O Carlos libertara–se dos medos que o invadiam, tinha aceite a sua situação e lentamente podia viver com serenidade. Voltou ao trabalho, à sua vida. Já tinham passado cerca de três a quatro anos depois do tratamento do cancro, quando, de súbito, O Carlos Ventura se apercebe do seu corpo, de “sinais de estranheza” alarmantes que o obrigam a focar–se sobre ele. Com a urgência que o mal–estar crescente lhe impunha o Carlos tenta decifrar e compreender o que aquela sensação de “estranheza” que o invadia significava, que ameaça era aquela. E por isso atenta nos sinais e sintomas de modo muito preciso que revela como o seu olhar transforma o seu corpo na coisa a esmiuçar, como o texto denuncia.
Mais ou menos 3 a 4 anos depois, também em Maio ou Junho, um domingo no fim de jantar — lembro–me perfeitamente, é duma brutalidade — comecei a sentir uma espécie de estra- nheza, a ouvir um apito no fundo dos ouvidos, a ficar um bocado isolado, como se me estivesse a afastar (…) a perder o contacto objetivo das coisas e estranhei aquela sensação. Levan- tei–me, senti–me levemente enjoado e, instintivamente, andei pelo corredor até ao telefone. Durante esse percurso de 7 a 8 metros, a suar brutalmente (…) comecei a sentir dificuldade em focar as coisas. Sentei–me (…) senti algo que me apercebi do que estava a acontecer. Senti o braço esquerdo preso, uma sensação de irradiação e prisão no pescoço e pensei ”isto é uma coisa cardíaca e grave que me está a acontecer”, pensei. A sensação que eu tinha era o braço preso que é um sintoma clássico, nem sabia como era, porque diz–se “dor no braço esquerdo”, mas não era dor nenhuma, era uma prisão como se estivesse a ser esticado, com irradiação para o pescoço. Foi isto que eu senti e sabia o que significava e penso ”estou a ter uma coisa cardíaca, gravíssima, é o que me está a acontecer”. Tive consciência do que era, outra vez sem dor nenhuma, como no cancro.
Perante os sinais e o que estes significam, percebe, rapidamente, o que lhe está a aconte- cer — “é uma coisa cardíaca e gravíssima”. Parece controlar–se e a sua ação assenta numa racionalidade onde não tem ainda expressão outro sentir que não seja a “estranheza” e uma certa perplexidade pela ausência de qualquer dor. O Carlos diz “tive consciência” e, com o seu conhecimento quase faz o diagnóstico, sabe o perigo iminente que a sua vida corre e pede para ser encaminhado o mais depressa possível.
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Deixei de ver e devo ter ficado com um olhar tal, senti que a minha mulher estava a olhar para mim a perguntar–me o que é que eu tinha e eu disse — “Leva–me depressa para o centro de saúde”. Ainda me lembro de ter sido mais ou menos arrastado para o carro (…) no centro de saúde foi o tempo de me canalizarem uma veia e meterem uma aspirina debaixo da língua ou uma nitroglicerina e enviaram–me para o hospital. (…) não tive nunca nenhuma sensação de angústia nem de medo, é interessante!
O seu posicionamento vígil e de controlo face ao que lhe está a acontecer não deixa de indi- ciar o espanto que a sobrevivência ameaçada desperta nele. É tudo tão repentino que o Car- los estranha não sentir a “angústia” ou o “medo” perante a situação em que se encontra. Sabe que pode morrer mas é a ausência desse sentir que ele qualifica de “interessante”, ou seja, não habitual e esperado. A sua preocupação maior é saber que a sua situação é de emergência e a sua evolução está pendente da celeridade do tratamento hospitalar. Não há tempo a perder. É na ambulância que o Carlos Ventura perde a consciência e mais uma vez ele conta com surpresa e detalhe o que se passou nele, da cisão violenta eu–corpo que viveu e se dá conta de que está a morrer, a desligar–se do seu corpo, das pessoas, “desligado da vida”
Na ambulância (…) aconteceu–me aquela coisa (…) o túnel, a libertar–me de mim próprio, ou seja, estive a morrer, e dei conta disso, a morrer, a morrer, depois morri, mas já foi no hos- pital (…) de repente comecei a ver, não pelos olhos, mas interiormente. E o que é que eu via? O meu corpo, como dizer, a alma, a aura, o que a gente quiser, a sair do corpo físico, de tal modo que eu via–me deitado numa maca (…) havia pessoas dentro da ambulância, mas não sabia muito bem quem eram, essa parte saía do meu corpo pela parte da cabeça, como se fosse de marcha atrás, saía assim por aqui [faz o gesto], estava ali um bocadinho a flutuar naquele sítio (…) o meu corpo envolvido numa espécie de uma luz brilhante (…) e eu pensei “olha, é disto que falavam, deixa–me ver bem, abri bem os olhos para dentro, lá está o túnel, o tal túnel, uma luz intensa, estou a ir–me embora, estou a morrer” e sem nenhuma angústia pen- sei “se a morte é assim, ou se pode ser assim, é fantástico”! (…) nenhuma angústia, nenhuma ligação demasiado forte aos outros, às pessoas, estava desligado da vida, estava ali e eu tinha a noção “eu estou a ir–me embora, estou a morrer” em perfeita paz e tranquilidade. (…) Quem me visse nessa altura via–me inconsciente.
