VIVER NA PERIFERIA: O COTIDIANO E O OLHAR DOS JOVENS
1.1. Viver na Ceilândia
Malandragem de Brasília, cidades entorno, caldeirão do demônio, Ceilândia é o forno. Cansei de ver velório, tristeza eu não concordo. [...] Aqui é Cei, DF, seja bem vindo. Jaquetão de couro, burro preto na esquina, maconha, merla e cocaína.
(Rap de autoria do grupo Cirurgia Moral)
A Ceilândia, distante trinta quilômetros do Plano Piloto, é a maior, a mais populosa cidade-satélite do Distrito Federal, com 344.039 habitantes (IBGE, Censo Demográfico 2000)3. O setor tradicional (QNM), inicialmente denominado de “Barril” em razão do seu traçado urbanístico, foi criado em 1971 para receber 80 mil migrantes instalados em diferentes invasões nas redondezas do Plano Piloto4. Ainda na década de 1970, a política governamental de erradicação de invasões e de assentamento das camadas
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O Distrito Federal tem uma população de 2.051.146 habitantes (IBGE, Censo Demográfico 2000).
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As “invasões” de terras fazem parte da história do Distrito Federal. Na maioria dos casos, seus ocupantes são migrantes nordestinos que procuram a Capital em busca do sonho de ter uma vida melhor. De acordo com dados da CODEPLAN (1999), mais de 60% da população da periferia do Distrito Federal é formada de migrantes nordestinos.
populares levou à implantação de novos setores na Ceilândia, surgindo, então, o Setor O (QNO), em 1976, o Núcleo Guariroba (QNN), em 1977, e os setores P-sul e P-norte (QNP), em 1979. Dando prosseguimento a mesma política, nas décadas seguintes foram criados pelo governo do Distrito Federal a Expansão do Setor O, a Nova Ceilândia, a Nova Guariroba, o Setor QNP e o Setor QNR.
Atualmente a população da Ceilândia vive em 11 setores, distribuídos em 91 quadras residenciais. Estas são intercaladas por áreas destinadas ao comércio local, igrejas e escolas, além de áreas especiais ocupadas por centros comunitários, terminais rodoviários, feiras locais, postos de gasolina, delegacias de polícia, Batalhões Militares, centros de saúde e outros serviços.
Ceilândia carrega, há muito, uma péssima imagem perante a opinião pública. A cidade é freqüentemente associada ao tráfico de drogas, a crimes violentos, a insegurança, a marginalidade. Na polícia, é visada como “área crítica”, mobilizando um esquema especial de segurança pública. É tida ainda como uma espécie de periferia da periferia pela contigüidade com Taguatinga, uma das mais antigas cidades-satélites de Brasília que, ao contrário de outras, abriga uma expressiva população de classe média5.
Ao andar pela Ceilândia, chama imediatamente a atenção o grande número de antenas de TV, a constante presença de jovens nas ruas, a enorme quantidade de igrejas evangélicas e de bicicletas em circulação, conduzidas também por jovens, principalmente do sexo masculino.
Os setores mais antigos contam com urbanização, tendo serviços regulares de água, luz e esgoto. As ruas são asfaltadas e as casas, de um a três andares, são construídas em alvenaria. Já nos setores mais novos, como as chamadas expansões, predominam os barracos de madeira e as ruas sem asfalto. Os serviços de água, luz e esgoto são precários, sendo marcante o emaranhado de fios na rede elétrica, testemunho das práticas do “gato” e da “gambiarra”6, muito difundidas nas áreas mais pobres das cidades brasileiras.
A maioria dos jovens com quem tive contato na Ceilândia nasceu, ou vive há muito tempo, na cidade. Ceilândia, como mencionado anteriormente, tem
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Com a valorização dos terrenos e o aumento de renda da população de Taguatinga, uma boa parte da população da Ceilândia daí provém.
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“Gato” e “gambiarra” são formas de obter energia elétrica de graça ou sem ter que efetuar contrato com a prestadora de serviço.
uma péssima imagem e os jovens tentam neutralizá-la por meio de discursos e práticas a partir dos quais é possível constatar o quanto investem afetivamente no local de origem. A gestão que fazem da má imagem do local apóia-se, principalmente, na experiência comunitária no seio do grupo de pares.
