1.1 Acontecimentos e experiências
1.1.2 Ocupa dos Povos (2012)
Com as coisas indo devagar no Ocupa Niterói e já inserida na rede de ocupas nacionais, comecei a participar das reuniões do Ocupa Rio, que naquele momento planejava o Ocupa dos Povos, por ocasião da Cúpula dos Povos e da Rio+20 (Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável). A Cúpula dos Povos era um espaço destinado para encontro dos movimentos sociais que viriam para a Rio+20 e foi alocado no Aterro do Flamengo, na zona sul da cidade, enquanto os chefes de estado tomariam suas decisões sobre o clima global no longínquo Rio Centro, na zona oeste da cidade. A presidenta Dilma Roussef já havia anunciado a presença do exército nas ruas e de toda a Força Nacional para “reforçar a segurança” do evento e qualquer tipo de ocupação estava declaradamente proibida na cidade, especialmente após três meses de Ocupa Rio (e tantos outros ocupas pelo Brasil em 2011), que fizeram com que os governantes começassem a se prevenir contra essa nova tática. O evento aconteceria entre 15 e 23 de junho de 2012, no Rio de Janeiro, cabendo naturalmente ao Ocupa Rio o papel de “anfitrião” dos demais ocupantes globais que certamente chegariam
à cidade. Sabíamos da infinidade de movimentos, coletivos e militantes do mundo inteiro – além da imprensa internacional – que estariam por perto e nossa intenção era criar um espaço de convergência e fluxos para todos eles, especialmente para os militantes globais do movimento occupy, que já se comunicavam e trocavam informações pela internet de muitas formas. A Rio+20 estava sendo muito criticada pelos movimentos sociais que viam ali uma perigosa estratégia de consolidação do chamado “capitalismo verde”, além dela estar acontecendo em meio aos processos de remoção de comunidades para as obras dos megaeventos Copa e Olimpíadas e também em plena construção da polêmica usina hidrelétrica de Belo Monte.
A proposta discutida nas assembleias do Ocupa Rio era a de criarmos então o
#OcupaDosPovos, numa área externa ao evento da Cúpula dos Povos, também chamada jocosamente pelos ocupantes de “Cópula dos Povos”. Se a Cúpula era a via alternativa à Rio+20, o Ocupa seria a alternativa da alternativa, a radicalização do processo de resistência ao modelo de capitalismo que incluía a negação dos espaços patrocinados para o confinamento dos movimentos. Sabíamos que seríamos reprimidos. Numa reunião prévia, um ocupante deixou bem claro para os que tinham dúvidas sobre a legalidade do ato: “ocupar não pode, nunca pôde, mas nós vamos ocupar”. Tínhamos uma tática: a lei do artista de rua (no 5429/2012), que havia sido aprovada recentemente, garantindo o direito à manifestação artística em espaços públicos. Nossa ocupação seria, então, uma “intervenção artística” na cidade durante a Rio+20. Seu nome era: “Desculpe as obras, estamos em transtornos”, como estava escrito no evento do Facebook para o dia 15 de junho de 2012. Apenas um pequeno grupo saberia o local da ocupação, como decidimos em assembleia, evitando que possíveis
“infiltrados” (os chamados P2, policiais à paisana), muitas vezes presentes em encontros públicos, atrapalhassem o plano.
