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Lúcia Carvalho Pinto de Melo

No documento São Paulo Ethanol Summit 2007 - UNICA (páginas 39-42)

Precisamos de um olhar mais ambivalente e menos foca- do na questão do futuro energético e a ameaça à produ- ção de alimentos

As políticas públicas, em grande parte dos países, in- dependente do tamanho e da vocação, vão na direção de usar mais biocombustíveis. A presença brasileira no ce- nário de produção é reconhecida no mercado mundial pela sua capacidade e pelos investimentos ao longo de trinta anos.

O Brasil prevalece junto com os Estados Unidos com a maior fração da produção mundial de etanol. Começa a inverter um pouco a posição de liderança com o cresci- mento mais recente da produção americana de etanol.

No panorama da produção de cana no mundo, chama a atenção para a zona tropical, a presença de países de gran- de extensão territorial e de alta demanda por alimento. Os custos de produção em relação ao litro de etanol deixam o

Em função da perspectiva de aumento dos preços e do esgotamento das reservas de petróleo, há um cenário de grande competitividade do etanol em termos de pre- ços e benefícios associados com as mudanças climáticas e a geração de um excedente energético.

Nessa conjuntura, surge um novo mercado. Os países procuram e buscam fontes renováveis, embora com res- trição para que o suprimento seja local.

Matéria recente publicada na revista New Scientist, a partir de um estudo do Worldwatch Institute, traz um levantamento da disponibilidade de terra, quando se considera a produção de biocombustíveis. Enquanto coloca o Brasil em posição confortável, a conclusão é desfavorável para a União Européia, em relação à pos- sibilidade real de terra como da produção de biocom- bustível e alimentos.

Estabelecer o potencial de biocombustível da terra e por região é uma tarefa complexa. Não há um determi-

Sílvia Sagari

When he assumed the presidency of the InterAmerican De- velopment Bank (IDB), Mr. Luis Alberto Moreno identifi ed two priorities for Latin America: the fi rst was income equal- ity and the second, sustainable and clean energy. As it is possible to make progress on both these fronts, biofuels are the basic pillar of our Sustainable Energy and Climate Change Directorship.

Latin America has 15% of the cultivated land in the world and less competence to produce food. Although climate conditions cannot be transferred between the re- gions, labor and land costs on the continent are relatively lower than in other places.

Brazilian studies show creation of 400,000 jobs in pro- grams for production of biodiesel for the Northeast. Today, with ethanol, there are 500,000 direct and three million indirect jobs. Investments projected for Latin America are US$200 billion through 2020. The IDB plans to have maxi- mum possible participation in these investments.

There is a supposed contradiction in the discussion between food and energy agriculture. Much of this con- troversy arose in the USA with the famous tortilla eff ect, where the price of this basic food rose 10% a result of the 40% increase in the price of cereals. But this analysis should include the benefi ts of biofuels for rural commu- nities – 62% of the population of Latin America – where poverty is more accentuated.

If we keep the rural population in its place of origin, with a better quality of life, we avoid rural exodus to the cities.

There are sustainable options for:

Improving the productivity of crops;

Developing crops with a higher energy content, generating sub-products used for production of bio- fuels; and

Using poorer soils for the production of food.

In the last 30 years, Brazil’s ethanol productivity rose from 2,000 liters per hectare to 6,000 liters per hectare. Sug- arcane productivity in Latin America varies from 40 tonnes per hectare to 120 tonnes per hectare. This is an indication that there is still a lot of room to grow.

Latin America and the Caribbean have 8.5% of world population and 40% of humid areas. Less than 20% of their soil is cultivated, and the practice of irrigation does not ex- ceed 20% of its potential.

There are complaints in the debate about food and biofuels. There is the suggestion that it means stopping producing foodstuff s to supply the cars of the rich. In co- operation with Germany, the IDB is working to calculate the impact:

Of an increase in the production of biofuels;

Of the input of resources for the rural population;

Of the replacement of crops in terms of the availability of food; and

Of second- and third-generation technologies around 2015.

There is really a lot of space for biofuel production to continue growing. The problem is not a lack of food, but rather of access to food by the poor.

