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Avaliação de Necessidades

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 81-85)

7 RESULTADOS

Os resultados estão organizados em três partes. A primeira refere-se aos resultados obtidos na avaliação de necessidades que utilizou a técnica de grupo focal. Em seguida, estão os resultados que verificam a efetividade do PHSV, no caso, os resultados da aplicação dos instrumentos no pré-teste e pós-teste. Por fim, estão expostos os resultados das avaliações de processo que foram realizadas no decorrer do PHSV.

composição familiar e as relações positivas que estão presentes nesse contexto, sendo priorizada a figura materna. Algumas falas dos adolescentes ajudam a compreender de forma ilustrativa o conteúdo da classe e o contexto se seus elementos:

“Eu fumo. Minha mãe sabe. Mas se ela souber na hora, minha mãe não gosta. Se ela perguntar, eu ia falar: mãe, eu não fumei. Mas se meu pai perguntar se eu fumei, eu ia falar:

eu fumei. Por que se eu falasse pra minha mãe, minha mãe ia ficar sentida” (Paulo, 16 anos).

“Meu pai sempre está comigo ali, eu estando errado ou certo. Não querendo dizer que ele vai ter que estar comigo nas minhas vezes que eu vou estar errado, mas sendo que ele sempre me corrige para o certo. [...] Por isso ele é minha família. Porque independente de qualquer coisa, ele vai estar lá. É meu porto seguro” (Roberto, 18 anos).

Família é quem mora na minha casa. A família tá com a gente, mesmo quando nós tamos errado. E não vai abandonar nós, não. Sabiam quando nós era matador, mas mesmo assim tava com a gente” (Fábio, 17 anos).

“Minha avó faleceu, mas não importa. Eu amo ela. Mesmo que ela tá morta, mas ela é dá família” (Igor, 16 anos).

Além da anterior classe, temos, no subcorpus Família (subcorpus D), a classe 3 (f = 25 ST) intitulada de “Adolescências e masculinidades”, que possui como elementos mais representativos: irmão, morar, casa, brigar, pai, discutir, anos, entre outros. Portanto, o conteúdo expresso nas falas que compõe essa classe refere-se ao contexto familiar, mas com um enfoque no processo de amadurecimento e das mudanças ocorridas nas relações interpessoais entre pais e filhos durante o período da adolescência. Abaixo estão transcritas algumas falas que ilustram o conteúdo da classe:

“Pode brigar com irmão, mas mesmo assim teu irmão vai tá do seu lado. É o teu sangue. [...] Quando meus pais ficam falando na minha mente, reclamando que eu chego em casa com o olho inchado... Eu não aguento e saio de casa” (Kássio, 14 anos).

“Se eu estiver errado, ele vai me defender, mas ele vai me defender da maneira como se eu estivesse errado ali mesmo. Ele vai me arrebentar ali ou me bater e vai ser aquilo. Mas eu sei que, o dia que eu precisar, ele vai sempre tá lá pra mim, pra me ajudar” (Roberto, 18 anos).

“Meu pai falou assim pra mim: “antes de ficar de maior, qualquer coisinha, se você vacilar eu vou quebrar tuas pernas, mas você ficando de maior não, eu vou te corrigir, filho.

É melhor eu te bater do que de vagabundo te bater”” (Igor, 16 anos).

A classe 6 (f = 21 ST), intitulada “Amigos”, tem como principais palavras: amigo, tráfico, amizade, comunidade, ajudar, mãe, conversar, dia, mandar, bater, entre outras. Essa classe retrata as relações de amizade com pessoas sem grau de parentesco, sendo abordado o

estabelecimento de vínculos e as características necessárias para o desenvolvimento de uma relação de amizade. Além disso, foram citadas as dificuldades encontradas ao estabelecer uma relação de confiança, principalmente em ambientes hostis como no tráfico de drogas e armas.

Os trechos que expressam esse contexto são apresentados a seguir:

“Se eu tiver passando mal na cama, quase morrendo, não tem parceiro não. Eu tava aqui, passando mal. Me levaram no médico, num tinha um remédio. Se minha mãe não vai, um amigo meu: “pô, me dá ai um grau pra eu inteirar o remédio”. Ninguém vai dar não.

Minha mãe tirou do bolso dela pra comprar um remédio pra mim. Depender dos outros tu morre, cara. Amigo, amigo, amigo é minha mãe, pô” (Igor, 16 anos).

“Eu tenho um amigo que mora sozinho, tem filho e a mulher dele. Minha mãe me mandou pra fora de casa, e o menor era meu amigão. Ai o menor falou assim pra mim:

“Qual é, dorme aqui”. Eu dormi lá, tomei banho. O menor me emprestou roupa, comi, mexi no telefone, marquei com o menor. [...] Se eu tiver precisando de um prato de comida, uma roupa. Eu confio no menor” (Kássio, 14 anos).

“Nessa vida de tráfico você não tem amigo. Só minha mãe. Minha mãe é minha amiga” (Flávio, 17 anos).

