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Parte I – Alguns comentários iniciais sobre a ordem do Imperialismo Capitalista

Capítulo 1. Sobre a ordem e o Imperialismo Capitalista

1.4 Sobre a seletividade da violência e a ideologia imperialista

A despeito dessas confusões, hoje como dantes, parece haver uma grande

seletividade na ação das empresas – públicas e/ou privadas – de violência. Voltando às

palavras de Hobsbawm, nas páginas citadas,

Na era do imperialismo dos séculos XIX e XX, as guerras contra os não- brancos ou outras coletividades inferiores, as 'raças inferiores e sem lei' de Rudyard Kipling, normalmente não se contavam entre as guerras propriamente ditas, às quais as regras usuais se aplicavam.58

Nada muito distante, como sabemos, do que acontece quase a todo o momento em quase todo lugar59. No Brasil, por exemplo, assistimos a um “silencioso” extermínio das “raças inferiores”. Dada a urgência da causa e de sua importância para pontuarmos alguns de nossos argumentos principais – a saber, principalmente a relação entre Capital Financeiro e “Estado Totalitário”, absolutamente cruciais para o entendimento do Imperialismo Capitalista – vamos estender a digressão sobre a estratificação social que

57P. 73. No ano de 2013 a Academi acrescentou mais um capítulo em seu “épico na história do complexo industrial militar” quando a imprensa global ventilou que ela teria sido comprada pela mega-corporação- multi-monopólica Monsanto. Devido à alta complexidade das operações financeiras contemporâneas que dificultam muito que se faça o mapeamento preciso das relações de propriedade, mas que não muda sua essência – a polêmica permanece. Não se sabe exatamente se e que tipo de aliança patrimonial foi estabelecida entre as empresas. Independentemente de ter sido realizada ou não, a mera possibilidade de que essa fusão tenha ocorrido ou que venha a ocorrer já nos diz muito sobre o atual estado das coisas em nosso mundo. E para que não nos esqueçamos da necessária amplitude do horizonte das nossas lutas, lembremos a sábia constatação de Hannah Arendt, que em seus estudos sobre a violência afirmou que “(…) os fins correm o perigo de serem dominados pelos meios, que justificam e que são necessários para alcançá-los. Uma vez que os propósitos da atividade humana, distintos que são dos produtos finais da fabricação, não podem jamais ser previstos com segurança, os meios empregados para se alcançar objetivos políticos são na maioria das vezes de maior relevância para o mundo futuro do que os objetivos pretendidos” (Arendt, Hannah, Da Violência, p. 4). É certo que a autora dissertava naquele momento específico sobre as armas de destruição termonuclear, mas pensamos que a reflexão se ajusta precisamente para o que debatemos nessa nota: a potência infinita do capital financeiro. A despeito de todas as diferenças, devemos sempre lembrar que são dois tipos distintos de armas de destruição em massa, com a ressalva de que o efeito destruidor das bombas atômicas, até quando escrevemos, foi infinitamente inferior ao do capital financeiro. Para interpretações segundo as quais houve a compra da

Academi pela Monsanto, sugerimos http://politicalblindspot.com/yes-monsanto-actually-did-buy-the-

blackwater-mercenary-group/ e http://www.voltairenet.org/article179637.html; para a visão contrária, http://www.democraticunderground.com/10023146763. O sítio oficial da empresa é o https://www.academi.com, onde se pode ver, dentre outras coisas, a ampla gama de serviços que a empresa oferece em seu portfólio de negócios.

58Hobsbawm, mesmo lugar.

59Tornando dignos de riso – para se ver a que ponto chegamos – o chilique daquelxs que se julgavam esterilizados, quando confrontados com a violência que eles próprios negam existir. Sobre as diferenças de percepções sobre essas guerras, sugerimos a leitura de Persépolis completo, de Marjane Satrapi; tradução de Paulo Werneck; São Paulo, Cia das Letras, 2011. Coleção Quadrinhos na Cia. (especialmente o capítulo “A Parabólica”).

sustenta a ideologia imperialista, que por seu turno funciona como se pudesse – e às vezes consegue – legitimar o que já deveria ser por si mesmo considerado um completo absurdo: a idéia de que possam existir “raças inferiores”.

