Primeiramente, é necessário compreender o conceito da penhora. Para Liebman, a penhora foi definida como “o ato pelo qual o órgão judiciário submete a seu poder imediato determina- dos bens do executado, fixando sobre eles a destinação de servirem à satisfação do direito do exequente” (LIEBMAN, 1946, p. 95).
No mesmo sentido é o entendimento do Jurista Marcelo Abelha Rodrigues, que conceituou a penhora da seguinte forma:
Por intermédio da “responsabilidade patrimonial”, o devedor ou o responsá- vel pela dívida assume que, caso ocorra o inadimplemento, seu patrimônio estará sujeito à atuação estatal, que poderá dali retirar o valor necessário para pagamento do que for devido. A reponsabilidade patrimonial coloca, de um lado, o credor na posição jurídica de titular de um direito potestativo à expro- priação de bens do responsável e, de outro lado, o devedor/responsável na posição jurídica de sujeição àquele direito correspondente. O Estado-juiz é quem detém o monopólio da coerção e coação que autoriza efetivar o referido direito potestativo. Assim, havendo um crédito reconhecido como tal (judicial ou extrajudicial) e mantida a situação de inadimplemento do devedor ou do responsável, restará ao credor a busca da tutela executiva, mediante a qual o Estado disponibilizará técnicas executivas contra o executado com a finali- dade de satisfazer o crédito. (...) Assim, tem-se que a penhora é um ato exe-
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cutivo instrumental (preparatório) da execução por expropriação, e, por meio dela, apreende(m)-se bem(ns) do executado, com ou contra a sua vontade, conservando-os afetados à execução para a expropriação final que irá satis- fazer o crédito exequendo. A penhora é, na execução por expropriação, o ato executivo que torna concreta a responsabilidade executiva, na medida em que individualiza o(s) bem(ns) que será(ão) expropriado(s) para a satisfação do crédito. (ABELHA, 2016, p. 310).
No Código de Processo Civil de 2015, a forma de satisfação de créditos foi regrada, tendo sido estipulado em seu texto que: “Art. 904. A satisfação do crédito exequendo far-se-á: I - pela entrega do dinheiro; II - pela adjudicação dos bens penhorados” (BRASIL, 2015).
Nesse sentido, conclui-se que a partir do principal pilar do processo de execução, que consiste no direito do credor de satisfazer o seu crédito e na necessidade do devedor de pagar aquilo que é cabido, incide a atividade jurisdicional executiva, que se delimita em atingir par- cialmente o patrimônio do devedor, delimitando quais bens serão alienados, de forma a satisfa- zer a execução (THEODORO JÚNIOR, 2017, p. 226).
Coaduna com o entendimento do Jurista Humberto Theodoro Júnior o posicionamento da maior parte da doutrina, que entende que a natureza jurídica da penhora consiste em ato jurídico executivo, a ser realizado direta ou indiretamente, sendo que o bem penhorado será apreendido e a obrigação patrimonial do devedor recairá sobre este.
Porém, esse entendimento é parcial, sendo que a penhora também é compreendida como ato de natureza cautelar, e que a partir desta concepção, consiste tão somente no ato inicial de expropriação ou garantia do juízo. Por outro lado, a terceira parte da doutrina entende que o ato possui natureza mista, cautelar e executória.
A penhora direta de patrimônio ocorre quando o pagamento que é transferido ao credor consiste em pecúnia, enquanto a indireta consiste essencialmente no ato de converter bem material em dinheiro para que este resolva a dívida e passe a incidir no patrimônio do credor, sendo tal instituto primordialmente utilizado em caso de insolvência, via de regra quando existe um processo judicial (FERRARI NETO, 2017).
Entende-se no presente trabalho, que a penhora quando analisada sob prisma geral, pos- sui natureza executiva, principalmente quando ocorre em sua modalidade direta, em que o devedor irá necessariamente ficar sem a posse do seu patrimônio, a partir da indisponibilidade deste decorrente do ato jurídico.
Atualmente, a eficácia e efetividade da penhora ocorre via de regra por meio da atuação do próprio magistrado no processo de execução.
Todos os bens que a lei não veda expressamente acerca da possibilidade de penhora estão sujeitos ao instituto, sendo que estes são aqueles encontrados pelo credor quando se parte em busca de patrimônio para satisfação da dívida executada.
