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A política social como um todo tem sofrido rebatimentos da crise econômica no sentido de se afirmar em uma vertente economicista em que as políticas sociais são con- duzidas pelos caminhos de mercado, priorizando critérios de eficiência/eficácia e priva- tização. Ao invés de avançar em direção a uma rede4 universal de proteção social que implique o dever do Estado na garantia de direitos sociais, retrocede-se a uma concepção em que o bem-estar parece pertencer ao âmbito privado, não tendo o Estado nenhuma responsabilidade em promovê-lo.

Quando se fala de atenção integral para os usuários de álcool e outras drogas, a intersetorialidade é uma diretriz fundamental, pois em nível institucional propõe que o cuidado com esses usuários deve extrapolar o campo de uma única política e instituição e envolver questões que vão desde o direito à moradia e ao saneamento básico até o acesso ao lazer e aos bens culturais, a partir do reconhecimento dos usuários como sujeitos de direitos, portanto, demandatários de todas as políticas públicas. Não podemos esquecer que, entre tais cuidados no atendimento, um que desponta como urgente é a formação/ educação continuada dos profissionais que trabalham com esse público, o que poderia favorecer a identificação, intervenção e encaminhamento para o tratamento por parte dos profissionais da rede.

Segundo o Substance Abuse and Mental Health Services Administration (SAMH- SA), entre 13 e 16 milhões de pessoas necessitam de tratamento para o uso de subs- tâncias psicoativas por ano, mas somente 3 milhões recebem cuidados. Essa diferença pode ser explicada pela quantidade baixa de instituições especializadas em atendimento/ tratamento da dependência química, mas também pelos parcos ou ausentes investimentos em ambientes não hospitalares, incluídos aqui os da assistência social, educação, etc. (PILLON; SIQUEIRA; SILVA, 2011).

4 A ideia elementar de rede fala de uma articulação entre diversas unidades que, através de certas ligações, troquem elementos entre si, forta- lecendo-se reciprocamente e podendo multiplicarem-se em novas unidades, que, por sua vez, fortaleceriam todo o conjunto na medida que são fortalecidas por ele, permitindo expandir novas unidades ou manter um equilíbrio sustentável (MANCE, 1999).

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A Organização Mundial da Saúde (OMS)recomenda que os profissionais da saúde recebam formação sobre o uso de substâncias psicoativas, começando por treinamentos básicos e educação formal para profissionais e estudantes da área da saúde. Apesar disso, pouca ênfase tem sido dada ao ensino nessa área. Os próprios profissionais reconhecem deficiência em sua formação para lidar com o problema.

Isso acaba por desembocar em uma variedade de atitudes contraditórias e inefica- zes referentes ao usuário, atrelando o consumo a questões abstratas e subjetivas, como caráter ou moral, ao invés de ligá-lo a uma doença de caráter biopsicossocial. Visões simplistas como essa tendem a ser piores no meio rural, que reúne um menor número de pessoas preparadas para lidar com tal demanda, inclusive por ainda não ser área prioriza- da na localização de serviços que tratem o tema, devido a questões como o quantitativo da população.

No Brasil, a pobreza e a desigualdade social são Determinantes Sociais de Saúde (DSS). No meio rural, esses determinantes vão se manifestar perpassados por questões de desigualdade no acesso à terra, água e políticas públicas, impactos ambientais que contribuem para o aumento da vulnerabilidade social e da desigualdade em saúde, o que, consequentemente, contribui para o adoecimento da população rural, que já vivencia reali- dades tão singulares como a seca, que altera toda a rotina familiar, reduz as atividades de lazer e provoca prejuízos dos mais diversos (FÁVERO, 2012).

Para além da seca, a população rural sofre com uma certa privação no acesso a serviços da rede de saúde e socioassistencial por conta da distância geográfica. Devido à finalidade do curso, a discussão se deterá no que diz respeito à saúde mental/dependên- cia química. Esses serviços normalmente estão concentrados nas capitais ou cidades de grande porte, o que gera ou uma desassistência aos moradores da zona rural5 (ocasionada principalmente por ausência ou precarização dos transportes nos serviços para viabilizar as visitas/atendimentos e pela defasagem nas equipes) ou uma assistência fora do ideal, pois obriga o indivíduo a sair de sua comunidade, ocasionando muitas vezes fragilizações no atendimento e/ou no vínculo familiar (por não ser possível acompanhar o tratamento).

