COMPROMISSÓRIA ARBITRAL “O EMPREGADO HIPERSUFICIENTE”
3.3 A (IN)CONSTITUCIONALIDADE DO ARTIGO 507-A DA CLT
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Em lado contrário estão os argumentos de que é possível a aplicação da arbitragem nos contratos individuais, que se contrapõem a todos aqueles que entendem pela inviabilidade da arbitragem, posicionamento que existia bem antes da discussão referente ao artigo introduzido pela Reforma Trabalhista:
ARBITRAGEM. APLICABILIDADE AO DIREITO INDIVIDUAL DE TRABALHO.
Até a promulgação da Lei 13.467/2017, os litígios decorrentes dos contra- tos de trabalho não poderiam ser submetidos ao juízo arbitral, mesmo com a expressa anuência de empregado e empregador, tendo em vista o caráter indisponível dos direitos trabalhistas. Porém, a partir da inclusão do art. 507-A na Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, em 11/11/2017, essa diretriz foi alterada, tendo em vista a expressa permissão contida no referido dispositivo legal, assim redigida: “Nos contratos individuais de trabalho cuja remuneração seja superior a duas vezes o limite máximo estabelecido para os benefícios do Regime Geral de Previdência Social, poderá ser pactuada cláusula compro- missória de arbitragem, desde que por iniciativa do empregado ou mediante a sua concordância expressa, nos termos previstos na Lei no 9.307, de 23 de setembro de 1996.” (g. n.). Portanto, firmado instrumento contendo a cláusula compromissória após a entrada em vigor do referido art. 507-A/CLT, quais- quer litígios, controvérsias ou reivindicações decorrentes, dentre outros, da validade, da interpretação, do cumprimento deste instrumento, do Contrato de Trabalho e/ou de quaisquer relações jurídicas associadas aos mesmos, serão dirimidos por meio de procedimento perante o juízo arbitral livre e previamente eleito pelas partes contratantes. (BRASIL, 2020b).
Mas necessário destacar, que mesmo aqueles que defendem a aplicação da arbitragem no âmbito dos contratos individuais de trabalho, ressaltam que a utilização da Lei n° 9.307/96, deve ser realizada com cautela em virtude da posição vulnerável em que se apresenta o empre- gado em relação ao seu empregador (CARNEIRO , 1997, p. 77).
Nessa situação, verifica-se que o legislador, ignorando o caráter alimentar e indisponíveis das verbas trabalhistas, criou a possibilidade dos trabalhadores que percebam mais que o teto fixado no artigo 507-A da CLT, pactuarem cláusula compromissória arbitral, indo, inclusive, con- tra a previsão contida na própria Lei de Arbitragem.
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Nesse sentindo, é o que dispõe Homero Batista Silva “O Art. 507-A inibe o acesso ao Judi- ciário estipulando arbitragem para empregados com rendimento superior a cerca de 11.000 reais mensais, em afronto ao art. 5°, XXXV” (SILVA, 2017, p. 207).
Quanto ao tema, conforme dispõe José Afonso da Silva, a Constituição da República Fede- rativa do Brasil promulgada em 05 de outubro de 1988, gerou avanços e profundas mudanças no ordenamento jurídico brasileiro e constitui a lei de maior importância jurídica no país na atualidade, vez que suas normas e princípios se irradiam por todos os ramos do direito, e a inobservância de seus preceitos na aplicação das normas constitui violação ao texto constitu- cional (SILVA, 2012, p. 90-92).
Isso significar dizer que a lei infraconstitucional, no caso, a norma celetista, deverá ser regulamentada observando as normas e princípios previstos na Constituição da República, sob pena de violação aos preceitos ali contidos, principalmente sobre a vedação quanto a inafasta- bilidade do Poder Judiciário, previsto no artigo 5°, inciso XXXV, da CR/889.
O livre acesso à justiça também tem previsão na Convenção Interamericana sobre Direitos Humanos de São José da Costa Rica, da qual o Brasil é signatário, saliente, em seu artigo 8°:
Art. 8° Toda pessoa tem direito de ser ouvida, com as garantias e dentro de um prazo razoável, por um juiz ou tribunal competente, independente e imparcial, estabelecido anteriormente por lei, na apuração de qualquer acusação penal contra ela, ou para que se determinem seus direitos ou obrigações de natureza civil, trabalhista, fiscal ou de qualquer natureza. (CIDH, 1969).
Igualmente, o Código de Processo Civil em seu artigo 3°10 aderiu à redação prevista no artigo 5°, inciso XXXV, da CR/88, o que demonstra que as leis infraconstitucionais devem seguir o entendimento adotado na Constituição da República.
