3.5 Lutas em redes de redes
4.2.2 Tempo da escola
o ensino superior e os três manifestam o desejo de trocar a universidade pela estrada. Ao falar do seu curso, João Pedro diz que não está gostando pois considera que “tem uma verdade muito absoluta ali dentro e tal, sabe qual é? Não tem muito espaço pra pensar coisas diferentes.” Seus planos são de trancar a faculdade e “dar uma viajada pra dar uma pensada e aí depois voltar com mais calma pra ver o que que eu quero fazer, se eu quero fazer, sei lá”.
Já Bernardo abandonou a faculdade no quinto período. “Eu não quero mais não, não quero diploma.” Ele contou que estava terminando de produzir um disco e trabalhando com permacultura84 num sítio: “vou pegar a estrada. Vou permaculturando no meio tempo, eu tô com o destino de ir também pela estrada, sem data, sem rumo e sem dinheiro. E é isso. E aí a estrada vai dizer o futuro”. Pelo visto, além da “educação da rua”, existe também uma
“educação da estrada”, ambas distintas da educação formal.
Moreno enfatizou que sua história escolar é muito importante quando pensa sua trajetória de vida. Ele conta que estudou a maior parte do tempo num colégio que tinha uma pedagogia “diferente” e era autogestionado pelos pais, por isso a família dele era muito envolvida com o processo do colégio, das finanças à pedagogia. Ele conta: “lá é muito diferente e eu tenho plena noção disso, justamente porque minha família era muito envolvida, então transcendia muito o colégio, debatia o colégio em todas as instâncias da minha vida, dentro de casa, enfim”. Na antiga 8ª série do ensino fundamental, todos os amigos dele foram para outro colégio, um dos três maiores colégios católicos da cidade, citados anteriormente, com proposta pedagógica bem distinta do que ele estava acostumado. Foi então que ele decidiu, para desespero da sua família: “Eu quero sair. Eu quero ver o mundo, quero ver coisa maior, isso daqui é muito pequeno.” A família tentou mediar esse momento, evitando que ele fosse pra uma dessas escolas católicas, onde acreditavam que ele não se adaptaria.
Ainda assim, ele acabou indo para a “escola da moda” que Carol comentou anteriormente, e estudou lá da 8ª série ao 2º ano. Moreno conta que essa outra experiência escolar foi realmente “muito traumática” e ele desejava “se libertar” daquele espaço, mas não queria substituí-lo pela faculdade. “Eu queria muito viajar, sair daquilo ali, sabe”. Ele fala da prática dos “testes disciplinares” que esse outro colégio adotava e de como ele fazia para desobedecer esse sistema.
84 A palavra permacultura surge da junção de “permanent agriculture”, mas hoje essa noção se expandiu e se significa “cultura permanente”. Desenvolvida nos anos 1970 por Bill Mollison, na Austrália, é definida por ele como “um sistema de design para a criação de ambientes humanos sustentáveis e produtivos em equilíbrio e harmonia com a natureza” (MOLLISON, Bill. Introdução a Permacultura. São Paulo: Tyalgum, 1991)
porque eu sai de um colégio que era autogestionado, onde eu conhecia todo mundo e fui pra um colégio onde tinha teste disciplinar. Se você saísse de sala, você toma um teste disciplinar, que, por tomar o teste, você já perde 5 pontos. Ele vale 10, mas se você gabaritar, só tira 5, e é só com perguntas que caíram em vestibulares anteriores de matérias que você ainda não viu, do conteúdo daquela matéria que você foi retirado de sala. Eu tomei vários testes disciplinares e eu sempre assinava meu nome, ficava escrevendo várias merdas no teste e entregava, tipo, tô boicotando essa parada, foda-se vocês, foda-se minha nota. Mas, enfim, isso foi muito traumático pra mim a ponto de eu querer muito me libertar daquele espaço e eu não queria muito entrar na faculdade, não era muito a minha questão. Eu queria muito viajar, sair daquilo ali, sabe.
Bem diferente da experiência de skholé, o modelo hegemônico de escola que conhecemos, vinculado à escola moderna, se tornou para muitos sujeitos um lugar de onde querem “se libertar”. Para alguns, a universidade é o primeiro passo rumo a essa libertação, para outros, ainda é um espaço limitador. A viagem aparece então como um campo privilegiado de experiência, para onde muitos desses sujeitos preferem se lançar, mesmo sem saber o que vão encontrar, pois acreditam que, estando abertos para o inesperado, “a estrada vai dizer o futuro”. Naquele momento, com 16 para 17 anos, Moreno não tinha condições financeiras para viajar, por isso acabou optando pelo vestibular, ingressando na universidade em 2011, ano do Ocupa. Ele conta que nesse novo momento escolar “também não era hipermotivado, embora eu sempre estudasse, porque de certa forma sempre fui acostumado com essa dinâmica de estudo, era uma coisa que eu sempre tinha. Então eu estudava, fazia as matérias, passava em tudo, mas eu não era muito envolvido. Não era aquilo que mais me afetava, o que mais me afetava era o movimento estudantil.” Moreno não tinha problemas para estudar, já estava acostumado a essa dinâmica, como todos os outros que conseguiram ingressar em universidades públicas, mesmo sendo um processo concorrido. No entanto, ele diz, aquilo não o “afetava”. Mas o movimento estudantil, sim. Foi então que ele começou a se envolver com algumas ações, entrou para o coletivo da Marcha da Maconha e, em seu primeiro ano de faculdade, ele - e outros desses estudantes recém-ingressos, como Bruno e Gabriela - viveu outro acontecimento marcante: a ocupação da reitoria da UFF, que aconteceu em setembro de 2011 e se mistura em sua memória com o processo que o levou ao Ocupa Niterói três meses depois. No dia em que completou 18 anos, estava no cordão de isolamento da ocupação da reitoria, pensando que já tinha idade para ser preso. “E nisso eu conheci muitas pessoas, foi uma expressão de liberdade que quebrou muito meus paradigmas completamente”, conta ele. Foi com essas experiências que ele teve uma percepção importante de si: “se existe uma coisa que eu quero fazer na minha vida é isso, eu quero dedicar minha energia pra esse tipo de espaço. Tipo, faculdade, aula até acho legal, mas não é isso que me afeta, sabe?”.