No que tange ao consumo de álcool e outras drogas, a política do Ministério da Saúde para atenção integral a usuários de álcool e outras drogas não faz distinção quanto ao espaço urbano ou rural, relegando aos moradores das áreas rurais um atendimento generalista prestado por equipes de saúde da família e dos Centros de Referência da As- sistência Social – CRAS (que muitas vezes não têm qualificação técnica para diagnóstico

5 Sobre as estratégias para prevenir essas situações, ler a política nacional de saúde integral das populações do campo e da floresta. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_saude_populacoes_campo.pdf>.

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e manejo em dependência química) e a necessidade de deslocamento para ser atendido em sua especificidade – o que torna o atendimento pontual, espaçado e, como tal, apenas um paliativo.

Há escassez de estudos sobre o uso de drogas por tal população, mas uma pesqui- sa realizada na zona rural de Teresina, capital do Piauí (CARNEIRO et al., 2011), apontou uma série de aspectos que ameaçam a vida saudável dessas comunidades, com destaque para o consumo de álcool, que nessas regiões costuma ser iniciado ainda mais cedo do que no espaço urbano, por uma questão cultural.

Quanto ao perfil socioeconômico, a pesquisa apontou maioria com escolaridade entre não alfabetizados e alfabetizados apenas com ensino fundamental, com renda entre meio e um salário mínimo, tendo como ocupação/fonte de renda a agricultura e/ou apo- sentadoria. Em relação à participação nos programas sociais e ao padrão do consumo de álcool, observou-se que 43% das pessoas que fazem uso não possuem Bolsa Família. Esse percentual aumenta para 50% em indivíduos que fazem uso abusivo e para 75% dos que foram diagnosticados com dependência química, o que indica uma verdadeira roda- -viva entre dependência química, vulnerabilidade social e acesso a renda (DIMENSTEIN et al., 2016).

Entre as situações de risco para consumo abusivo de drogas, foram observadas a falta de investimento sistemático na agricultura familiar, a sobrecarga do trabalho agrícola e a não garantia de direitos trabalhistas, o que facilita o lugar da bebida como alternati- va de lazer, alívio e relaxamento frente às condições problemáticas do cotidiano dessa população (OLIVEIRA JÚNIOR; PRADO, 2013).

Isso cria uma preocupação a mais pelo contexto de crise econômica e política que se vivencia no Brasil, fato que tende a piorar esses índices. Torna-se imperativo que os serviços de saúde e de proteção social se adéquem à dinâmica territorial, social, cultural e laboral do campo, atentando para as transformações do contexto rural e suas implicações para a saúde mental e consumo excessivo/dependência de álcool e outras drogas.

Outro âmbito que não costuma receber um entendimento correto de sua relação com a dependência química, nem sua contemplação no atendimento, é a espiritualidade. A história recente mostra uma crescente valorização dessa prática como recurso terapêutico e objeto de pesquisa6. Em consonância, um expressivo número de estudos que relacionam espiritualidade com consumo de substâncias também tem sido produzido, trazendo relatos de melhoras em relação à dor, funções imunológicas, câncer e mortalidade.

6 Nos Estados Unidos, as Universidades George Washington e Duke têm centros de pesquisa em espiritualidade e saúde. Na Harvard Medical School e no Mind/Body Medical Institute of Deaconess Hospital, em Boston, existem cursos destinados a examinar as relações entre práticas médicas e religião (RIBEIRO; BOGAR, 2011).

