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4 PRÁTICAS E ESCOLHAS DE LEITURAS LITERÁRIAS DOS JOVENS

4.10 Ser leitor: entre a infância e a juventude

Alguns de nossos relatos deixam ver alguns aspectos que demarcam a transição no percurso leitor de nossos jovens da infância para a juventude, repercutindo em suas práticas e escolhas de leituras literárias. A partir desse contexto, introduzimos um novo tópico no roteiro de entrevista, por essa razão, não obtivemos o depoimento de todos os participantes. Mas, a maior parte dos leitores que fez essa discussão explicita marcas dessa passagem.

Tabela 28: Diferenças entre ser leitor na infância e na juventude82

Categorias Ocorrências

Mudança de gostos e preferências leitoras 11

Tornar-se leitor na juventude 3

Ampliação da produção de sentidos 2

Concorrência da leitura com as mídias 1

Total 17

Fonte: Elaborada pela autora.

4.10.1 Mudança de gostos e preferências leitoras

A principal mudança verificada na transição da infância para a juventude em relação às práticas leitoras é a mudança de gostos e preferências leitoras:

198.Alícia: Os gostos mudaram /.../ meu gosto mudou, mas não mudou totalmente, se fosse pra eu poder pegar a Coleção Vagalume hoje, o “Diário da princesa”, eu

acho que ainda ia ler. Alguns contos, algumas fábulas ou então alguns contos diferentes sem ser Branca de Neve. Alguns que eu não conheço, eu ia ler hoje, mas, por exemplo, aqueles livros fininhos que minha mãe trazia pra mim quando eu

era criança, eu acho que hoje eu não ia ler, porque /.../ eu evolui. Eu tô gostando

de outros tipos de leitura, então pra mim não é mais interessante (risos) (Leitora/BCS – 17 anos, entrevista, 2014).

199.Clarice: ...Ah... Eu comecei a ler tipo... Livros que não é tão de série. Tipo só

um livro e eu tô lendo outros livros, outros temas que eu quero ler é... “O lobo de

wall street” (Leitora/BVN – 13 anos, entrevista, 2014).

200.Renato: Ah... têm diferenças, porque quando você é criança /.../ gosta mais

daqueles livros menorzinhos, vai mais naqueles (de) humor, quadrinhos essas coisas. Quando você vai crescendo, vai se interessando por outros tipos /.../ livros

maiores. Tem /.../ sim essa diferença (Leitor/BNE – 16 anos, entrevista, 2014). P: Em relação ao tamanho do livro, número de páginas, é a principal diferença entre você leitor criança e você leitor adulto?

Renato: É mais isso /.../ porque /.../ quando eu era mais novo, quando eu era

criança, /.../ eu ia direto naquela seção mais infantil, claro, eu sou criança ia mais pra lá, mas eu quase /.../ não chegava perto dos outros livros. Eu olhava lá, mas não

despertava interesse, sabe? Eu gostava mais daqueles “menorzinhos”, infantis

(Leitor/BNE – 16 anos, entrevista, 2014).

No caso de Alícia, essa mudança passa pela diversificação dentro dos gêneros textuais de sua preferência: “...Alguns contos, algumas fábulas ou então alguns contos diferentes sem ser Branca de Neve...”. E, também, pela conquista da autonomia em relação às indicações de leitura de sua mãe: “aqueles livros fininhos que minha mãe trazia pra mim /.../ acho que hoje

eu não ia ler isso /.../ eu evolui...”. Esse fragmento ainda deixa ver que a leitora tem

consciência da sua condição de leitora em formação. O depoimento de Clarice evidencia seu

desinteresse por séries literárias e a ampliação das temáticas de interesse: “...Eu comecei a ler

/.../ Livros que não é tão de série /.../ eu tô lendo /.../ outros temas...”. Se, como descreve

Jouve (2002, p.83), a leitura de narrativas de um mesmo gênero propicia o encontro com enredos de padrão básico, que oferecem aos leitores certo conforto, pois trazem “sequências e ações estereotipadas”, pode-se entender que o distanciamento desse modelo e o desejo de ampliação dos interesses temáticos dessa leitora também sinalizam o avanço na sua trajetória leitora. Ademais, ambos os casos denotam que o exercício das práticas leitoras na juventude ocasiona a expansão dos repertórios leitores.

Embora Renato explicite que o número de páginas dos livros é elemento de transição das suas escolhas de leituras literárias da infância para a juventude, seu depoimento também evidencia sua mudança de interesses: “...quando você é criança /.../ vai mais naqueles (de) humor,

quadrinhos /.../ Quando você vai crescendo, vai se interessando por outros tipos...”. Seu

relato ainda evidencia que a entrada na juventude altera o trânsito nas bibliotecas: “...quando

eu era criança, /.../ eu ia direto naquela seção mais infantil /.../ não chegava perto dos outros livros.

4.10.2 Torna-se leitor na juventude

Em vários momentos deste trabalho, fizemos a crítica quanto ao discurso de senso comum vigente em nossa sociedade relacionado a não-leitura da juventude, bem como, ressaltamos a importância do contato precoce e contínuo com os livros e, também, a necessidade de ampla inserção em práticas letradas na infância para a constituição de percursos leitores perenes. De fato, a análise de nossos dados reitera a relevância desses aspectos, porém, em alguns relatos, identificamos a aproximação da leitura literária na juventude:

201.Adriana: ...quando eu era menor eu não lia tanto, eu não tinha o hábito de ler, eu comecei a ter esse hábito de ler mais, quando eu cheguei na adolescência. P: E o que te despertou, se na infância você não lia e começou a ler na adolescência? Isso remete ao que você falou no início da entrevista, essa coisa dos amigos, influências ou não?

