5. INTERVENÇÃO DO JUDICIÁRIO NA JURISDIÇÃO DO ÁRBITRO
5.3. Sentenças parciais e a coisa julgada arbitral
Ademais, deve existir relação harmônica e cooperativa entre a atividade jurisdicional
estatal e a arbitral, sob pena de fazer com que o jurisdicionado perca um meio alternativo de
resolução de seus conflitos bastante democrático, que privilegia a participação do povo na
administração da justiça, conforme veremos em detalhes no próximo capítulo.
arbitrais, nacionais e internacionais, sobretudo porque inexistia regra que obstasse a prolação de sentença parcial de mérito. Assim, rompe-se em sede normativa arbitral interna com a teoria da unidade e unicidade do julgamento da causa, na exata medida em que o sistema passa a admitir, expressamente, a prolação de sentença arbitral intermediária (parcial ou fracionada), assim compreendida como sendo aquela que resolve, em definitivo, uma parcela do conflito posto para conhecimento do árbitro ou tribunal arbitral. Por sua vez, limitou-se a Lei 13.129/2015 a acrescentar ao art. 23 da Lei de regência o § 1º, que simplesmente autoriza o árbitro a proferir sentenças parciais, diferentemente do que se verifica com o mesmo instituto regido pelo art. 356 do CPC,32 ou seja, não especifica as hipóteses ou requisitos para que assim procedam os juízes privados. Parece-nos que andou bem o legislador, pois, ao estabelecer regra autorizadora em aberto, conferiu aos árbitros o poder de aplicação desse instituto quando entenderem adequado, ou, ainda, de acordo com as normas insculpidas em regulamentos de entidades arbitrais, se for o caso. Por óbvio que a sentença parcial – assim como a sentença única – não está submetida a qualquer espécie de recurso, salvo se as partes estipularem de forma diversa em convenção arbitral (hipóteses raríssimas). Transitada em julgado a sentença parcial, a parte sucumbente haverá de cumpri-la espontaneamente, ou, se assim não proceder, será objeto de cumprimento forçado de sentença perante a jurisdição estatal. Significa dizer, em outras palavras, que a sentença arbitral parcial transita em julgado por capítulos e, por conseguinte, dar-se-á o fracionamento da res judicata, propiciando a sua execução.
Assim, autorizados pelas partes, os árbitros poderão julgar o mérito da causa a eles submetida em etapas, por sentenças parciais. Nesse caso, haverá diversas sentenças de mérito, cada qual referente a uma parcela do conflito, como ocorre no processo civil tradicional, todas reflexo de verdadeira atividade jurisdicional do árbitro
390.
Sob o aspecto prático, sua adoção confere maior efetividade ao contraditório e à ampla defesa, pois permite que as partes e julgadores concentrem seus argumentos, provas, investigações e conclusões em um específico objeto em cada fase.
Além disso, por vezes, a investigação a respeito de qual seria o valor devido, se obrigação existisse, é extremamente complexa - sendo preferível antes concentrar-se no exame
390 “Tanto no julgamento parcial do mérito do litígio quanto no julgamento final de mérito, o juiz estatal exerce verdadeira função jurisdicional. Ele decide o litígio que separa as partes, operando uma constatação, aplicando uma regra de direito e retirando a consequência jurídica dessa constatação. Tanto é verdadeira atividade a de jurisdictio que, depois do trânsito em julgado dessa “decisão interlocutória de mérito”, a decisão passa a ter autoridade de coisa julgada material. Além disso, é inegável que, de certa forma, para a questão que foi decidida no julgamento parcial do mérito o processo de cognição se encerra. Certo, estritamente falando, o processo avança, pois a fase cognitiva prosseguirá para as questões de mérito ainda não decididas. Contudo, com relação ao que foi decidido no julgamento parcial, a cognição foi encerrada. Dito isso, é perfeitamente compreensível que, por razões específicas à organização e eficiência do processo civil brasileiro, o legislador tenha optado por separar essas duas decisões, que nas suas características mais fundamentais possuem a mesma natureza. Como reconhecido pela doutrina processualista, o legislador do CPC de 2015 “retom[ou] o critério classificatório original do CPC/1973”, conjugando-o com a definição da Lei n° 11.232, de 2005, para sanar as confusões procedimentais por essa criados.”
(DA SILVEIRA, Gustavo Scheffer. A sentença sobre a competência arbitral: natureza e regime de controle de anulação, in João Bosco Lee and Flavia Mange (eds), Revista Brasileira de Arbitragem, (© Comitê Brasileiro de Arbitragem CBAr & IOB; Kluwer Law International 2019, Volume XVI Issue 63), p. 21).
da existência da obrigação para, só depois, partir para a identificação do quantum devido. Essa dicotomia pode contribuir para tornar o processo arbitral mais eficiente, célere e econômico, atendendo melhor ao princípio do devido processo legal.
