CAPÍTULO III – CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO
2. As Teorias Territoriais do Desenvolvimento Económico – da Questão Regional à
2.2 Thomas Malthus, Karl Marx, Durkheim e Max Weber
Thomas Malthus
A população mundial tem crescido, no decorrer da história. Cresceu moderadamente, entre os Séc(s) XVII e XIX e acentuadamente na segunda metade do Séc XX, em função dos avanços científicos e das melhorias das condições higiénico– sanitárias. Neste período, o mundo deparou-se com um vertiginoso crescimento populacional, denominado explosão demográfica. Esse período foi marcado por calorosos debates que resultaram na formulação de teorias demográficas. A primeira aceleração do crescimento populacional coincide com a consolidação do sistema capitalista e o advento da Revolução Industrial, durante os Séc. (s) XVIII e XIX.
Entre as teorias demográficas que surgiram na época, destacou-se a teoria de Thomas Malthus (1798), que ficou conhecida por malthusianismo. Malthus, ao analisar a relação entre a evolução demográfica na Europa e nos EUA e a produção de meios de subsistência, concluiu que o crescimento populacional excedia a capacidade de a terra produzir alimentos. Enquanto a produção de alimentos crescia segundo uma progressão aritmética (1,2,3,4…) o crescimento demográfico tenderia a seguir um ritmo de
26 Smith, Adam (1776/1987), Inquérito sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, Vol. I e II, Lisboa, Fundação
93 progressão geométrica (2,4,6,8…). Assim, a população tenderia a crescer além dos limites da sobrevivência e disso resultaria a fome e a miséria. O modelo de crescimento económico de Malthus tem por base as seguintes hipóteses: (1) A terra é um factor fixo; (2) o factor trabalho pode crescer dependendo da taxa de crescimento natural; (3) a produção é função do trabalho e da terra. Portanto, o nível do produto é determinado pela quantidade de trabalho e pelo factor fixo “terra arável, segundo a função P = f (M.T) em que P é o produto real; M é a quantidade do factor trabalho e T é a quantidade fixa de terra arável.
Malthus considera que o crescimento da população pode anular o aumento do produto real per capita.
Para Malthus, o recurso à emigração não constituía o mecanismo essencial de contenção populacional. A emigração era vista como um recurso que permitia aliviar a pressão demográfica, mas apenas temporariamente. Perante esta constatação e de forma a evitar uma “catástrofe”, Malthus propôs uma “restrição moral” nos nascimentos, o que significaria: proibir os casamentos entre pessoas muito jovens, limitar o número de filhos entre as populações mais pobres, elevar o preço das mercadorias e reduzir os salários, a fim de pressionar os mais humildes a terem uma prole menos numerosa.
Malthus não considerou as possibilidades do aumento da produção agrícola com o avanço tecnológico. Aos poucos, a sua teoria foi sendo desacreditada e desmentida pela própria realidade.
Karl Marx
Karl Marx (1881-83) discordou de Malthus, cuja visão27 considerava
reaccionária, já que apontava para a inevitabilidade e/ou naturalização da pobreza. Karl Marx considerava que a pobreza e a miséria da classe de trabalhadores, também estes apelidados de proletariado, resulta não do crescimento populacional per se, mas do próprio desenvolvimento do Capitalismo. O Capitalismo industrial e o processo
27Karl Marx, teses de pauperização (O Capital, Livro I, Cap. XXV) e a analise da “lei da baixa tendencial da taxa de lucro”
94 tecnológico inerente fazem decrescer a procura da força de trabalho, levando à diminuição dos salários, ao desemprego e à maximização dos lucros por parte do patronato. Segundo Karl Marx, o patronato necessita de ter disponível um «exército industrial de reserva»28 para ser mobilizado quando as condições do mercado o exigem. Quando a procura de trabalho aumenta, parte deste exército de reserva é absorvido, mantendo baixos os salários, enquanto que outra parte emigra para as regiões de exportação de capitais. Segundo Marx, o Capitalismo conduz à polarização das relações sociais. O processo de acumulação de riqueza num pólo gera miséria no outro, gera emigração das regiões em desvantagem aumentando a diferença de desenvolvimento entre países.
Durkheim
Durkheim (1858-1917), por sua vez, estava claramente interessado no que mantém a sociedade unida e impede a sua queda no caos. Na perspectiva Durkheiniana, «não há fenómenos pura e exclusivamente económicos. O que Durkheim pretende é, antes, mostrar a relevância económica das atitudes mesmo que estas sejam subjectivas e irracionais» (Rocha - Trindade, 1995:71-72).
Na sua primeira obra, A Divisão Social do Trabalho (1893), defende que “o advento da era industrial representava a emergência de um novo tipo de solidariedade” (Giddens, 2004:9). Aqui reconhecia a migração como um dos factores de colapso das comunidades tradicionais, mantidas e unidas por laços de solidariedade mecânica. “A especialização de tarefas e a cada vez maior diferenciação social nas sociedades desenvolvidas haveria de conduzir a uma nova ordem caracterizada pela solidariedade orgânica” (Giddens, 2004:9).
A transição para a sociedade orgânica, baseada na divisão social do trabalho e na interdependência económica, era frequentemente acompanhada por anomia (sentimento de desespero provocado pela vida social moderna) que resultava em desintegração social, podendo levar a doenças patológicas, como por exemplo, suicídio, conflito de grupo ou mesmo crime.
95 Max Weber
Max Weber (1864-1920) tentou compreender a natureza e as causas da mudança social provocada pelo capitalismo. Estava impressionado com os efeitos desintegradores e notava a importância da “religião”, particularmente com o que chamou de “ética protestante”, a qual reconhecia como condição necessária para acumulação de capital assim como para impor um código de disciplina sobre a força de trabalho.
Apesar da importância que os fluxos migratórios assumiram – no contexto europeu do final do Séc XIX e início do Séc XX, quer através de migrações transoceânicas que permitiram povoar os novos continentes, quer através dos fluxos internos do meio rural para as cidades, o tema das migrações surge de forma marginal para os autores clássicos das principais ciências sociais, no período histórico em que estas se constituíram e consolidaram.
Emile Durkheim e Marx Weber ocuparam-se nomeadamente do estudo da formação do Capitalismo industrial, e emergência do racionalismo económico, assim como de diversos aspectos sociais, da economia à religião, que afectavam a sociedade do seu tempo. Para estes autores a migração é uma preocupação secundária naquele contexto.