3.5 Lutas em redes de redes
4.2.3 Tempo de juventude(s)
“uma professora rebelde” e, por isso, “talvez até me demitam”.
Eu queria ser uma pessoa diferente, assim. Eu vou me formar como professora, e eu quero no futuro, quando eu tiver lá na escola, eu não quero ser a professora, tipo, a única que sabe tudo ali, sabe, eu quero também que meus alunos me ensinem, eu quero que cheguem pra mim e eu fique “caraca, isso mesmo!”, sabe, eu não quero chegar e “pinta essa florizinha, só pode pintar dentro dessa florzinha, vai, faz um quadrado igual a esse aqui”, sabe. Até eu falei assim, se continuar assim, eu vou ser uma professora rebelde, talvez até eu fique passando de escola em escola, porque talvez até me demitam.
A “professora rebelde”, criada no imaginário de Ana, não se encaixa no sistema escolar de um modelo capitalista que não abre espaço para o novo, para os imprevisíveis encontros com o outro. Por isso, ela desobedece, inverte as hierarquias, está aberta para o inesperado e deseja ser surpreendida, não limita a experiência do aluno, ela o permite ser quem ele é e fazer as coisas do seu jeito, ela prefere que seja assim. Ana quer ser “uma pessoa diferente”, logo, “uma professora diferente”, diferente do padrão que ela sempre percebeu nas escolas onde estudou. Por isso, imagina que talvez as instituições não se agradem de sua metodologia libertária e ela seja constantemente “demitida” e fique passando de escola em escola. Ana quer aprender desaprendendo, desobedecendo e desaparecendo em relação à figura tradicional da professora.
fizeram acreditar que sua rebeldia era sem causa, não passava de um devaneio juvenil de quem “tem tudo e está reclamando”, mas, ainda assim, ele sentia “um desconforto com a sociedade”. Nesse momento, ele observa que o Ocupa marcou uma “saída do casulo”, o fim de um processo de incubação e, logo, uma metamorfose. Na conversa que tive com ele em 2012, Rodrigo disse: “O Ocupa faz parte de um processo que não é tão claro assim, o início, pelo menos foi pra mim assim, o início de um processo que ainda não está tão claro, tão definido.” Em 2014, durante a conversa coletiva, ele conseguiu elaborar um aspecto que ficou marcado em seu processo de construção de identidade naquele momento, quando passou a negar “tudo e todos”, a começar pelo sistema capitalista. “Acho que ali foi o primeiro momento que eu me decidi: eu sou anticapitalista. Eu estou contra esse modelo de produção, tanto objetiva quando subjetiva, eu nego isso.”
João Pedro também narra um tipo de metamorfose proporcionada pelo Ocupa, que teria mostrado pra ele a “dimensão da complexidade do mundo que a gente vive”. João tinha 16 anos na época da ocupação – “novão”, como ele diz – e lembra do primeiro dia em que percebeu “uma disputa de poder enorme” na sociedade a partir do contraste entre o ambiente tranquilo que estávamos construindo na ocupação – “uma coisa tão pura, tão maneira” – e o momento em que a Polícia chega para reprimir aquele acontecimento.
Eu, pô, novão, mas claro que eu sabia negócio de polícia e tal, mas, tipo assim, você que tá ali, o negócio tá acontecendo. Você vê que antes daquilo era uma parada tão tranquila, a galera conversando, trocando ideias, uma coisa tão pura, tão maneira, e ao mesmo tempo tão complicada de acontecer... Aí, tipo assim, outra coisa é que foi me dando uma dimensão da complexidade do mundo que a gente vive. Sei lá, a gente fica meio que preso nos nossos problemas de sempre e aí não entende que tem mais um monte de outras coisas acontecendo, uma disputa de poder enorme e tal. Eu acho que isso foi meio que o começo, assim, pra eu conseguir entender depois, mais a fundo, algumas coisas, meio que, sei lá, um monte de portas se abrindo pra uma outra, outras possibilidades.
Nesse momento em que “portas se abriram” para “outras possibilidades”, ele descreve então como começou a desconstruir “um monte de coisa que acreditava muito” e que gosta de entender como “o filtro que eu enxergava o mundo. E a cada vez você vai descontruindo algumas coisas que você acredita e sua visão vai mudando o filtro que você enxerga as coisas e vai te dando muito mais clareza. Eu acho que o Ocupa foi esse momento que começou”, ele conta e considera, por isso, que o Ocupa teria “preparado um terreno” para ele “crescer e amadurecer sabendo que aquilo existia” e buscar, a partir de então, interagir com a sociedade de uma maneira “mais livre”.
eu acho que o Ocupa meio que preparou um terreno assim pra depois daquilo, eu crescer, eu amadurecer, sabendo que aquilo existia, entendeu? Não ficar tão preso numa realidade só, e eu acho que isso foi o importante mesmo, de mais pra frente eu procurar saber mais de como interagir com a sociedade de uma maneira mais... sei lá, livre, mais direta, sem tanta burocracia no meio do caminho.
Falar sobre a experiência das juventudes é realmente ter que encarar uma multiplicidade de fatores subjetivos e objetivos que compõem esse momento simultaneamente. O processo de construção de identidade, que se mantém ativo ao longo da vida, tem sem dúvida uma intensa e significativa etapa nessa fase. Os jovens do Ocupa Niterói parecem narrar de diferentes formas a saída de um processo de “incubação”, feito principalmente dentro das instituições família e escola (a instituição igreja/religião não apareceu nas conversas), e começam a encarar o mundo de outra forma, talvez até pela primeira vez, fazendo o esforço de desconstruir os “filtros” através dos quais enxergavam o mundo e começam a encontrar-se nesse processo e a descobrir-se: quem eu sou? que mundo é esse? quem eu sou no mundo? E em meio a esses questionamentos, dialogam com um amplo universo de imagens e estereótipos que insistem em dizer-lhes o que é ser jovem, como um jovem deve se comportar, e por que “o mundo é assim”. Culturalmente, encarnamos e reproduzimos muitas dessas imagens que compõem nossos “filtros” do mundo e em alguns momentos da vida somos colocados em situações que nos ajudam a desconstruí-los e vemos o mundo a partir de outro lugar. O Ocupa foi um desses momentos.
Assim, com a abertura de um espaço comum de convivência com o diferente, os jovens tiveram a oportunidade de desconstruir algumas das imagens pré-concebidas sobre a própria juventude, que receberam da família, da escola, das mídias. Ana, por exemplo, nunca tinha tido contato com pessoas que fumassem maconha, e tinha construído internamente uma imagem de que, quando estivesse perto dessas pessoas, duas coisas aconteceriam: 1) eles certamente iram oferecer a droga pra ela (e ela já tinha até imaginado que talvez experimentasse); 2) caso não fumasse, eles a criticariam por ser uma pessoa “careta”. Quando conheceu no Ocupa pessoas que fumavam86, nenhuma dessas coisas aconteceu: sabendo que ela não fumava, ninguém ofereceu a ela, que decidiu por conta própria não experimentar. Ela assume que era “uma coisa que ela imaginava”, percebendo com a própria experiência que pessoas que fumam e não fumam poderiam conviver respeitosamente.
86 A relação com a maconha dá abertura para uma análise interessante em relação aos usos dessa planta proibida junto aos jovens, mas que merece a devida contextualização histórica sobre o assunto, que fugiria dos objetivos deste trabalho. Vale ressaltar, no entanto, o consenso de que não se deveria fumar dentro dos Ocupas para não dar margem à criminalização da ocupação tanto pela Polícia quanto pela Mídia.