2.4. Tia Eron
2.4.2 Tia Eron e sua trajetória religiosa
Tia Eron descreve o pai como um homem católico que gostava muito de contribuir com instituições como o Abrigo de Salvador e também com asilos, como o da Irmã Dulce, bem como de ajudar e servir. A religião do pai era a prática da caridade. Sua mãe, “mulher simples com o segundo grau incompleto”, era catequista na Igreja Católica, tinha muita fé, gostava de ouvir seu horóscopo
O pai contraiu uma grave doença quando ela tinha mais ou menos cinco anos de idade, e isso mudou a dinâmica da família. Nesse período, tiveram ajuda de um casal muito próximo. O grau de amizade entre eles era grande e tia Eron se refere a ambos como se tivessem laços consanguíneos: “Tio Crispin e Tia Dazinha”.
Na década de 1980, Tia Dazinha era missionária da Igreja Quadrangular e passou a incentivar sua mãe a levar seu pai à igreja, pois lá ocorriam milagres e as pessoas doentes se curavam. Seu pai resistiu no início ao convite de visitar a igreja, pois era um estigma negativo ser evangélico neste período. Acabou indo uma vez e não gostou da maneira como os fiéis se manifestavam com gritos no culto.
Seu pai veio a falecer, e a família passou a ter dificuldades financeiras, mesmo tendo mais de 30 casas alugadas. Ela e seus irmãos deixaram de frequentar o ensino particular e foram transferidos para uma escola pública. A família chegou a ter a energia elétrica cortada. Com muita indignação ela discorre que, com o falecimento do pai, os inquilinos (homens), de maneira oportunista, deixaram de pagar os aluguéis, não reconhecendo na figura feminina da mãe o direito legítimo de proprietária dos imóveis. Aponta também que o caseiro responsável pela casa de veraneio da família não queria entregar mais a casa à sua mãe. Afirma que eles negavam a se reportar a uma mulher. Com este cenário aprendeu com sua mãe que uma mulher pode chefiar.
Juntou a questão do oportunismo […] e a questão do patriarcado. Porque quando morre o marido, a mulher passa a ser propriedade do irmão, propriedade do cunhado ou a propriedade de outro homem. Ela não terá nunca que ser a protagonista de sua trajetória, como foi o caso de minha mãe. (CARVALHO, 2017).
De acordo com Tia Eron, sua mãe, sem experiência, teve que enfrentar esses homens para ter seu direito de volta, entrando com processo judicial e conseguindo, depois de um ano, a retomada da posse dos imóveis. Ela define sua mãe como destemida, valente, forte, resistente, uma mulher que, com seu empoderamento, enfrentou a tudo e a todos.
Atravessou essas lutas, muitas águas, mas hoje é bonito ver ela gestora desses imóveis […] E mostrou que era capaz, muito mais do que isso, que ela estava certa! Ela estava, na verdade, fortalecendo essa história, que hoje eu herdo. (CARVALHO, 2017).
Neste período, Tia Eron menciona que sua mãe, ela e seus irmãos frequentavam a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), e a Sra. Eronilia encontrava na Bíblia o alimento para sua fé. Tia Eron foi formada desde sua infância, passando pela adolescência e juventude, dentro da IURD. Narra que sua trajetória ocorreu dentro dessa igreja, onde desenvolvia atividades com as crianças,
enquanto os pais participavam dos cultos. De acordo com o blog oficial de Tia Eron no PRB6, em sua juventude, ela desenvolveu trabalho na Escola Bíblica Infantil (EBI), onde surgiu seu apelido de “Tia”.
A minha vida e a minha família foi toda construída dentro da Igreja Universal do Reino de Deus, dentro dessa instituição. Eu cheguei pequena, vivenciei toda minha vida quando criança, foi tudo dentro da igreja. Eu estava saindo dessa fase de adolescência e nessa época, eu já era obreira, organicamente ligada na instituição. “Tia”, era uma espécie de professora, não por formação, mas por opção. (CARVALHO, 2017).
Na entrevista, a deputada licenciada informa que trabalhava na Igreja com meninos e meninas de famílias muito pobres e em vulnerabilidade social sendo muitos deles, usuários de alguns tipos de drogas. Ela afirma que resolveu ampliar seu trabalho, não mais esperando somente que os pais e mães levassem os filhos até a igreja. Era necessário não ficar em “muros” dentro da instituição, e sim, buscar outros adolescentes na comunidade.
Saio da Igreja e vou até esses meninos! Vou para dentro dessas entranhas, dessas comunidades. Mergulho nessas comunidades e é interessante, quando eu mergulho nessas entranhas das comunidades, começo a fazer um social consciente. (CARVALHO, 2017).
