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Substituição processual e o conceito de parte

Essa conceituação acima traz uma consequência a ser explorada: o substituto processual é parte no processo. Isso reforça ainda mais o conceito processual de parte.67

Segundo clássica lição de CHIOVENDA, parte é aquele que demanda e também aquele que é demandado.68 Esse conceito é incompleto porque não explica o significado de ser parte e também impõe uma limitação, na medida em que não engloba a figura do assistente ou do MINISTÉRIO PÚBLICO quando atua na defesa dos incapazes ou como custos legis.

Por isso LIEBMAN ampliou esse conceito para definir

como partes “os litigantes, as partes em contenda, as pessoas que levaram a controvérsia diante do juiz”. E continua com a afirmação de que são partes “os sujeitos do contraditório perante o juiz”.69

Esse enquadramento liebmaniano é seguido pelo Código de Processo Civil ao qualificar o assistente como parte (CPC, art. 52) e também pela doutrina brasileira em geral.70

A ideia de CHIOVENDA traz o que DINAMARCO chama de

partes na demanda: “são os sujeitos que comparecem perante o juiz pedindo tutela

66. D

INAMARCO, Instituições de direito processual civil, II, n. 537, p. 294.

67. O conceito de parte já foi desenvolvido mais longamente por este autor in Desconsideração da personalidade jurídica no processo civil, n. 41, pp. 97-100.

68. C

HIOVENDA, Principii di diritto processuale civile, § 34, n. 1, p. 579. CASSIO SCARPINELLA BUENO adota fielmente o conceito chiovendiano, in Partes e terceiros no processo civil brasileiro, pp. 3 ss.

69. Manual de direito processual civil, 1, n. 41, p. 123. 70. D

INAMARCO, Instituições de direito processual civil, II, n. 520, p. 252; CÁSSIO SCARPINELLA BUENO,

Curso sistematizado de direito processual civil, vol. II, t. I, n. 5, pp. 69-70; HUMBERTO THEODORO JÚNIOR, Curso de direito processual civil, I, n. 66, p. 88.

jurisdicional e aquele em relação ao qual essa tutela é pedida”.71

Com a citação, a parte deixa de ser parte somente na demanda para ser parte também no processo. Nota-se que as partes na relação processual são um conceito mais amplo e não necessariamente as partes na demanda serão aquelas partes no processo, porque pode acontecer de ser inserido um litisconsorte necessário ulterior72 (CPC, art. 47, pr.), assistente, participação do Ministério Público, recurso de terceiro prejudicado, sucessão processual etc.

Trata-se pois do conceito puro de parte, na linguagem desenvolvida por DINAMARCO.73 Por maneira diametralmente oposta, quem não é parte

no processo é terceiro. E surge também o conceito puro de terceiro, que é todo aquele que não está na relação processual.

Quem é parte no processo é o substituto processual e não o substituído, pois é aquele quem demanda e contra aquele que se demanda.74

Tanto ele não é parte que é em relação ao substituto e não ao substituído que devem ser examinadas os elementos ligados aos pressupostos

processuais subjetivos, como capacidade processual de ser parte e personalidade

jurídica.75 Abaixo será visto que (a) o interesse jurídico e demais condições da ação devem ser analisados sob a óptica do substituído, na medida em que é o interesse

71. D

INAMARCO, Instituições de direito processual civil, II, n. 436, p. 117.

72. S

ÉRGIO FERRAZ entende que nessa hipótese o litisconsórcio não é ulterior porque se um co-legitimado não está no pólo passivo do processo a relação processual não se completou ainda, in Assistência

litisconsorcial no direito processual civil, pp. 43 ss.. DINAMARCO corretamente critica essa posição, porque “mal ou bem, enquanto no processo existir um só autor e um só réu, litisconsorcial ele não é”, in Litisconsórcio, n. 28, p. 80.

73. D

INAMARCO, Instituições de direito processual civil, II, n. 436, p. 117.