No recém-publicado documento Juventude Viva, Os Jovens do Brasil, Mapa da

Violência 2014, que, a rigor, confirma os dados do documento A cor dos homicídios no Brasil, Mapa da violência 2012, Julio Jacobo Waiselfisz, especialista no tema, relata, a

título de conclusão, que, segundo os levantamentos estatísticos avaliados,

entre os anos 2002 e 2012, a tendência nos homicídios segundo raça/cor das vítimas foi unívoca: queda dos homicídios brancos – diminuem 24,8% – e aumento dos homicídios negros: crescem 38,7%. Tomando em consideração as respectivas populações, as taxas brancas caem 24,4% enquanto as negras aumentam 7,8%. Com isso o índice de vitimização negra total passa de 73,0 % em 2002 (morrem proporcionalmente 73% mais negros que brancos) para 146,5% em 2012, o que representa um aumento de 100,7% na vitimização negra total. Entre os jovens a situação é mais preocupante: o número de vítimas brancas cai 32,3%. O número de vítimas jovens negras aumenta 32,4%: o diametralmente oposto. As taxas brancas caem 28,6% enquanto as negras aumentam 6,5%. Com isso, o índice de vitimização negra total passa de 79,9% em 2002 (morrem proporcionalmente 79,9% mais jovens negros que brancos) para 168,6% em 2012, o que representa um aumento de 111% na vitimização de jovens negros.60 Da perspectiva da crítica do Imperialismo Capitalista, entretanto, o problema racial, que conforme já indicamos não pode ser reduzido a isso, levando em conta que vivemos em um modo de produção cujo nexo estruturante é a mercadoria, não pode ser analisado senão em confronto com as questões, digamos, “especificamente capitalistas”. Ainda segundo Waiselfisz, três fatores devem ser mencionados para a compreensão dessa situação – todos eles fundados em relações basilares do “capitalismo”. Os dois primeiros, “econômicos”,

em primeiro lugar: a crescente privatização do aparelho de segurança. Como já ocorrido com outros serviços básicos, como a saúde, a educação e, mais recentemente, a previdência social, o Estado vai progressivamente se limitar a oferecer, para o conjunto da população, um mínimo – e muitas vezes nem isso – de acesso aos serviços e benefícios sociais considerados básicos. Para os setores com melhor condição financeira, emergem serviços privados de melhor qualidade (escolas, planos de saúde, planos previdenciários etc.). Com a segurança vem ocorrendo esse processo de forma acelerada nos últimos anos. Um segundo fator adiciona-se ao anterior. A segurança, a saúde, a educação,

etc. são áreas que formam parte do jogo político-eleitoral e da disputa

partidária. As ações e a cobertura da segurança pública distribuem-se de forma extremamente desigual nas diversas áreas geográficas, priorizando espaços segundo sua visibilidade política, seu impacto na opinião pública e, principalmente, na mídia, que reage-se de forma bem diferenciada de acordo com o status social das vítimas. Como resultado, as áreas mais abastadas, de população predominantemente branca, ostentam os benefícios de uma dupla segurança, a pública e a privada, enquanto as áreas periféricas, de composição majoritariamente negra, nenhuma das duas.61

O terceiro fator digno de nota é a amarração ideológica dessa “ordem”, reproduzida amplamente com o apoio entusiasmado da “mídia” e de outros veículos de propaganda:

por último, um terceiro fator que concorre para agravar o problema: um forte esquema de “naturalização” e aceitação social da violência que opera em vários níveis e mediante diversos mecanismos, mas fundamentalmente pela visão que uma determinada dose de violência, que varia de acordo com a época, o grupo social e o local, deve ser aceito e torna-se até necessário, inclusive por aquelas pessoas e instituições que teriam a obrigação e responsabilidade de proteger a sociedade da violência. Num primeiro nível, esse esquema opera pela culpabilização da vítima, justificando a violência dirigida, principalmente, a grupos vulneráveis que demandam proteção específica, como mulheres, crianças e adolescentes, idosos, negros etc. Os mecanismos dessa culpabilização são variados: a estuprada foi quem provocou ou ela se vestia como uma “vadia”; o adolescente vira marginal, delinqüente, drogado, traficante; aceitabilidade de castigos físicos ou punições morais com função “disciplinadora” por parte das famílias ou instituições, moreno de boné e bermudão é automaticamente suspeito

etc. A própria existência de leis ou mecanismos específicos de proteção:

estatutos da criança, do adolescente, do idoso; Lei Maria da Penha, ações afirmativas etc. indicam claramente as desigualdades e as vulnerabilidades existentes.62

Mas é evidente que o problema não se limita à periferia, onde assume as feições mais cruéis, identificadas por alguns grupos dessa luta como o Genocídio da Juventude

Negra63. Na sede do Império, no ano de 2014, uma avalanche de protestos atinge mais de

170 cidades. Os principais símbolos dos protestos são Michael Brown, negro, 18 anos, assassinado a tiros no dia 9 de agosto por policiais brancos em Ferguson, Misouri e Eric Garner, morto por asfixia por um policial do departamento de polícia de Nova York dia

61Mesmo lugar.