O Carlos Ventura, durante o período que designa de “inconsciente”, desdobra–se num diá- logo entre si e o seu corpo, entre o que sabe e o que “interiormente” vê a desenrolar–se nele, pensando “eu estou a ir–me embora, estou a morrer” como se não fosse com ele. Aliás, sen- te–se “em perfeita paz e tranquilidade” a contemplar, a querer “ver bem” e acrescenta “sem nenhuma angústia pensei se a morte é assim, ou se pode ser assim, é fantástico”.
De repente, voltei a mim, senti e desci. Abri os olhos e reconheci a minha mulher e a colega que estava ao meu lado “então, Carlos como te estás a sentir?” Estávamos a chegar, entrei na urgência, estava tudo já à espera de um tipo com um enfarte grave. O cardiologista fez o electrocardiograma “Está tudo normal, mas vamos lá auscultar isso melhor”. Lembro–me perfeitamente desse momento, o último momento vivo! Ele a por o estetoscópio e eu a tentar puxar a t–shirt para ele me auscultar. Fiz uma fibrilhação ventricular com paragem cardíaca e morri, já não vi mais nada, contaram–me depois. Viram–se à rasca para me ressuscitar, não foi à primeira, fizeram duas ou três tentativas.
De notar como o Carlos conta esse momento em que fica consciente. No primeiro instante “senti e desci” e de seguida consegue situar–se, estar com quem o rodeia, como se o perío- do de inconsciência não tivesse existido. Mesmo o electrocardiograma indica normalidade. Porém, no momento seguinte faz uma paragem cardíaca e o Carlos, na nossa conversa, diz “morri” e sabe que não morreu porque estava no hospital, como também sabe que “vi- ram–se à rasca para me ressuscitar, não foi à primeira, fizeram duas ou três tentativas”. Ter a lembrança de um “último momento vivo” significou que “tive consciência do que se tinha passado” como o Carlos sublinha quando dá acordo de si, na enfermaria.
Acordei a caminho da enfermaria. Estava cheio daqueles fios, (…) com oxigénio e o médico com um ar muito preocupado — a gente dá–se conta e vê tudo, sem muita consciência. De- ram–me morfina e estava naquele bem–estar. Quando fiquei sozinho tive um mar de choro calmo, de lágrimas sem parar, (…) de algum modo tive consciência do que se tinha passado! Estava perante um milagre sem ser um milagre divino — eu não sou crente — mas tive a sensação disso e isso provocou–me uma imensa emoção! De um momento para o outro fui devastado por um enfarte!, (…) morri no hospital. Devo a vida a esta gente (…) foi assim este processo, foi isto.
Saber–se e sentir–se vivo foi para o Carlos Ventura “um milagre” o que significa perceber que podia não estar e viveu este momento com “uma imensa emoção”, com “um mar de choro calmo, de lágrimas sem parar”. Num instante de tempo, “de um momento para o ou- tro (…) quando já estava sossegado na [sua] vida” Carlos Ventura fez um enfarte agudo do miocárdio, por fibrilhação ventricular, que o ameaçou de morte estando “desligado da vida” o tempo que levou a ser “ressuscitado”.
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