A busca dos artigos foi realizada nos meses de maio de 2017 a outubro de 2018, nas seguintes bases de dados: SciELO, LILACS, Google Scholar, PePSIC e Periódicos Capes. A base PePSIC engloba periódicos pertencentes a Psicologia e ciências afins. As bases SciELO, Google Scholar e LILACS são portais multidisciplinares que contemplam várias áreas de conhecimento. A escolha dessas bases pautou-se pela capacidade de agregarem fontes de dados nacionais com qualidade científica. Foram utilizados os seguintes descritores: (1)
“medida socioeducativa” e “intervenção”; (2) “medida socioeducativa” e “programa”; (3)
“medida socioeducativa” e “treinamento”; (4) “conflito com a lei” e “programa”; (5) “conflito com a lei” e “intervenção”; (6) “conflito com a lei” e “treinamento”.
Os descritores foram inseridos nos campos de busca avançada em “títulos”, “resumos”
e palavras-chave. O operador booleano utilizado foi “E” (“AND”). Foram admitidas na pesquisa publicações de origem nacional (mesmo se publicados na língua espanhola e na língua inglesa). Não foi adotado limite de data devido ao número restrito de artigos encontrados. Foram selecionados como critérios de inclusão: (1) artigos que descreviam intervenções (treinamento ou programa); (2) artigos cuja amostra era de adolescentes. Além disso, removeram-se artigos duplicados nas bases e que não atendiam os critérios de inclusão.
Desse modo, foram excluídos: (1) artigos que envolviam outras populações (crianças ou jovens adultos); (2) estudos de revisão bibliográfica ou de fundamentação para intervenções;
(3) teses, dissertações e apresentações de trabalhos em eventos científicos.
Foram encontradas 10 intervenções implementadas no contexto brasileiro com adolescentes em conflito com a lei de 2005 a 2018. Ao analisar as descrições dos estudos identifica-se uma diferença de treze anos entre o programa de intervenção mais antigo (Padovani & Williams, 2005) e o mais recente (Nascimento et al., 2018). Portanto, tem-se que, anualmente, foi produzido menos de um artigo de intervenção com essa população (Tabela 1). Ainda que a maior parte dos artigos tenha descrito a intervenção de modo detalhado, algumas intervenções não especificaram o sexo dos adolescentes (N=1), a medida
socioeducativa cumprida (N=2), o número de sessões (N=3) ou o conteúdo trabalhado nas mesmas (N=3).
Verifica-se que a medida socioeducativa de internação é a mais representada nos estudos de intervenção (N=4), sendo que apenas um dos artigos trabalha com a semiliberdade (Penso & Sudbrack, 2009). Ainda que existam trabalhos com ambos os sexos (N=3), o número de intervenções restritas aos adolescentes do sexo masculino é maior (N=5) do que aquelas com adolescentes do sexo feminino (N=1). A tendência de trabalhar com a população masculina pode ser explicada pela maior representatividade do sexo masculino no total de adolescentes em conflito com a lei.
A estrutura das intervenções mostrou-se variada. Metade dos trabalhos encontrados realizaram intervenções com mais de cinco sessões, sendo que desses, apenas um trabalhou com os adolescentes individualmente (Padovani & Williams, 2005). Alguns autores optaram por trabalhar com os adolescentes em apenas um único encontro (N=3), sendo que dessas, duas eram sessões individuais. Ainda em relação aos aspectos metodológicos, apenas uma intervenção utilizou medidas de pré-teste e pós-teste que permitiram avaliar a efetividade da intervenção (Padovani & Williams, 2005). No entanto, a intervenção que pôde ser avaliada mostrou resultados positivos, como a redução nos sintomas de depressão (Padovani &
Williams, 2005).
Metade dos trabalhos tinham como objetivo a promoção de aspectos positivos com os participantes (N=6), por exemplo, expressão de sentimentos, estabelecimento de vínculos, construção de metas e projetos futuros, resolução de problemas, promoção do autocontrole (Cabreira & Chaves, 2014; Gomes & Conceição, 2014; Costa, Franco, Santos, & Brito, 2011;
Silva, Oliveira, Piccione, & Lemos, 2008; Padovani & Williams, 2005). Sendo que dessas, duas intervenções utilizaram atividades culturais e esportivas para contribuir com a efetividade da medida socioeducativa, no caso jogos de futebol e oficinas de instrumentos musicais e canto (Costa et al., 2011; Silva et al., 2008). Nessas intervenções as atividades culturais foram entendidas como veículo de diálogo com os adolescentes, desse modo, buscou-se a promoção de cooperação grupal e de competências sociais por meio do esporte e da música.