62Mesmo lugar.

63Dentre muitas outras, http://www.racismomata.org/ e http://www.geledes.org.br/tag/genocidio-da- juventude-negra/#axzz3SaAHgrgB (ambas acessadas em 23 de fevereiro de 2015, às 12:29h).

17 de julho64. Nos protestos, que contam com o apoio de importantes figuras negras da sociedade estadunidense como Lebron James, Kobe Briant65 e Samuel L. Jackson, as pessoas exigem justiça e não se contentam com as manifestações pacíficas. “Tudo porque”, depois de décadas de luta por direitos civis – é bom lembrar que os direitos civis das gentes negras foram conquistados no final da década de 1970, ou seja, menos de duas gerações atrás66 – a justiça continua enxergando “muito bem obrigado” e sabe muito bem discernir a cor dos seus alvos67. Michael Brown estava rendido, com mãos ao alto. Eric Garner não foi socorrido pelos policiais que testemunharam sua execução. Parece-nos difícil acreditar que o problema são apenas os executores quando sabemos que é racista toda a base de sustentação dessa ordem na qual. A depender de quem é você e onde você se encontra – não se pode ao menos respirar68.

E é lógico que a questão das “raças inferiores” não esteja a rigor situada “apenas” no elemento racial. Ainda mais importante é a estratificação hierárquica que ela significa. Assim, para além das gentes negras, é evidente, outros grupos cumprem essa “função” no macabro esquema ideológico imperialista. Tanto mais quando ousarem contestar o estatuto a que historicamente foram submetidos.

É o caso das mulheres, que protagonizam negativamente o mesmo Mapa da

Violência 2012, que reflete o aumento da violência contra a mulher (ou, ambiguamente, o

aumento do registro dessa violência; os métodos não permitem precisar, mas isso não

64http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/11/nova-york-vive-segundo-dia-de-protestos-por-caso-de- ferguson.html; http://www.ebc.com.br/noticias/internacional/2014/11/ferguson-ausencia-de- indiciamento-de-policial-provoca-indignacao; http://www.ebc.com.br/noticias/internacional/2014/11/onda-de-indignacao-em-ferguson-se-estende-a- 170-cidades-dos-eua; http://www.ebc.com.br/noticias/internacional/2014/11/ferguson-mais-de-400- pessoas-sao-presas-por-protestos-nos-estados 65http://www.ebc.com.br/esportes/2014/12/i-cant-breathe-atletas-norte-americanos-lembram-eric- garner-vitima-de-violencia

66A título de ilustração, mamãe e papai são mais velhos que os direitos civis da população negra dos Estados Unidos.

67cf: Bezerra da Silva, Pena de Morte, disponível em http://www.vagalume.com.br/bezerra-da-silva/pena- de-morte.html. Acessada em 21/2/2015 às 18:17h.

68Para voltar à periferia: Ferguson é aqui e em todo lugar: http://passapalavra.info/2014/12/10148 (acessada em 23 de fevereiro de 2015, às 12:29h). Que se faça constar: conforme o “processo” legal vai encaminhando e os resultados parciais vão sendo publicados – com a absolvição dos policiais – a população volta às ruas – raramente de forma “pacífica”.

muda a gravidade da situação69). Segundo essa pesquisa, entre 1980 e 2010 – ou seja, aproximadamente o tempo da nossa vida – mais de 92 mil mulheres brasileiras foram assassinadas – o que corresponde mais ou menos à população de Mogi-Mirim – um aumento de 230%. Somente na última década, foram mais de 43 mil. Em termos mais emblemáticos: em média, não se passa duas horas sem que uma mulher brasileira seja morta por condições violentas70.