74. Assim também entende C

ÁSSIO SCARPINELLA BUENO: “o substituto processual só pode ser entendido como parte do ponto de vista processual, assumindo, como fiz, ser esta ‘ruptura’ entre os planos do processo e do direito material útil para fins didáticos. É o substituto que, em nome próprio, pleiteia o reconhecimento de direito alheiro (CPC, art. 6º). Partindo das premissas que norteiam este trabalho e admitindo, pois, que a parte é quem pede e aquele em face de quem se pede alguma coisa em juízo, dúvida não pode haver que o substituto é parte. Que seja parte ‘só’ no sentido processual, mas ‘parte’ ele é justamente porque conduz o processo, desde a formulação do pedido por ele ou em face dele, embora a ‘razão’ de ostentar esta qualidade possa repousar no direito material, é dizer, fora do processo” (Partes e terceiros no processo civil brasileiro, n. 7, p. 55).

75. Essa também é a posição de E

PHRAIM DE CAMPOS JR., in Substituição processual, n. 13.1, p. 74 e de ARAKEN DE ASSIS, in “Substituição processual”, Leituras complementares de processo civil, n. 5, p. 60.

material dele que está em jogo e não do substituto (infra n. 13). E também (b) que há alguns elementos que devem ser vistos sob a perspectiva do substituto e do substituído (infra, n. 13).

Justamente pelos conceitos acima é que não é tecnicamente adequada a utilização do conceito de parte em sentido material e parte em

sentido formal (infra, n. 30). Apesar de grande parte da doutrina fazer essa distinção,

inclusive LIEBMAN,76 acredita-se que esse pensamento não corresponde mais à evolução atual da técnica processual. Como afirma ANDRÉ ABBUD, “a dualidade partes/terceiros

não comporta um tertium genus, tampouco gradação”.77

Claro que pode haver parte legítima e parte ilegítima, mas ambas são parte no processo. Separar o direito material do processual no conceito de parte significa romper aquela velha barreira do sincretismo entre processo e direito material. Desde 1.868 esse pensamento não corresponde mais à realidade da ciência, pois, VON BÜLOW separou os institutos, seus sujeitos, seus pressupostos, seu objeto.78

E afirmou enfim a ideia de relação processual como elemento constitutivo do processo também. Com isso, há uma relação entre as partes e o Estado, por meio da qual ele se obrigava a decidir, afirmar, confirmar ou fazer o direito substancial entre as partes e elas, por meio da imperatividade de tal decisum estatal, prestavam essa colaboração indispensável e se submetiam ao julgamento. Nota-se a principal diferença: enquanto na relação jurídico substancial os seus extremos são dois sujeitos de direito (o que não implica a necessidade de intervenção do Estado), na relação processual, de um lado estão as partes litigantes e de outro o ente jurisdicional. Interessante também foi o exemplo trazido por ADOLF WACH, em 1.888, no qual afirma a autonomia da ação em relação ao direito material. A hipótese é a da ação declaratória negativa, na qual o

76. Inclusive, essa é a justificativa utilizada por L

IEBMAN para afirmar que o substituído está vinculado à coisa julgada: “egli non è un vero terzo, poichè per definizione l’attività compiuta dal sostituto processuale ha necessariamente influenza ed efficacia riguardo al soggeto del diritto per cui el litiga”, in Efficacia ed autorità della sentenza, p. 74.

77. “O conceito de terceiro no processo civil”, in Revista da Faculdade de Direito da USP, v. 99, p. 879. 78. Não foi propriamente

VON BÜLOW o pioneiro a afirmar a existência autônoma de uma relação jurídica processual. BETHMANN-HOLLWEG já o tinha feito. Mas o seu mérito indiscutível foi o de isolar a relação processual e a partir daí se pôde desenvolver um critério científico que serviu de base para a autonomia do direito processual. Cfr. DINAMARCO, Fundamentos do processo civil moderno, I, n. 18, pp. 65-67.

autor pede para ser declarada a inexistência de relação jurídico-substancial com o réu, ou seja a inexistência de direito.79