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2. HOBBY: IDEIAS INTERESSANTES DE FÁCIL EXECUÇÃO PARA

2.2 Sobre o significado de hobby para a revista Hobby

Para a revista, a principal importância do exercício de atividades hobbistas entre crianças, adolescentes e adultos estava em se constituir, no seu sentido mais amplo, em formas não escolares de educação. Foi com este propósito que a revista divulgou a sua missão e assim permaneceu ao longo da publicação. Os benefícios de se ter um hobby foi amplamente veiculado: o prazer de realização, formação espiritual dos jovens, valorização do trabalho pessoal, contribuição na superação de toda ordem, aquisição de novos conhecimentos, promoção da formação moral e cívica, desenvolvimento do espírito empreendedor e de curiosidade, o despertar vocacional e o entretenimento (HOBBY, jul.42, n. 72; n. 114, jan. 1946; n. 116, mar. 1946; )

Como mencionamos anteriormente, nos anos 1930, o hobby consolidou-se como uma atividade a ser desenvolvida fora do ambiente do trabalho, mas que, ao mesmo tempo trazia em seu bojo valores que reforçavam a ideologia capitalista. Contudo, desde a sua conformação na sociedade, a sua inserção no meio cultural ia além de uma simples relação com o trabalho. A sua prática disseminou-se por diversos países e pudemos perceber o crescimento da utilização do termo, a partir deste período, tanto no Brasil quanto na Argentina. Frequentemente, atribuía-se a denominação a algum passatempo, porém jornais16 e revistas traziam artigos com explicações sobre essa nova “mania” e buscavam incentivar os seus leitores a “cultivar” um hobby. Dessa forma, estar na moda ou ser moderno, pressupunha desenvolver ou cultivar um hobby.

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Realizamos uma pesquisa online no site da Biblioteca Nacional nos jornais publicados entre 1940 e 1949 no estado do Rio de Janeiro e encontramos a ocorrência do termo 173 vezes, em 18 títulos distintos. Nas entrevistas com artistas ou pessoas eminentes sempre havia a curiosidade de saber se ocorria a prática de algum hobby. Diferentes temas serviam como mote para discorrer sobre o seu significado. Como exemplo, podemos citar um artigo sobre a obra “Dom Quixote”, mas o autor inicia o seu texto discorrendo sobre a necessidade de se ter um hobby, uma vez que essa atividade pode ser um atenuante entre as exigências profissionais e repouso (LONDRES, 1947, p.14).

Um desses artigos foi replicado pela revista Hobby. Publicado originalmente na revista brasileira Viver, de autoria do professor Americo R. Netto e intitulado “¿Que significa “hobby”?” traz significativos elementos para a compreensão do termo tal qual a revista Hobby subentende. Para o autor, a palavra hobby não necessitava de urgência de tradução, uma vez que não havia um termo correspondente em língua latina que verbalizasse a ideia a ela correspondente. Encontrar uma palavra, cujo sentido define e resume a noção do vocábulo hobby fez com que o autor discutisse vários aspectos com a finalidade de explicá-lo. Para isso, até mesmo cita o fato de uma revista argentina não o ter traduzido ao utilizá-lo como denominação a fim de manter a noção original da palavra.

Mas afinal, o que seria a noção de hobby para a publicação? Tomando como referencia o artigo citado acima, o hobby foi tomado como uma atividade individual escolhida espontaneamente, cujo objetivo é “descansar trabajando” (HOBBY, n.31, fev. 1939). Trata-se de uma atividade com a capacidade de promover o bem-estar do espírito e a moral de quem a pratica, além de proporcionar o desenvolvimento intelectual. Tal prática traz o equilíbrio entre a mente e o corpo e propicia benefícios para todos, seja operário ou acadêmico, como demonstra Netto:

Podemos juzgar extraño, por ejemplo, que um professional de la literatura, se divierta, como carpinteiro aficionado, aplicando en trabajos de madera la mayor parte de sus horas de descanso, pero, de hecho, este literato, se reposa y a sí mesmo se renueva, cuando deja el libro, o la pluma, o la máquina de escribir, para empuñar con satisfacción vivíssima, el martillo, el serrucho o el cepillo. Pero hay más. En la própria práctica de su labor manual, este literato encuentra una derivación que sensiblemente mejora su producción intelectual (...) (HOBBY, n.31, fev. 1939)17.

