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gente acha que vai estar sozinho? Muitas vezes o que falta é a gente ter esse espaço e essa escuta, mas se a gente não tiver, a gente tem que criar.

Formadora 5: Então a gente também precisa pensar que mudanças não

vem de uma hora para outra [...]quando a gente coloca o diálogo não é simplesmente chegar e falar da dificuldade e ficar no vazio. [...].É importante a gente ter esse momento de parar. Dá uma aliviada, mas o que a gente faz com isso? Porque senão a gente sempre vai voltar na mesma tecla. Se a gente volta na mesma tecla a gente está inventando ou está paralisado? E sofrendo? É uma questão de saúde ou adoecimento, a paralisia? Produz adoecimento? Produz. Eu consegui somar, outras parcerias, novas estratégias? Eu consigo produzir saúde não só para mim, mas para o coletivo? Já que saúde não é questão de eu ser medicalizado ou ser diagnosticado. Não é só o aluno que vive do diagnóstico. Se fosse uma questão de corpo físico era só a gente acessar os serviços de saúde, médicos, psicólogos, será que é um adoecimento apenas individual? (conversação realizada no sexto encontro)

Afirmamos que a saúde do trabalhador da educação, não está relacionada somente ao trabalhador, mas envolve todo o coletivo escolar, ainda mais que a escola tem como princípio esse viés coletivo. Contudo, mudar a lógica do pensamento não é algo fácil. Em consonância com Ronchi-Filho (2010), acreditamos que a aposta é pensar o trabalho, a partir de um coletivo, para transformá-lo e romper com a individualização e a culpabilização dos processos de adoecimento, no processo produtivo.

Nesse sentido, produzir saúde no trabalho articula-se diretamente com as condições construídas que promovem a autonomia de indivíduos e coletivos. A saúde é a capacidade de “renormatização” constante, possibilitando ao indivíduo lidar com as “infidelidades” e/ou variações do meio, da genética e do contexto profissional (Ronchi-Filho, 2010, p. 24)

Como então, mediante esse cenário de infidelidades e variações do meio, do qual nos fala esse autor, o poder de agir pode se tornar possível? Uma das formadoras, mediadora do sexto encontro, nos sinaliza uma alternativa

Formadora 6: No projeto piloto das COSATES [...] foi montada uma

comissão com os próprios professores, em regência de classe, que por quatro horas semanais conversa sobre questões da escola. [...] E uma coisa importante que surgiu no diálogo no projeto piloto foi sobre o professor não poder ir ao banheiro. A partir do momento que uma professora teve problema de cistite, as pessoas viram como que é importante ter um espaço de diálogo para encontrar soluções. A professora adoeceu, cistite, afastada, voltou, problema surge de novo, cistite, afastada, de novo e aí com a comissão instalada nessa escola as pessoas começaram a pensar maneiras possíveis para que essa professora pudesse ir ao banheiro, pudesse beber água. Porque não pode se ausentar da sala de aula. Quais estratégias a gente pode pensar de cuidado com o

outro? [...] às vezes a gente está no ambiente, num contexto em que a gente só está preocupado só com nossa dor. Só com o nosso sofrimento, só com que a gente está passando e não consegue ter o espaço de dialogar. A gente não para tocar o outro, escutar o outro a gente não tem tempo. E aí a gente pensa: Ah! O problema de urina é dela, ela estar doente é problema dela, ela não está se cuidando. E a gente esquece que é um todo que adoece junto. O que aconteceu com ela pode acontecer comigo também. E quais são as maneiras que a gente pode encontrar para dialogar? Através do diálogo podemos alcançar e conquistar as coisas. Quando a gente está sozinho a gente não consegue isso. Então essa lei foi aprovada, ela está lá. Mas ainda não foi implementada. Ela ainda não se tornou uma realidade para as escolas, mas é uma aposta de promoção de saúde dentro da escola, de prevenção de saúde dentro da escola.

As Comissões de Saúde do trabalhador52 ou Cosates, tem como objetivo gerar conversas sobre o cotidiano laboral visando transformações do processo de trabalho nas escolas. Atualmente o município de Serra dispõe da Lei 4.513, de 25 de maio de 2016, que se refere à criação das Comissões de Saúde do Trabalhador da Educação (Cosates) do Serviço Público do Município de Serra (ES) e o Conselho das Comissões de Saúde do Trabalhador da Educação (Concosate), muito embora, ainda não tenha sido regulamentada.

De acordo com Chambela (2018), a constituição dessa lei foi fomentada pela articulação de movimentos que envolveram o Programa de Formação e Investigação em Saúde e Trabalho (Pfist) vinculado ao Núcleo de Estudos e Pesquisas em Subjetividade e Política (Nepesp), do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), unidades de ensino municipais em Serra/ES e Fórum Cosate formado por uma diversidade de agentes. Essa autora afirma ainda o papel das Cosates é o de:

[...] se organizar como espaço-tempo de atenção e intervenção relativas à saúde no local de trabalho e visam fomentar, a partir da análise situada das condições de trabalho, estratégias de enfrentamento coletivo a modos organizativos que produzem sofrimento, deslocando-o de uma relação individualizada e produzindo referenciais compartilhados que ampliem a capacidade de criação e o poder de agir no trabalho (CHAMBELA, 2018, p. 25).

