3.5 Lutas em redes de redes
4.2.1 Tempo livre
Além da questão da alteridade, ficou latente nas falas dos ocupantes algumas dimensões do tempo presentes na experiência: o tempo do acampamento, o tempo da cidade, o tempo da internet, o tempo de cada um, o tempo da escola, o tempo da história, o tempo da juventude, o tempo do passado, do presente e do futuro. A experiência, como já foi dito, exige um gesto de interrupção e suspensão do tempo produtivo, seja do trabalho, do estudo, do fluxo interminável de informação. Quando a experiência acontece, uma outra dimensão temporal também acontece: o tempo da experiência. Muitos sujeitos, como Ana e Carol, já contaram o quanto dedicaram grande parte de seu tempo para o Ocupa Niterói naquele
momento. E até ocupantes mais resistentes em relação ao acampamento, como Rafael, narram que, ao serem afetados pela experiência, “perderam o controle” do próprio tempo. Antes de acampar, ele assume que pensava: “pô, não vou ficar fora de casa, vou uma vez, uma noite.
Pensava que ia durar uma semana, a galera vai voltar pra casa”. No entanto, pra sua surpresa “a parada foi ficando, foi ganhando corpo e foi consolidando uma experiência mesmo, né, e ao mesmo tempo foi se tornando um espaço de reflexão”, ele diz, após contar sua experiência “assustadora” com o tempo nesse momento:
Quando eu fui a primeira vez lá, eu fui muito determinando a ser dono do meu tempo, assim: eu não vou perder meu tempo, eu vou lá hoje, vai ser legal, vou ficar, trocar ideia, dar uma contribuição, ouvir - não fui tão escroto assim -, queria ir lá, ver qual é, ver se tinha umas gatinhas e ver em que pé que estava, ver se era só gente falando bobagem como sempre é, ou não, se era uma coisa interessante, mas determinado a não perder meu tempo. Amanhã, acabou.
Aí, principalmente depois que acampou... Quando começou o acampamento, fudeu:
eu não era mais dono do meu tempo. Aquilo que eu pensava antes... Isso foi muito assustador, até, porque eu deliberadamente abri mão de maior parte do meu tempo, fiquei fudido com trabalho, eu chegava tarde...
Rafael deixa aparente diferentes noções do tempo: um tempo próprio (“ser dono do meu tempo”) e um tempo produtivo (“não perder tempo”), que ao serem afetados pelo acontecimento (“quando começou o acampamento”), foram temporariamente suspensos: ele perde a propriedade do tempo, tanto o seu próprio (“não era mais dono do meu tempo” e
“abri mão da maior parte do meu tempo”), quanto do tempo produtivo (“fiquei fudido com trabalho, eu chegava tarde”). Finalmente, o que ele achou que seria um acontecimento de curta duração, “foi ficando”, foi se prolongando no tempo e “ganhando corpo”, se tornando, enfim, “uma experiência mesmo” e um “espaço de reflexão”, segundo suas palavras. O tempo da experiência foi mais forte que os tempos que Rafael imaginava controlar. Não por acaso, Castells (2013, p. 133) observou esse fenômeno temporal em outras acampadas pelo mundo, chamado pelos ocupantes de “uma sensação de eternidade”.
Os espaços ocupados também criaram uma nova forma de tempo, que algumas pessoas nos acampamentos caracterizaram como uma sensação de ‘eternidade’. A rotina de suas vidas diárias foi interrompida; abriu-se um parêntese com um horizonte temporal indefinido. (...) Dada a incerteza em relação a quando e se a remoção viria, as ocupações viviam na base do dia a dia, sem prazos finais, liberando-se, desse modo, de restrições temporais, enquanto consolidavam a ocupação em sua experiência de vida cotidiana.
A suspensão do tempo particular e a profanação do tempo produtivo capitalista nos territórios Ocupa se aproximam de uma ideia de tempo que os estudos em educação dos
belgas Jan Masschelein e Maarten Simmons resgatam a partir do sentido grego da palavra skholé, de onde deriva a noção de “escola” em muitas línguas. Segundo esses autores, skholé significa muitas coisas, mas, sobretudo, “tempo livre”. Foi difícil compreender essa noção de escola enquanto “tempo livre” quando Masschelein apresentou-a durante o curso que ministrou no Rio, em 2012, citado no segundo capítulo desta tese. Afinal, a escola contemporânea, da educação infantil à pós-graduação, se tornou qualquer outra coisa menos
“tempo livre”. Ele explicava que a escola, nessa concepção de skholé, seria um tempo-espaço à parte do tempo produtivo, um tempo sem destino e sem objetivo ou fim, um tempo liberado da economia habitual do tempo (MASSCHELEIN; SIMMONS, 2014, p. 161). Por isso, ele diz que esse tempo educativo seria um tempo de “suspensão” e pode ser definido como “um evento de des-familiarização, des-socialização, des-apropriação ou des-privatização: define algo livre” (MASSCHELEIN; SIMMONS, 2014, p. 162). Um evento de desaprendizagem, nos termos de Manoel de Barros.