A revisão identificou uma série de lacunas em relação às intervenções com adolescentes em conflito com a lei. Notou-se a baixa representatividade da medida de semiliberdade nos estudos encontrados. Além de poucos estudos utilizarem medidas de avaliação processuais, de pré e pós-teste e follow-up que seriam, conforme (Gottfredson et al., 2015) importantes para atestar a efetividade da intervenção (Fraser & Galinsky, 2010). Ainda
que o Modelo Bioecológico de Bronfenbrenner apresente-se como uma ferramenta poderosa para a compreensão do desenvolvimento em diferentes contextos, esse foi pouco utilizado nas intervenções com esse público.
Tabela 1 - Estudos Nacionais de Intervenção com Adolescentes em Conflito com a Lei
Título / Autor / Ano Participantes Objetivo Formato Conteúdos
trabalhados Resultados
1. Gênero, sexualidade, masculinidades
e saúde Nascimento, Uziel,
& Hernández, 2018 61
adolescentes do sexo masculino em interação.
Explorar como normas sociais e de gênero afetam a gestão da sexualidade e as
implicações na saúde dos jovens.
Grupos focais, entrevistas, diários de campo e observação dos
participantes.
Efeitos de noções rígidas de gênero e sexualidade no cotidiano da instituição socioeducativa.
Experiências dos jovens.
Os resultados indicam a necessidade urgente de incluir discussões de gênero e sexualidade no treinamento dos agentes
socioeducativos,
2. Promoção de ressocialização
Cabreira &
Chaves, 2014
Sete a 10 adolescentes do sexo feminino em internação.
Promoção de habilidades psicossociais e de saúde sexual.
Quatro meses de atividades (oficinas, dinâmicas e discussões).
Criação de vínculo com as adolescentes;
Expressão de sentimentos;
Cuidado com o corpo; Higiene pessoal;
Relações sexuais;
Interesses profissionais;
Violência doméstica;
Afetividade.
Os participantes relataram novas perspectivas, formulação de planos, mudanças de comportamento e novos interesses.
3. Sentidos da trajetória de
vida Gomes &
Conceição, 2014
21
adolescentes de ambos os sexos em liberdade assistida.
Compreender os sentidos atribuídos pelos adolescentes às trajetórias de vida e ao envolvimento com
infrações.
Sete sociodramas semanais.
Estabelecimento das demandas e criação do personagem;
Produção individual da história do personagem;
Integração e criação de uma história coletiva;
Escrita da história pessoal;
Dramatização do futuro da própria vida e discussão sobre projetos futuros.
Os participantes relataram reflexões sobre a
reconstrução de projetos de vida desvinculados do ato infracional.
4. Música e transformaçã
o Costa,
14
adolescentes do sexo masculino em
Garantia dos direitos humanos e inclusão em um contexto de convívio social saudável, produtivo
Ensaios semanais de duas horas.
Base de teoria musical;
notação
musical; técnica de canto grupal;
Foram percebidas interações mais saudáveis entre adolescentes e
Tabela 1 - Estudos Nacionais de Intervenção com Adolescentes em Conflito com a Lei
Título / Autor / Ano Participantes Objetivo Formato Conteúdos
trabalhados Resultados Franco,
Santos, &
Brito, 2011
internação. e solidário. noções básicas
de teclado;
sessões de filmes; aulas com músicos convidados;
troca de ideias.
funcionários. Os adolescentes relataram expressões de suas
subjetividades, aumento da autopercepção e interesse por delinear
projetos de vida.
5. Circulação da palavra
como possibilidade
de ressignificaçã
o do ato infracional
Rosário, 2010
Cinco adolescentes (não especifica o sexo) em internação.
Analisar o modo de subjetivação do adolescente, concebendo o contexto
institucional que ele se encontra.
Não especificado do artigo.
Os temas abordados eram trazidos pelos adolescentes (mas o conteúdo não está
especificado no artigo).
Os grupos foram tidos como dispositivos eficazes de viabilização da circulação da palavra dos adolescentes.
6. Intervenção psicológica
focal Costa, Carvalho, &
Wentzel, 2009
59
adolescentes de ambos os sexos na delegacia.
