Ainda que, atualmente, se busque romper com perspectivas estigmatizadas da adolescência como um todo, tem-se que adolescentes do sexo masculino, negros e pobres são mais associados a violência e estigmatizados do que os demais (Vergne, Vilhena, Zamora, &
Rosa, 2015). Comumente, esses jovens são alvo de tratamentos e atitudes injustas que se configuram como discriminação. Por sua vez, essas ações possuem consequências significativas que afetam negativamente o indivíduo psicologicamente e fisicamente (Major &
Sawyer, 2009).
Nessa direção, a percepção de discriminação tem sido associada a condições adversas no desenvolvimento, como problemas de conduta (Goto, Couto, & Bastos, 2013), queda no desempenho escolar (Bittencourt et al., 2009) e níveis baixos de saúde física e mental, associados à depressão, ansiedade, diminuição da autoestima e autoeficácia (Chui & Cheng, 2013; Freitas et al., 2015; Paradies et al., 2015).
De acordo com Dovidio, Major e Crocker (2000), a discriminação envolve a desvalorização do indivíduo a partir do reconhecimento de uma diferença baseada em alguma característica, por exemplo, a cor da pele ou a orientação sexual. Dessa forma, a definição de discriminação envolve a atribuição de valores a identidades sociais, considerando o indivíduo ou grupo como defeituoso, comprometido ou ainda menos do que um ser humano (Dovidio et al., 2000). Já a percepção de discriminação se refere a classificação de uma ação como injusta pela pessoa que sofre discriminação por esta estar relacionada somente ao pertencimento de um indivíduo a um grupo considerado estigmatizado socialmente ou na incorporação de uma característica, como etnia, gênero, tamanho corporal ou orientação sexual (Major & Sawyer, 2009).
A discriminação é entendida como um processo complexo e multidimensional que ameaça o funcionamento psicossocial da pessoa por estarem associadas a situações de rejeição interpessoal (Freitas et al., 2015; Nardi, Jahn, Dell’Aglio, 2014). A TBDH compreende a necessidade de relações interpessoais baseadas no afeto, na reciprocidade e no equilíbrio de poder para o estabelecimento dos processos proximais que levem a resultados de competência no desenvolvimento (Bronfenbrenner, 2002). Assim, a percepção de discriminação pelos adolescentes em conflito com a lei nas suas relações interpessoais,
afetaria a duração, a frequência, a estabilidade, o timing da interação e a força de contato dos processos proximais, de forma a gerar resultados de disfunção.
O conceito de discriminação se aproxima do de preconceito, uma vez que esse se refere a arranjos culturais e sociais relativos a um grupo social que geram atitudes negativas associadas à discriminação (Domingues et al., 2013). O preconceito corresponde a um conjunto de crenças presentes no macrossistema, mas que se refletem nas relações interpessoais presentes dos microssistemas nos quais a pessoa está inserida, gerando ações de discriminação. Por estar a nível nas interações interpessoais, a discriminação emerge de processos de aprendizagem que influenciam, alimentam e cristalizam crenças e ideias em relação ao indivíduo ou grupos sociais, que constituem os preconceitos (Rodrigues, Gava, Sarriera, & Dell’Aglio, 2014). Assim, esses dois conceitos são interligados e se retroalimentam.
A discriminação e o racismo inserem os indivíduos em um conjunto de vulnerabilidades de difícil superação. Uma meta-análise sintetizou 293 estudos que investigavam o impacto do racismo relatado na saúde dos indivíduos de diferentes faixas etárias. Os resultados mostraram que o racismo estava associado a depressão, ansiedade, estresse psicológico e piores níveis de saúde física (Paradies et al., 2015). Outra meta-análise sistematizou os resultados de 134 publicações, com foco no impacto da discriminação na saúde mental e identificou que, além de prejudicar aspectos socioemocionais, também diminuía significativamente a participação dos participantes em comportamentos saudáveis (Pascoe & Richman, 2009). Nessa direção, Benner e Graham (2013) avaliaram, na cidade de Los Angeles, as consequências da discriminação em adolescentes de diversas etnias, no contexto escolar e no bairro. Os resultados encontrados mostraram que a discriminação foi associada ao menor desempenho acadêmico e a desajustes psicológicos, tais como solidão, ansiedade e depressão.
Uma revisão sistemática realizada por pesquisadores no Brasil, encontrou 34 publicações nacionais e internacionais entre 2000 e 2010, que destacavam relações negativas entre a discriminação e situações adversas de saúde mental, como utilização de substâncias psicoativas e sintomas depressivos em estudos que priorizavam a população adolescente e adulta (Goto et al., 2013). Outro estudo realizado por Bittencourt et al. (2009), identificou o absenteísmo, o uso de tabaco, insatisfação com a imagem corporal, sintomas depressivos e a presença de injúrias como fatores associados a maiores níveis de discriminação, em estudantes com idades entre 12 e 18 anos.