Segundo os autores, o tempo nessa perspectiva não se torna só “livre de”, mas “livre para”. São suspensas apropriações econômicas, sociais, culturais, religiosas ou políticas, assim como as forças do passado e do futuro e as tarefas e papéis ligados a lugares específicos na ordem social. “Suspender significa não destruir ou ignorar, mas ‘evitar temporariamente de estar em vigor ou efeito’. (...) é desorientar as instituições, interrompendo o passado”
(MASSCHELEIN; SIMMONS, 2014, p. 162). Recorrendo à terminologia de Agamben, os autores também desenvolvem a ideia de “profanação” do tempo para descrever esse tipo de liberdade. O profano substituiria o sagrado em vista do uso comum. O tempo profano seria
“uma condição na qual as coisas (práticas, palavras) são desconectadas de seu uso regular (na família e na sociedade) e, portanto, refere-se a uma condição em que alguma coisa do mundo é aberta para uso comum” (MASSCHELEIN; SIMMONS, 2014, p. 162-163). Assim, suspenso e profano, o tempo da skholé se torna um tempo público.
Coisas são postas “em cima da mesa”, transformando-as em coisas comuns, coisas que estão à disposição de todos para uso livre. O que foi suspenso é a sua
“economia”, as razões e os objetivos que as definem durante o trabalho ou durante o tempo regular ou social. As coisas são, assim, desconectadas do uso sagrado ou estabelecido da velha geração na sociedade, mas ainda não apropriados por estudantes ou alunos como representantes da nova geração. A escola profana/skholé funciona como uma espécie de lugar comum, onde nada é compartilhado, mas tudo pode ser compartilhado (MASSCHELEIN; SIMMONS, 2014, p. 163).
A escola profana é um lugar comum onde nada é compartilhado e tudo pode ser compartilhado. Por isso, escola/skholé “não deve ser confundida com a instituição e, assim,
pode acontecer também fora dela. Na verdade, a escola como instituição poderia ser considerada em muitos aspectos, como uma forma de apropriar-se da escola/skholé, de destiná-la”, apropriando-se ou domesticando o “tempo livre” (MASSCHELEIN; SIMMONS, 2014, p. 161) e, assim, perdendo-o. O tempo de skholé não se limita à passagem do passado para o futuro, ou a um tempo de projeto ou de iniciação. É um momento de atenção, segundo os autores, “um tempo de considerar o mundo, de estar presente nele (ou estar em sua presença), atendendo-o, um tempo de entrega para a experiência do mundo, de exposição e removendo orientações e subjetividades sociais, um tempo cheio de encontros”
(MASSCHELEIN; SIMMONS, 2014, p. 164).
Mas como suspender o tempo? Como desvendar e comunizar o mundo? Isto não é apenas para tornar o mundo conhecido ou para oferecer uma experiência imediata de uma realidade, mas se trata da maneira pela qual certa forma ou estética obriga-nos ou incita-nos a participar de uma experiência sensorial em que alguma coisa é desvendada e comunicada de tal forma que o mundo se divide e se torna comum, de modo que uma relação puramente desligada ou uma atitude des-interessada torna-se difícil de manter e nos tornamos atentos (MASSCHELEIN; SIMMONS, 2014, p.
167)
Ao resgatarem a ideia de skholé enquanto evento e experiência, Masschelein e Simmons propõem que pensemos a educação “como a arte (o fazer) e a tecnologia que (ajuda a) fazer acontecer, ou seja, especializa, materializa e temporaliza essa skholé”
(MASSCHELEIN; SIMMONS, 2014, p. 167). Enquanto as instituições educativas parecem caminhar na contramão dessa ideia, investindo cada vez mais numa formação continuada direcionada ao mercado de trabalho, onde essa formação nunca parece suficiente, compreendi o tempo educativo que se abriu no Ocupa Niterói como um tempo de skholé, um tempo liberado (“livre”) de sua carga social e econômica, um tempo de simplesmente estar presente e atento ao mundo que se revela, um tempo aberto à experiência, um tempo cheio de encontros. Por isso, um tempo educativo.