Adriana: O que mais me encantou em termo de leitura são as histórias em si,

porque são mundos diferentes, são coisas que você nunca teve uma experiência e /.../ mesmo não tendo essa certa experiência, a leitura /.../ te envolve um pouco nisso.

P: De ampliar a experiência de mundo, nesse sentido que você está falando? Adriana: Sim, é (Leitora/BNE – 16 anos, entrevista, 2014).

202.Jussara: ...quando criança, eu não tinha muito o hábito de ler livros, não

tinha muito essa influência, depois de jovem que eu aprendi a ler /.../ livros e tudo.

P: E como foi, você falou um pouquinho de influências, o que você tá chamando de influência?

Jussara: Porque eu via as pessoas lendo e comecei a despertar a vontade de ler

também.

P: E quem você via lendo?

Jussara: Pessoas na rua, pessoas, tipo assim, de escola lendo /.../ a gente ficava

curiosa de saber qual era o assunto e acabava lendo (Leitora/BVN – 15 anos, entrevista, 2014).

203.Renata: ...agora eu leio mais que quando eu era criança, antes eu não lia

muito não /.../ porque criança gosta mais de brincar. Agora eu sei que eu gosto mais de Literatura (Leitora/BVN – 17 anos, entrevista, 2014).

Embora a aproximação da leitura na juventude seja algo em comum entre esses leitores, as motivações apresentadas são diferenciadas. Para Adriana, a importância desse encontro está na ampliação de sua subjetividade pela leitura literária: “...são mundos diferentes /.../ coisas que você nunca teve uma experiência...”. O depoimento de Jussara deixa ver que esse

envolvimento associa-se à dimensão social da leitura: “...eu via as pessoas lendo e comecei a

despertar a vontade de ler /.../ Pessoas na rua /.../ de escola...”. Esse fragmento também

sinaliza que o pertencimento a diferentes comunidades leitoras provocam o desejo de compartilhamento das referências culturais. O depoimento de Renata evidencia que a leitura surge como novo interesse na juventude: “agora eu leio mais /.../ antes eu não lia muito não

/.../ porque criança gosta mais de brincar”.

De maneira geral, esse encontro com a leitura literária na juventude reporta-nos ao pensamento de que as formas de sociabilidade presentes na contemporaneidade são múltiplas e que os indivíduos adquirem diferentes disposições, que podem ser fortalecidas ou enfraquecidas ao longo da vida por meio do exercício de variados modos de interação, nas distintas esferas culturais (LAHIRE, 2004).

4.10.3 Ampliação da produção de sentidos

A ampliação da produção de sentidos é outro aspecto que marca a mudança da prática leitora na juventude:

204.Jordana: ...a criança... têm determinados livros que ela não vai compreender ainda, mas o jovem não. Eu acho que tem muito livro de criança /.../ legal, apesar

de que eu leio mais livro pra jovem agora /.../ Mas, essa diferença de que jovem só lê livro de jovem, eu acho que não tem não (Leitora/BVN – 15 anos, entrevista, 2014).

Esse aspecto está expresso no relato de Jordana em: “... a criança... têm determinados livros

que ela não vai compreender ainda, mas o jovem não...”. Seu depoimento ainda revela o

reconhecimento de que a literatura infantil tem livros que também podem agradar os jovens:

"...tem muito livro de criança legal...”, mesmo que atualmente ela prefira a literatura para

jovens.

4.10.4 Concorrência da leitura com as mídias

Como se vê nos excertos 30 e 227 dos relatos de Roger e Juliana respectivamente, o esgotamento dos interesses leitores, a falta de tempo e o acúmulo de atividades são aspectos que contribuem para a diminuição ou afastamento das práticas leitoras na juventude. O depoimento seguinte reitera esses dois últimos fatores e, ainda, explicita a concorrência da leitura com as mídias:

205.Letícia: Tem com certeza uma transição de interesses. Sem dúvida. Antes eu

lia historinhas, mas eu acho que também muito por questão de tempo e prioridades.

Eu acho que depois que eu cresci, o tempo ficou mais curto pra ler. Porque agora

eu tenho que estudar, faço outras aulas, então é... Eu teria que ter a disciplina de

falar: “não, esse é meu tempo da leitura, então vou arrumar esse tempo pra ler”,

entendeu? E, às vezes, pra mim, é mais cômodo ver uma TV, ver um filme ou ficar

mexendo no meu celular. Então, eu acho que antes eu não tinha esses interesses

/.../ tem muita coisa competindo com a leitura... (Leitora/BCS – 16 anos, entrevista, 2014).

Ou seja, este fragmento: “...às vezes, pra mim, é mais cômodo ver uma TV, ver um filme ou

ficar mexendo no meu celular /.../ tem muita coisa competindo com a leitura...”, confirma a

ideia de expansão das instâncias socializadoras na contemporaneidade, que inclui a influência das mídias sobre as práticas culturais exercidas na juventude.

A partir do pensamento de Leyva (2012), entendemos que a abundância das formas de comunicação rápidas e a diversificação dos modos de entretenimento na contemporaneidade contribuem para o afastamento de experiências que requerem maior esforço e dedicação, como é o caso da leitura literária: “...Eu teria que ter a disciplina de falar: “não, esse é meu

tempo da leitura, então vou arrumar esse tempo pra ler”...”. Além disso, concordando com

Viana (2014), essa constante imersão no universo imagético, sonoro e visual da televisão, do cinema, dos quadrinhos, dos jogos eletrônicos, da internet, algumas vezes, ocasiona certo estranhamento quando os jovens são interpelados por outras formas de expressão artística. Seguimos explorando os significados das leituras literárias no cotidiano dos nossos jovens.