Nosso ponto de encontro foi a Praça Paris, onde começamos os preparativos de nossa
“performance”: todos de capas de chuva amarelas munidos de latões para batucadas e outros apetrechos que foram pensados pelo GT responsável pela intervenção. Seguimos em bloco para o local da ocupação, que só saberíamos ao chegar. Caminhamos um pouco e, num canteiro ao lado da Praça Paris, paramos. Era ali. Ninguém saberia dizer o nome daquela praça, nem o Google Maps: era a desconhecida Praça Deodoro da Fonseca (que no Google Maps aponta para outro local próximo, enquanto o local da praça está sem nome algum), um entre-lugar entre as conhecidas Praça Paris, o Passeio Público e a Praça Mahatma Gandhi, no centro do Rio. Poucas pessoas reparam nela quando passam por ali, geralmente, em meio ao trânsito - é como se não houvesse “nada” lá. Não havia bancos ou algo que convidasse à
permanência, apenas o gramado e uma grande estátua de Deodoro da Fonseca sobre um cavalo – por isso, os moradores de rua chamavam aquele lugar de “Praça do Cavalo”, demonstrando a popularidade desse personagem conhecido (ou melhor, desconhecido) por ter promovido um golpe militar para proclamar a República e ter sido o primeiro presidente do Brasil, em meio a um processo político tão contraditório e complexo quanto os que se seguiram nesta República. Se não fosse aquela estátua, que marca um lugar de memória esquecido, aquele pedaço de gramado poderia ser apenas um grande canteiro. Esse espaço urbano costumava ser habitado por mendigos e usuários de crack, segundo disseram. No momento em que chegamos, não havia ninguém. O lugar estava desocupado. Ocupamos.
Sentamos no gramado e começamos a levantar as barracas. Logo chegaram os primeiros policiais, ainda muito educados, perguntando do que se tratava. Falamos sobre nossa “arte”. Eles foram embora e voltaram depois com um grupo ainda maior de Guardas Municipais e um ônibus. Mais explicações. Esse ritual se repetiria todos os 10 dias da ocupação, promovendo um dos grandes aprendizados desses espaços de exercício democrático: o diálogo incansável com o outro, incluindo aí o poder estatal, e o jogo de argumentação que acontece dos dois lados nas disputas pelo direito à cidade. Um desses momentos promoveu um dos diálogos mais significativos que presenciei. Um ocupante escutava pela enésima vez o argumento oficial de que “o poder público havia criado espaços de acampamento para os participantes da Rio+20 na Quinta da Boa Vista”, e que por isso a gente deveria ir pra lá. O ocupante contra-argumentava: “o senhor está enganado, o poder público criou este lugar aqui”. O guarda negava, insistindo que “o poder público havia criado um lugar na Quinta da Boa Vista”. O ocupante insistiu com seu argumento, explicando finalmente ao policial: “o senhor está confundindo as coisas: deve estar se referindo ao poder estatal. O poder público somos nós!”
Imagem 05 - #OcupaDosPovos
A ressignificação do espaço urbano é uma das grandes experiências promovidas num ocupa. Aquele espaço antes invisibilizado ganhou novos significados a partir da experiência Ocupa dos Povos, constituindo novas memórias até para quem só passou de ônibus e o viu. A ressignificação chegou ao ponto do rebatismo da Praça Deodoro, que passou a ser chamada pelos ocupantes de “Praça Marília”, em homenagem à ocupante de Porto Alegre, Estela Marília Machado Feijó, de 28 anos, que morreu atropelada no segundo dia da ocupação.
Apesar de ter sido a maior tragédia que poderia ter acontecido num Ocupa, a morte de Marília trouxe uma incrível nova vida à ocupação, que estava com as barracas abaixadas desde a primeira noite por conta da negociação com o Estado. Com a morte de Marília, as barracas subiram e não abaixaram mais até o fim do evento, sendo toleradas pelo poder estatal. No local onde ela foi atropelada, os ocupantes fecharam a rua, pintaram uma faixa de pedestre no asfalto e pararam o trânsito que a matou. Em cartazes, mensagens como “Por que ocupar incomoda mais que uma morte?”. Assim, os Ocupas também encarnam e escancaram o território de disputas de sentidos da cidade, do uso do espaço público, das práticas de cidadania, das lutas e resistências cotidianas, suspendendo temporariamente os sentidos hegemônicos da cidade e ocupando esses espaços com outros sentidos.