As sentenças parciais poderão, evidentemente, apresentar naturezas diversas como as sentenças arbitrais finais - declaratória, constitutiva ou condenatória. O fundamental, em qualquer caso, sob pena de ofensa ao devido processo legal, é que guardem coerência entre si, como já reconhecido pelo Superior Tribunal de Justiça
391. Quando se fala em "sentenças parciais" fala-se, necessariamente, em sentenças de mérito. Não existem sentenças parciais
"terminativas"
392. Com efeito, o provimento que declara a inadmissibilidade do julgamento de determinada pretensão ou, ainda, decisões que resolvem questões processuais incidentalmente, mesmo que para declarar a impossibilidade do julgamento de parte do mérito do processo, mas sem extingui-lo, são apenas interlocutórias.
Nos casos em que houver, com a autorização das partes, a prolação de sentenças parciais, a arbitragem se encerrará apenas quando "transitar em julgado" a última delas (i.e., a
"sentença parcial final") e os árbitros estiverem dispensados de, em seguida, praticar novos atos no âmbito do procedimento arbitral.
As sentenças arbitrais parciais nacionais estão sujeitas à análise judicial da mesma forma que as sentenças arbitrais em geral. Ou seja, aplicam-se exatamente os mesmos limites dos
391 “[...] 1. No âmbito do procedimento arbitral, nos termos da Lei n. 9.307/1996 (antes mesmo das alterações promovidas pela Lei n. 13.129/2015), inexiste óbice à prolação de sentença arbitral parcial, tampouco incongruência com o sistema processual brasileiro, notadamente a partir da reforma do Código de Processo Civil, veiculada pela Lei n. 11.232/2005, em que se passou a definir sentença, conforme redação conferida ao § 1º do art. 162, como ato do juiz que redunde em qualquer das situações constantes dos arts. 267 e 269 do mesmo diploma legal. 1.1 Em se transportando a definição de sentença (ofertada pela Lei n. 11.232/2005) à Lei n. 9.307/1996, é de se reconhecer, portanto, a absoluta admissão, no âmbito do procedimento arbitral, de se prolatar sentença parcial, compreendida esta como o ato dos árbitros que, em definitivo (ou seja, finalizando a arbitragem na extensão do que ficou decidido), resolve parte da causa, com fundamento na existência ou não do direito material alegado pelos litigantes ou na ausência dos pressupostos de admissibilidade da tutela jurisdicional pleiteada.”
(Superior Tribunal de Justiça, Recurso Especial n. 1543564/SP, Rel. Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, 25 de setembro de 2018).
392 “Em que pese denominadas de “sentenças parciais”, mais adequado, parece-nos, denominá-las de sentenças intermediárias, pois, ontologicamente, esse ato não é parcial nem mesmo provisional; é ato decisório (sentença) completo em sua essência, bem como definitivo, apesar de solucionar parcialmente a lide. Em outras palavras, parcial é a solução da lide, enquanto a sentença que soluciona parcialmente o conflito é em tudo e por tudo ontologicamente plena e definitiva, contudo, não extintiva do processo.” (FIGUEIRA JÚNIOR, Joel Dias. Arbitragem. Grupo GEN, 2019, p. 338).
artigos 32 e 33 da Lei de Arbitragem. Portanto, é perfeitamente possível que sentenças arbitrais parciais sejam impugnadas por ação de anulação ou impugnação ao seu cumprimento.
O momento adequado para a impugnação judicial de sentenças arbitrais parciais, no entanto, é relevante. Ou se considera que as sentenças parciais apenas podem ser impugnadas depois de proferida a "sentença parcial final" ou, então, entende-se que cada sentença parcial tem o seu próprio momento de controle, independente do momento de controle das demais.
A Lei de Arbitragem não trata expressamente da questão. No entanto, a jurisprudência é firme no sentido de que as sentenças arbitrais parciais devem ser impugnadas antes mesmo de proferida a "sentença parcial final”
393.
Isso se explica pelo fato de a Lei de Arbitragem ter estabelecido, sem ressalvas, que o prazo de noventa dias para o ajuizamento da ação de anulação inicia-se com a intimação da sentença ou de seu aditamento.
