A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 estabelece, em seu artigo 1336, que o advogado é indispensável à administração da justiça, esperando-se, portanto, do men- cionado profissional, atuação conforme as normas legais e constitucionais, de modo a contri- buir para uma adequada gestão do trâmite processual. (BRASIL, 1988).
O advogado é a voz da sociedade ante o Poder Judiciário, representando a vontade e os direitos do seu cliente. Ainda que a sociedade espere do advogado, face à sua capacidade postulatória, uma atuação fiel aos seus desejos e seja seu papel buscar uma decisão favorável para o representado, abraçando a causa e defendendo seus interesses individuais, sua atuação profissional deve pautar-se pelos limites legais e éticos.
Portanto, o agir do advogado deve se dar conforme a lei e seu Código de Ética profissional.
6 Artigo 133. O advogado é indispensável à administração da justiça, sendo inviolável por seus atos e manifestações no exercício da profissão, nos limites da lei. (BRASIL, 1988).
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É o que afirma Gladston Mamede: “[...]para convencer o julgador a decidir a favor de seu constituinte, o advogado não está autorizado a fazer o que quiser, mas deverá atuar de forma lícita, honesta e de boa-fé [...]” (MAMEDE, 2014, p. 14).
Nas palavras de Anne Joyce Angher: “boa fé, etimologicamente, vem do latim bona fides, e fides, na linguagem popular, significa honestidade, confiança, lealdade, sinceridade, fidelidade, crença, confiança, convicção interior.” (ANGHER, 2005, p. 44).
Assim, age de boa-fé aquele que atua em conformidade com os preceitos legais e éticos.
É justamente sobre esse tema que o tópico a seguir irá discorrer, interligando-o à legislação especial que rege a advocacia.
2.1 ESTATUTO DA ADVOCACIA E DA ORDEM DOS ADVOGADOS NO BRASIL E O CÓDIGO DE ÉTICA E DISCIPLINA DA OAB
O exercício da advocacia no território brasileiro é privativo dos inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O advogado tem seus direitos e deveres assegurados pelo Esta- tuto da Advocacia e da Ordem dos Advogados no Brasil (EAOAB) – Lei n° 8.906, de 04 de julho de 1994.
Dispõe o artigo 3° que: “O exercício da atividade da advocacia no território brasileiro e a denominação de advogado são privativos dos inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).” (BRASIL, 1994).
A aplicabilidade do Estatuto não se baseia somente na atuação dos advogados, mas tam- bém na busca de uma efetiva prestação jurisdicional, de modo que seja célere e acessível a todos.
O artigo 31 do EAOAB dispõe que: “O advogado deve proceder de forma que o torne mere- cedor de respeito e que contribua para o prestígio da classe e da advocacia.” (BRASIL, 1994).
Assim, ainda que o advogado, no exercício de suas funções, seja considerado indepen- dente, seja em relação aos membros do Ministério Público, aos outros advogados e até mesmo aos seus clientes, ele está diretamente sujeito aos termos do EAOAB.
Cabe ainda mencionar o Código de Ética e Disciplina da Advocacia que, conjuntamente com os dispositivos citados alhures, pauta o exercício profissional do advogado, cujo artigo 1°
estabelece que “o exercício da advocacia exige conduta compatível com os preceitos deste Código, do Estatuto, do Regulamento Geral, dos Provimentos e com os demais princípios da moral individual, social e profissional”. (BRASIL, 2015).
O referido Código, mais uma vez, é preciso quanto à conduta do advogado, elencando, em seu artigo 2°, parágrafo único, os deveres respectivos:
Art. 2°. O advogado, indispensável à administração da justiça, é defensor do estado democrático de direito, da cidadania da moralidade pública, da justiça e da paz social, subordinando a atividade do seu Ministério Privado à elevada função pública que exerce.
Parágrafo único. São deveres do advogado:
I – Preservar, em sua conduta, a honra, a nobreza e a dignidade da profissão, zelando pelo seu caráter de essencialidade e indispensabilidade;
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II - Atuar com destemor, independência, honestidade, decoro, veracidade, leal- dade, dignidade e boa-fé;
III - velar por sua reputação pessoal e profissional;
IV - Empenhar-se, permanentemente, em seu aperfeiçoamento pessoal e pro- fissional;
V - Contribuir para o aprimoramento das instituições, do Direito e das leis;
VI - Estimular a conciliação entre os litigantes, prevenindo, sempre que possí- vel, a instauração de litígios;
VII - aconselhar o cliente a não ingressar em aventura judicial;
VIII - abster-se de: a) utilizar de influência indevida, em seu benefício ou do cliente; b) patrocinar interesses ligados a outras atividades estranhas à advo- cacia, em que também atue; c) vincular o seu nome a empreendimentos de cunho manifestamente duvidoso; d) emprestar concurso aos que atentem contra a ética, a moral, a honestidade e a dignidade da pessoa humana; e) entender-se diretamente com a parte adversa que tenha patrono constituído, sem o assentimento deste.
IX - Pugnar pela solução dos problemas da cidadania e pela efetivação dos seus direitos individuais, coletivos e difusos, no âmbito da comunidade. (BRA- SIL, 2015).
Diante disso, é de suma importância a presença da ética profissional em todos os campos de trabalho, destacando-se a advocacia.
Leciona Paulo Nader que:
A advocacia não é apenas uma profissão ao lado de outras, cujo objeto é a prestação de serviços. É diferenciada em virtude de múnus público, pela qual cabe ao profissional contribuir à efetividade da justiça nos casos em que atua. Ainda que o advogado postule um direito particular, sua atuação possui alcance mais amplo, pois constitui uma função social. (NADER, 2010, p. 432).
Por outro lado, é sabido que, por muitas vezes, a ética e o profissionalismo são preteridos, relegados a um segundo plano, enfatizando interesses econômicos em detrimento da segurança jurídica, incutindo-se na sociedade a percepção de que a moral e a ética andam opostas à lei.
Merece destaque a posição de Anne Joyce Angher, segundo a qual “O advogado, como representante da parte, é sujeito parcial do processo. A parcialidade, todavia, não pode chegar a ponto de se postular como se os meios justificassem o fim.” (ANGHER, 2005, p. 191).
Como afirmado por Elcias Ferreira da Costa “Não se dirá que seja probo um advogado, se lhe faltar o mínimo ético de responsabilidade profissional. A profissão envolve um múnus social e, no caso, um múnus público.” (COSTA, 2009, p. 143).
Logo, é plausível frisar que o exercício da advocacia de forma ímproba poderá gerar danos ao seu cliente e também ao judiciário, gerando contratempos ao andamento processual, indu- zindo o juiz a erro, tornando o processo moroso e desprestigiando a classe de advogados perante a sociedade, com nítido afastamento de seu compromisso ético e profissional.
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Isto posto, para garantir o adequado funcionamento do sistema jurídico, faz-se necessária a existência de consequências sancionatórias eficazes, repudiando a atuação de profissionais pautados pela má-fé, conservando o compromisso da OAB na formação de profissionais éticos e capacitados.