O Ocupa dos Povos foi fundamental em vários aspectos. Ainda que naquele momento
eu não soubesse, havia algo do clima dos movimentos dos anos 90 (sobre os quais falarei no capítulo III) nessa nossa tática de ocupar um grande evento do capitalismo global em suas brechas. Esse foi o primeiro Ocupa transnacional de que tive notícia e ele surgiu quase naturalmente a partir do fortalecimento da rede que se estabeleceu pelo país e pelo mundo entre os ocupas nacionais e occupies internacionais. Quase todos que estiveram no Ocupa dos Povos já haviam ocupado em suas cidades e países, o que trazia uma experiência acumulada ímpar para ser trocada ao longo da ocupação. Alguns de nós já mantínhamos contato direto ou indireto via redes sociais, estabelecendo uma rede de colaboração e confiança que fazia com que pessoas viessem de diferentes lugares do mundo, mesmo sem saber o local exato da ocupação ou conhecer pessoalmente qualquer um dos seus contatos. Ali estiveram ocupantes do Rio, São Paulo, Porto Alegre, Bahia, Belo Horizonte, Belém, além de países como Estados Unidos, Grécia, Espanha, Uruguai, Argentina, Bolívia, Chile e muitos outros, promovendo uma rica troca de experiências e saberes.
Vários participantes do Ocupa Niterói passaram pelo Ocupa dos Povos, como João Paulo, que considerou a vivência na ocupação bastante conflituosa, tanto quanto os outros ocupas - “é porque a questão da tolerância vem com muito conflito”, disse ele – e, apesar de achar que “a galera tava meio perdida” sobre o que fazer com a experiência acumulada de outros ocupas, também considerou “tão bonito que a galera conseguiu” expandir e amadurecer a rede nacional e internacional do movimento, segundo ele, com “todo mundo ativo em suas páginas”.
foi uma coisa muito assim: já demos um primeiro passo e sabemos o que vamos fazer agora... A maioria já sabia o que era uma ocupação... Ali eu já achei que a galera já tava meio que perdida, tipo de o que que a gente faz agora, a gente já conseguiu chegar num ponto assim, ou mais. Tanto que foi tão bonito que até a galera conseguiu e tá saindo reuniões interestaduais via internet, que são frutos do Ocupa dos Povos, a gente conseguiu formar uma rede e materializar a ocupação como uma coisa concreta, todo mundo ativo em suas páginas.
A questão da experiência e da aprendizagem no território Ocupa – território constituído na interface cidades-ciberespaço - continuaram claras pra mim naquela nova experiência, tanto minha quanto a partir dos relatos de outros ocupantes. Um post no Facebook de um militante do Ocupa Rio durante o Ocupa dos Povos narra o encontro de uma menina de Salvador com o Ocupa ao chegar no Rio de Janeiro, e nos apresenta a mais uma legítima “sujeita da experiência” no espaço urbano, cujo texto reproduzo abaixo.
Ontem, Marina, de Salvador, tinha acabado de chegar ao Rio e ia para a casa de um amigo em Copacabana, viu de dentro do ônibus a ocupa e não pensou duas vezes.
Saltou e foi nos conhecer. Era um dia chuvoso, desses não muito convidativos a permanência em espaços abertos. Nos protegíamos sob dois gazebos que dão suporte a manifestação e lá veio ela, mochila nas costas, sorriso no rosto.
A Marina encontrou a ocupa sem precisar de facebook, adbuster, anonymous, panfletinho ou batsinal occupy. A Mariana encontrou o ocupa com o coração. Esse movimento mundial de participação popular sem líderes que criou um cantinho ali na frente da cúpula é muito forte, e vai conquistar o mundo por adesão.
Enquanto formos humanos, enquanto houver coração.
O Ocupa dos Povos foi mais uma experiência Ocupa, que ampliava cada vez mais meu olhar da pequena Niterói para o mundo.