Em sua dissertação de mestrado apresentada à Universidade Católica de Pernambuco, Patrícia Cavalcanti Furtado Candido Carneiro afirma que:
O princípio da inafastabilidade da jurisdição é muito claro ao proclamar que a lei não poderá excluir do judiciário, lesão ou ameaça de direito. É de total importância seu pronunciamento diante das relações contratuais trabalhistas em que se evidencia uma franca diferença nas condições negociais entre as partes contratantes. (CANDIDO CARNEIRO, 2013, p. 29).
No entanto, apesar das considerações acima, o Supremo Tribunal Federal (STF) já superou o tema referente à constitucionalidade da cláusula compromissória arbitral, conforme se extrai do Agravo Regimental n° 10.392
EMENTA: 1.Sentença estrangeira: laudo arbitral que dirimiu conflito entre duas sociedades comerciais sobre direitos inquestionavelmente disponíveis - a exis- tência e o montante de créditos a título de comissão por representação comer- cial de empresa brasileira no exterior: compromisso firmado pela requerida que, neste processo, presta anuência ao pedido de homologação: ausência
9 "Art. 5° Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguin- tes: [...] XXXV - a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito.” (BRASIL, 1988).
10 "Art. 3o Não se excluirá da apreciação jurisdicional ameaça ou lesão a direito.” (BRASIL, 2015).
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de chancela, na origem, de autoridade judiciária ou órgão público equivalente:
homologação negada pelo Presidente do STF, nos termos da jurisprudência da Corte, então dominante: agravo regimental a que se dá provimento, por una- nimidade, tendo em vista a edição posterior da L. 9.307, de 23.9.96, que dispõe sobre a arbitragem, para que, homologado o laudo, valha no Brasil como título executivo judicial.
2. Laudo arbitral: homologação: Lei da Arbitragem: controle incidental de constitucionalidade e o papel do STF. A constitucionalidade da primeira das inovações da Lei da Arbitragem - a possibilidade de execução específica de compromisso arbitral - não constitui, na espécie, questão prejudicial da homologação do laudo estrangeiro; a essa interessa apenas, como premissa, a extinção, no direito interno, da homologação judicial do laudo (arts. 18 e 31), e sua conseqüente dispensa, na origem, como requisito de reconhecimento, no Brasil, de sentença arbitral estrangeira (art. 35). A completa assimilação, no direito interno, da decisão arbitral à decisão judicial, pela nova Lei de Arbitra- gem, já bastaria, a rigor, para autorizar a homologação, no Brasil, do laudo arbi- tral estrangeiro, independentemente de sua prévia homologação pela Justiça do país de origem. Ainda que não seja essencial à solução do caso concreto, não pode o Tribunal - dado o seu papel de “guarda da Constituição” - se furtar a enfrentar o problema de constitucionalidade suscitado incidentemente (v.g.
MS 20.505, Néri).
3. Lei de Arbitragem (L. 9.307/96): constitucionalidade, em tese, do juízo arbi- tral; discussão incidental da constitucionalidade de vários dos tópicos da nova lei, especialmente acerca da compatibilidade, ou não, entre a execução judicial específica para a solução de futuros conflitos da cláusula compromissória e a garantia constitucional da universalidade da jurisdição do Poder Judiciário (CF, art. 5°, V). Constitucionalidade declarada pelo plenário, considerando o Tribu- nal, por maioria de votos, que a manifestação de vontade da parte na cláusula compromissória, quando da celebração do contrato, e a permissão legal dada ao juiz para que substitua a vontade da parte recalcitrante em firmar o compro- misso não ofendem o artigo 5°, V, da CF.
Votos vencidos, em parte - incluído o do relator - que entendiam inconstitu- cionais a cláusula compromissória - dada a indeterminação de seu objeto - e a possibilidade de a outra parte, havendo resistência quanto à instituição da arbitragem, recorrer ao Poder Judiciário para compelir a parte recalcitrante a firmar o compromisso, e, consequentemente, declaravam a inconstitucionali- dade de dispositivos da Lei 9.307/96 (art. 6°, parág. único; 7° e seus parágrafos e, no art. 41, das novas redações atribuídas ao art. 267, VII e art. 301, inciso IX do C. Pr. Civil; e art. 42), por violação da garantia da universalidade da juris- dição do Poder Judiciário. Constitucionalidade - aí por decisão unânime, dos dispositivos da Lei de Arbitragem que prescrevem a irrecorribilidade (art. 18) e os efeitos de decisão judiciária da sentença arbitral (art. 31). (BRASIL , 2011).
Assim, evidente que a discussão sobre a constitucionalidade da arbitragem está superada pelo pleno do STF que, ao decidir a homologação da sentença estrangeira, entendeu que a arbitragem é constitucional, passível de ser aplicada no Direito do Trabalho.