New global actors are in fact threatening Brazil lead- ership in the production of biofuels. China announced investments of US$187 billion in clean energy through 2020. The United Kingdom allocated US$2 billion to cre- ate a clean energy research center. British Petroleum in-

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SÃO PAULO ETHANOL SUMMIT 2007

expansão e ampliação dos mercados. Há um conjunto de variáveis para serem compreendidas, como:

Crescimento da população;

Expectativa de crescimento econômico;

Ambiente empresarial;

Demanda por alimentos;

Avanços de tecnologia.

Com a percepção sobre o ambiente dos negócios e o grande interesse de poderosos investidores, o cenário da produção de biocombustível é de expansão. É de- terminar no futuro das políticas públicas com certeza para serem integradas e diversifi cadas, de olho em todo o conjunto.

Para o Brasil, há uma janela de oportunidades no biocombustível. Todos os países conseguem aumentos e saltos, catching up, quando atrelados a algumas estraté- gias para aproveitarem-se de situações específi cas. Esse momento é bem adequado porque o Brasil:

Já possui um perfi l energético favorável ao uso e à produção de energias renováveis tanto em termos absolutos como em termos em relação ao mundo;

Conta com indicadores muito positivos em relação à liderança em termos de produtividade, balanço energético, possibilidade de emprego e domínio de algumas áreas de fronteiras do conhecimento;

Dispõe de uma cultura no país diferenciada em relação à mistura do etanol à gasolina. Isso vem desde 1975, estimulado pelo Proálcool, depois pelo Flex Fuel.

A expansão da cana de açúcar é bastante conhecida e se dá com intensidade, principalmente pela oportunida- de econômica. O custo de oportunidade favorece a ex- pansão a curto prazo dessa indústria no Brasil.

Estudos desenvolvidos pelo CGE (Centro de Geofísica de Évora), observam o panorama da questão da produção do biocombustível, especialmente do bioetanol para o Bra- sil. Em termos de cenário, vislumbram e começam a inves- tigar possibilidades reais da expansão da produção e maior presença no mercado internacional do etanol brasileiro.

Estimativas iniciais apontam um potencial de 205 bi- lhões de litros de etanol por ano, na substituição de até 10% da gasolina do mundo. Esse número foi apurado a partir de levantamentos ainda em processo de aprimo- ramento de dados ecológicos e agrícolas para identifi car áreas com potencial alto, médio e inadequadas para cul- tura de cana, evidentemente áreas de preservação. Ficam de fora as áreas de fl oresta, especialmente a Amazônia.

Quando se leva em consideração a extensão de área atualmente usada dentro de critérios agro-ecológicos e na expansão de culturas permanentes, baseados em da- dos do IBGE, chega-se a uma disponibilidade de terra no Brasil para qualquer atividade produtiva de 80 mi- lhões de hectares.

Se houver uma expansão progressiva de cana para atender a produção de açúcar, etanol e o mercado ex- terno, pode-se chegar, utilizando a tecnologia presente ou mais avançada, à necessidade de 40 milhões de hec- tares de terra.

Os números podem variar num intervalo muito mais fl exível. Temos alguns exercícios trabalhados nas hipóte- ses de uso intensivo de tecnologias em todas as etapas de produção, com melhor aproveitamento da biomassa. En- tão, entre 14, 40 e 50 milhões de hectares, há uma gama expressiva de resultados, hoje, dos quais uma grande parte merece aprofundamento e análise mais acurada.

Nessa primeira etapa do estudo, consegue-se identifi - car um conjunto de 17 áreas de potencial para a expan- são dessa atividade no Brasil, com possibilidade de retor- nos sociais. Evidentemente, as externalidades associadas à produção de etanol estão presentes desde a produção, da geração de empregos até o problema da migração ru- ral, do desenvolvimento local etc.

Quando consideramos o problema da disponibilida- de de terra ou outras questões associadas à sustentabili- dade do biocombustível, é preciso ter uma perspectiva muito focada na questão tecnológica. Há de se reconhe- cer o enorme avanço do Brasil nos últimos anos com a evolução da produtividade. Esse cenário de padrão tec- nológico de inovação incremental será diferente nos pró- ximos anos.

Há uma curva de aprendizagem já estabelecida di- ferente de um conjunto de outros setores brasileiros. A agroindústria da cana recebeu o esforço de pesquisa e desenvolvimento, atrelado à área produtiva responsável:

Pelas novas variedades de cana;

Em pensar na expansão em função da capacidade de gerar variedades;

Pela evolução na fase agrícola por uso de meca- nização.