A Clínica da Atividade (CLOT, 2007) enfatiza a relevância de se investir em espaços coletivos de diálogos no ambiente de trabalho, para que os trabalhadores possam

52 O projeto piloto das Cosates foi realizado em um Cmei e uma Emef no município de Serra. Mais

informações sobre as Cosates podem ser observadas nos trabalhos de Chambela (2018), Zamboni et al. (2013) e Silva, Cesar e Barros (2016).

construir alternativas concretas que impulsionem o poder de agir dos coletivos de trabalho, constituindo, assim, uma tática para enfrentar as condições de sofrimento que potencializam adoecimentos no trabalho.

6.2 PODER DE AGIR FRENTE À PATOLOGIZAÇÃO DO SOFRIMENTO E À MEDICALIZAÇÃO DA VIDA

Música ao fundo, os professores caminham pela sala, na intenção de se colocarem em exercício de olharem para si:

Formadora 7: [...] podem tirar os sapatos. A gente perde esse contato com

o chão. Desacelerar o corpo para entrar em contato com que estamos sentindo hoje. Passou o dia todo em pé? Onde está sua tensão? Olhe para seu colega. É difícil olhar nos olhos? Está cansado?

(Narrativa capturada no 4º Encontro)

Figura 5 – Atividade “Olhar para si”

Fonte: Arquivo de imagens da pesquisadora (2019).

Tendo em vista que os profissionais chegariam de um dia inteiro de trabalho, buscou-se estabelecer um momento para que pudessem desacelerar o corpo. Afinal a agitação do dia a dia é grande, levando em consideração as diversas coisas que “temos” que dar conta. Será que temos que dar conta mesmo? Para o regime colonial-capitalístico certamente sim, pois articula e busca mecanismos na tentativa

de convencer-nos de que sim, e, ardilosamente, impõe-nos essa sobrecarga de trabalho em condições que nos atropela, e que não sabemos ao certo onde começa ou termina. Assim, o trabalho

[...] passou a ser essa dimensão da vida sem dimensão, imaterialidade própria às sociedades de controle e por isso bastante capaz de capturar a vida e seus modos. O mundo do trabalho perdeu seu contorno definido. Alastrou-se vazando de uma dimensão específica e determinada para tomar somente a vida toda. (AMARANTE, 2016, p. 36, grifo da autora).

Para pensar sobre os nossos próprios processos de trabalho em educação, além da realização da atividade de “olhar para si”, também recorremos a um exercício de experimentação escrita, desencadeado pela provocação “O que eu sinto em relação ao meu trabalho?”.

A cada encontro uma aposta, uma intenção, vários agenciamentos: um filme, uma música, uma narrativa, mas para o quarto encontro a escrita foi evocada. Várias situações, lembranças, sentimentos podem emergir nesse processo de elaborar a escrita, escrever e ler o que se escreveu. Acerca disso, Larrosa (2017) nos diz que

[...] entre ler e escrever, às vezes, acontece algo, acontece algo conosco. Talvez isso que chamamos de “pensar” seja a experiência desse ‘entre’ [...] entre o ler e o escrever, acontece algo que tem a ver com a subjetivação, com o choque da diferença, com o ponto de desacordo, quer dizer, talvez, se pensa (LARROSA, 2017, p. 139).

Figura 6: Produções resultantes da experimentação escrita

Ao final do exercício de escrita, cada participante depositou a sua produção em uma caixa e dali fomos “puxando” as experiências a serem compartilhas com todo grupo, sem a necessidade de identificar a autoria da escrita, na intenção de impulsionar as conversações acerca do trabalho docente realizado no cotidiano das unidades de ensino.

De modo geral, as narrativas evidenciaram o quanto o trabalho docente é intenso, repleto de inúmeros desafios vivenciados no cotidiano educativo, principalmente, no que se refere ao campo das relações: professor x professor, professor x aluno, professor x equipe gestora, professor x gestor escolar, relação com as famílias e comunidade. “Precisamos cuidar das relações que a gente estabelece no mundo. Porque o adoecimento também surge das relações que estabelecemos”, nos diz a formadora, mediadora do quarto encontro.

A discussão, ao voltar-se para a relação professor x aluno, ganha atenção especial do grupo, dado que a primeira narrativa enunciada nessa conversação considera a relação professor e aluno como a “melhor parte do trabalho”. O grupo se manifesta por completo, apresentando vários posicionamentos: “Eu não acho”, “Ah nem sempre! Misericórdia”, “Depende”, “Tem casos e casos”. Muitos foram os relatos de casos de estudantes indisciplinados e a necessidade de melhor suporte por parte da equipe gestora da unidade de ensino (coordenadores, pedagogos, diretores):