Tia Eron passou a desenvolver seu trabalho com crianças e juventude negra nas ruas do bairro Saramandaia, na cidade de Salvador/BA (numa região específica do bairro nominada como “polêmica”). Essas pessoas não tinham acesso a escola e a nenhuma diversão. Segundo ela, era uma população historicamente desprezada e às margens da sociedade, privada de seus direitos. O trabalho trouxe destaque e visibilidade na comunidade e logo ela foi reconhecida pelos líderes religiosos como tendo um forte potencial para a política.
Na entrevista, Tia Eron destaca que a IURD estava localizada estrategicamente dentro de bairros carentes, e não em bairros nobres, facilitando o trabalho com este público. De acordo com Vital e Lopes, a Igreja foi ampliando seus trabalhos para além dos bairros centrais da cidade, ou seja, para os bairros de periferias e favelas, sendo nestes territórios que os chamados “obreiros” da IURD divulgavam os trabalhos (VITAL; LOPES, 2013, p. 62).
Tia Eron afirma que o objetivo de seu trabalho era falar da Bíblia e da proposta de Jesus Cristo como um exemplo a ser seguido para se livrarem dos vícios. Realizavam também trabalhos assistenciais como fornecer refeições, banhos, roupas, calçados, atendendo às necessidades básicas das crianças e adolescentes de seis a dezessete anos de idade. Realizavam oficinas e brincadeiras e,
uma vez acolhidos, não saíam mais do espaço. Ficavam não apenas no horário do culto, mas o dia inteiro. Tia Eron destaca que o convívio tinha repercussão positiva nas famílias, que passavam também a ter interesse de conhecer e de participar da igreja. Ela indica que, ao contrário de sua experiência (ela fora trazida por sua mãe para a Igreja), essas crianças e adolescentes, a partir do convívio neste ambiente, começaram eles próprios a levar os pais a frequentar a IURD.
Eu estava fazendo uma contramão de comum, porque no meu caso, por exemplo, eu fui levada pela minha mãe […] Esses meninos levando os pais devido a esse trabalho que estávamos começando a fazer, de evangelizar as crianças. O evangelho é tão simples que uma criança tem a capacidade de percepção. (CARVALHO, 2017).
Tia Eron acredita que seu empoderamento não ocorreu em função do movimento feminista, nem do movimento negro, mas através da IURD. A instituição a fortaleceu como mulher negra e, com isso, ela colocou o discurso feminista em prática. Isto porque a igreja, de acordo com a entrevistada, estava atenta às demandas destes movimentos sociais e os colocava em execução.
A gente deixa (trabalhos com mulheres) por conta da instituição, meu foco, era especialmente a ‘Tia’ por conta do trabalho com crianças e isso foi despertando o olhar da liderança da Igreja de entender que eu tinha uma ‘veia política’. (CARVALHO, 2017).
Em seu depoimento, como também em várias fontes pesquisadas, confirma-se a presença e a forte relação com a IURD em todas as etapas de sua vida, através dos trabalhos assistenciais desenvolvidos nas comunidades, como também sua inserção na vida pública, conforme será abordado a seguir.
Tia Eron sempre destaca a importância da missão da Igreja no processo de evangelização no Brasil e em vários países. Num registro datado do aniversário da Igreja em 2015, Tia Eron reitera a importância desta instituição, discorrendo sobre o início dos trabalhos da IURD através do então Pastor Edir Macedo em 1977, no Rio de Janeiro. As ações desenvolvidas pela instituição começaram a fazer parte do cotidiano de várias pessoas sem acesso às ações sociais. Ela declara o aumento de adeptos confirmado por várias pesquisas.
Eu que sou criada no Evangelho e sigo os ensinamentos que aprendi na Igreja Universal do Reino de Deus. Lembro que os trabalhos realizados por essa instituição conceituada vão além da pregação da palavra. Aqui são desenvolvidos projetos sociais em prol do idoso, da mulher, de combate aos vícios e de fortalecimento da família. As ações acontecem nas áreas da educação, evangelização e da saúde. E foi por isso que a pesquisa apontou
que 35% dos entrevistados elegeram a Igreja Universal com mais prestígio do que algumas instituições mais antigas do Brasil. (CARVALHO, 2015).
Tia Eron lamenta que esta instituição sofra muitas críticas por setores e pessoas que não a conhecem, que nunca a frequentaram, não sabem de seus propósitos e que criam um “senso comum”. Indica que os membros da igreja, muitas vezes, são acusados de serem fanáticos, fundamentalistas, conservadores e retrógrados. Todas essas acusações não correspondem aos trabalhos realizados pela IURD, declara.
Aponta também que muitos partidos e representações políticas que fizeram essas críticas estão com suas bandeiras de lutas superadas. Ela alega que o mais importante é quando se coloca em prática o discurso – e isso, segundo ela, conquista a confiança das pessoas. Desta forma, a igreja, com suas ações políticas, está avançando com suas representações nas diversas esferas de poder, visto que esta instituição, de acordo com a deputada federal, é democrática e vanguardista e está conectada com temas importantes debatidos na sociedade, como o dia 25 de julho – Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, que é celebrado pela IURD.