Por meio de muita luta, diversos movimentos feministas procuram estabelecer um regime jurídico próprio para enfrentar a banalização do Feminicído71. Segundo

ranking internacional do feminicídio, o Brasil ocupa a sétima posição entre 84 países,

muito por conta do grande número de violências cometidas no foro íntimo, geralmente por parentes próximos e/ou pelo cônjuge – não tão frequentes em outros países analisados. Segundo Adriana Ramos de Mello, juíza do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro,

69Uma ponderação sobre as taxas de violência contra a mulher na Suécia são bastante ilustrativas dessa dificuldade de compreensão do problema com base no referencial estatístico. Por conta do aumento da legislação e do oferecimento de condições para que as mulheres denunciassem, houve um grande aumento da incidência das taxas de violência, o que, efetivamente, não pode vir a ser entendido como uma piora da condição de vida das mulheres suecas. Com efeito, inclusive por conta das diferentes legislações dos diferentes países, um crime pode ou não ser tipificado como violência contra a mulher, ou nem mesmo ser registrado (por medo, ou mesmo por ausência de instituições que recebem essas denúncias). “Nesse sentido, uma comparação internacional de estatísticas criminais pode ser enganosa. Botsuana, no oeste da África, possui, atualmente, o maior número de estupros – 92,9 por cada 100 mil habitantes – mas um total de 63 países não submetem suas estatísticas, incluindo a África do Sul, onde uma pesquisa conduzida há três anos mostrou que um a cada quatro homens já admitiram ter estuprado uma mulher no país. Em 2010, o relatório da Anistia Internacional destacou que a violência sexual ocorre em todos os países do mundo, apesar de estatísticas oficiais revelarem que a incidência desse tipo de crime em nações como Hong Kong ou Mongólia é zero. Além disso, dependendo do país, as mulheres são menos suscetíveis a registrar um ataque e, em outros, nem conseguem formalizá-lo junto às delegacias competentes. Enrico Bisogno, especialista em estatística das Nações Unidas, afirma que as pesquisas revelam que apenas um em cada dez casos é registrado na polícia, em muitos países do mundo. “Nós sempre usamos a metáfora do iceberg para explicar essa situação. O que podemos ver é somente a ponta dele, enquanto que há uma imensidão que se estende abaixo do mar, ou seja, fora do radar das agências que fiscalizam o cumprimento da lei”, diz. http://www.compromissoeatitude.org.br/o-que-ha-por-tras-da-alta-taxa-de-estupro-na- suecia-bbc-brasil-18092012/ Do nosso ponto de vista, ainda que existam muitos problemas científicos (estatísticos) para o estabelecimento da topografia da violência, isso não faz dessa questão menos importante. Os números da “ponta do iceberg” já são suficientemente alarmantes. Além disso, independentemente dos números, nos parece que os argumentos se sustentam. Seria uma postura demasiado hipócrita invalidar os argumentos com base no formalismo estatístico.

70http://www.compromissoeatitude.org.br/feminicidio-desafios-e-recomendacoes-para-enfrentar-a- mais-extrema-violencia-contra-as-mulheres/

71“Feminicídio é o assassinato de uma mulher pela condição de ser mulher”, cujas motivações mais comuns são o ódio, o desprezo ou o sentimento de perda da propriedade sobre as mulheres”, mesmo lugar. Durante a escritura dessa tese, felizmente o movimento feminista conquistou a tipificação jurídica do feminicídio, conforme a seguinte publicação: http://www.brasil.gov.br/cidadania-e- justica/2015/03/ministra-fala-sobre-aprovacao-da-lei-do-feminicidio. Acessada dia 17 de março de 2015, às 12:55h.

o feminicídio íntimo é um contínuo de violência. Antes de ser assassinada a mulher já passou por todo o ciclo de violência, na maior parte das vezes, e já vinha sofrendo muito tempo antes. A maioria dos crimes ocorre quando a mulher quer deixar o relacionamento e o homem não aceita a sua não subserviência72.

Para o combate ao Imperialismo Capitalista, que vínhamos travando de modo mais direto, e que tem na violência um elemento crucial, é importante que entendamos que essa estratificação que vimos esboçando é decisiva. Seu ponto principal é a eleição mais ou menos arbitrária de critérios que estabelecem que determinados grupos sociais que possuem determinadas características se enquadram nas posições “inferiores” dessa bizarra hierarquia; e pelos mecanismos de justificação da ideologia imperialista, “merecem” ser violentadas. Conforme o mesmo Julio Jacobo Waiselfisz,

basicamente, o mecanismo de autojustificação de várias instituições, principalmente aquelas que deveriam zelar pela segurança e pela proteção da mulher, coloca a vítima como culpada. A mulher é responsabilizada pela violência que sofre. Este tipo de postura institucional de tolerância à violência e impunidade não só permite como incentiva o feminicídio73.

