De acordo com Bobbio (1997), uma sociedade igualitária compõe-se dos direitos que devem ser oferecidos pela conquista e reconhecimento a um grupo social, sem diferenças de classes, gêneros, etnias, etc.
Barbosa (2003) é mais detalhista na sua análise sobre as sociedades igualitárias,
[...], as sociedades igualitárias têm como princípio estruturante da vida social o fato de os indivíduos nascerem livres e iguais. Além de sujeitos empíricos, eles também são sujeitos morais. Isso significa que nenhum atributo social, como ascendência, riqueza, status, relações pessoais, etc., pode ser levado em conta no tratamento que a sociedade dispensa a seus membros. Eles não definem o indivíduo. O que define o indivíduo é uma suposta semelhança moral dada pela existência de uma dimensão natural/física idêntica entre todos os seres humanos. Essa semelhança de forma é tomada como base de um sistema de direitos a que todos devem ter acesso igual, a chamada igualdade de oportunidades ou igualdade competitiva (BARBOSA, 2003, p. 32).
De acordo com essas afirmações, o que pode diferenciar uma pessoa de outra pessoa são as características intrínsecas, isto é, são os talentos nativos e a força de vontade interior para conquistar e alcançar os seus objetivos, conforme sua disposição e sua persistência para superá-los.
Barbosa (2003) esmiúça de forma pontual, as características ideológicas,
[...], e a única hierarquia ideologicamente possível é aquela construída a partir da avaliação dos diferentes desempenhos individuais. Por conseguinte, igualdade e meritocracia estão intimamente ligadas. A segunda é a consequência lógica da primeira. Em outros termos, nesse tipo de sociedade, o único tipo de hierarquia desejável e legítima é aquela que classifica as pessoas exclusivamente por seus talentos e capacidades individuais demonstrados no desempenho de determinadas tarefas e funções. Isso significa que as pessoas são comparadas e classificadas tomando-se por base o desempenho relativo de cada uma, e que nenhum outro fator (herança, relações pessoais e consanguíneas, privilégios corporativos, poder econômico e político) pode ser levado em conta nesse processo classificatório sob pena de invalidar a filosofia central de todo o sistema (BARBOSA, 2003, p. 32).
Utilizando-se dessa ideologia meritocrática, aqueles que se destacam dentro de um grupo social serão reconhecidos – através do mérito – e conquistarão uma posição dentro
desse grupo, pelo meio de cargos ou postos mais altos, com mais responsabilidade, maior remuneração, benefícios melhores e um ganho de status e reputação.
Esse conjunto de ganhos têm o poder e a influência de motivar aqueles que ainda não foram distinguidos, mas que identificam e validam no sistema e ideologia meritocrática, uma forma isonômica de avaliação e reconhecimento.
A equidade é uma condição sine qua non de um sistema democrático de direito, isto é, o direito a igualdade de todos os membros dessa sociedade. Por isso, a meritocracia é um atributo indispensável de uma sociedade democrática, pois fornece a todos os seus membros, as mesmas possibilidades de acesso a todas as oportunidades ofertadas, desde que preencham os critérios mínimos exigidos para uma determinada posição. Da perspectiva dos princípios, a igualdade de oportunidades para todas as pessoas, como diria Napoleão Bonaparte, “carreiras
abertas ao talento - carrière ouverte aux talents” (LIMA, 2014). Quando a capacidade é a força motriz de escolha, progresso e distinção entre os indivíduos mais talentosos, esse princípio é atendido.
Com isso, as oportunidades não ficam limitadas a um determinado grupo escolhido por simpatia ou proximidade daqueles que exercem e dotam de poder de influência ou interferência pública ou privada, em âmbitos pessoais ou corporativos. Em resumo, a meritocracia une três pontos: a equidade de oportunidades, a avaliação de pessoas e o sistema democrático.
Barbosa (2003, p. 33) afirma “que a meritocracia é, portanto, um sistema essencial às sociedades democráticas modernas e igualitárias”. Está presente nas mais diversas áreas, tanto pública como privada, em instituições de ensino, mas também em corporações. O importante é que a avaliação individual seja a única forma de aferição de distinção e que o melhor dessa análise impessoal seja escolhido e reconhecido por suas capacidades e habilidades que o diferem dos demais participantes do processo de seleção. Que nenhuma outra forma de pressão (hierarquia, proximidade e influência) sob esse processo seja avaliado e considerado.
Não há como precisar na linha do tempo, quando o princípio da meritocracia se tornou uma ideologia meritocrática, mas há como se situar diante de eventos históricos ou de documentos que afirmam na sua ideologia democrática, o papel de um sistema meritocrático determinante de uma sociedade moderna que busca uma equidade de direitos, como:
a) Na França – art. 6º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. b) Na França – art. 5º da Constituição Francesa de 1793.
c) Na Inglaterra – após a reforma e democratização do ensino, citado por Michael Young (1959) no seu livro The rise of the meritocracy.
d) Nos Estados Unidos – O próprio Young (1959) confirma que não há um marco específico, porque o País já se desenvolveu com uma ideia e projeto meritocrático.
Uma vez definido o papel do mérito como forma de reconhecimento, a questão é refocalizada na forma de como identificar ou nos processos que devem ser parametrizados para sermos capazes de selecionar com total independência, os melhores candidatos para uma determinada posição. Uma pergunta sempre ronda o processo meritocrático: Como garantir que “todos” tenham as mesmas condições de desenvolvimento sociocultural e que somente as capacidades intrínsecas (talento) sejam avaliadas no processo de competição?
É uma pergunta ainda difícil de ser respondida, porque as sociedades modernas, conforme suas leis de equidade devem oferecer o mínimo para que o indivíduo tenha acesso ao básico e que seja com qualidade e distinção de forma e conteúdo.
