estar implicadas com as demandas gerais da sociedade e com as políticas educacionais.
É com essa perspectiva que o nosso olhar se direciona, primeiramente, para os documentos curriculares escritos da Rede Municipal de Ensino do Recife, entendidos como instrumentos das políticas curriculares e, portanto, inseridos na dimensão macro. No entanto, também se debruça sobre os sujeitos e as ações vivenciadas nas práticas curriculares cotidianas, associando as dimensões macro/micro com vistas a compreender de que forma essas práticas curriculares em uma escola da Rede Municipal de Ensino do Recife estariam vivenciando a educação das relações étnico-raciais.
Para tanto, entendemos ser necessário explicitar os caminhos escolhidos e as teias tecidas ao longo do percurso.