Na Ceilândia observa-se a forte presença de grupinhos de jovens nas ruas. Os espaços públicos são, para eles, locais de sociabilidade privilegiados. O encontro com amigos nas ruas, esquinas e praças, às vezes nos becos7, é uma prática habitual, dos que estudam e dos que não estudam.
A rua, da qual amplamente se apropriam, é fundamentalmente um espaço masculino e uma área cuja delimitação é importante para que os jovens sejam reconhecidos e legitimados entre seus iguais. Além disso, transitar no mundo da rua faz parte do processo de tornarem-se homens, de uma etapa da vida na qual se aprende e adquire-se o código masculino de sociabilidade.
A freqüentação de bares é parte desse aprendizado e os mesmos são importante ponto de encontro para os jovens de sexo masculino. Nos bares vendem-se bebidas alcoólicas e tira-gostos e, não raro, neles são encontradas mesas para jogo de baralho ou sinuca8. Ainda que mulheres não sejam vistas com bons olhos nesses ambientes, isso não significa que as meninas não os freqüentem. É o caso de Patrícia9, 23 anos, que, como outras jovens, costuma ir à bares e fazer uso de bebidas alcoólicas:
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Na época da pesquisa de campo, havia muitos becos na Ceilândia. Em alguns deles se notava a existência de aparelhos de ginástica. Estes becos acabaram sendo ocupados por casas construídas irregularmente por policias militares e bombeiros. Em 2004, tais casas foram demolidas pelo GDF, gerando polêmica entre a população. Alguns moradores eram a favor da permanência dos policiais e bombeiros, alegando razões de segurança; outros consideravam a ocupação irregular, um abuso de poder, pois a um civil não seria permitido essa invasão de área pública. Observa-se que os becos, antes de serem invadidos por policiais militares e bombeiros, não apenas eram apropriados pelos jovens nos aparelhos de ginástica, como também muito utilizados para consumirem drogas. Segundo alguns informantes, a polícia costumava revistar os jovens nos becos, procedimento quase sempre acompanhado de violência física (ver capítulo 7).
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Muito comum nas periferias são também os botequins, bem menos freqüentados pelos jovens, principalmente os menores de idade. Os bares e botequins se configuram em diferentes gêneros de “casa de bebidas” e cada um desempenha uma função específica. No entanto, como espaço social, têm em comum o fato de corresponderem simbolicamente ao mundo da “desordem”/rua, que pode ser contraposto ao mundo da “ordem”/casa. Para um maior entendimento do que esses espaços representam na sociedade urbana brasileira ver especialmente Silva (1978).
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Os nomes das pessoas citadas neste trabalho foram modificados com o objetivo de preservar
o anonimato e evitar que, por qualquer razão, alguém acabe sendo prejudicado. Mantive apelidos para os jovens, quando estes por eles eram chamados, porque esse é um aspecto
Eu saio todos os dias. Ando na dezesseis, ali é um centro, o centro do P-Sul, com certeza. As minhas amigas andam só na dezesseis [...]. Não vamos em nenhum lugar especial, ficamos no barzinho mesmo, as vezes nas esquinas[...]. Prefiro ficar num barzinho, beber.
Muitas vezes essas saídas terminam em afrontamentos entre as meninas. Patrícia se descreve como uma “desaforada” que sempre enfrentou as meninas “folgadas” e “que querem mandar no pedaço”. Por isso em inúmeras ocasiões se envolveu em brigas de rua:
Pra mulher é feio brigar na rua, pra homem é comum. Mas eu brigava e já tirei muitas meninas de brigas. Sozinha, já enfrentei vários e vários grupinhos [...]. Quando eu via uma menina folgada acabava provocando e tinha que agir. Eu podia levar um pau, mas eu não podia sair fora. Se fosse pra eu apanhar, tinha que apanhar mesmo, porque era eu que estava provocando.
Patrícia pertence a uma categoria de menina que os meninos classificam como “quase homens”, “de rocha” (forte), exatamente porque domina e se comporta de acordo com o código masculino de sociabilidade nas ruas. A Ceilândia estaria repleta de jovens do sexo feminino que fazem coisas até piores das que os homens fazem.