Dayrell é um dos autores a observar que uma concepção de juventude enquanto ausência, transitoriedade, falta, vir a ser está muito presente na escola: “em nome do ‘vir a ser’ do aluno, traduzido no diploma e nos possíveis projetos de futuro, tende-se a negar o presente vivido do jovem como espaço válido de formação, assim como as questões existenciais que eles expõem, bem mais amplas do que apenas o futuro” (DAYRELL, 2003, p. 40-41). Percebe-se que há um desconforto dos jovens (em alguns casos, desde a infância) com o ambiente escolar, no qual somos obrigados por lei a frequentar todos os dias úteis, dos 4 aos 17 anos de idade85, e somos expostos a conteúdos pré-definidos pelo Estado em um
“currículo mínimo” que deve ser cumprido obrigatoriamente por todas instituições e por todos os alunos. Para além de fazer uma crítica à complexa instituição escola, vale observar por hora que, ao invés de promover skholé, o modelo de escola moderna que prevalece em muitas escolas na contemporaneidade, rouba-nos tempo livre, esse tempo que muitos jovens desejam resgatar através, por exemplo, da viagem.
Um dos fatores centrais dos levantes das multidões pelo mundo está, de certa forma, relacionado com essa declaração de Dayrell sobre a ênfase da escola no “vir a ser” do aluno, em um projeto de futuro que a escola (e, no caso, o Estado) possui para as crianças e jovens:
“você deve estudar para ser alguém na vida” é uma frase comum que demonstra a visão de que o estudante ainda não “é” ninguém na vida, ele só será se passar por todos os anos escolares obrigatórios e além, numa formação que nunca termina pois nunca parece suficiente para “ser alguém”. E, no entanto, são justamente esses jovens e adultos altamente escolarizados que saíram às ruas em todo o mundo sem entender por que, após seguirem o script do sucesso, continuavam desempregados, morando na casa dos pais e sem perspectiva de um futuro promissor. “Esse bando de gente perdida” saiu então pelas ruas e, sem paredes, tetos, professores, currículo, sinal, inspetor, uniformes, começaram a “desaprender” um monte de coisas para, talvez a partir desse “vazio”, construir e aprender o Novo.
Estudante de Belas Artes, Ana já cogitava a possibilidade de vir a ser professora de Artes no futuro, mas a partir da experiência do Ocupa, sua visão sobre o que é ser professora também mudou: “eu não quero ser a professora, tipo, a única que sabe tudo ali”, ela diz, explicando que também quer aprender com seus alunos e se surpreender com o que trouxerem, e não reproduzir métodos limitadores de ensino, como “só pode pintar dentro dessa florzinha, vai”. Por isso, na imagem que ela foi projetando de si, imaginou que seria
85 Segundo a alteração que foi feita na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) por meio da Lei nº 12.796, de 4 de abril de 2013, publicada no Diário Oficial da União do dia 05/04/13. Essa regulamentação oficializa a mudança feita na Constituição por meio da Emenda Constitucional nº59, em 2009.
“uma professora rebelde” e, por isso, “talvez até me demitam”.
Eu queria ser uma pessoa diferente, assim. Eu vou me formar como professora, e eu quero no futuro, quando eu tiver lá na escola, eu não quero ser a professora, tipo, a única que sabe tudo ali, sabe, eu quero também que meus alunos me ensinem, eu quero que cheguem pra mim e eu fique “caraca, isso mesmo!”, sabe, eu não quero chegar e “pinta essa florizinha, só pode pintar dentro dessa florzinha, vai, faz um quadrado igual a esse aqui”, sabe. Até eu falei assim, se continuar assim, eu vou ser uma professora rebelde, talvez até eu fique passando de escola em escola, porque talvez até me demitam.
A “professora rebelde”, criada no imaginário de Ana, não se encaixa no sistema escolar de um modelo capitalista que não abre espaço para o novo, para os imprevisíveis encontros com o outro. Por isso, ela desobedece, inverte as hierarquias, está aberta para o inesperado e deseja ser surpreendida, não limita a experiência do aluno, ela o permite ser quem ele é e fazer as coisas do seu jeito, ela prefere que seja assim. Ana quer ser “uma pessoa diferente”, logo, “uma professora diferente”, diferente do padrão que ela sempre percebeu nas escolas onde estudou. Por isso, imagina que talvez as instituições não se agradem de sua metodologia libertária e ela seja constantemente “demitida” e fique passando de escola em escola. Ana quer aprender desaprendendo, desobedecendo e desaparecendo em relação à figura tradicional da professora.