Argumentos como este, que transcrevemos, eram comuns nas publicações da época, e como demonstra Gelber (1999, p. 44), os hobbies tornaram-se uma forma salutar de escapar das tensões da vida moderna, beneficiando a mente e o corpo. Essa concepção de panaceia segundo a qual, os hobbies seriam a solução para os problemas decorrentes do ócio e de saúde, também podem ser observados na revista. Por meio da narrativa de algumas crônicas médicas, o diretor da publicação buscava demonstrar ao leitor os benefícios da atividade e comenta uma carta enviada por um médico uruguaio, cujo teor informa a prática de receitar a revista para alguns pacientes, visto que fazia bem para “o espírito e o corpo”. (HOBBY, n.

17 Optamos por não traduzir as citações das revistas argentinas para possibilitar ao leitor o contato

direto com o texto original. Vale lembrar que, deixamos os erros da língua espanhola conforme publicado nas revistas.

76, nov. 1942.).

Entre os argumentos que a Hobby trouxe para se consolidar no mercado editorial e justificar os conhecimentos veiculados, havia o da valorização do trabalho em contraposição ao tempo livre sem utilidade, bem como o significado do papel da escola e da família para consolidar e disseminar tais valores. Durante a Grande Depressão no EUA, houve um consenso de que os hobbies poderiam ser um instrumento para conter “a delinquência juvenil e também a criminalidade” (GELBER, 1991, p.747). E a solução encontrada foi a de atribuir à escola o papel de ensinar aos seus estudantes como preencher as horas vagas com atividades construtivas. Citando artigos de jornais educacionais, o autor demonstra que era um grande negócio promover, principalmente, entre os professores de artes manuais, que os

hobbies tinham um caráter educacional e contribuíam positivamente para o

crescimento pessoal de jovens e adultos. Embora não se saiba ao certo como as escolas participaram desse processo, Gelber, afirma que houve uma crescente preocupação relacionada à questão. A expansão da atividade e o encorajamento de jovens e adultos a engajarem-se em hobbies estendeu-se às diversas organizações e permeou os espaços de sociabilidade promovendo a ideia dos “bons valores” sociais.

A revista Hobby manifestava claramente a relação entre escola e os hobbies, e procurava sempre encontrar um motivo para citar professores, conteúdos ou o currículo, numa forma de valorizar o seu programa editorial e demonstrar um vínculo entre as atividades escolares e o que a revista veiculava. Podemos inferir que a publicação almejava ser um complemento ou um elemento de transição entre a escola primária e os outros níveis de educação como o técnico e universitário. O diretor ao informar aos leitores a nova seção de “manualidades escolares”, cujos artigos seguiriam o currículo vigente afirma:

Lo hago complacido y es mi intención ser útil, por intermédio del maestro, al niño que mañana será “hobbista” y que hoy hará sus primeras armas como escolar. [...] Mas éllo (finalizar a escola), no es todo, ni la aspiración de muchos padres se concreta a éso, pues los hay, y no son los menos, que se encuentran pecuniariamente impossibilitados para costear a sus hijos los gastos que demanda la assistência a institutos de enseñanza media, y, más allá, la univeritaria (HOBBY, n. 46, maio, 1940.).

desenvolvimento de habilidades que poderiam ser úteis no mercado do trabalho e estabeleciam um diferencial na vida profissional. Podemos dizer que os valores atribuídos aos hobbies não se restringiram ao processo específico de seu “cultivo”. Veremos, a seguir, como o hobby e a ciência compartilham elementos comuns.