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2.8 A relação de poder mulher/sindicato

Apesar de algumas relações serem desenvolvidas no interior dos sindicatos, com nítido recorte de gênero, no tocante a determinação das funções exercidas pelas mulheres, bem como as políticas a que o sindicato deve lutar, com caráter protecionista/assistencialista para as mulheres, não tem havido a mínima politização acerca dessas questões no interior dos sindicatos. Eles não estão instrumentalizados politicamente para lidar com a questão de gênero no seu interior e na sociedade. O diferente é tratado de maneira igual, não que tenha que ser tratado de maneira diferente, mas cada gênero apresenta suas especificidades e seria importante que as diferenças permanecessem e que sejam tratadas de forma diferente.

No que se refere às questões levantadas, pudemos perceber, independente do sexo, a falta de afinidade e domínio sobre a maioria das questões, como a política de cotas da CUT e a dupla e a tripla jornada de trabalho.

E o que é interessante é que, enquanto algumas mulheres colocaram que “as mulheres é quem devem se dispor” a participar, mas se esquecem de que são mulheres e trabalhadoras como as mulheres/trabalhadoras da base, se colocando como se estivessem em situações opostas e ocupando espaços diferentes.

No caso dos presidentes, percebemos que em várias situações demonstravam que o sindicato era seu, ao falarem que não cumpriam a cota porque não conheciam mais mulheres para compor as diretorias. Mas em outras situações, os mesmos pareciam não perceber, que o fato de ser sindicalista, poderia estar incentivando a inserção das mulheres nos sindicatos, não apenas para cumprir as cotas, mas que essa inserção fosse permeada pelas discussões que conscientizassem-nas, do ponto de vista da classe e do gênero.

Nesse sentido é que percebemos que, no caso específico da mulher, os dirigentes, não tem sabido agir, até pelo fato de que não tem conseguido ver no sindicato, um mecanismo de conscientização e de discussão com a base, sobre a maior inserção da mulher nos sindicatos.

Além de não se vislumbrar o papel do sindicato, na criação de mecanismos, onde a mulher trabalhadora pudesse ter onde deixar seus filhos enquanto trabalha. E de que deve haver alguma forma de alivio da dupla jornada de trabalho, pois segundo o presidente do STIAC, deveria haver algum “meio” para melhorar as condições de trabalho das mulheres. Pois assim as

mulheres recebendo uma melhor remuneração pudessem pagar alguém que lhe ajudasse nas tarefas domésticas, liberando-a dessas funções e assim atuar de forma mais presente nos sindicatos.

Ficando demonstrado que, apesar de em alguns momentos, os sindicalistas saberem das dificuldades das mulheres em se inserirem nos sindicatos, em outros momentos, isso se dispersa no discurso de que cabe à mulher, conseguir se inserir nos sindicatos.

Também fica demonstrado que, de acordo com as respostas dos sindicalistas, que no meio sindical não se discute questões específicas de gênero. E quando questionado sobre esses assuntos “tabus” e em como inserir a questão de gênero no meio sindical, ou como estar incentivando a inserção da mulher no sindicato, seus dirigentes acabam sempre encontrando um “culpado” pelo problema. Dessa forma, cabe a mulher resolver o problema do machismo ou a dupla e tripla jornada de trabalho, para poder atuar com tranqüilidade no meio político.

Outra questão que fica demonstrada com as atitudes de boa parte dos sindicalistas, é de que, quando lhes convém, apresentam um discurso de apoio a “causa” das mulheres, porém vemos que na maioria das vezes o apoio fica explícito apenas no nível do discurso.

Além de que, há ainda no meio sindical, a presença muito forte da postura de alguns dirigentes, que apóiam determinada proposta, com a intenção de demonstrar uma postura de abertura ao diálogo. Porém na maioria das vezes, esse apoio fica apenas no nível da aparência.

Apontamos isso, conforme SARTORI (2001), nos coloca que, se a votação da política de cotas tivesse sido secreta, ela não teria sido aprovada. Porque segundo ele, publicamente não há como não votar a favor nesse tipo de política, até mesmo porque, dos delegados votantes de tal proposta, 75% deles eram formados por homens.

