CAPÍTULO 2 A REGULAMENTAÇÃO DO ENSINO RELIGIOSO NO BRASIL
5. Resgatando a história e apontando caminhos
As etapas percorridas nos dois capítulos que compõem esta primeira parte apresentam uma linha de tempo, com inúmeros fatos e elementos de natureza diversificada que compõem cenários parecidos, diante dos quais atores sociais e políticos exercem diferentes papéis na conjuntura educacional brasileira. As mesmas etapas revelam que persiste no Brasil uma problemática centenária, que tem origem, evolução e chega a seu clímax com a celebração de um Acordo entre o Brasil e a Santa Sé, trazendo no artigo 11 o ensino religioso a ser ministrado nas escolas da rede pública de ensino, desta vez com indicadores de sua natureza: ‘católico e de outras confissões’.
Convém lembrar que, nos dois extremos, registra-se um fato curioso. Esses indicadores provocaram nova discussão, que, ao invés de apontar para a superação dos habituais conflitos sobre a normalidade da área no conjunto curricular da escola, desarticularam a engrenagem que vinha sendo construída e utilizada como meio de articulação das partes envolvidas na organização e prática desse componente curricular.
No outro extremo, está a expressão “será leigo o ensino ministrado nas escolas públicas”, outro indicador que não foi interpretado segundo a intenção dos redatores da primeira Carta Republicana. Trata-se de extremos que dificultaram o diálogo entre as partes interessadas em determinado modelo de educação e na possibilidade da efetivação da democracia, tendo a educação como espaço privilegiado para o exercício da cidadania.
Comparando esses dois fatores com duas faces de uma mesma moeda, no desencadear de todo o conflito que se instalou no Brasil durante o regime republicano, constata-se que a ausência do diálogo para se chegar ao consenso sobre a questão pode favorecer a instauração de uma ruptura definitiva entre as partes interessadas na legalização e
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CONSELHO DE ENSINO RELIGIOSO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL. Carta aberta. Divulgada em 15 de abril de 2010. Disponível em: <http://www.fonaper.com.br/noticia.php?id=937>. Acesso em: 15 dez. 2010.
na prática de uma área de conhecimento cuja história é marcada por muitas vidas que se dedicaram à causa, com bons propósitos e muito investimento na realização experiências, em sala de aula e na formação de professores.
Eliminando-se outros aspectos importantes na construção do discurso sobre o ensino religioso no Brasil, convém selecionar o principal deles: as divergências de compreensão dos princípios da laicidade do Estado e o da liberdade religiosa, ambos também inseparáveis.
As correntes que se bifurcam em contrários e favoráveis ao ensino religioso no sistema escolar público no Brasil compõem o palco das discussões trazendo presentes muito mais elementos que procedem do imaginário coletivo formado pela sociedade, ao longo de alguns séculos, do que elementos próprios da realidade atual, a exigir aprofundamento sobre temas de relevância na questão. Essa realidade pode ser tomada como o alicerce sobre o qual têm sido construídos alguns pilares de projetos educacionais para a continuidade das reformas de ensino no Brasil.
A corrente dos favoráveis tem enfraquecido o seu discurso e mantido os habituais confitos gerados pela sua subdivisão em várias linhas de pensamento sobre a matéria, o que tem concorrido para a permanência das resistências dos contrários, cujo discurso se fortalece, enquanto encontram novas ferramentas para a concretização de seu objetivo, sem perspectiva de consenso que possibilite o cumprimento da legislação em vigor. A referida legislação atingiu, em 2010, a melhor proposta para o ensino religioso no currículo escolar até então vista no Brasil, porém longe de ser operacionalizada, em meio ao discurso conflitivo do momento.
O Acordo entre o Brasil e a Santa Sé reativou os antigos vulcões das áreas aparentemente adormecidas sobre a grande questão do ensino religioso no Brasil. Resta saber, se esta reativação veio contribuir para o início de uma séria reflexão sobre uma problemática centenária, ou para criar situações irreparáveis, gerando novos conflitos, pela ausência de consenso e pelo fortalecimento das resistências das partes envolvidas.
A promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei n° 9.394/96, e a alteração do artigo 33, através da Lei n° 9.475/97, deram um novo caráter ao ensino religioso. Acrescenta-se a isto o fato de que o Ministério da Educação, através da Resolução n° 04, de 13 de julho de 2010, regulamentou as diretrizes curriculares nacionais gerais para a Educação Básica, e a Resolução n° 07 de 14 de dezembro de 2010 apresentou como parte da formação básica comum as áreas do conhecimento, dentre as quais o ensino religioso.
Essas alterações na legislação e a definição das novas áreas do conhecimento estabelecem uma nova identidade para o ensino religioso. A alteração do artigo 33 afirma, com clareza, o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil e a proibição de práticas proselitistas no ambiente escolar. Mas a alteração da lei nem sempre é acompanhada por uma ressignificação da compreensão e da prática, no caso, do ensino religioso. Essa ressignificação, necessita de um tempo e de um processo de reconstrução, a qual, por sua vez, se efetiva no encontro das pessoas e no confronto com as novas situações do ensino.
No caso do ensino religioso, perpetua-se um conflito, desde o período republicano, entre os que apresentam argumentos contrários e favoráveis a sua permanência no sistema escolar. Esses conflitos permanecem e ambos os lados promovem divulgações públicas de seus posicionamentos, através de publicações, discursos e outros veículos de comunicação. Na prática escolar também não se conseguiu consenso em relação à epistemologia do ensino religioso, mas é consenso entre os educadores que o ensino religioso tem um papel imprescindível no processo de formação integral dos educandos. No entanto, várias questões permanecem abertas quanto ao objeto dessa área do conhecimento e também sobre quais pressupostos pedagógicos atenderiam melhor a sua prática em sala de aula. Na busca dessa definição, logo aparecem divergências, surgidas como decorrência da natureza conceitual do ensino religioso, que se expressa em variados ‘modelos’ de ensino religioso praticados nas escolas públicas do Brasil.
Um dos caminhos possíveis para se tentar superar essas divergências é buscar na indicação do Ministério da Educação, nas diretrizes curriculares nacionais gerais para a
PARTE II FUNDAMENTOS EPISTEMOLÓGICOS E METODOLÓGICOS DO