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Trabalhos que tratam sobre a formação e os saberes docentes de professores

3 SABERES DOCENTES: DIMENSÕES EPISTEMOLÓGICAS, LIMITES E

3.7 Os saberes docentes no campo da música

3.7.2 Trabalhos que tratam sobre a formação e os saberes docentes de professores

Sobre os trabalhos que versam sobre os professores generalistas, (ABREU, 2011a; 2011b), ao investigar como professores licenciados em outras áreas do conhecimento se tornam professores de música na educação básica, acaba direcionando seu estudo para as narrativas da profissionalização e faz menção aos saberes docentes por acreditar que os saberes são construídos nas narrativas de vida dos professores de música, e são esses saberes docentes que constituem a profissão. E ainda que, cada professor tem sua forma de utilizar, elaborar e mobilizar seus saberes. Durante a atuação profissional desses professores, mesmo eles não possuindo formação em cursos de licenciatura em música, são as pequenas ações desenvolvidas nos contextos de atuação desses docentes que colaboram para construção de seus saberes docentes, ou seja, é através da prática da profissão que os docentes vão se tornando professores de música, e se reconhecendo como tal. “Essas ações vão constituindo os sujeitos desta pesquisa em profissionais, na medida em que estes narram o seu processo de profissionalização na área da música (ABREU, 2011a, p. 26)”.

Todo o trabalho desenvolvido pelos professores participantes da pesquisa de (ABREU, 2011a; 2011b), é validado justamente pela comunidade escolar, que reconhece e ajuda a construir essa profissionalização na medida em que se relaciona com esses professores de música. Por isso, é perante essa comunidade que o professor também constrói sua prática, partindo dos alunos, daquilo que lhes agrada, que ele organiza o ensino de música na escola. De maneira geral, a autora conclui que a profissionalização, em si, é uma narrativa que o professor vai tecendo ao se propor a assumir o posto de professor de música, e ao se relacionar e agir em seu contexto de trabalho.

Seguindo a mesma linha de trabalho dentro da escola básica, com professores que não possuem formação em cursos de licenciatura em música, (TIAGO, 2007), procurando conhecer e analisar os saberes e práticas pedagógico-musicais de professoras unidocentes no cotidiano de salas de educação infantil, faz menção aos saberes docentes, apresentando que a formação dessas professoras não ocorre no âmbito da formação inicial, mas que as suas experiências de vida possibilitam-nas mobilizar saberes necessários às suas práticas pedagógico-musicais na educação infantil. Além disso, a autora percebe que, durante as relações vivenciadas cotidianamente com os alunos, as professoras também acabam por construir saberes que são adquiridos na prática pedagógico-musical.

O trabalho da autora demostra que, mesmo com pouca ou nenhuma formação musical, as professoras conseguem desenvolver trabalhos musicais, utilizando-se de saberes construídos no cotidiano do seu trabalho e na experiência de vida. No entanto, a autora chama a atenção para a necessidade de os cursos de pedagogia abrangerem, em seus currículos, disciplinas que possibilitem a formação pedagógico-musical, que possam dar respaldo para que professores unidocentes, na ausência de professores licenciados em música, possam trabalhar com o ensino de música, como área do conhecimento (TIAGO, 2007).

Questionando-se também sobre a formação de professores da educação infantil, (CUNHA, 2014) realiza uma pesquisa-ação com professores da pequena infância (crianças de zero a 5 anos) de duas escolas da zona sul de São Paulo, partindo da seguinte problemática: quais são os saberes que as professoras da pequena infância movimentam para trabalhar a música quando não são especialistas no assunto e nem passaram por um aprendizado profissionalizante nessa área? A autora, em seu estudo, parte do objetivo de desenvolver e ao mesmo tempo estudar os saberes e as práticas musicais das professoras da primeira infância. Nessa perspectiva, ela faz menção aos saberes docentes apontando que, no início da pesquisa, as professoras movimentavam saberes adquiridos em contextos informais e não formais de Educação Musical, como aulas particulares de instrumento, participação em grupos vocais, em minicursos promovidos pela rede municipal de ensino, etc. Isso se somava à cultura educativo-musical enraizada na educação infantil paulistana e que vem perpassando por várias gerações, que, em parte, se resume à música como suporte a outras atividades. Com a realização da pesquisa-ação a autora construiu, juntamente com as professoras, novos saberes docentes, a partir da reflexão sobre suas práticas no contexto da primeira infância.