Para ele o discurso, esconde a vontade dos sindicalistas, assim, na aparência não está explícita a essência, pois a realidade é bem outra. Muitos dos delegados presentes no Congresso da CUT, votaram a favor, porque entenderam a importância da política para as mulheres. Porém o que mais surpreendeu foram as atitudes das mulheres em resistir na votação em seu favor. Pois segundo o autor, as mulheres argumentaram que nessa iniciativa da CUT, pode haver manipulação de algumas mulheres, além de ser uma atitude artificial, pois para elas, o processo de incorporação ao meio político, deve ocorrer de maneira natural.

eleita para cargos políticos, na maioria das vezes, não foi por meio de campanha sobre a discriminação da mulher e sim pela filiação partidária. Ou seja, as mulheres têm demonstrado que, quando alcançam postos privilegiados na sociedade, não foi devido a sua luta pela questão de gênero, porque na opinião da autora essa causa nem sempre tem sido motivo para seu sucesso político. Dessa forma essas mulheres, não têm tido a preocupação de se voltarem para as questões que envolvem as mulheres mais humildes e sofridas da sociedade.

Assim, podemos pensar nas relações de poder que permeiam o meio sindical, reproduzindo a relação de poder representada na sociedade pela autoridade do homem capitalista. Porém essa relação de poder, pode tomar outras conotações, no interior da relação entre indivíduos do mesmo sexo e classe social.

Em pesquisa recentemente realizada, verificou-se que nas eleições proporcionais em que a política de cotas foi implantada, mesmo que muitas mulheres participavam apenas para preencher o requisito mínimo de inscrição de mulheres, houve crescimento do número de vereadoras eleitas, enquanto que nas eleições majoritárias, onde que não houve aplicação da política de cotas, não se registrou crescimento de mulheres eleitas. COSTA (2001).

Mas devemos também considerar que, como coloca COSTA (2001), o fato de mulheres estarem na política não as tornam iguais entre si e nem as mulheres na política se tornam melhores, o fato é que “... o gênero não é dado apenas pelo sexo, mas como vivemos esta condição a qual está relacionada com a experiência de classe, raça, etnia, idade, etc...”. (COSTA, 2001: 221).

SAFFIOTI (1987), nos aponta que a atitude de poder pode provir tanto de homens como de mulheres, pois apesar da sociedade determinar que são os homens que devem usar da racionalidade e da força para impor sua vontade, muitas mulheres também se comportam de maneira masculina.

Ao exigir de outras mulheres que elas devem se impor na sociedade e no sindicato, buscando seus espaços de atuação e supostamente se impondo na família para poderem atuar no sindicato, pode merecer congratulações, porém a atitude dos sindicalistas, homens e mulheres, de achar que deveria partir do gênero subordinado na sociedade, a resolução dos problemas para atuarem na política, acabam sendo uma atitude cômoda aos representantes da classe trabalhadora.

além do capital se a questão de gênero não tem sido tratada com a devida atenção e dedicação por parte dos sindicalistas e destes com a base, ao contrário vemos que as próprias mulheres sindicalistas não têm tido a visão que, como líderes, são formadoras de opinião e de consciência.

COSTA (2001) coloca que, no caso da questão partidária, não tem havido a preocupação de se estruturar uma organização suprapartidária de mulheres, pois muitas das candidatas a cargos eletivos não são votadas nem pelas próprias mulheres, pois as próprias mulheres não dão credibilidade à outras mulheres e sempre cobram mais eficiência e comportamento masculino na suas ações.

Assim, infelizmente, a noção da construção social da divisão sexual do trabalho, permeia a consciência do universo sindical, pois o sindicato é uma organização que tem cada vez mais se distanciado em seus objetivos de luta em defesa do trabalhador. E a questão de gênero tem concretamente sido eliminada do sindicalismo e por parte das próprias mulheres sindicalistas, tem-se uma atitude reproduzida da sociedade, onde as mulheres se vêem apenas como mulheres, fruto da construção social, onde prevalece a competitividade e, conseqüentemente, a atitude de que, cada qual consiga sozinha alcançar seus objetivos.