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2.1 ANÁLISE DA IMPENHORABILIDADE DE BENS
Nem todos os bens estão sujeitos à penhora, conforme restrições estipuladas pelo legis- lador pátrio no Código de Processo Civil. Necessária se faz a transcrição daqueles bens deter- minados como impenhoráveis:
Art. 833. São impenhoráveis: I - os bens inalienáveis e os declarados, por ato voluntário, não sujeitos à execução; II - os móveis, os pertences e as utilidades domésticas que guarnecem a residência do executado, salvo os de elevado valor ou os que ultrapassem as necessidades comuns correspondentes a um médio padrão de vida; III - os vestuários, bem como os pertences de uso pes- soal do executado, salvo se de elevado valor; IV - os vencimentos, os subsí- dios, os soldos, os salários, as remunerações, os proventos de aposentadoria, as pensões, os pecúlios e os montepios, bem como as quantias recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e de sua família, os ganhos de trabalhador autônomo e os honorários de profissional liberal, ressalvado o § 2º ; V - os livros, as máquinas, as ferramentas, os utensílios, os instrumentos ou outros bens móveis necessários ou úteis ao exercício da profissão do executado; VI - o seguro de vida; VII - os materiais necessários para obras em andamento, salvo se essas forem penhoradas; VIII - a pequena propriedade rural, assim definida em lei, desde que trabalhada pela família; IX - os recursos públicos recebidos por instituições privadas para aplicação com- pulsória em educação, saúde ou assistência social; X - a quantia depositada em caderneta de poupança, até o limite de 40 (quarenta) salários-mínimos;
XI - os recursos públicos do fundo partidário recebidos por partido político, nos termos da lei; XII - os créditos oriundos de alienação de unidades imobili- árias, sob regime de incorporação imobiliária, vinculados à execução da obra.
§ 1º A impenhorabilidade não é oponível à execução de dívida relativa ao pró- prio bem, inclusive àquela contraída para sua aquisição. § 2º O disposto nos incisos IV e X do caput não se aplica à hipótese de penhora para pagamento de prestação alimentícia, independentemente de sua origem, bem como às importâncias excedentes a 50 (cinquenta) salários-mínimos mensais, devendo a constrição observar o disposto no art. 528, § 8º , e no art. 529, § 3º . § 3º Incluem-se na impenhorabilidade prevista no inciso V do caput os equipamen- tos, os implementos e as máquinas agrícolas pertencentes a pessoa física ou a empresa individual produtora rural, exceto quando tais bens tenham sido objeto de financiamento e estejam vinculados em garantia a negócio jurídico ou quando respondam por dívida de natureza alimentar, trabalhista ou previ- denciária. (BRASIL, 2015).
Sendo assim, nem mesmo se fosse sua vontade, o devedor poderia responder com todo o seu patrimônio para solver suas dívidas, sendo que, para cada objeto restringido pelo legisla- dor, existe uma razão plausível que justifique a proteção. Fora os bens expressamente classifi- cados como impenhoráveis, no processo de execução é permitido a penhora dos demais.
2.2.1 Da impenhorabilidade salarial
O Código de Processo Civil de 2015 é de clareza singular ao prever que “A penhora deverá recair sobre tantos bens quantos bastem para o pagamento do principal atualizado, dos juros, das custas e dos honorários advocatícios” (art. 831/CPC), ressalvando-se, entretanto, expres-
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samente, que “Não estão sujeitos à execução os bens que a lei considera impenhoráveis ou inalienáveis” (art. 832/CPC).
Em que pese a retirada da palavra “absolutamente” advinda da alteração do CPC/73, o art.
833, IV, do CPC/15 estabelece de forma clara e singular que são impenhoráveis:
(...) os vencimentos, os subsídios, os soldos, os salários, as remunerações, os proventos de aposentadoria, as pensões, os pecúlios e os montepios, bem como as quantias recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas ao sus- tento do devedor e de sua família, os ganhos de trabalhador autônomo e os honorários de profissional liberal, ressalvado o § 2º. (BRASIL, 2015).
Observe-se que a única ressalva feita pelo texto legal, quanto a possibilidade de penhora de que trata o inciso IV do art. 833, foi colocada no § 2º, in verbis:
O disposto nos incisos IV e X do caput não se aplica à hipótese de penhora para pagamento de prestação alimentícia, independentemente de sua origem, bem como às importâncias excedentes a 50 (cinquenta) salários-mínimos mensais, devendo a constrição observar o disposto no art. 528, § 8º , e no art.
529, § 3º. (BRASIL, 2015).
Ou seja, está claro que o legislador brasileiro não permitiu a penhora do salário, a não ser para o pagamento de pensão alimentícia ou, em qualquer execução, do que superar o equiva- lente a 50 (cinquenta) salários mínimos mensais.
Não sendo esse o caso, a interpretação que se dá é que a impenhorabilidade do salário é absoluta, não podendo ser mitigada.
É relevante observar que todos os casos de ressalvas à regra da impenhorabilidade absoluta foram feitas expressamente pelo legislador, como é o caso, por exemplo, da regra de impenhorabilidade dos incisos II e III do mesmo art. 833/CPC, quando preveem que a impe- nhorabilidade não atinge, respectivamente, os móveis, os pertences e as utilidades domésticas que guarnecem a residência do executado, quando de “elevado valor ou os que ultrapassem as necessidades comuns correspondentes a um médio padrão de vida” e dos vestuários e demais pertences de uso pessoal do devedor, quando “de elevado valor” (BRASIL, 2015).
Sendo assim, infere-se que a lei não contém palavra ou frase inútil, supérflua ou sem efeito.
Todas as palavras contidas na lei são lei, e todas têm força obrigatória.
O intérprete da lei não pode se esquecer de nenhum conteúdo da norma legal, ignorando ou mitigando a sua aplicação, como se não tivesse nenhum significado ou importância. Até por isso, advertiu Carlos Maximiliano de que “devem-se compreender as palavras (da lei) como tendo alguma eficácia” (MAXIMILIANO, 1993, p. 250).