Mas apesar do procedimento arbitral ser declarado constitucional, tal instituto nos con- tratos individuais trabalhistas é inviável, pois o empregado não fará por livre iniciativa, como estipula o artigo 507-A da CLT, mas por necessidade, visto que é a parte vulnerável e hipossu- ficiente na relação empregatícia, conforme exposto neste trabalho.
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Caso o empregado se negue a concordar com a imposição da cláusula compromissória, quando de sua admissão, o empregador não o contratará, preferindo alguém que atenda à submissão da cláusula. Assim, se não é de todo um impedimento ou mesmo um obstáculo ao acesso à justiça, é uma maneira de empregador poder cercear o direito do empregador de dis- cutir direitos perante à Justiça do Trabalho.
4 CONCLUSÃO
Por todo o exposto, conclui-se que o instituto da arbitragem é um procedimento célere e dinâmico e, em virtude de tais características, foi introduzido pelo artigo 507-A da CLT na seara trabalhista, mediante o advento da Lei n° 13.467 de 2017.
O legislador acrescentou a possibilidade do procedimento arbitral nas controvérsias tra- balhistas, com o objetivo de diminuir o número de demandas ajuizadas no Judiciário. Mas o requisito previsto no artigo, restringindo apenas aos empregados com uma remuneração dife- renciada, atualmente equivalente a R$12.867,14 (doze mil oitocentos e sessenta e sete reais e quatorze centavos), possibilita apenas uma parcela ínfima dos trabalhadores de convencionar a cláusula compromissória, o que por si só, não gera resultados eficientes.
Ademais, a norma trouxe a figura do empregado hiperssuficiente, correspondente ao tra- balhador cuja remuneração seja o dobro do limite máximo dos benefícios previdenciários e que possui diploma de ensino superior. Nestes casos, o legislador pressupôs a relação paritária entre empregado e empregador, o que é inviável, haja vista, a natureza jurídica de adesão dos contratos de trabalho.
Em outras palavras, o fato do empregado receber uma remuneração elevada em compara- tivo com a renda mensal da sociedade brasileira, não é o suficiente para proteger o empregado em futuramente reivindicar seus direitos trabalhistas, que são indisponíveis e irrenunciáveis.
Ainda, quanto aos requisitos previstos no artigo 507-A da CLT, importante ressaltar, que a disposição quanto a livre manifestação do trabalhador é questionável, pois, no momento da admissão é evidente a vulnerabilidade em face do empregador, isto é, por imposição o empre- gado acabará se sujeitando com a cláusula compromissória arbitral.
No Direito do Trabalho a proteção ao empregado é ponto de extrema importância, haja vista que independentemente da remuneração, não descaracteriza a posição de vulnerabili- dade e hipossuficiência do trabalhador, não se admitindo que as partes conflitantes estejam em igualdade no momento em que optam pela arbitragem.
Isso, até mesmo em razão da natureza das verbas oriundas da relação de emprego, que são indisponíveis e irrenunciáveis, o que significa dizer que os direitos sociais dos trabalhado- res assegurados na Constituição da República não podem ser dispostos livremente.
Ainda a própria Lei de Arbitragem (n° 9.607 de 1996) expressamente dispõe que somente direitos patrimoniais disponíveis podem ser objeto do procedimento arbitral, portanto, tendo em vista, a natureza jurídica dos direitos trabalhistas, não é viável considerar que o fato do empregado receber uma remuneração igual ou superior R$12.867,14 (doze mil oitocentos e ses- senta e sete reais e quatorze centavos), alteraria tal característica (BRASIL , 2021).
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Já a respeito da inconstitucionalidade do artigo 507-A da CLT, sob a alegação de violação ao princípio constitucional da Inafastabilidade do Controle Jurisdicional, o pleno do Supremo Tribunal Federal já superou o tema ao decidir que a arbitragem é constitucional, passível de ser aplicada no Direito do Trabalho.
No entanto, o questionamento é que apesar do procedimento arbitral ser declarado cons- titucional, tal instituto nos contratos individuais trabalhistas é inviável, pois o empregado não fará por livre iniciativa, mas por necessidade, visto que é a parte vulnerável e hipossuficiente na relação empregatícia.
Nesse sentido, se no momento da admissão o empregado está em posição vulnerável, durante o pacto laboral a subordinação é muito mais intensa, de modo que, nos contratos já em curso também não será aplicável o procedimento arbitral.
Dessa forma, é possível vislumbrar que apesar da arbitragem ser um procedimento bené- fico e constitucional, diante da natureza das verbas oriundas do contrato de trabalho e a des- proporcionalidade entre empregador e empregado, a resolução da lide deve ser feita pela via judicial e não arbitral, a fim de preservar os direitos dos trabalhadores.
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