Na rua, Patrícia diz ter aprendido tudo o que considera de negativo, assim como também suas colegas teriam aprendido, como, por exemplo, beber, fumar, consumir drogas e “aprontar”:
Todas as minhas colegas têm a mesma história, não do mesmo jeito, mas parecidas. A base que a gente teve foi horrível. Cara, igual eu tava falando, as coisas que eu aprendi foi na rua, as coisas erradas do mundo. Só ganhei coisa ruim [...]. Aprendi a ser alcoólatra, a arrumar briga, a me drogar. Eu só aprendi coisa errada.
As ruas da Ceilândia, durante o dia, raramente são vistas inteiramente desertas. Elas comportam a dinâmica do movimento, própria dos modos de interagir do jovem do local. Os jovens circulam pelas quadras, conjuntos e praças diferenciados, dificilmente permanecendo muito tempo, como mais de uma hora, no mesmo lugar, a não ser quando estão, por exemplo, nos bares, bebendo. Esses constantes deslocamentos fizeram-me, inclusive, passar horas
relevante da forma como se inscrevem em seu mundo. O apelido, o “vulgo” ou “nome de rua” é, entre outras coisas, considerado uma proteção contra a polícia.
transitando de quadra em quadra na busca de informantes com quem marcara encontro. André, 24 anos, assaltante de banco declarado, fala de como os jovens da Ceilândia costumam se movimentar:
A gente se encontra só para rir um pouco. Ta acostumado a ir ali, a ver uns ali, conversar uma coisinha e outra só pra se divertir. Aí já muda dali e vai pra outro grupinho, ai chega lá e ri um pouco, dali já vai pra outro.
O trânsito entre os diferentes quadras e setores da Ceilândia é mais comum durante o dia. À noite, os limites do território por onde circulam são redimensionados e os jovens procuram restringir sua permanência às suas respectivas quadras ou ruas, evitando o perigo de encontros indesejáveis com desconhecidos armados ou situações de conflito provocadas pela invasão do “pedaço”10 alheio. Quando saem de sua área de pertencimento, o fazem cientes dos riscos de exposição à violência, potencializada pelo uso difundido das armas de fogo (ver capítulo 5).
A bicicleta aparece como importante, na medida em que facilita a mobilidade. São consideradas “aviões”11 e, por darem mobilidade rápida, constituem num bem bastante valorizado – “Bicicleta na mão vale ouro”, enfatiza Isac, 19 anos, líder de uma gangue de pichadores. E prossegue: “Bicicleta aqui é nosso transporte. Quando boto a bicicleta na mão, ‘êta’, rola demais. E rola pra mais de hora”.
São freqüentemente roubadas, trocadas por roupas, relógios, aparelhos de som e outros bens, vendidas e emprestadas. Costuma-se também “fumar bicicletas”, isto é, transformá-las em maconha numa barganha. Trocar uma bicicleta alheia por droga aparentemente não é motivo de conflito, evidentemente se é um “chegado” (amigo próximo) que o faz. As contas são acertadas nas ocasiões certas, tudo funcionando na base da troca. A bicicleta é também, na percepção da polícia, um dos signos distintivos do “jovem marginal”, sempre em sua mira.
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A noção de “pedaço” foi elaborada por Magnani (1998) para se referir a um território que funciona como um ponto de referência na vida de um bairro onde se desenvolve uma sociabilidade básica, com relações sociais mais amplas que as fundadas nos laços familiares e menos formais e individualizadas que as impostas pela sociedade. Em outras palavras, o “pedaço” seria um espaço intermediário entre o privado (casa) e o público.
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Chamo a atenção para o duplo sentido do termo. “Avião” tanto se refere à rapidez quanto à pessoa que transporta e passa droga.
Circular, de bicicleta ou não, faz parte da “caça do que fazer”, expressão bastante corrente entre os jovens12. De modo geral dizem que, na falta de opção de lazer13, divertimento ou trabalho, “caçam”, “inventam”, deixando a rotina fluir por conta dos acasos: “Saio com os amigos que aparecem”; “Fico rodando pra ver o que rola”.
Os jovens se movimentam na procura por atividades com fim em si mesmo, aquelas que, como assinala Goffman (1974a) não têm conseqüências e não são problemáticas – nada de importante se passa ou nada que seja absolutamente imprevisível14 –, mas também circulam na busca da “ação”. E onde a “ação” se encontra existe risco a correr15. Brigar, pichar, “fazer uma fita”, “um ganho”, ou seja, assaltar e roubar, consumir álcool em excesso e drogas são práticas que configuram tipos de ação que exercem forte atração sobre alguns. Nessas atividades, os jovens geralmente experimentam grande excitação –
“sobe a adrenalina”, como dizem – produzida pela exposição ao risco e pela incerteza quanto ao que pode ocorrer nos instantes seguintes. Nelas também sempre colocam a integridade do corpo em perigo16 (ver capítulo 5).