Em relação aos adolescentes em conflito com a lei, situações que envolvem discriminação são agravadas, uma vez que, após a prática infracional, o senso comum não visualize os adolescentes como sujeitos de direitos (Volpi, 2008). Além disso, a discriminação nesse grupo está associada dificuldades de reinserção social, como a incerteza de projetos futuros (Coscioni, Marques, Rosa, & Koller, 2018) e a dificuldades no mercado de trabalho (Chui & Cheng, 2013). Uma pesquisa com objetivo de investigar a percepção de discriminação através de entrevistas qualitativas com 16 adolescentes que haviam saído do sistema penitenciário de Hong Kong, encontrou que os participantes percebiam a discriminação, principalmente de empregadores. Além disso, os adolescentes relataram situações e sentimentos de vergonha e constrangimento que afetariam na autoestima dos participantes (Chui & Cheng, 2013).
A relevância do microssistema escolar para os adolescentes deve-se a sua significância enquanto espaço de sociabilidade durante essa fase. Porém, a prevalência de componentes discriminatórios tem sido observada nas relações estabelecidas nesse contexto (Coelho &
Coelho, 2015). Ao investigar como a condição de abrigamento perpassa as vivências escolares de crianças, um estudo brasileiro identificou, através de entrevistas semiestruturadas, que os funcionários da escola atribuíram comportamentos indesejados das crianças à situação de abrigamento, por meio de discursos estigmatizantes e excludentes que marginalizavam a criança (Buffa, Teixeira, & Rossetti-Ferreira, 2010). Assim, observa-se uma dificuldade da escola em compreender crianças e adolescentes que estão excluídos de contextos normativos, como a família.
Desse modo, a dificuldade de acolhimento dos adolescentes em medida socioeducativa tem sido relacionada a presença de estigmas e resistências na gestão escolar que provocam uma percepção de não pertencimento àquele espaço (Neto, 2018; Zanella, 2010). Esse desamparo pode colaborar para que os adolescentes se aproximem ou permaneçam em contextos e grupos que, por mais que ofereçam risco, reconheçam-no e o façam sentir pertencentes, como o tráfico de drogas e armas (Coscioni et al., 2018). A partir dessa perspectiva, embora a escola deva configurar como espaço de proteção, possuindo recursos capazes de contribuir com a ressocialização de adolescentes em conflito com a lei, pode se constituir como risco por não estar preparado para acolher esse público.
Ao buscar pertencer a grupos que os reconheçam, adolescentes podem se engajar com comportamentos que possam oferecer risco (Jimenez, 2014; Pereira & Sudbrack, 2008). Em jovens do sexo masculino é comum que esses comportamentos sejam de natureza violenta e agressiva, principalmente pela presença dos estereótipos de gênero associados à
masculinidade (Zappe & Dell’Aglio, 2016). A violência e os comportamentos que causam riscos tendem a ser naturalizados por representaram uma afirmação do masculino na nossa sociedade (Jimenez, 2014), como o uso de armas de fogo, que são associadas a sensação de poder por jovens que cometeram homicídios (Patrício, 2012). Assim, a violência e a agressividade se constituem por instrumentos da prática da violência e também por significados simbólicos culturalmente compartilhados de poder.
Ainda que a discriminação esteja relacionada a aspectos negativos no desenvolvimento, a percepção de discriminação pode fornecer aos adolescentes uma perspectiva crítica do seu ambiente social. Assim, identificar situações de discriminação em ações cotidianas é essencial para propiciar mudanças pessoais e sociais. O desenvolvimento de habilidades sociais e de vida, como pensamento crítico, valores de convivência e empatia, favorecem o aumento da percepção de discriminação. Uma vez que permitem que o adolescente se depare com novas perspectivas, seja por meio da análise de comportamentos sociais naturalizados que são discriminatórios, ou ainda possibilitando que o mesmo se coloque no lugar do outro e observe situações de discriminação.
Nesse sentido, uma meta-análise internacional de intervenções para redução do preconceito, encontrou que treinamentos para a promoção de empatia e tomada de perspectiva foram mais efetivos em seus resultados (Beelmann & Heinemann, 2014). No entanto, não basta ser capaz de reconhecer comportamentos discriminatórios, é essencial ser capaz de defender direitos próprios e de outrem. Dessa forma, ao abordar habilidades como autocontrole e assertividade, um programa de habilidades sociais e de vida pode contribuir para tornar os indivíduos mais competentes socialmente para lidar com situações de discriminação (Del Prette & Del Prette, 2017a).