Ainda sobre os professores dos anos iniciais da educação básica, apresentam uma experiência na construção de saberes pedagógicos dos professores dos anos iniciais, tomando como base um projeto intitulado: “oficina de música: uma abordagem musicoterapêutica”,

implementado em uma creche e uma escola de educação infantil em Uberlândia, com professores e crianças de 3 a 6 anos de idade. Nessa experiência, a autora relata que, durante o processo de realização do projeto, as professoras vivenciaram práticas musicais que possibilitaram a constituição de novos saberes, entre eles, os relacionados intrinsecamente à música, como o desenvolvimento rítmico e melódico, pulsação, entoação, afinação, e saberes ligados à musicoterapia, utilizando a música como uma ferramenta terapêutica para trabalhar as necessidades físicas, mentais, emocionais, sociais e cognitivas das crianças envolvidas no projeto (CARVALHO; LIMA, 2011).

No momento em que as professoras vivenciavam esses novos saberes, tiveram a oportunidade de mobilizá-los em suas práticas, no trabalho com as crianças. Ou seja, ao mesmo tempo em que vivenciavam as experiências, as professoras faziam uso delas em um contexto real de educação infantil, podendo comprovar os limites e possibilidades de tais saberes aplicados ao cotidiano do trabalho docente. Essa construção e mobilização coletiva de saberes propiciou uma formação continuada para professoras e também uma maneira de compartilhamento de múltiplos saberes docentes advindos da experiência, que todas elas já possuíam, mas que não tinham oportunidade de dividir com as outras colegas (CARVALHO; LIMA, 2011).

Partindo do conceito dos saberes docentes de professores generalistas, (CAVALCANTI, 2014) realizou um estudo em uma escola Waldorf de contexto inclusivo, propondo-se a investigar as dimensões das práticas musicais de uma professora de classe das séries iniciais do ensino fundamental. Nesse contexto, a autora percebeu que a música é uma disciplina assim como as outras áreas de conhecimento, e os professores que atuavam na escola passavam por uma formação específica para trabalhar a música através de grupos de flauta, corais, etc. O que a autora constata em sua pesquisa é que os saberes docentes das professoras generalistas são mobilizados de diversas áreas artísticas, sociais e humanas. Entre todos os saberes, os que se mostraram mais presentes no discurso dos professores foram os saberes advindos da experiência, pois exercem maior influência sobre a prática dos professores na escola, e são produzidos no próprio ambiente escolar.

Também sobre essa temática, (LOPES, 2010) realizou um estudo com objetivo de entender a atuação de professores generalistas que ministravam a disciplina específica de música nos anos iniciais do ensino fundamental. A pesquisa indica que as pequenas vivências musicais obtidas no cotidiano externo das instituições formais (escola, universidade), durante a trajetória de vida das duas professoras generalistas, eram as principais fontes de mobilização

de saberes docentes para atuação nas séries iniciais do ensino fundamental com o ensino de música.

Essa constatação indica que as professoras não tiveram a oportunidade de construir esses saberes nem durante a vida escolar primária e secundária, nem tampouco durante a formação inicial no curso superior e na formação continuada. Essa constatação indica a necessidade de se pensar em mecanismos que possibilitem formar professores generalistas para atuarem com ensino de música na escola a partir de cursos de formação continuada que dialogam diretamente com o contexto de ensino desses professores.

De modo geral, as pesquisas que fazem menção aos saberes docentes e tratam sobre a formação de professores generalistas que atuam com o ensino de música apontam para uma realidade bastante clara sobre a mobilização de saberes construídos na prática docente. Esses professores durante a formação inicial não tiveram oportunidade de vivenciar experiências e adquirir conhecimentos relativos ao ensino de música na educação infantil e nos anos iniciais. Esse fato afeta diretamente suas práticas pedagógicas na escola, pois, se não se constroem saberes durante a formação inicial, é na prática que se criam saberes para lidar com o contexto da educação infantil e anos iniciais.

Nessa perspectiva, se não constroem saberes antes da atuação profissional, os professores começam a mobilizar aquilo que eles viveram com a música durante suas trajetórias de vida. Ou seja, experiências musicais vividas em grupos de canto, aulas particulares de música, experiências como ouvintes, lembranças de como a música era utilizada durante o seu tempo de escola, etc. se traduzem em saberes que se articulam em suas práticas de forma, às vezes, desarticulada do contexto. Mesmo que muitos professores passem por minicursos e formações continuadas promovidas por Secretarias da Educação, essas vivências são fragmentadas e não conseguem sanar as fragilidades, nem dar conta de todas as dimensões que envolvem o ensino de música na educação infantil.

Por isso, todas as pesquisas apresentadas nesta categoria direcionam para a necessidade de os cursos de pedagogia incluírem disciplinas em seus currículos que tratem sobre o ensino de música na educação infantil e nos anos iniciais. Para que os profissionais que atuam nesse contexto possam desenvolver uma educação musical infantil mais sólida e que consigam abranger todas as dimensões da música como área de conhecimento. Além de promover momentos de partilha de saberes para que esses profissionais possam trocar experiências e conhecer outras realidades de ensino de música na educação infantil e anos iniciais.

3.7.3 Trabalhos que tratam sobre a formação e os saberes docentes do professor de música da

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