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É importante fazer uma diferenciação entre religiosidade e espiritualidade, pois parte da resistência dos profissionais em trabalhar esse tema decorre do fato de entende- rem e tratarem os dois conceitos como uma mesma ideia. Religiosidade trata-se da crença e prática ritualística de uma religião. A espiritualidade consiste em uma relação pessoal com o objeto transcendente (Deus, natureza, ou qualquer tipo de poder superior), através da qual a pessoa busca significados e propósitos fundamentais da vida, podendo envolver ou não a religião.

Tanto a religiosidade como espiritualidade são consideradas com- ponentes da vida do homem, pois influenciam as interações sociais, culturais e a dimensão psicológica, as quais são demonstradas pelos valores, crenças, comportamentos e emoções. A religiosidade e espi- ritualidade podem afetar a saúde, reduzindo comportamentos consi- derados não salutares, tais como o consumo de substâncias psicoa- tivas. Na dimensão da problemática das drogas, tanto o exercício da religiosidade como o da espiritualidade têm sido considerados fatores protetores para o consumo de álcool e outras drogas em âmbito pre- ventivo e de tratamento. Estão associados a melhores habilidades de vida. (ZERBETTO et al., 2017, p 2).

A influência da espiritualidade reside na potencialização da força interior para o cuidado com a saúde e também para o fortalecimento espiritual, o que intensifica as ca- pacidades de resiliência e esperança, ambas com impacto positivo no tratamento da de- pendência química.

A religiosidade e a espiritualidade são dimensões marcantes e significativas (para bom e para ruim), principalmente em países com tradição religiosa como o Brasil. São também doadoras de significado para a experiência humana cotidiana. Apesar disso, mui- tos profissionais ainda têm receio de trabalhar o tema nos seus atendimentos, por conta das más experiências ligadas ao trabalho com religião sem respeito à espiritualidade do sujeito, tais como imposição de conversão a determinada religião preconizada pela insti- tuição (normalmente privada) que está acolhendo o indivíduo, fanatismo religioso, crença na punição divina e na doença como um castigo a algo que precisa ser “suportado” para purificação, demonização da dependência química, enfim crenças que podem afastar e/ ou desresponsabilizar o indivíduo do tratamento, pois acabam naturalizando sua situação. É importante que os profissionais consigam distinguir e ajudar o usuário a perceber essa diferença.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

O percurso do curso deixou claro o quanto o uso de drogas é cercado de juízos de valor, o que gera um insistente olhar incriminador para as drogas (objetos inanimados), deixando escapar a parte humana e social na busca e manutenção do consumo dessas substâncias. A questão torna-se ainda mais complicada se levarmos em conta que a de- finição de uma substância como droga ou medicamento nem sempre depende de suas propriedades farmacológicas, mas do modo como o Estado decide tratá-la. Prova disso é que não faltam argumentos de base farmacológica que possam sustentar propostas de proibição de substâncias legais e lucrativas como o tabaco e o álcool, o que não acontece. Verifica-se que o que se tem ainda são políticas públicas fragmentadas e insufi- cientes, direcionadas à prevenção ao uso de drogas. Dificilmente haverá solução única para a problemática da dependência química, já que a lógica do sistema capitalista marcha na direção da reprodução de uma realidade que acentua vários determinantes sociais que são responsáveis pelo uso e abuso, entre eles, a desigualdade social, a miséria e o desemprego. Percebe-se também a problemática que se estabelece no atendimento pelo não conhecimento, por parte dos profissionais, das especificidades dos públicos-alvo na sua relação com a droga, gerando uma padronização no atendimento a esses usuários, não contemplando suas reais demandas.

Consideramos que a oferta de treinamento aos profissionais que tratam do tema, quando existe, concentra-se na saúde, quase não se tendo notícia desse tipo de iniciativa na assistência social. Escassos também são os conhecimentos sobre funcionamento da rede, impactos da moradia no campo e espiritualidade do usuário, fatores que poderiam ajudar os profissionais que trabalham com a temática a compreender e colaborar com seus usuários. Um fator determinante para essa mudança de quadro é que os profissionais continuem a dispor de espações de troca e conhecimento como o que o CapacitaSUAS proporcionou, de modo a permitir problematizarem suas realidades e atendimentos e pu- blicarem suas experiências.

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