Quando se olha para o futuro, pensa-se em preservar terra e ampliar a produtividade. Como o fator tecnoló- gico é determinante, precisamos analisar como estamos.

A capacidade brasileira em termos de geração do conhe- cimento associada à cana-de-açúcar é de uma posição muito favorável.

Na pesquisa de cana-de-açúcar, o Brasil tem uma produção científi ca indexada. Se essa mesma investiga- ção é feita sob novos parâmetros tecnológicos para dar ao Brasil, de fato, as condições do salto, o contexto muda.

Temos uma pequena presença na tecnologia proprietária e nas áreas de ruptura do conhecimento.

É preciso conhecer a rota tecnológica da cadeia de produção do etanol para entender:

As possibilidades reais da sustentabilidade do bio- combustível;

vested US$500 million to create an institute for research into energy bioscience.

A graph of the increase in production of ethanol shows Brazil’s old leadership position. Recently, the USA appeared, and new global actors entered forcefully into the market. Some came to Brazil to learn and took the technology with them.

The IDB has just fi nished a study on the movement of global markets, including the general and specifi c threats for Brazil. There are 700 pages dealing a plan for green en- ergy in the Americas, with a fi rm, strategic vision for sus- taining Brazilian leadership. It is a big opportunity for the rest of the continent.

The fi rst concern is with technological innovation. Bra- zil did its initial homework. When we look at the amount invested in technology, the picture is very similar to the production graph. Integration and coordination of the Brazilian programs will be very important in the search for competence. We are not dealing with just one, but of making sure we obtain the maximum from each of them.

Brazil’s strategic option is to become the biggest exporter of biofuels and a center of excellence in know-how and technological innovation.

On the fi nancing side, there are interesting measures to be used via the Brazilian Mercantile & Futures Exchange (BM&F) including carbon credits and credit bonds. Infra- structure is a big question given the so-called Brazil cost.

The IDB can make a contribution, together with the eff orts of Brazil and the USA, for the expansion of the world mar- ket. We need technical standardization for bioethanol to gain acceptance as sustainable.

The IDB has a role to play in four areas:

To coordinate public and private sectors;

Capitalization of investments;

To search for opportunities to maximize Brazilian lead- ership; and

Develop the capabilities, resources and regional and intercontinental contacts so that all good projects can be done.

Thank you.

Lúcia Carvalho Pinto de Melo

We need to look in a broader and less focused way on the question of the energy future and the threat to the produc- tion of food

In most countries, independent of size and vocation, public policies go in the direction of using more biofuels.

Brazil’s presence as a producer is recognized in the world market by its capacity and by the investments made over the last 30 years.

Brazil and the United States produce most of world etha- nol. The leadership position has begun to be inverted a little with the recent growth of American ethanol production.

In the world panorama of sugarcane production, what really stands out is the tropical zone – the presence of countries with large territories and high food demand. The low production costs for a liter of ethanol give Brazil in a favorable position.

As a function of the prospect for an increase in petro- leum prices, and with reserves running out, there is a sce- nario for ethanol to be very competitive in terms of prices and the benefi ts associated with climate changes and the generation of an energy excess.

In this scenario, we see a new market emerge. Coun- tries seek renewable sources, albeit with the restriction that they be locally supplied.

A recent article published in the New Scientist maga- zine, based on a study by the Worldwatch Institute, details a survey on the availability of land, with respect to the production of biofuels. Whilst the study shows Brazil in a comfortable position, the conclusion is unfavorable for the European Union, in relation to the real possibility of land and the production of biofuel and food.

Establishing regional potential of biofuel in terms of land is a complex task. There is no absolute determinism in relation to the possibilities of production, expansion and extension of the markets. The set of variables to be covered includes:

Population growth;

Expectations for economic growth;

Business environment;

Demand for food; and Advances in technology.

Given the perception of the business environment and the great interest of powerful investors, the scenario for biofuel production is one of expansion. It is determining the future of public policies that are certain to be integrat- ed and diversifi ed, taking into account all aspects.

For Brazil, there is a window of opportunities in biofuel.