Inserida de modo isolado no subcorpus Instituições (subcorpus A), temos a classe 1 (f

= 21 ST), “Escola” no qual as palavras mais relacionadas a essa classe foram: escola, olhar, diretor, virar, mudar, mundo, chegar, querer, mulher, sentir, entre outras. O conteúdo dessa classe aborda a importância da escola enquanto espaço de acolhimento e de possibilidades para esses adolescentes. No entanto, também revela aspectos negativos presentes nesse e em outros contextos que fazem parte da rotina do adolescente, como a presença de preconceito e de experiências negativas que contribuem com a alta desistência escolar. Algumas falas dos adolescentes ajudam a compreender de forma ilustrativa o conteúdo da classe e o contexto se seus elementos:

Na minha escola eu não me sinto muito acolhido, pelo simples fato de quando eu cheguei na escola, a diretora virou pra mim e falou que eu estou sendo monitorado na escola.

Monitorado por eu estar cumprindo esse negócio aqui. Então sempre que eu chego na escola, ela fala pra mim: “Não adianta você querer chegar aqui um horário diferente, ou um horário a mais ou então a menos, por que a escola toda está de olho em você”. Desde quando a diretora virou pra mim e falou esse negócio, eu fiquei com raiva dela. Como assim, como é que a escola toda tá de olho em mim? E, realmente, a escola toda tá de olho em mim, que quando eu chego na escola até os alunos de outras salas ficam de olho em mim” (Roberto, 18 anos).

“Eu estudo, porque para mim para ter um futuro melhor tem que estudar. Ainda mais eu que tenho filha, tipo assim, para eu dar um futuro para ela, eu tenho que fazer o meu futuro” (Bruno, 17 anos).

“Ontem mesmo aconteceu uma situação que não me deixa mentir. Eu e ele estávamos na rua, e veio uma mulher com a filhas passando na mesma calçada, quando viu nós dois ela fez questão de virar e atravessar a rua pro outro lado. A minha vontade era de chegar assim apertando, pegar ela pelo braço e falar “não vou te roubar não, oh, filha daquilo, daquilo e daquilo outro”. Ela ficou com medo do que? De preto” (Rodolfo, 18 anos).

Inserida no subcorpus Unidade Socioeducativa (subcorpus C), a classe 5 (f = 27 ST), denominada “Medida de Semiliberdade”, na qual visualiza-se que as palavras mais representativas foram: unidade, semiliberdade, remédio, agente, quadra, tomar, trancar, gente, dia, receita, entre outros. Nesse sentido, esta categoria evidencia características singulares da medida socioeducativa de semiliberdade e como a socioeducação atravessa o cotidiano da instituição. Além disso, são sinalizados aspectos que diferenciam a unidade na qual foi realizada a pesquisa das demais unidades de semiliberdade, conforme relatos presentes nas falas ilustrativas a seguir:

“Quando eu cumpri medida de semiliberdade em (ocultado), os agentes só trancavam a gente para dormir, podíamos ficar o dia todo soltos, fazendo coisas. Nós tínhamos até a chave para fechar o alojamento. Já nessa unidade os agentes trancam a gente o dia inteiro, só liberaram para ir na quadra e nem é todo dia” (Kássio, 14 anos).

“Nessa unidade não tem nenhum médico, nenhum enfermeiro, nenhum nada, para piorar quando a gente traz remédio os agentes ainda mandam deixar lá na frente, para eles darem quando for a hora, mas eles não dão nenhuma hora” (Paulo, 17 anos)

“Essa semiliberdade é diferente as outras, essa unidade parece internação, isso faz com que os agentes achem que podem fazer tudo” (Paulo, 17 anos).

A classe 2 (f = 20 ST), “Agentes Socioeducativos”, também parte do subcorpus C, possui como elementos mais relacionados: semana, final, tirar, perder, prender, agente, causa, conseguir, sexta-feira, entre outros. Essa classe evidenciou relação dos adolescentes com os agentes de socioeducação, sendo que os conteúdos identificados refletem problemas interpessoais e situações de enfrentamento entre os agentes e os adolescentes. Nos trechos das falas transcritos a seguir são exemplificadas tais dificuldades:

“Os agentes usam muita ameaça, fazem terror dizendo que vão tirar o final de semana. Quando eles falam que perdemos o final de semana, nós ficamos nervosos e acabamos fazendo mais coisas erradas, chutamos a chapa, jogamos comida no chão”

(Flávio, 17 anos).

“Os técnicos saem para almoçar e demoram duas, três até quatro horas, quando eles voltam nós já estamos dentro do alojamento e não podemos sair mais” (Igor, 16 anos).

“A gente só tem três dias para ver a família. Aí chega esses funcionários e querem diminuir mais os dias, deixar a gente preso. Invés de isso incentivar nós a ficar aqui tranquilo, para nós sairmos tranquilos, não, eles só querem incentivar a gente a fazer merda mesmo, nos revoltar para gente fazer merda” (Paulo, 17 anos).

“Se alguém aqui descumprir o jeito vai ser voltar para o crime, para o tráfico.

Quando o menor está cumprindo a medida, é porque quer mudar, quer ficar com o nome limpo e ter a oportunidade de mudar de vida, mas os agentes não entendem isso” (Igor, 16 anos).

Figura 3 - Dendograma da Classificação Hierárquica Descendente com as partições e conteúdo do corpus da pesquisa. X² = corresponde ao Qui-quadrado de associação da palavra com a classe; % = refere-se a porcentagem de ocorrência da palavra nos segmentos de texto nessa classe, em relação a sua ocorrência no corpus.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 81-85)