A questão da intervenção do Poder Judiciário nas sentenças arbitrais parciais se complica quando se trata das possíveis consequências que o julgamento de uma medida judicial pode gerar sobre outras sentenças parciais e/ou sobre o processo arbitral ainda em curso. Nesse sentido
394:
393 “Quanto à pretensão anulatória de sentença arbitral, já assentou a Terceira Turma desta Corte, aderindo ao voto desta relatoria, que "a ação anulatória destinada a infirmar a sentença parcial arbitral - único meio admitido de impugnação do decisum - deve ser intentada de imediato, sob pena de a questão decidida tornar-se imutável, porquanto não mais passível de anulação pelo Poder Judiciário, a obstar, por conseguinte, que o Juízo arbitral profira nova decisão sobre a matéria. Não há, nessa medida, nenhum argumento idôneo a autorizar a compreensão de que a impugnação ao comando da sentença parcial arbitral, por meio da competente ação anulatória, poderia ser engendrada somente por ocasião da prolação da sentença arbitral final. Tal incumbência decorre da própria lei de regência (Lei n. 9.307/1996, inclusive antes das alterações promovidas pela Lei n. 13.129/2015), que, no art.
33, estabelece o prazo decadencial de 90 (noventa dias) para anular a sentença arbitral. Compreendendo-se sentença arbitral como gênero, do qual a parcial e a final são espécies, o prazo previsto no aludido dispositivo legal aplica-se a estas, indistintamente" (REsp 1.543.564/SP, julgado em 25/9/2018, DJe 1º/10/2018). 3. Na hipótese, sendo decidida a questão objeto de questionamento na sentença arbitral parcial, em 22/8/2014, a qual foi complementada por decisões do Tribunal Arbitral prolatadas em 22/10/2014 e em 12/11/2014, o termo inicial da pretensão anulatória começou a correr de imediato, nos termos da jurisprudência do STJ, que tem como supedâneo a redação do art. 33, § 1º, da Lei n. 9.307/1996, não podendo ser outra a conclusão de que realmente ocorreu a decadência nonagesimal, visto que proposta a demanda anulatória apenas em 18/12/2017.” (Superior Tribunal de Justiça, Agravo Interno na Petição n. 13.961/SP, relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, 20 de setembro de 2021).
394 DALL’AGNOL, Ana Carolina; DE CASTRO E MARTINI, Pedro Corrêa. A sentença arbitral parcial: novos paradigmas? In: CAHALI, Francisco Jose; SANTOS, Thiago Rodovalho dos; FREIRE, Alexandre Reis Siqueira (org.). Arbitragem: estudos sobre a Lei n. 13.129, de 26-5-2015. São Paulo: Saraiva Jur, 2016, p. 17.
Decorrido o prazo sem que as partes tenham promovido a ação de nulidade, a sentença parcial restará inatacável, ainda que outra sentença proferida posteriormente, final ou parcial, seja impugnada – inclusive com sucesso – perante o Poder Judiciário. Isso quer dizer que a inércia do vencido implicará decadência de seu direito à desconstituição da sentença parcial por essa via. Nesse sentido, a reforma da Lei n.
9.307/96 modificou o art. 33, § 1º, para que esse passasse a prever que poderá ser pleiteada a anulação de sentença arbitral, “parcial ou final”, dentro do prazo de 90 dias do recebimento da notificação da respectiva sentença. Interessante notar que a distinção feita pelo Direito Italiano, mencionada acima, entre laudos parciais e laudos não definitivos tem, naquele sistema, certa relevância para o sistema de anulação de laudos arbitrais: nos termos do art. 827 do c.p.c. italiano, os laudos não definitivos teriam sua anulabilidade diferida até o proferimento do laudo definitivo, enquanto os laudos parciais teriam anulabilidade imediata. Embora a preocupação do legislador italiano – quanto à anulação das decisões que apresentam relação de prejudicialidade entre o objeto da decisão parcial e o restante do litígio – encontre certo coro entre alguns autores brasileiros, a Lei Brasileira não prevê distinção semelhante, aplicando-se, em todos os casos, um único regime de impugnação de sentença arbitral. Dessa forma, a decisão estatal que determinar a anulação de sentença parcial poderá trazer consequências diretas sobre o procedimento arbitral que ainda estiver em curso. Como esclarece Carmona: Se o juiz reconhecer que o compromisso é nulo, que a sentença emanou de quem não podia ser árbitro, que a decisão foi proferida por prevaricação, concussão ou corrupção passiva, que foi proferida fora do prazo ou, finalmente, que foi desrespeitado algum dos princípios do processo arbitral, todo o procedimento será prejudicado e a derrocada afetará a atividade arbitral que ainda estiver em curso, tudo podendo resultar, até mesmo no término da arbitragem. Se o vício for apenas da sentença arbitral parcial (falta dos requisitos do art. 26 da Lei de Arbitragem, sentença extra petita, ultra petita ou citra petita), será destruído apenas o ato, não o procedimento arbitral, de modo que os árbitros deverão interromper as atividades que estiverem praticando (e que tenham relação com a sentença arbitral parcial anulada) para refazer o procedimento.