OLIVEIRA (1994) aponta que o modelo de sindicalismo corporativista continua a predominar na maioria dos sindicatos, apesar do movimento das greves e das mobilizações nas décadas de 70 e 80 serem considerados um avanço organizativo, os sindicatos não romperam com os limites legais, mesmo com a criação das centrais sindicais, que a despeito de significarem uma tentativa de superação da divisão categorial-corporativista existente, não lograram êxito dado o apego das centrais ao legalismo institucional que as impulsionou para um corporativismo do tipo societal, limitando sua esfera de atuação aos trabalhadores formalmente vinculados ao mercado de trabalho.

O sindicato não possui o cabedal para interpretar as diferentes processualidades ocorridas na sociedade e reproduzidas no seu interior. Seus representantes têm se mantido em estado de letargia ao não acompanharem as mudanças ocorridas, com a introdução de novas formas de gestão do trabalho, onde os trabalhadores não são representados.

Além de que, com essas mudanças na forma de gerir a produção, têm sido criadas formas de trabalho, onde as mulheres, como já dito, se inserem cada vez mais, mas de forma quase sempre precarizada. Por um lado, pela exclusão de outros espaços, fortemente apoiados pela discriminação sexual e salarial das funções e por outro, pela falta de condições de

apoio na dupla e tripla jornada de trabalho.

O sindicato não se tornou uma escola de socialismo, como queria Lênin e assim falta astúcia para resolver da melhor maneira o problema das perdas trabalhistas, do desemprego e da segregação, principalmente em relação às mulheres e os negros, na luta pela inserção no mercado de trabalho e assim serem representados pelos sindicatos.

Percebemos então que, a maior presença das mulheres nas diretorias, se localiza naqueles sindicatos onde a base também é formada hegemonicamente por mulheres.E que muitas diretoras pertencem à dada categoria que a permitem empregar uma outra pessoa para exercer a função doméstica. Dessa forma, podemos, entender a falta de sensibilidade de algumas diretoras, que se posicionaram no sentido de que deve partir da mulher o ato de ingressar no sindicato, já que não vivenciam a dupla jornada de trabalho.

Das nove diretoras entrevistadas, somente as diretoras do SSM, são as que estão mais interagidas com a questão de gênero nos sindicatos, pois suas respostas sempre foram no sentido de complementar a entrevista, com informações de nível nacional. E assim, foram as que mais defenderam a política de cotas, apontando ser uma política afirmativa e que por isso deve mesmo ser implementada.

Aquelas que desconheciam a proposta acharam a política irrelevante, pois para elas, a atuação no sindicato deve ser qualitativa e não quantitativa, com as mulheres se inserindo de acordo com sua iniciativa e vontade de contribuir para o sindicato.

Porém, em concordância ao posicionamento tomado por estas sindicalistas podemos inferir que, apesar das conquistas políticas das mulheres ao se inserirem no poder, elas acabam muitas vezes reproduzindo a divisão sexual do trabalho ao se dedicarem às questões sociais do sindicato. Mas, aos poucos essa divisão pode ir se modificando com a atuação do homem também nessas políticas sociais, ao mesmo tempo em que as mulheres comecem a atuar nas políticas econômicas.

Da mesma maneira achamos que a maior inserção de mulheres nos sindicatos possa dar um direcionamento às questões discutidas no seu âmbito, mesmo levando em conta que HTUN (2001) coloca, que o uso da cota depende das instituições e do compromisso partidário, além de que questões como igualdade e discriminação sexual talvez não estejam, conforme já visto, nas prioridades das mulheres que se elegem.

Assim sendo a política de cotas, não é suficiente para a maior discussão de gênero no meio político, mas deve vir associada de discussões de conscientização com a diretoria e com a base trabalhadora. E também deve ganhar outras dimensões da sociedade do trabalho e da sociedade de maneira geral, como os diversos movimentos sociais de luta pela terra, por moradia, etc.

De fato a política de cotas seria a ponta do iceberg de uma discussão mais ampla que poderia ocorrer no interior dos partidos, sindicatos e demais instâncias da sociedade organizada.