Para que não haja uma descrença no sistema meritocrático é importante ter transparência no modelo adotado. Um dos pontos é oferecer credibilidade no modelo de competição e que seja concedido a todos de forma democrática, sem nenhuma forma de preconceito pelo meio das suas origens e condições socioeconômicas, além de reservar de forma legal e jurídica todas as condições de igualdade aos participantes do processo. Outro ponto importante é definir de forma clara e transparente os modelos de avaliação de desempenho e que possam ser detectadas de forma precisa as classificações de execução, tendo como foco principal, a objetividade dos processos, no curso de medir o resultado individual com precisão, sem ofertar nenhuma chance de ser contaminado com interesses distintos ou de desvio avaliativo pelos responsáveis de forma direta ou indireta.
Há a atenção de verificar que tanto a igualdade de condições de acesso ao processo, quanto à objetividade da avaliação de desempenho têm uma dimensão sincrônica.
Barbosa (2003, p. 34) cita que “elas (dimensão sincrônica) são consideradas somente para uma situação específica. A lógica meritocrática não computa a existência de desvantagens ou de bons desempenhos anteriores: [...]”.
Essa “dimensão sincrônica” faz parte da meritocracia e os envolvidos devem estar cientes dessa lógica, porque não há com se apoiar em fatos do passado para justificar resultados do presente. É um ciclo que sempre volta para a estaca zero.
Barbosa (2003, p. 34) resume como,
Essa visão sincrônica faz com que a cada fim de ciclo tudo volte à estaca zero. Se fui bom aluno no ano passado, esse desempenho não me vai garantir necessariamente boas notas nas provas deste ano. Se fui ótimo gerente numa empresa, isso não significa que serei igualmente bom na nova empresa que me está contratando. O desempenho passado serve apenas de critério para “investimento” nas pessoas. Se fui de fato bom funcionário, é provável que meus chefes queiram investir em mim. Mas esse desempenho anterior não me garante o bônus deste ano. Essa volta à estaca zero indica a predominância do vínculo contratual, e não moral, entre as pessoas (BARBOSA, 2003, p. 34).
Essa dimensão determina que a igualdade de condições aconteça antes do início do processo, mas não será determinante no final, onde será avaliada a contribuição de cada indivíduo para o resultado final.
Dessa forma, a meritocracia expurga qualquer possibilidade proteção por resultados do passado, mas está sempre privilegiando o ciclo que se inicia, com as ferramentas que são oferecidas para cada indivíduo realizar através do seu talento, a busca e o êxito pela conquista e reconhecimento do seu trabalho.
Para aqueles que se destacam, a recompensa é a forma de premiação dos melhores entre o grupo avaliado. Esse conceito pode parecer simples, mas, no dia a dia, o que se acaba vendo é uma distorção desse mesmo conceito e que implicam em uma falta de credibilidade dos participantes em um sistema meritocrático.
Com o objetivo de não haver essa possibilidade, é importante deixar todas as regras bem claras, a métrica acessível e que cada indivíduo receba de forma parcial e contínua, um relatório da sua performance de resultados. Outra forma paralela, de ter transparência no processo é um feedback periódico com o gestor que coordena o indivíduo para dirimir qualquer dúvida e ser uma forma de apoio para um ajuste ou modificação de comportamento do avaliado em questão.
Um ponto que precisa ser observado com atenção é que a meritocracia tem como definição básica a seleção, o reconhecimento e a premiação por meio de avaliação de
desempenho individual, mas que pode incorrer no risco de gerar desigualdades funcionais no âmbito profissional e, por conseguinte no âmbito social.
O que é definido como uma forma de reconhecimento pelo resultado de um indivíduo, por meio de seu talento intrínseco, na outra ponta, acaba gerando um processo punitivo aos que não são escolhidos, e com isso são alvos das mais diversas circunstâncias, pois não atingiram os resultados esperados. Essa distorção é chamada de Paradoxo da Meritocracia.
O Paradoxo da Meritocracia destaca que a meritocracia foi no passado um mecanismo de combate a qualquer forma de discriminação social, onde, no presente se torna uma forma de discriminação das sociedades modernas.
Apesar de estar apoiada no princípio da igualdade, a meritocracia não consegue na atualidade atender de forma total esse princípio, ocasionando grande desconforto nas sociedades que adotam esse modelo, pois ele acaba sendo utilizado para pressionar os indivíduos que não conseguiram atingir o resultado esperado.
Segundo Keller (1967), “cria-se um espírito de competição que pouca satisfação conhece, pois é dirigido a metas instáveis. O preço do igualitarismo ideológico é assim o descontentamento permanente e a desordem espiritual. A ordem social só pode reinar quando os homens estão contentes com a sua sorte”.
É um problema ideológico, mas que reforça a necessidade de buscar formas de que a meritocracia não seja associada somente a um descontentamento ou desordem do indivíduo diante do processo meritocrático como um todo.
O sociólogo Durkheim, diante das desigualdades, diz como as pessoas se sentem, “o que é preciso para que fiquem contentes não é que tenham mais ou menos, mas que se convençam de que não têm direito a mais ou menos”.
Essa citação reforça a importância de que as pessoas tenham em mente de forma real e clara que não tem direito a mais do que está sendo oferecido, por causa do seu desempenho individual.
São muitos os caminhos que levam a deterioração e discriminação social, porém a meritocracia tem suas vantagens e desvantagens. As sociedades liberais e democráticas, que adotam esse modelo, precisam estar atentas na criação de mecanismos de controle e reconhecimento de meios que desvirtuam a aplicação do processo meritório e que acaba utilizando-o como forma de punição do indivíduo.