Promover reflexões sobre a infração e diminuir
comportamentos ansiosos e depressivos.
Sessão individual única de 30 a 40 minutos.
Reflexão da situação presente;
Características da adolescência;
aspectos familiares;
envolvimento com drogas;
problemática social/violência.
O estudo teve uma boa adesão dos
adolescentes à proposta. Foi identificada uma
minimização de comportamentos relacionados à ansiedade.
7. O filho fora do tempo Penso &
Sudbrac k, 2009
10
adolescentes do sexo masculino em semiliberdade.
Discutir interações entre relações familiares, construção identitária, uso de drogas e prática infracional.
Sessões individuais com o adolescente a família.
Não especificado no artigo
Foram identificados resultados positivos nas interações do jovem e da família.
8. Futebol libertári
o Silva, Oliveira
, Piccione
, &
Lemos, 2008
80
adolescentes de ambos os sexos em liberdade assistida.
Promoção de competências sociais através do futebol.
Não especificado do artigo.
Construção da estrutura e identidade do grupo;
Esclarecimento das regras e funcionamento geral; Reflexão de si e do coletivo;
Sonhos e perspectivas;
Estabelecimento de metas;
Foi percebido nos jovens o
desenvolvimento de competências como autonomia e autoconhecimento, maior participação e assiduidade no cumprimento da medida e maior conscientização dos direitos e deveres.
9. Single session
Um
adolescente do
Identificar os fatores de risco
Sessão individual
Contextualização;
Identificação da
Foi observado um potencial
Tabela 1 - Estudos Nacionais de Intervenção com Adolescentes em Conflito com a Lei
Título / Autor / Ano Participantes Objetivo Formato Conteúdos
trabalhados Resultados work
Costa, Guimarães,
Pessina, &
Sudbrack, 2007
sexo masculino.
e proteção presentes na família e no contexto imediato.
única. família;
Compreensão do sintoma;
Elaboração de uma carta de ressignificação do ato; Discussão do ato pela leitura e entrega da carta para família;
Prescrição de tarefa.
metodológico para obtenção de informações.
10. Proposta de intervençã
o Padovani
&
Williams, 2005
Quatro
adolescentes do sexo masculino em internação provisória.
Promover estratégias de resolução de
problemas.
10 sessões individuais.
Análise do repertório de resolução de problemas;
Lista de alternativas potenciais;
Levantamento e análise das possíveis
consequências; Técnica de controle da raiva;
Treinamento auto instrucional;
Relaxamento;
Identificação de sentimentos; Técnicas de autocontrole;
Prevenção de resposta automática.
Diminuição nos escores de depressão no pós-teste.
Embora tenha sido observado um número restrito de pesquisas de intervenção com adolescentes em conflito com a lei, muitos estudos destacam a necessidade de pesquisas que desenvolvam intervenções com essa população (Cid, Garcia, & Silva, 2014; Maruschi, Estevão, & Bazon, 2014; Nardi et al., 2014; Patias et al., 2013; Zappe & Dell’Aglio, 2016).
Portanto, percebe-se a necessidade de intervir nesses contextos, buscando promover habilidades sociais e de vida, uma vez que, a revisão indicou que tais intervenções possuem resultados positivos por empoderar os indivíduos para enfrentar futuras adversidades, o que contribui para o desenvolvimento saudável dos adolescentes (Catalano et al., 2004).
Antes de elaborar a intervenção, o contexto e as necessidades dos participantes devem ser investigados de modo que esses se sintam ativos no processo. A customização da intervenção a partir das necessidades identificadas em uma avaliação preliminar, contribui para a pertinência dos temas trabalhados, o que aumenta o engajamento e a adesão ao programa (Polejack & Seidl, 2010). Já a avaliação de processo possibilita que mecanismos de mudança sejam identificados, assim como o engajamento dos participantes, ao longo do processo de modo a possibilitar o estabelecimento de indicadores da qualidade da intervenção (Murta, 2015). Por meio destas avaliações é possível alcançar relatos e impressões dos
participantes que não são mensurados por instrumentos que podem servir como indicadores positivos (Saunders, Evans, & Joshi, 2005).