Ir à escola, para alguns, encontrar a turminha, os “chegados”, sair com amigos para se divertir, beber, dar uma voltinha de bicicleta, namorar, jogar futebol, tomar “uma cervejinha” na feira, ir às festas na vizinhança ou na casa de parentes, “curtir um som”, ir à bailes e shows, quando se tem dinheiro ou quando são gratuitos, à alguma quermesse, ao trio elétrico, quando há17, fazem parte
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“Caçar” é um verbo utilizado principalmente no nordeste brasileiro como substituto do verbo “procurar”. Observa-se que, por influência dos pais, a maior parte migrantes do nordeste do País, os jovens incorporam muitas palavras e expressões típicas daquela região.
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Chamo a atenção para o fato de alguns informantes terem se referido ao “lazer” como atividades culturais, sobretudo ligadas à música, e a eventos poli-esportivos, como torneios de futebol e vôlei que, na década de 1980, eram realizados com freqüência na cidade, principalmente nos finais de semana.
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Essas atividades se assemelham àquelas que empreendemos quando queremos “matar o tempo” livre. Mas, diferentemente do tempo livre que um trabalhador “mata”, justificado como um descanso merecido das obrigações passadas ou de outras iminentes, o tempo livre do jovem não se opõe ao tempo ocupado e seu mundo sério de trabalho.
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Nas palavras de Goffman, “a ação se encontra onde quer que o indivíduo aceite com conhecimento de causa riscos importantes e aparentemente evitáveis” (Goffman, op.cit: 158).
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Na realidade, o indivíduo sempre coloca o corpo em as suas atividades e, por mais cuidadoso que seja, a integridade dele, em certa medida, está sempre em perigo. Contudo, os riscos de danos são maiores em determinadas atividades que em outras. Ver Goffman, op.cit.
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Os trios elétricos são contratados pelo governo quando se quer dar destaque a uma data ou a um evento especial. Em tempos de campanha eleitoral, os candidatos costumam utilizá-los nos seus “showmícios”, promovidos quase que diariamente.
da rotina. Alguns jovens costumam freqüentar, principalmente no final de semana, as boates e bares de Taguatinga, cidade que, segundo eles, oferece mais opções de “diversão” e “animação” que a Ceilândia. Sair para “bagunçar”, “fazer barulho”, é também prática habitual de alguns. Em certos casos, fumar maconha
é uma rotina importante na convivência diária com outros jovens:
Tem a rotina que é fumar maconha o dia inteiro; o dia inteiro; não sei como nós consegue. [...] Fumar maconha o dia inteiro, curtir. Ficar na esquina se intoxicando, várias pessoas. Ficar lá se fazendo a mente, ir para casa comer e dormir e ficar na manha. Porque baile funk18 ninguém mais está curtindo. Também não tem dinheiro, ninguém está trabalhando.
Isac, autor dessa fala, líder de uma famosa gangue de pichadores da Ceilândia, parou de estudar aos 18 anos, quando estava na 6a série e morava com a família próxima à praça onde costumamos marcar nossos encontros. Sempre dizia que era da rua, que parecia que não tinha casa. Ali, naquela praça da (quadra) 26 do Setor P-Sul19, fazia seu principal ponto de referência. Não somente ele o fazia, como também outros jovens. Observei, em várias ocasiões, que era na praça onde se tinha notícia de tudo e todos. O passante de bicicleta parava, cumprimentava, ficava ali um pouquinho. O passante de carro parava, perguntava por ‘fulano’, ficava um pouquinho.
As praças, com as quadras esportivas a elas incorporadas, reproduzem- se no tecido urbano do Setor P-Sul, marcado por uma extrema homogeneidade que também caracteriza os outros setores da cidade20. As praças são locais
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Atualmente em Brasília, “baile funk” é usado como sinônimo de baile Rap. Antes do Rap se instaurar como estilo musical preferido dos jovens da periferia da cidade, houve uma onda Funk e, por isso, os termos são usados correlatamente, muito embora a presença Funk não tenha mais expressão no meio jovem de Brasília, ao contrário do que ocorre, por exemplo, no Rio de Janeiro.
