— Oswald Chambers
Muita coisa mudou nos últimos cem anos. Imagine nascer em 1920 e estar vivo no ano de 2020. Em apenas um século, o contexto cultural em todas as regiões do mundo passou do industrial para a informação (Gutenberg para Google), do rural para o urbano e do pensamento moderno para o pensamento pós-moderno. Estas são mudanças culturais tectônicas que permaneceram inalteradas nos quinhentos anos anteriores. O que tinha sido um ambiente de mu- dança contínua (o que é desenvolvido a partir do que foi antes e, por- tanto, pode ser esperado, antecipado e administrado) durante meio milênio, rapidamente mudou para uma situação de mudança rápida e descontínua que era perturbadora e imprevisível.1 Estamos em águas
quase totalmente desconhecidas.
1. Alan J. Roxburgh, The Missional Leader: Equipping Your Church to Reach a
Estas mudanças que abalam os alicerces geraram novas situações que desafiam pressupostos antigos de como o mundo funciona. Como resultado, a eclesiologia (a natureza e a estrutura da igreja) e a missio- logia (como a igreja se envolve na missão de Deus), por necessidade, tornaram-se altamente adaptáveis sem se deixarem comprometer. No entanto, em aspectos importantes, o que permanece constante neste tempo de rápida mudança e descontínua é o princípio eterno de que Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida — ou, nas palavras da mais antiga confissão cristã: “Jesus Cristo é o Senhor”.
Quem consideramos “Senhor” é um alicerce essencial para a jor- nada da graça. Se dissermos que “[PREENCHA O ESPAÇO EM BRANCO] é ‘senhor’” (e realmente não importa se é outra pessoa, outra coisa ou você mesmo), isso muda toda a narrativa, incluindo o objetivo e o resultado final. Mas se realmente cremos que Jesus Cristo é o Senhor, ordenado para sê-Lo de eternidade a eternidade, há ape- nas uma resposta justa: discipulado. Richard John Neuhaus nos lem- bra que o senhorio “não é apenas uma afirmação de fato, mas uma promessa de lealdade pessoal e comunitária”.2 Porque Jesus Cristo é o
Senhor, queremos ser como Ele. Queremos fazer o que Jesus fez e viver como Ele viveu. Essa é a definição do discipulado cristão e ainda é a forma como Jesus entra em Sua igreja.
Dallas Willard argumenta convincentemente que o Novo Testamento é uma coleção de livros sobre discípulos, por discípulos e para discípulos de Jesus Cristo.3 Assim, o objetivo do discipulado
não é a autoatualização (“preciso encontrar o meu verdadeiro ‘eu’ e o que é melhor para mim”) ou a resignação às forças do determinis- mo (“não consigo evitar; eu sou assim”). De fato, pela perspectiva do
2. Neuhaus, Freedom for Ministry, 98.
3. Willard, The Great Omission, 3. Willard reitera que a palavra “discípulo” ocorre
269 vezes no Novo Testamento, enquanto “cristão” é encontrado três vezes e é introduzido para se referir precisamente aos discípulos de Jesus em Antioquia (ver Atos 11:26).
cristianismo, ser fiel a si mesmo é ser verdadeiro com a pessoa que somos chamados por Deus Pai a ser, refeitos à semelhança de Seu Filho. Seguir Jesus e tornar-se como Ele é o objetivo sem desculpas da jornada da graça. João, o autor do Evangelho, se esforçou ao máximo para nos dizer que Jesus se parece e age como Seu Pai: “Quem vê a mim vê o Pai” (14.9), e que Jesus é o Verbo feito carne e, vindo de Seu Pai, é cheio de graça e verdade (1.14). Quem Jesus é e o que Jesus faz são dois lados da mesma moeda, uma realidade que levanta questões importantes para a natureza do nosso discipulado.
Ao contrário do pensamento popular, Deus não é um velho senti- mental com uma longa barba branca que acena a mão com desdém e diz: “Não importa o que eles façam; Eu só quero que eles se divirtam e aproveitem o tempo.” Deus também não é o Pai zangado, duro e irritado, que mal pode esperar que seus filhos façam confusão, para que Ele possa mostrar Sua ira e puni-los. O primeiro exemplo é a graça sem verdade — a indulgência suave sem o fogo da santidade, o que leva à permissividade irresponsável. O segundo é a verdade sem a graça — uma religiosidade implacável que leva ao legalismo rígido com pouco amor. Certamente não é fácil manter o equilíbrio entre a graça e a verdade, mas ambos devem ser mantidos em tensão pela necessidade e integridade do amor santo.
Fundamentalmente, o fato de tantas pessoas em nossas igrejas se- rem cristãs de nome, mas não serem discípulas de Jesus Cristo, que é o Senhor, é o grande problema da igreja hoje. Esse discipulado con- sagrado (uma vida aprendendo a viver no reino de Deus como Jesus fez) tornou-se opcional, exceto para os mais radicais entre nós — não apenas porque perpetua a ideia de que Jesus pode ser seu Salvador sem ser seu Senhor, mas, talvez mais importante, porque pressupõe que a graça é dada para nos aceitar como somos, mas não tem relação com o que nos tornamos.
A observação de C. S. Lewis de que “o cristão não pensa que Deus nos amará porque somos bons, mas que Ele nos tornará bons porque nos ama” é simplesmente outra forma de dizer que Deus nos ama como somos, mas também nos ama demais para nos deixar dessa forma. O amor de Deus é amor santo. Então, o tipo de pessoa que nos tornamos importa para Deus. O amor santo é cheio de graça e verdade. O amor santo dissipa a graça barata. O amor santo torna-se a condição e o meio para o discipulado. O amor santo exige que to- memos nossa cruz e sigamos Jesus.
Se tomar nossa cruz parece uma mensagem difícil para nossos dias, considere a alternativa: existência anêmica e insípida vivida para si mesmo; religião sem relacionamento. Não posso escapar dos comentários de Dallas Willard sobre o custo do “não-discipulado” (suas palavras):
O custo do não-discipulado é muito maior (...) do que o preço pago para andar com Jesus. (…) O não-discipulado custa a paz, uma vida permeada por amor, a fé que vê tudo à luz do governo superior de Deus para o bem, a esperança que permanece firme nas circunstâncias mais desencorajadoras, o poder para fazer o que é certo e suportar as forças do mal. Em suma, o não-disci- pulado custa exatamente a abundância de vida que Jesus disse que veio trazer (João 10.10). Afinal, o jugo em forma da cruz de Cristo é um instrumento de libertação e poder para aqueles que n’Ele vivem e aprendem a mansidão e a humildade do coração que traz descanso à alma.4
O discipulado é uma jornada da graça que começa e termina com Jesus, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. O objetivo do discipu- lado é seguir Jesus à medida que, pela graça, nos tornamos cada vez mais parecidos com Ele. A jornada é iniciada e sustentada pela graça, mas é realizada à medida que cooperamos livremente com Jesus como Senhor.
Cristãos nascem; discípulos são formados. A semelhança de Cristo é o nosso destino.