4 JUSTIFICATIVA
Ainda que a adolescência seja uma das fases do curso de vida mais investigada pela Psicologia, adolescentes em determinadas condições e contextos são pouco representados na literatura da área, como é o caso daqueles que cumprem medidas socioeducativas de semiliberdade. Nesse sentido, entende-se que algumas situações de vulnerabilidade social vivenciadas por adolescentes possuem peculiaridades que impedem a generalização de pesquisas com outros grupos da mesma idade. Portanto, destaca-se a importância de investigar as particularidades essa população para intervir em suas necessidades que, em geral, suscitam pouco interesse governamental e político.
A maior parte dos estudos com adolescentes em conflito com a lei corresponde a estudos exploratórios que investigam a presença de fatores de risco e proteção nas trajetórias de desenvolvimento (Cid, Garcia, & Silva, 2014; Maruschi et al., 2014; Nardi et al., 2014;
Patias, et al., 2013; Zappe & Dell’Aglio, 2016). Dessa forma, é restrito o número de pesquisas que realizam intervenções com essa população. A maior parte das intervenções com adolescentes trabalha com uma população escolar, com objetivo de prevenir comportamentos de risco e, em um menor número, promover aspectos positivos do desenvolvimento (Erozkan, 2013; Minto, Pedro, Netto, Bugliani e Goraybe, 2006; Leme et al., 2016; Ramiah &
Hewstone, 2013; Sousa & França, 2017). Nesse sentido, observa-se uma lacuna em relação a outros grupos de adolescentes, que já se encontram engajados em comportamentos infracionais e de risco e que, por esse motivo, possui demandas diferenciadas.
Nesse sentido, a revisão de literatura identificou uma série de lacunas em relação às intervenções com adolescentes em conflito com a lei, como a necessidade de trabalhos com essa população que utilizem avaliações sistemáticas para investigar a efetividade e eficácia de intervenção. Além disso, pesquisas com foco em fatores de proteção foram escassas. A maior parte dos estudos exploratórios eram voltados para o risco ou para aspectos negativos dos adolescentes, por exemplo, em problemas de comportamento, uso de drogas e problemas familiares. Por isso, justifica-se a necessidade de que as intervenções devem atuar nos fatores de proteção e não limitar essa população ao risco, buscando elaborar programas que promovam a ampliação do repertório de habilidades sociais e de vida, das crenças de autoeficácia e da rede de apoio social dos adolescentes.
No que se refere a avaliação das intervenções, pesquisadores têm sinalizado a escassez de programas que incluam a identificação de necessidades, principalmente que encorajem poder de decisão e controle dos participantes (Fraser & Galinsky, 2010). Além disso, medidas
de processos que monitorem a qualidade e o sucesso das intervenções, considerando a comparação entre grupos e indicadores de avaliação de impacto, durante o processo de execução da intervenção (Murta, Santos, Martins, & Oliveira, 2013; Fraser & Galinsky, 2010). Essa necessidade também foi constatada durante na presente pesquisa, na qual identificou-se uma pequena quantidade de pesquisas que utilizaram medidas de avaliação inicial, processual e final para investigar a efetividade das intervenções propostas.
Em relação ao contexto socioeducativo, observou-se que a medida de semiliberdade é muito pouco investigada. Nota-se a necessidade de estudos que supram essa lacuna, uma vez que essa medida busca aproximar os adolescentes da vida comunitária, intensificando a necessidade de ressocialização, o que traz novos desafios para os adolescentes. Em relação ao modelo teórico-metodológico escolhido pelas intervenções, embora a Teoria Bioecológica de Bronfenbrenner seja amplamente utilizada para investigar o desenvolvimento humano em contextos diversos, nota-se que esse modelo teórico ainda é pouco utilizado nas intervenções com esse público.
Os adolescentes em conflito com a lei encontram-se a margem das políticas públicas e são enxergados, pela sociedade em geral, como condenados, permanentemente, à condição de infratores. Ainda que pesquisadores venham tentando mudar essa perspectiva com a concepção de que a situação de conflito com a lei refere-se a uma condição pontual, é necessário oferecer subsídios para que essa realidade seja alcançada (Gallo & Williams, 2005). Frente a essa demanda, considera-se fundamental a realização de intervenções que explorem recursos pessoais e contextuais desses adolescentes, a fim de promover saúde mental e fatores de proteção que possibilitem a ampliação do repertório de habilidades sociais e de vida, permitindo a formulação de estratégias de enfrentamento individual ou coletiva da situação de conflito com a lei.
5 PERGUNTAS DE PESQUISA, OBJETIVOS E HIPÓTESE