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XXXI Remissão Adiada

No documento Editor Cassiano Calegari. Capa Bolivar Escobar (páginas 137-141)

XXXI

Remissão Adiada

A

lmoços em família deveriam ser tradição na casa dos Hemms desde que as incontáveis cerimônias de união entre o casal mais belo da cidade foram concluídas. Da brasa em degradê do laranja ao vermelho emergia o calor equiparado ao gerado diante do sexo animal que Mark e Ally mantinham nas quatro vezes diárias agendadas para todo o sempre.

A carne assando trazia à tona a remissão de pecados. O casamento entre os irmãos somente seria aceito por completo no momento em que o erro cometido fosse exterminado. Ambos sabiam que seriam capazes de reagir às contestações familiares de maneira mais inteligente do que jogar aos ares discussões incessantes sobre as liberdades de relaciona- mento entre casais e com o divino. Assim, a calma sempre pairava entre eles, mesmo ouvindo diversas expressões com tentativas, então, frustra- das de abalá-los. Eis o verdadeiro significado do amor.

A ocorrência de gravidez indesejada é algo comum na sociedade como um todo. Resulta de impulsos e de hormônios à flor da pele, que podem traduzir um simples olhar em desejo incontrolável de consumo sexual. A inevitável sensação da busca pelo carnal não foi diferente para Mark e Ally, assim como a aparição de seu filho.

No quarto da dispensa, os dois irmãos consumiam-se intensamente todos os dias há meses. Um dia iria acontecer. Entre as entradas e saídas de Mark e os suspiros e gemidos de Ally, a porta de madeira abriu como num soco, levando o rangido agudo aos ouvidos de todos os que esta-

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vam próximos. “Não deveríamos deixar de cuidar o relógio.” Os pais haviam flagrado os filhos suados no quarto minúsculo e com cheiro de mofo.

O castigo perante o divino variou de tapas nos rostos dos envolvi- dos com o desrespeito ao divino até cortes causados pela vara de couro, que Mark poderia jurar que deixara marcas e ardências em seu cor- po por completo, até mesmo em seu pênis. Ao menos não foi cortado. Ally chorava diariamente sabendo que sua vagina costurada jamais seria a mesma. Mas algo de sagrado estava por mostrar que apesar da ousadia, seus atos tiveram a luz de um sentido maior. Sete meses e alguns dias foram o suficiente para Brann nascer torto. Os irmãos de quinze e de- zesseis anos se tornaram pais.

Um bebê tão feio que fazia com que os olhos que o enxergassem se acirrassem. Ninguém seria capaz de amá-lo por seu visual a não ser os próprios pais. Para os avós, a pequena criatura era a representação material do castigo divino. Ainda assim, foi motivo suficiente para que a fase responsável da vida iniciasse também prematura para os irmãos.

Apesar das situações passadas consideradas por muitos como drás- ticas, Mark, Ally e Brann compactuavam de uma convivência amorosa e respeitosa em seu novo lar. Jamais ocorreriam traições e invasões de espaços que não combinadas. A invasão do irmão nas cavidades da irmã eram, inclusive, solicitadas além do pacto religioso. Mesmo com tantas vezes ao dia, a vontade não era diminuída por nada. Era estranho, pois sempre ouviram o contrário do mundo. União de casais acabava por reduzir o número de relações sexuais. Balela dos desinteressados.

Como todo bom Hemms, o almoço em família estava sendo pre- parado. Porém, desta vez o toque era especial. Havia chegado o ponto em que a remissão do pecado seria concedida pelo divino. Mark e Ally estavam preparados para isso, com a tranquilidade de que poderiam se- guir como sempre suas rotinas, seus desejos, suas preces. A carne estava no fogo. A refeição seria um marco importante para os três.

Enquanto a música calma soava ao fundo, as conversas e risadas fluíam em perfeita harmonia. Como são agradáveis estes momentos unidos! Os olhos do casal brilhavam de certeza. Os olhos de Brann já não se viam muito bem, mas era algo esperado. Alguns murmúrios ainda ressoavam devagarzinho pelo ar.

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A calmaria se esvaiu quando Mark acabou por derrubar a grelha junto aos carvões e lenhas em chamas no momento em que a reposicio- nava na churrasqueira. Merda! Seu filho agora queimava diretamente no fogo, antes mesmo de deixar a vida. Os temperos seriam tostados. A carne suja perdia a cada segundo o ponto perfeito para ser servida com a salada especial que Ally preparava.

O pai decepcionava-se consigo mesmo a cada choro que ouvia de Brann, que já não tinha mais a boca colada, pois a cola usada não havia secado por completo e agora escorria em sua gengiva sensível. Gritos desesperados do bebê ecoavam estridentes. Ally só observava de olhos arregalados e muda, incrédula, a tentativa frustrada do irmão salvar a alimentação do dia e o ritual em conjunto. Não pode ser. A carne passaria do ponto em sua parte externa, enquanto crua por dentro.

O casal-irmão se abraçava vendo a carne queimar por completo, torto como sempre fora. A redução de pecados desta vida deveria ser compensada de alguma forma. Um dos olhos de Brann estava com uma pequena pedra de carvão acesa cravada, trazendo ao bebê de colo uma dor provavelmente suportável apenas para os demônios do contra-divi- no. Ele queimava no fundo da churrasqueira após a desistência de seu pai sobre salvar a refeição. Em breve as ardências encerrariam junto com a falência de órgãos e deterioração do pequeno corpo em gritos.

O silêncio fora inevitável. Porém, a cumplicidade dos irmãos ja- mais deveria ser abandonada. Tudo ficaria bem. Um abraço forte segui- do de um sexo incansável selava a sinceridade e respeito entre os dois. Em nove meses ou menos haveria outro almoço especial para o divino. O amor tem o poder de vencer qualquer desafio.

No documento Editor Cassiano Calegari. Capa Bolivar Escobar (páginas 137-141)