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O P-Sul, Setor onde concentrei grande parte do trabalho de campo realizado na rua, é uma das áreas urbanizadas da cidade e, à exceção de suas quadras de expansão, as ruas são todas asfaltadas. Algumas casas chegam a ter três andares, mas a maioria mantém o padrão original de apenas um pavimento. Em muitas de suas garagens há carros estacionados. É comum montar estabelecimentos comerciais nas próprias residências, onde funcionam salões de beleza, barbearias, bares, sorveterias, butiques de roupas, oficinas, por exemplo.
20
As concepções urbanística e arquitetônica da cidade, bastante polemizadas por planejadores urbanos, nunca chegaram a ser mencionadas pelos jovens. A extrema homogeneidade do tecido urbano, que no meio especializado é tido até mesmo como uma “anomia”, transformou- se para os nativos em paisagem natural, como ilustra a fala de Patrícia, quando lhe perguntei onde ficava um determinado barzinho numa outra quadra: “Fica aqui em cima. Lá é como aqui, entende? Aqui tem a padaria, aqui tem um bar. É como se fosse aqui, porque todos esses lados aqui são iguais. Tipo assim: lá também tem o colégio, do lado tem a quadra”.
comunitários e, no caso da “praça da 26”, onde encontrava Isac, existiam até mesmo hortas cultivadas por moradores da vizinhança. Na sua visão, a sua praça era um espaço largado, bastante degradado. Os equipamentos esportivos, de fato, estavam todos em péssimo estado. Ambientes como esse, segundo ele, estimula o jovem a não fazer nada e a falta do que fazer leva-o a fumar maconha o dia inteiro, a ficar pensando bobagens. Esta seria a razão para a existência de tanta violência envolvendo jovens na cidade: “mente parada, oficina do Diabo”, diz Isac, evocando um ditado por várias vezes repetido por diferentes informantes durante o trabalho de campo.
Cabe chamar a atenção para a natureza ambígua e, em certa medida, conservadora, com a qual muitos jovens, como Isac, operam a idéia de sociabilidade: esta é percebida como uma constante procura pela ação, pelo risco, pela adrenalina, uma busca que, ao mesmo tempo, também pode ser vista como uma expressão de anti-sociabilidade, como um impulso acionado pelo poder anti-social do mal, encarnado na figura comumente citada do Diabo.
A percepção que Isac tem da Ceilândia é compartilhada pela maioria dos jovens que entrevistei. Trata-se de uma visão extremamente ambivalente. Ao mesmo tempo em que a cidade é qualificada como violenta, perigosa, cheia de malandros, bandidos, assassinos, traficantes, drogados e marginais, alguns setores, como o seu, como “caldeirão do Diabo”21, essa má imagem é manifestamente recusada ou negada:
Falam que Ceilândia é um lugar perigoso, que tem muito malandro. Não tem nada a ver.
A gente está vivendo no mundo, não é só Ceilândia, a gente vive num mundo onde existe violência por toda a parte.
Profundamente enraizados no lugar onde passaram o essencial de sua existência, no curso de nossas conversas sempre acabavam refutando sua imagem negativa. Apoiados na exacerbação do sentimento de enraizamento
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Interessa notar que o modo como os jovens referem-se ao Setor P-Sul e à Ceilândia traduz vínculos identitários distintos. Todos se dizem moradores da Ceilândia, mas costumam também falar do Setor P-Sul como se não fizesse parte da Ceilândia. Quando dizem “vou à Ceilândia” ou “lá na Ceilândia” estão se referindo ao centro da cidade. Paralelos podem ser feitos com outras situações encontradas no Brasil afora. Um morador de Vitória da Conquista, no Estado da Bahia, por exemplo, quando vai à capital, Salvador, costuma dizer que está indo à Bahia.
local – “Eu tenho orgulho de morar na Ceilândia. E tem mais. Mesmo se tivesse condições eu não sairia daqui” – e na valorização das bases na qual se estabelecem as relações interpessoais, diz André22:
O pessoal aqui é humilde, o pessoal trata bem. Se você for pedir lá no Plano um copo d’água, ninguém vai te dar. Aqui tem companheirismo e todo mundo se conhece [...]. Os vizinhos são tudo quase irmão.
Em seu estudo sobre a moral dos pobres, realizado num bairro da