Novamente, se engana quem julgar que é uma questão especificamente brasileira. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) “mostraram que a violência contra as mulheres é muito mais grave e generalizada do que se suspeitava anteriormente” 74, sendo que (dados de 1999), a depender do país, entre 10% e 52% das mulheres foram agredidas fisicamente pelo parceiro em algum momento das suas vidas e entre 10% e 30% já haviam sofrido violência sexual por parte do parceiro íntimo75. E para que não reste dúvida de que o problema não é “privilégio” da periferia, tomemos em consideração que nesse mesmo conjunto de pesquisas, chega-se à constatação que um grande número de homens acha que algumas vezes é justificável bater na sua esposa: nos Estados Unidos, cerca de 25% (um em cada quatro) – número semelhante ao brasileiro – e na Alemanha, chega a quase 30%76. Ainda na União Européia, o Instituto Europeu para a Igualdade de Gênero (EIGE) afirma que “a violência doméstica contra as mulheres continua a ser uma prática 'generalizada, escondida e pouco comunicada' (…) 72Mesmo lugar. 73Mesmo lugar. 74http://www.compromissoeatitude.org.br/alguns-numeros-sobre-aviolencia-contra-as-mulheres-no- mundo/ 75Mesmo lugar. 76http://www.compromissoeatitude.org.br/em-muitos-paises-25-ou-mais-acham-justificavel-um- homem-bater-na-esposa/

realçando que 'as vítimas não recebem apoio suficiente'“ 77. Ou seja: a estratificação imperialista faz-se presente independentemente do nível de “desenvolvimento” em que a sociedade se encontra.

Não obstante, como não deveria surpreender, dado que em nosso mundo a mercadoria é o vínculo principal, uma vez mais a questão “econômica” se mostra fundamental. Não precisamos mobilizar aqui a estrutura dos salários que estratifica – como do conhecimento de todo o mundo – a mão-de-obra remunerando menos – significativamente menos – mulheres e negros e menos ainda as mulheres negras. O argumento já é conhecido. Mas para que tenhamos uma idéia um pouco mais concreta de como toda a pluralidade humana pode ser enquadrada como mercadoria a partir da ideologia dominante – mesmo quando aparentemente em favor das pessoas desprivilegiadas – observemos o argumento que sustenta a preocupação desses organismos multinacionais que andam investigando e combatendo a violência contra a mulher: os custos sociais e econômicos da exploração. Em suas próprias palavras, para que ninguém nos acuse de distorção:

vários estudos apontam que os custos sociais e econômicos da violência contra as mulheres são enormes e têm efeito cascata em toda a sociedade. As mulheres podem sofrer vários tipos de incapacidade – passageira ou não – para o trabalho, perda de salários, isolamento, falta de participação nas atividades regulares e limitada capacidade de cuidar de si própria, dos filhos e de outros membros da família78.

Não vamos deixar de anotar que é absurdo e inaceitável que a luta por melhores condições de vida das mulheres seja reduzida a um problema de “custos sociais e econômicos”. Somente uma sociedade em que a ideologia do “econômico” – voltaremos ao ponto – permeia muitas camadas da consciência permite que um discurso desse tipo possa ser sustentado “em favor” das mulheres. Não é aceitável que nos contentemos com um luta pautada nesses termos e a cada dia se faz mais importante a reconstrução de uma demanda já bastante antiga, ainda que fora de moda: a emancipação em geral, e a das mulheres em particular.

Mas antes de finalizarmos a seção, ainda temos que percorrer alguns circuitos. Não poderíamos nos calar sobre a base da base da estrutura de violência que coaduna com o Imperialismo Capitalista: as – fiquemos no feminino, por opção delas – de mais

77Mesmo lugar.

78http://www.compromissoeatitude.org.br/alguns-numeros-sobre-aviolencia-contra-as-mulheres-no- mundo

difícil “classificação” – e provavelmente por isso, aquelas que sofrem as mortes mais violentas: as LGBT. A sigla tem sua origem nas iniciais de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Trânsgêneros, mas atualmente é utilizada para identificar todas as pessoas que não se enquadram e/ou não querem ser enquadradas nos esquemas binários de representação de gênero e/ou orientação sexual. Não cabe aqui uma discussão aprofundada sobre as inumeráveis particularidades dessas pessoas, e nos centraremos no que vinha alinhavando nosso argumento: a violência contra as assim