All countries manage increases and jumps, catching up, when they follow a strategy to take advantage of specifi c sit- uations. The moment is right for Brazil because the country:

Already has an energy profi le that is favorable to the use and production of renewable energy both in ab- solute terms and relative to the world;

Has a very positive situation with respect to leadership in terms of productivity, the energy balance, employ- ment possibilities and mastery of some new areas of knowledge; and

Has a diff erent national culture in terms of blending ethanol with gasoline. This dates from 1975, stimulat- ed by Proálcool, and later by Flex Fuel.

The expansion of sugarcane is well known and is pro- ceeding rapidly, principally as an attractive investment opportunity. The cost of the opportunity favors the short term expansion of this sector in Brazil.

Studies developed by CGE (the Évora Geophysics Cen- ter – Centro de Geofísica de Évora) examine the question

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SÃO PAULO ETHANOL SUMMIT 2007

A questão da terra, graças à dimensão, como um dos elementos à expansão;

As condições climáticas oferecidas que o Brasil apresenta.

Não dá para concentrar e pensar num único elemento.

É uma atividade produtiva com várias dimensões e externa- lidades, desde a atividade primária de agricultura, a indus- trial de conversão e o próprio uso. Não é possível implantar uma agenda de grande uso de biocombustíveis sem ter a atenção para o uso fi nal e as suas possibilidades.

Em nossos estudos, levantamos as possibilidades de uso da tecnologia. Com tecnologias convencionais é pos- sível aumentar a produtividade, em litros de etanol por hectare, de 6 mil para 10 mil. Entre as novas tecnolo- gias, a hidrólise aparece como uma das principais, mas há uma gama expressiva de outras associadas à atividade primária. Essa estimativa pode atingir até 14 mil litros por hectare em 2025.

O esforço vai na direção de um novo modelo agrícola e de etanol, para privilegiar a cana de energia, versus a cana parte de energia e de açúcar. Algumas atividades de pesquisa e desenvolvimento identifi cadas como prioritá- rias estão relacionadas à questão da automação, gestão, engenharia genética, produção de energia, hidrólise etc.

Várias pesquisas estão sendo realizadas no Brasil afo- ra na área da genética, visando, por exemplo, obtenção de variedades adaptadas a solos e climas, resistentes a al- gumas doenças, além da criação de unidades descentra- lizadas de multiplicação. Quando se pensa numa expan- são no território brasileiro para atingir, inclusive, 40% da produção na região Nordeste, é preciso haver unidades de suporte tecnológico descentralizadas.

Na agenda mais estratégica da questão do biocom- bustível de bioetanol, a disponibilidade de terra é apenas um elemento. A discussão precisa pensar num docu- mento integrador e potecializador dos pontos fortes do pais; estabelecer uma rede de instituições e de esforços de pesquisas de desenvolvimento orientadas a partir de um centro de excelência de referência mundial.

As tecnologias de fronteira, que dominarão o novo ciclo de produção de etanol, devem estar presentes e em desenvolvimento no Brasil. É preciso articular, de ma- neira consistente, um conjunto expressivo de redes de pesquisa, temática e hidrólise, dentre outras, focadas em problemas específi cos.

A Ridesa, por exemplo, uma rede fi nanciada na maior parte pelo setor privado e, um pouco, com envolvimento de sete universidades, responde por 60% das variedades de cana em uso no Brasil. Enfi m, deve-se integrar laboratórios de pes- quisa, desenvolver projetos cooperativos com universidades e empresas e montar parcerias de fomento entre o setor priva- do os diversos níveis de governo, federal e estadual.

A formação de recursos humanos com foco na ex- pansão poderá se dar na extensão do Brasil dentro de regras e de políticas compatíveis e complementares. A capacitação tecnológica brasileira conta hoje com ins- trumentos reais e objetivos no âmbito da ciência, de tecnologia e inovação.

O Brasil, desde o ano passado, através da lei da inova- ção, fi nancia o fomento direto da atividade de pesquisa e desenvolvimento dentro das empresas. Ainda é recente e pouco utilizado. É possível a:

Migração de talentos entre universidades e centros de pesquisas e empresas;

Fixação de pesquisadores dentro das empresas com recursos a fundo perdido.

Além desses instrumentos, há necessidade de um es- forço integrado com políticas orientadoras, de visão de longo prazo, para propiciarem condições reais de o Brasil se manter como um player importante nesse novo cená- rio internacional.

Obrigada.

No documento São Paulo Ethanol Summit 2007 - UNICA (páginas 39-42)